04 abril 2017

Ribeirinhos de Alagoas navegam até seis horas em busca de água potável

Mar tem avançado sobre as águas do Rio São Francisco em Piaçabuçu.Moradores da região dizem que água que chega às torneiras é salobra.


Carolina Sanches
e Waldson Costa | G1 AL

Morar à beira do Rio São Francisco poderia ser considerado um privilégio por pescadores, mas a estiagem prolongada tem provocado uma mudança na rotina de ribeirinhos do município de Piaçabuçu, a 141 quilômetros da capital, Maceió. Eles navegam até seis horas para levar água potável para casa.


O pescador Jorge Souza mostra garrafas de água doce que armazena para o consumo da família (Foto: Waldson Costa/G1)
O pescador Jorge Souza mostra garrafas de água doce que armazena para o consumo da família (Foto: Waldson Costa/G1)

O problema acontece por causa de um fenômeno conhecido como salinização. A seca fez a hidrelétrica de Sobradinho, na Bahia, reduzir a vazão ao menor nível da história, 700 m³/s. Com menos água no leito do rio, o reflexo é sentido na foz do São Francisco, na divisa de Alagoas e Sergipe, onde o mar avança cada vez mais, tornando salgada a água doce.

O pescador Jorge Souza conta que navega para pontos distantes da foz duas vezes por semana para conseguir água boa para consumo. “A gente acorda aqui 4 horas da manhã para arrumar os vasilhames, são pelo menos três horas para ir e três horas para vir".

O drama dos ribeirinhos é maior porque a Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal) capta água do rio para abastecer o município. Mas ela garante que a água é tratada e analisada antes de seguir para o consumidor com os padrões exigidos pelo Ministério da Saúde.

Para isso, técnicos da Casal captam água apenas na maré baixa e em determinados horários onde a concentração de sal é menor. Contudo, os ribeirinhos ainda se queixam da qualidade.

“A água que temos nas torneiras é tão salgada que não serve nem mesmo para cozinhar ou lavar roupa. Quando precisamos lavar roupa, vamos até alguns canais que estão do outro lado, onde a água é melhor. A água daqui só serve mesmo para limpeza da casa”, diz a dona de casa Maria Eunice.

O problema é grave e virou tema de pesquisa na Universidade Federal de Alagoas (Ufal). O oceanógrafo Paulo Peter analisa os impactos ambientais e sociais da salinização do rio. Ele afirma que já é possível notar no estuário a morte da vegetação típica de água doce, substituição dos peixes de água doce pelos de água salgada e inviabilização da água para o consumo humano.

"Para os padrões técnicos, a água doce pode ter até 1/2 grama de sal por litro. Nas coletas que fizemos próximo ao povoado Potengy, encontramos variações de 6 a 7 gramas de sal por litro, salinidade que deixa o líquido impróprio para o consumo humano", alerta Peter.

Com tanto sal na água, os problemas de saúde vêm aumentando na região. “Minha esposa, meu sogro e minha sogra estão com problemas de pressão alta. Dizem que é por conta deste sal na água do rio e da água que bebíamos. Até minha filha, que é criança, adoece quando bebe”, lamenta o pescador Souza.

A agente de saúde Suely Santos, que trabalha há 17 anos na região, dissse que o número de casos de hipertensão aumentou na comunidade ribeirinha. Para ela, isso acontece porque as pessoas que não tem condições de comprar água potável consomem a água que sai das torneiras.

“O aumento da hipertensão é pela água salgada. No momento que a gente teve um número imenso de seis meses pra cá, foi um número alarmante, que continua crescendo. Inclusive não só idosos, como a gente já está acostumado, mas está atingindo os jovens também”, falou.

Outro pescador do povoado, conhecido como José Anjo, diz que até as plantações morreram. "Muita gente vivia de plantar arroz. Por causa da água salgada, se plantar, não nasce, nem a pulso. Água salgada não dá futuro, não".

Anjo conta que também passou a viajar horas para conseguir pescar. "Só tem peixe de água doce lá para cima, aqui não tem, só tem bagre. Eu vinha comprar camarão, a gente levava 20, 30 sacos de camarão, desses camarões de água doce. Hoje não tem um, acabou".

Vazão do rio pode reduzir ainda mais


O volume de água liberado pela usina hidrelétrica de Sobradinho já superou 2.900 m³/s. Mas com a redução gradativa, os problemas surgiram e ficaram mais graves quando chegou a 700m³/s.

E a situação ainda pode piorar. No dia 22 de março, a Agência Nacional de Águas (ANA) autorizou que a Companhia Hidroelétrica do São Francisco (Chesf) realize testes de redução da vazão do São Francisco. Serão duas etapas, a primeira para 650 m³/s e a segunda, 600 m³/s.

Em entrevista ao G1, o superintendente adjunto de Regulação da ANA, Patrick Thomas, afirmou que a redução é necessária para que o reservatório não esvazie. "Se isso acontecesse, poderia prejudicar totalmente o abastecimento não só em Piaçabuçu, mas em todas as cidades que dependem do reservatório de Sobradinho”.

Ainda segundo a ANA, a situação só deve melhorar quando houver chuvas com mais intensidade e por um longo período na região dos reservatórios.

Pior seca em 73 anos traz fome e faz população dividir água com animais

BA tem 218 dos 417 municípios em situação de emergência por estiagem.Seca afeta 4,1 milhões de pessoas no estado, segundo dados do governo.


Alan Tiago Alves | G1 BA

Da porta de casa, um cenário desolador. O olhar atento de seu Antônio Ferreira do Sá se perde no horizonte em meio a um sentimento de angústia quando se percebe que o verde que dá vida à natureza a seu redor vai aos poucos desaparecendo, sendo devastado pela seca. De um lado, o solo árido não permite que as plantações vinguem; de outro, animais debilitados por fome e sede se reduzem a carcaças expostas aos urubus. É nesse contexto que o homem do campo de 70 anos, hoje um dos mais de 4,1 milhões afetados pela estiagem prolongada que assola a Bahia há cinco anos, tenta tocar a "vida pra lá de difícil", como ele mesmo diz.


Seu Antônio alimenta com mandacaru os animais em Feira de Santana Foto de: Foto: Alan Tiago Alves/G1

O G1 mostra, em uma série de reportagens, uma pequena amostra da realidade vivida na região - e as muitas saídas que a população encontra para conseguir sobreviver.

Morador de um pequeno povoado na zona rural de Feira de Santana, segunda maior cidade do estado (a cerca de 100 quilômetros de Salvador), Antônio precisa de uma pausa longa para puxar na memória se já viveu situação parecida. Mas não se recorda. "Tenho 70 anos e não lembro de seca aqui como essa. Ouvi falar de uma em 1932, quando nem tinha ainda nascido. A daquele tempo, segundo o povo conta, foi pior, porque morreram muito mais bichos e ficava todo mundo quase sem nada. Além disso, naquela época não tinha água da Embasa [Empresa Baiana de Águas e Saneamento] e hoje já tem".

O último período de estiagem "brava" de que o agricultor aposentado ouviu falar coincide com a época em que Graciliano Ramos publicava "Vidas secas" (1938), narrativa que se passa no sertão nordestino, marcado pelas chuvas escassas e irregulares, e conta a história do vaqueiro Fabiano, que, de tempos em tempos, era obrigado a se mudar com a família e a cadela Baleia de regiões castigadas pela seca em busca de sobrevivência.

A Feira de Santana de seu Antônio, apesar do apelido de "Princesa do Sertão" dado pelo também escritor Ruy Barbosa por ser a cidade mais importante do interior do estado, fica localizada no agreste baiano, mas a "miséria" e a "desumanização" de que fala Graciliano para descrever os impactos da estiagem no sertão nordestino à época podem muito bem ser aplicadas à realidade atual de moradores do município.

O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) atesta que, desde que passou a reunir maior volume de dados meteorológicos, a partir de 1960, não houve estiagem como a vivida hoje. Mas a última seca tão prolongada e perversa como a atual, segundo dados oficiais, ocorreu mesmo antes do nascimento de seu Antônio, só que na década de 40. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, crava que o quadro atual, não só na Bahia como em todo o Nordeste, é o pior em 73 anos – o último período crítico, segundo o órgão, durou três anos, entre 1941 e 1944.

Como reflexo da estiagem, conforme a Superintendência de Proteção e Defesa Civil (Sudec), a Bahia está atualmente com 218 dos seus 417 municípios com situação de emergência decretada – 21 deles com racionamento de água. A situação crítica aflige pequenas e grandes cidades, como Feira de Santana, Vitória da Conquista, na região sudoeste, e Juazeiro, na região norte.

Ao contrário dos personagens de "Vidas secas", no entanto, seu Antônio não cogita sair do pedaço de chão em meio ao semiárido onde nasceu e foi criado. Tem esperanças de que, a qualquer momento, uma "chuva boa" caia e mude a realidade. "A última chuva foi em outubro, mas foi pouca coisa. Chuva para trazer água aqui tem que ser de trovoada. Estamos esperando, mas até agora não chegou ainda. Mas daqui para essa semana ela vem. Pelas nuvens você conhece. Tem que vim porque Deus quer que venha. Se não vier, a gente tem que viver de qualquer jeito", diz.

No quintal de seu Antônio, somente um cajueiro e alguns mandacarus, plantas mais resistentes à estiagem prolongada, conseguem se manter vivos. Um pé de pinha também ainda resiste com poucas folhas verdes, mas já murchas, e frutos apodrecidos que não servem sequer aos pássaros. "Eu plantava feijão, milho, mandioca, mas parei tem um bocado de tempo. Tá difícil", afirma.

"Aqui, tenho aquela vaca ali, que é cismada, o bezerro e cinco cabeças de ovelhas. E tem essas galinhas também, mas são de um irmão. Um bezerro que era meu morreu na semana passada. Estava doente. Cerrou a boca e não estava querendo comer nada. Para os que restaram, a gente dá farelo de milho, cevada, mandacaru, pindoba. Tem que comprar ração, mas é caro. Se fosse achado de graça seria bom. Para beber, dou água da Embasa [empresa estadual de abastecimento de água], a mesma que bebo. A fonte que tinha [onde os bichos bebiam] secou essa semana", diz. O idoso também armazena no quintal dezenas de garrafas pet com água para dar aos bichos, caso a encanada pare de chegar. "Tem umas 70 [garrafas]. Nunca se sabe, não é?".

O rastro da seca começa a ser percebido logo quando se sai do centro da cidade e se pega uma estrada de terra que leva até o povoado de Barrocas, no distrito de Maria Quitéria, onde moram Antônio e outras cerca de 200 pessoas. Em toda a zona rural de Feira de Santana, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vivem 64 mil dos cerca de 618 mil habitantes do município. De carro, o trajeto pode ser feito em cerca de 40 minutos. No percurso, é possível observar vegetação e aguadas secas, além de animais mortos.

De longe, também se avista uma poeira branca envolvendo uma carroça, que, diariamente, sobe e desce as ladeiras do povoado. Guiando o cavalo que puxa o veículo está Avelino Barbosa da Silva, de 51 anos. "Carrego palma para dar para as ovelhas, carrego água. Não tenho horário para começar a trabalhar, não. A hora que eu acordo eu estou trabalhando. Acordo umas 3h30 a 4h da madrugada, começo a trabalhar e só paro por volta das 17h", conta.

Vizinho de seu Antônio, Avelino diz que faz inúmeras viagens por dia para tentar ganhar dinheiro, manter os animais vivos e ter o que comer. "Eu pego coisas para os animais comerem. Levo para a minha roça e também faço o trabalho para os outros. Eu vivo disso aqui, do trabalho que eu faço. Mas a seca afeta o dia-a-dia como um todo, principalmente os bichinhos que ficam sofrendo no sol quente e na seca. O que ameniza um pouco é a água da Embasa, que aqui cai cinco dias e passa 15 dias ou um mês sem cair. Da idade que eu estou, eu nunca vi uma seca como a desse ano aqui. Essa foi das piores que teve. Só Deus agora para ajudar", diz, antes de seguir viagem, apressado, debaixo do sol escaldante.

A Embasa informou que estão sendo testadas intervenções para regularizar e ampliar o abastecimento de água fornecida à localidade. Segundo a empresa, uma das medidas a serem adotadas será a duplicação de 16 km de adutora para parte da zona rural da cidade (distritos de Tiquaruçu, Matinha e Maria Quitéria) e para os municípios de Santa Bárbara, Tanquinho e Santanópolis, que, assim, como Feira de Santana, estão com situação de emergência decretada pela estiagem. A obra, conforme a Embasa, está prestes a ser licitada, com investimento de R$ 4,7 milhões.

Poucos passos à frente, seguindo o trajeto pela zona rural de Feira, o também agricultor Ademário de Jesus, 48 anos, dá farelo de milho e água em um tonel a seu cavalo, "Chocolate", na beira de estrada. A alimentação é para que o animal aguente mais um dia. Viaja puxando uma carroça por cerca 1,5 km por dia com o dono em busca de trabalho e água em tanques que ainda resistem à seca.

"Ontem, estava limpando tanque, mas hoje a gente não foi porque trabalho tá difícil. Com uma seca dessa aí, quem tem condição de pagar a gente? Eles [os fazendeiros] dizem que não têm dinheiro. O negócio parou e a gente não acha nada, nem na roça e nem na cidade", afirma, enquanto mostra, entristecido, áreas que seriam de plantio completamente secas.

A maioria dos moradores ali pratica a agricultura de subsistência, que tem como principal objetivo a produção de alimentos para suprir as necessidades das próprias famílias rurais – quando o tempo é bom, muitos ainda ganham dinheiro vendendo a produção para o mercado interno. Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Feira de Santana, José Ferreira Sales, o município possui mais de 20 mil agricultores, que têm na chuva a única esperança por dias melhores. Quando ela não vem, não só a sede como a fome bate à porta.

Nesse ano, não adiantaram sequer os pedidos de chuva dos moradores feitos à São José, santo padroeiro da região que na crença cristã foi o esposo da Virgem Maria e o pai adotivo de Jesus. A tradição de plantar durante o mês de março, em que se comemora o dia do santo, para colher no São João, em junho, é centenária. Por isso, anualmente, os agricultores preparam a terra, compram sementes e aguardam ansiosos a chuva cair desde o final de cada ano.

Com os planos frustrados, um clima de tensão toma conta dos agricultores. De acordo com a Estação Climatológica da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), choveu muito pouco nos dois últimos meses no município: somente 5 milímetros, enquanto eram esperados 50 milímetros. E também não há previsão de chuva forte durante o outono. Desde 2011, a prefeitura publica, seguidamente, decretos de situação de emergência. O último, em vigor atualmente, foi em agosto de 2016.

O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) diz que a redução das chuvas já vem sendo observada desde 2010 na Bahia, mas foi a partir de 2012 que a situação se agravou.

Desde o ano passado, apenas em janeiro de 2016 foram observados volumes de chuvas acima da média. A partir de então, o predomínio foi de precipitações abaixo do esperado em todas as regiões.

No período entre fevereiro de 2016 e janeiro de 2017, as chuvas no Recôncavo baiano ficaram entre 40% e 60% abaixo da média. Já no semiárido, como em algumas localidades do médio São Francisco, o déficit chegou aos 80%.

"A seca afeta muito a vida. Esse ano, até plantei milho, feijão, batata, aipim. Tudo morreu. Com o sol desse jeito, eu estou vendo que só Deus mesmo para mandar um milagre para que a gente possa plantar. Não podemos fazer nada, só esperar", diz Ademário.

A água 'verde'

Não muito longe dali, no povoado de Santa Bárbara, distrito de Bonfim de Feira, vive a lavradora Bernadete Nascimento Nery, 46 anos. Solteira, ela mora numa casa simples com os cinco filhos, de 5, 10, 14, 17 e 20 anos. Durante cerca de seis meses, enquanto o reservatório de água de mais de 10 mil litros que tem no terreiro de casa esteve seco, a família foi obrigada a consumir uma água suja, de cor esverdeada, de um tanque localizado a cerca de 300 metros da residência.


Bernadete passou seis meses tomando água verde antes de chegada do carro-pipa Foto de: Foto: Alan Tiago Alves/G1

Três dias antes de a equipe do G1 visitar a localidade, um carro-pipa tinha passado por lá, depois de cerca de quatro meses sem aparecer, segundo moradores, e abastecido a cisterna de Bernadete, que nunca teve rede de água encanada. Foi, então, que ela suspendeu o consumo da água verde. No entanto, teima em deixar na geladeira uma jarra da água barrenta do tanque por medo de o carro-pipa não voltar.

"Eu passei seis meses tomando essa água. Tem gosto de pé de animal. A gente ia lá [no tanque], pegava, coava num pano de prato, fervia no fogão de gás para matar os micróbios e colocava na geladeira. Dava para beber. Não tinha outro jeito. A gente ia viver como? Com sede era que a gente não podia ficar, não é? E também dava para cozinhar, lavar, dar banho nas crianças. Por não ser uma água tratada, medo eu tinha de beber. Sempre a gente tem diarreia e descobri um pequeno caroço no fígado, um nódulo, mas não sei se foi por causa da água. Agora, graças a Deus, esse carro-pipa passou e amenizou a situação da gente depois de tanto a gente pedir para a prefeitura", destacou. Feliz, ela mostra a diferença da coloração da água suja do tanque que bebia e da "boa" que tinha acabado de chegar.

A presidente da associação comunitária de Santa Bárbara, Geisa da Conceição dos Santos, diz que praticamente todos os moradores da região vivem situação parecida com a de Bernadete. "Quando a seca vem desse jeito, fica péssimo. Muitos que viviam da agricultura, trabalhando nas fazendas, da destoca, da fazeção de cerca, hoje não tem esse tipo de trabalho porque os fazendeiros também não têm como fazer esse tipo de serviço. Sobre o abastecimento, como não chega água em todas as torneiras, fizemos o pedido de alguns carros-pipa para as famílias e já começamos a ser atendidos. Eu espero que continue assim, que não pare somente por aqui", destaca.

A prefeitura de Feira de Santana informou que montou uma força-tarefa para abastecer com água potável áreas da zona rural não cobertas pela rede de abastecimento regular. A administração municipal disse que mantém, com a Defesa Civil, 12 caminhões-pipa em operação e que conta com o apoio do Exército. Diariamente, segundo a prefeitura, os veículos levam entre 30 mil litros a 40 mil litros de água aos moradores. No povoado de Bonfim de Feira, a prefeitura informou que a oferta é ainda maior e que, desde meados de março, os moradores passaram a receber 72 mil litros por dia. A administração municipal disse que a comunidade recebe, diariamente, dois caminhões abastecidos com 18 mil litros de água e que cada um faz duas viagens por dia.

"Essa comunidade possui água encanada em quase toda sua extensão. Mas por algum problema na empresa prestadora de serviço, o abastecimento foi interrompido. Por conta disso saímos de nossa rotina de abastecimento em outros distritos e vamos reforçar nessa região. Temos também o apoio da Defesa Civil nessa situação", afirmou o secretário de Agricultura, Joedilson Machado, por meio de nota. Ele disse, ainda, que o abastecimento obedece a ordem de pedidos que chegarem à secretaria.

A Embasa informou que a distribuição de água para o distrito de Bonfim de Feira acontece, atualmente, de forma alternada com outras localidades da região. A empresa ainda destacou que inaugurou, no dia 17 de março, a obra de ampliação do sistema integrado de Santo Estevão, que abastece Bonfim de Feira e outras localidades de Feira e municípios vizinhos, e espera que o fornecimento passe a ocorrer com maior regularidade.

Com relação à situação de Bernadete e de outros moradores que vivem sem água encanada, a Embasa disse que o serviço de abastecimento que presta é voltado principalmente para centros urbanos que apresentem viabilidade técnica para atendimento com rede distribuidora e que, em localidades rurais com menor viabilidade, o abastecimento fica sob a responsabilidade da prefeitura municipal, por meio de carros-pipa.

Como também não conseguiu manter a rotina de anos anteriores e plantar feijão, mandioca, aipim e batata no quintal de casa, Bernadete faz questão de abrir a porta da geladeira para mostrar que "está sem nada". Mantém em refrigeração, além da água de beber, somente dois ovos, algumas beterrabas, uma lata de óleo, um tomate, metade de um frango que comprou fiado em um supermercado. No dia da visita do G1, o almoço tinha sido arroz com frango.

Por mês, diz ter como única renda R$ 163 do Bolsa Família, programa do governo federal voltado para famílias em situação de pobreza. Nenhum dos filhos trabalha.

Bernadete conta que, como muitos vizinhos, desistiu de criar animais. No quintal, só é possível contar umas poucas galinhas e dois cães de estimação.

"Tinha um porco, mas não estou criando mais. Vendi. Meus vizinhos que criam gado estão dando mandacaru. Ração eles não têm dinheiro para comprar. Vão morrer tudo os bichos. As galinhas não botam mais porque não tem milho para comer. Aonde vai achar? A gente não tem dinheiro para comprar. A água que elas [as galinhas] bebem sou eu que dou dessa que chegou do carro-pipa. Divido minha água com elas. Vou deixar elas morrerem de sede? Não pode".

A filha mais velha, de 20 anos, está prestes a concluir o ensino médio, e Bernadete, que estudou apenas até a sexta série, espera que ela consiga logo um emprego na cidade grande para ajudar nas despesas de casa. Tem esperanças, ainda, que, posteriormente, os demais filhos tomem o mesmo rumo.

A prefeitura de Feira de Santana disse que o decreto de emergência publicado pelo município foi homologado pelo governo do estado no dia 15 de março e que aguarda que a União também faça o reconhecimento. Com isso, segundo a administração municipal, será possível ampliar o acesso ao benefício Garantia Safra, uma espécie de seguro, no valor de R$ 850, voltado a agricultores sujeitos a perda de safra por estiagem ou excesso hídrico.

Os pagamentos do benefício referentes a 2016 aos agricultores inscritos no programa deverão ser efetivados até abril, segundo a prefeitura. A administração também informou que, com o reconhecimento da situação de emergência, será possível realizar compra de milho a preços menores dos estoques do governo federal, realizar empréstimos rurais, além de viabilizar frentes de trabalho e entrega de cestas básicas.

Esperança

O casal de lavradores Maria Silvana Barbosa da Silva e Nestor da Conceição da Silva, ambos com 57 e pais de 11 filhos, a maioria deles agricultores, também espera um "milagre" cair do céu para que as plantações vinguem na terra como em datas passadas. Costumam plantar feijão, milho, abóbora, batata e aipim, para consumo próprio, e também fumo para vender na roça e na cidade grande.

"A gente nunca plantou para não ter nada e esse ano não teve nada. Chuva já no ano passado não teve. Nós plantamos 40 litros de feijão e o que pegou foram os mesmos 40 litros que plantou, sem nenhum litro a mais. E milho não teve nada", lamenta Maria, que é aposentada.

Enquanto ouve os lamentos da esposa, o marido mantém-se otimista do lado. "O sol não deixou ter nada e, agora, estamos comprando o que comer: feijão, farinha, arroz. Mas ela [a chuva] ainda vai vim, não é? A gente espera que ela venha, porque não pode ficar sem chover. Com chuva, já temos um adianto porque já rende mais a comida na mesa. Não é possível que ela não caia. Os pastos estão todos puros, só está a terra e os pedacinhos de mato. Sem a chuva, a gente não presta para nada. Tenho certeza que vai cair a qualquer momento", diz, enquanto ergue a cabeça e aponta os olhos para as poucas nuvens no céu.

Para o céu, ansioso, também olha o agricultor Antônio Nascimento, 60 anos. Sempre alegre, ele é a prova viva de que, se por um lado a seca tem o poder devastar a natureza, por outro não é capaz de destruir a esperança e tirar o sorriso do rosto de muita gente. Debaixo de um grande chapéu de palha, que ameniza um pouco os efeitos do sol, lembra com saudade de dez anos atrás, época dos "tempos bons", em que "tudo vingaVa", quando chegou a colher um aipim de quase dois metros de cumprimento. "Foi a sensação da região", brinca.

"Tinha muita fruta naquele tempo. Já deu aipim, bastante pinha, goiaba. A época estava boa, estava chovendo bastante. Tinha alimento para dentro de casa e também para os bichos, para as galinhas, porcos. Foi quando colhi esse aipim. Tinha um metro e oitenta. Os vizinhos nem acreditavam. Veio até o pessoal da reportagem aqui filmar para colocar na televisão. Botei [o aipim] de molho para fazer puba, porque era grande demais. Não dava para comer, não. Eu cortei, coloquei de molho, fiz a puba e dei para os vizinhos", recorda.

Nascimento observa os pés de laranja ainda vivos no quintal, mas que já não mais dão frutos, e não esconde a preocupação. O homem do campo, no entanto, tem certeza que os tempos áureos retornarão a qualquer momento"no lombo" da tão esperada chuva de trovoada. "Qualquer chuva que dá, eu estou plantando, pra comer em casa mesmo. Mas aí vem o sol e acaba com tudo. A seca afeta muitas coisas: a comidinha, as frutas. Tudo acaba. Vivo da ajuda do pessoal, da minha família. Agora mesmo não tenho nada. Mas apesar da situação, eu não choro, não. Se chorar, é pior. Dou risada e as pessoas falam que tenho natureza boa. Dizem que parece que mamo em onça e tiro leite em veado correndo. Digo que não sei viver triste, não. Tem que sorrir. Quanto mais a gente sorrir, mais Deus nos dá alegria", ensina.



03 abril 2017

MP de Contas quer auditoria para apontar responsáveis pela crise hídrica do DF

Questionado em 2014, então presidente da Adasa negou risco de racionamento. Gasto com publicidade superou ações para evitar seca, dizem procuradores.


Por Gabriel Luiz | G1 DF


O Ministério Público pediu que o Tribunal de Contas do Distrito Federal autorize uma auditoria para identificar órgãos e gestores responsáveis pela maior crise hídrica da capital. Até esta sexta-feira (31), o tribunal ainda analisava o pedido do MP de Contas, que deu entrada em 15 de março. Questionadas, a Agência Reguladora das Águas do DF (Adasa) e a Caesb disseram não terem sido notificadas sobre o processo. 

Barragem do Descoberto (Foto: Gabriel Jabur/Agência Brasília)
Barragem do Descoberto (Foto: Gabriel Jabur/Agência Brasília) 

O G1 teve acesso, com exclusividade, à representação do MP de Contas. O argumento dos procuradores é de que a principal culpada pela crise é a má gestão pública – mais, até, que as condições meteorológicas e o aumento do consumo. Segundo o texto, “a atual situação hídrica do DF parece indicar que o tema não teve a atenção merecida por parte das autoridades locais”.

Auditorias anteriores do Tribunal de Contas – que, já em 2009, alertavam o governo sobre o risco de racionamento – são relembradas. Entre os pontos levantados pelos procuradores está uma declaração do ex-presidente da Adasa, Vinicius Benevides, em 2014. À época, o então chefe da agência descartou qualquer risco de o DF "ficar na seca".

“Há mais de quatro anos, não se verificou falta de abastecimento entre a demanda e a produção de água, ou indisponibilidade de recurso hídrico. As previsões feitas e acompanhadas por nossos especialistas em recursos hídricos e saneamento, bem como por consultores da área têm demonstrado não haver este desbalanceamento”, respondeu Benevides ao ser questionado pelo Tribunal de Contas.

Para o MP, as declarações indicam uma mudança radical de discurso, quando comparadas com o cenário atual do DF. Segundo o órgão, isso mostra que a agência não “promoveu a gestão adequada dos reservatórios”.

“Ou seja, há pouco tempo, no ano de 2014, a Adasa asseverou textualmente, após questionamento objetivo do tribunal, inexistir previsão de desabastecimento em médio e longo prazo, para, três anos depois, apontar que a situação hídrica é gravíssima”, diz o MP de Contas.

Argumentos refutados

No entendimento dos procuradores, o argumento de que o consumo de água aumentou, enquanto as chuvas diminuíram, não justifica a atual crise hídrica. De acordo com o parecer, o consumo por habitante, na verdade, diminuiu – passando de 174,43 litros por dia, em 2011, para 152,04 litros por dia, em 2015.

“Nesse mesmo sentido, [...] a Caesb apontou [em questionamentos anteriores] que o crescimento econômico mais lento, eficácia de campanhas de esclarecimento da população e melhor controle de perdas permitiram postergar a necessidade de ampliação do sistema produtor de água”, diz o parecer.

Por isso, o MP de Contas diz não enxergar relação “direta e inequívoca entre aumento de consumo e diminuição drástica da capacidade dos reservatórios, principalmente com relação ao do sistema Descoberto”.

Quando analisadas as quantidades de chuvas, o órgão afirma que não houve alteração anormal no nível de precipitações. “Em muitas ocasiões dentro do referido lapso temporal inclusive, o índice de chuvas superou em muito a média histórica do período”, afirmam os procuradores.

“Diante dos dados colhidos, o que se alcança é que as chuvas tiveram unicamente uma discreta diminuição, sendo incapaz, isoladamente, de ser a causa exclusiva da atual crise hídrica que assola do DF.”

Com esses argumentos, o MP de Contas afirma que a crise vem principalmente da “falha na gestão dos recursos hídricos, que pode ter se originado, dentre outros fatores, de um planejamento ineficiente, da má gestão dos recursos financeiros disponíveis ou até de ações tecnicamente inadequadas”.

Falhas do GDF


Uma dessas falhas apontadas é o fato de a Adasa conceder outorgas para captação de água, mas sem o governo cobrar nada em troca. Isso mesmo depois de o GDF já ter sido chamado à atenção.

Em 2004, o MP de Contas já alertava: “A não adoção de medidas para implementar a cobrança pela utilização de água subterrânea no DF serve como incentivo para a continuidade do uso indiscriminado, que poderá acarretar, no futuro, problemas de abastecimento”.

Outro erro do governo, na visão dos procuradores, é gastar mais dinheiro com publicidade do que em ações práticas para prevenir a crise hídrica. Desde 2009 até 2016, a Adasa aplicou cerca de R$ 15 milhões em campanhas de publicidade e propaganda – quase um quarto dos R$ 80 milhões que tinha no orçamento, já tirando gastos com custeio e com pessoal.

Do outro lado da moeda, a Adasa gastou apenas R$ 2,8 milhões com “gerenciamento dos serviços públicos de abastecimento de água e esgotamento sanitário”; R$ 3,5 milhões com “fortalecimento e reestruturação do sistema de monitoramento dos recursos hídricos”; R$ 5,4 milhões com implantação de projeto de meio ambiente”, e R$ 6,6 milhões com “implantação de unidade de gerenciamento”.

“Entende o Ministério Público que a quantia gasta em publicidade foi desarrazoada e desconectada da realidade e, talvez, tenha contribuído pelas previsões falhas que a agência fez ao longo dos anos, em que pese ter recebido alta quantidade de recursos, superiores, inclusive, a órgãos como Administração Regional de Taguatinga e Companhia de Desenvolvimento da Habitação do DF (Codhab) [em 2016].”

O critério que a Adasa tem para priorizar o orçamento leva então o MP a entender que “a agência, a despeito de deter as competências necessárias para agir, contribuiu para a atual crise desabastecimento de água”. “Pior, durante diversas ocasiões, assentou que tal possibilidade não existia.”

Nordeste em emergência: histórias de uma seca sem fim

Em 5 anos, quase 80% das cidades da região decretam emergência ou calamidade por seca. G1 conta o que os habitantes de cada um dos nove estados do Nordeste fazem para sobreviver.


Por G1


Gado morrendo. Barragens sem uma gota de água. Rio virando mar. É tanta secura que até os cactos estão sentindo. Para quem passa despercebido pelo interior do Nordeste, o horizonte seco e monocromático pode parecer o mesmo de sempre, mas um segundo olhar revela os açudes vazios, a terra rachada e as carcaças dos animais. 

Comparação de mapa de seca do Nordeste entre janeiro e fevereiro (Foto: Divulgação/Monitor de Secas)
Comparação de mapa de seca do Nordeste entre janeiro e fevereiro (Foto: Divulgação/Monitor de Secas) 

É a seca. Mas não uma seca qualquer. Desde 2012, a região passa por poucas chuvas, perdas de safras e baixa vazão de água nos rios, e está caminhando para o sexto ano seguido de estiagem severa em 2017.

Neste período, quase 80% das cidades do Nordeste decretaram estado de emergência ou de calamidade por seca ou por estiagem pelo menos uma vez, segundo levantamento feito pelo G1 com base em dados do Ministério da Integração Nacional. Em quatro dos nove estados da região, o percentual de cidades com decretos é superior a 90% nestes cinco anos.

No Piauí, com alarmantes 98,2%, apenas quatro cidades não entraram em emergência. Já no Ceará, as precipitações estão tão baixas que a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) crava: é a pior seca da história do estado. "É uma seca agrícola, uma seca hidrológica. A água que entra nos reservatórios não é suficiente para repor as necessidades das pessoas", afirma Eduardo Martins, presidente da fundação.

O Monitor de Secas, um programa que acompanha as condições de seca no Nordeste com o apoio de instituições como a própria Funceme, mostra que, em fevereiro de 2017, as chuvas conseguiram abrandar a gravidade da situação em relação a meses anteriores, principalmente em estados mais ao norte, como o Maranhão. Mas o mapa segue majoritariamente vermelho intenso, indicando a existência de seca extrema e excepcional em grande parte do Nordeste.

Um fraco La Niña no final do ano passado trouxe a expectativa de chuva em 2017, mas, segundo o professor Humberto A. Barbosa, coordenador do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lapis) da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), a temperatura da superfície do Pacífico equatorial encontra-se em elevação desde janeiro, o que pode indicar novos períodos de seca pela frente.

“Essa característica oceânica indica possibilidade de ocorrência de El Niño, fenômeno diretamente ligado às secas no Nordeste brasileiro. Embora as projeções não sejam consensuais, as tendências indicam que, no período de abril a junho, o El Niño possivelmente influenciará no clima do Nordeste brasileiro, ocasionando mais secas”, afirma.

E, segundo Eduardo Martins, se as condições meteorológicas desfavoráveis continuarem, as preocupações dos especialistas já se deslocarão para a fase chuvosa de 2018.

"É um problema contínuo. Tem que ter uma visão de médio e longo prazo. Não tem que pensar só no atendimento naquele momento. A gente pode ser surpreendido", afirma. "Precisamos pensar em um programa de eficiência ligado à água, para ter transferências entre reservatórios, para diminuir os percentuais de perda. Também é preciso trabalhar mais com culturas de ciclo curto, que não são tão vulneráveis ao clima. Além disso, há uma ausência de esforço de comunicação com a população para diminuir o desperdício. Na região litorânea, com grandes cidades, as pessoas não percebem a gravidade da situação."

Mas o que os números e os estudiosos não mostram, apenas indicam, é o sofrimento do povo do semiárido nordestino, que enfrenta com força, resiliência e, muitas vezes, com desespero, as consequências da seca.

O G1 mostra, em uma série de reportagens, uma pequena amostra da realidade vivida por esse povo - e as muitas saídas que encontra para conseguir sobreviver. Confira as histórias, contadas em cada um dos nove estados do Nordeste brasileiro.

Alagoas

Morar à beira do Rio São Francisco poderia ser considerado um privilégio por pescadores, mas um fenômeno conhecido como salinização tem provocado uma mudança na rotina de ribeirinhos de Piaçabuçu, em Alagoas. A seca fez a hidrelétrica de Sobradinho, na Bahia, reduzir a vazão ao menor nível da história. Com menos água no leito do rio, o reflexo é sentido na foz do São Francisco, onde o mar avança cada vez mais, tornando salgada a água doce. Por conta disso, os ribeirinhos navegam até seis horas para levar água potável para casa.

Bahia

De um lado, o solo árido não permite que as plantações vinguem; de outro, animais debilitados por fome e sede se reduzem a carcaças. É nesse cenário que seu Antônio, de 70 anos, cuida do único cajueiro que sobreviveu à estiagem e dos mandacarus, que servem de alimento para seus animais. Não muito longe dali, Bernadete, de 46 anos, também é um dos mais de 4,1 milhões afetados pela seca no estado. Para conseguir manter os cinco filhos vivos, usou a água suja e esverdeada de um tanque durante meses. "Tem gosto de pé de animal", diz.

Ainda no interior da Bahia, a estiagem transformou o polo mundial de sisal em um "cemitério verde" e acabou com o sustento de muita gente. É o caso de Zé Maria, que há décadas vive da sua roça. É com nostalgia, porém, que, agora, percorre o solo ressecado pela falta de chuva. "Quando entra a seca, acaba tudo."

LEIA A REPORTAGEM SOBRE A VIDA NO INTERIOR DA BAHIA

LEIA A REPORTAGEM SOBRE O COLAPSO DO SISAL
Ceará

Além de perder as plantações e sofrer com a falta de água, a população do Ceará ainda enfrenta outro problema: golpes que desviam serviços, benefícios e verbas que iriam para os flagelados pela pior seca do estado em 100 anos. Depois de penar com a família para conseguir poupar, Francisco de Assis de Freitas, de 55 anos, entregou R$ 100 para um homem que dizia ser do governo e que faria um seguro de safra. Depois de entregue o dinheiro, porém, o homem sumiu. Já Maria Fernandes da Silva entregou R$ 30 para um suposto agente do Bolsa Família que prometia aumentar o benefício. "Ele enganou mais de 15 pessoas com esse cadastro", lamenta.

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Maranhão

Depois de ter seca considerada extrema em mais da metade do seu território, o Maranhão encontrou alívio com as chuvas dos primeiros meses de 2017. Por ter parte do seu bioma na região amazônica e precipitações mais generosas, o Maranhão foi o estado com menos cidades com decreto de calamidade ou emergência por causa da seca que atinge o Nordeste nos últimos cinco anos.

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Paraíba

Além da seca, que já vem afligindo os paraibanos há cinco anos, outro problema ameaça o solo e a vegetação do estado. Só que, desta vez, o processo é irreversível. A Paraíba é o estado brasileiro mais afetado, proporcionalmente, pela desertificação - processo de degradação ambiental que torna as terras inférteis e improdutivas. Isso faz com que a população ocupe novos territórios em busca de sobrevivência. Pesquisadores apontaram que, desde 2010, a seca tem contribuído para a expansão das áreas susceptíveis à desertificação.

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Pernambuco

O pernambucano Roberval Germano, de 39 anos, só tem um desejo: a chegada da chuva. Vivendo da cana durante toda sua vida, ele reza para que a seca que castiga os canaviais da região da Zona da Mata não seja capaz de cessar a sua única fonte de renda. A situação é a mesma no Agreste do estado, onde o agricultor Luiz Carlos Silva, que sempre sustentou a família com plantações de milho e feijão, não sabe mais o que fazer. "Não tem água. Não tenho onde plantar", diz, lamentando o solo seco e rachado que predomina na barragem de Jucazinho há meses.

O casal Manoel e Maria Gercília apenas não compartilha as angústias de Roberval e Luiz Carlos por causa da instalação de um sistema, o bioágua, que reaproveita a água usada no chuveiro e na pia da cozinha para irrigar suas plantas. Em meio à secura, eles produzem acerola, goiaba, banana, pinha e romã.

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LEIA A REPORTAGEM COMPLETA SOBRE A BARRAGEM DE JUCAZINHO

LEIA A REPORTAGEM SOBRE O SISTEMA DE BIOÁGUA

Piauí

Com reservatórios secos, a população de Pio IX sofre as consequências da estiagem. Na zona rural, o abastecimento das cisternas é feito por caminhões-pipa, que demoram dois meses para retornar a uma localidade. Por isso, os moradores pagam R$ 1 por um balde de água e até R$ 130 por uma carrada (cerca de 8 mil litros) para conseguir sobreviver. Enquantos uns sofrem, porém, outros sertanejos lucram com poços particulares. As vendas estão tão favoráveis que o empresário Aldemar Arrais pretende abrir um clube com piscinas. "Nem vejo lucro, mas uma opção de lazer para a população de Pio IX, que sofre tanto com a falta de água", diz.

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Rio Grande do Norte

Pela primeira vez na história, Natal passa por um racionamento de água. O rodízio atinge cerca de 70% dos 350 mil habitantes da Zona Norte da cidade, a região mais populosa da capital. “Nunca vivemos uma coisa dessas, a gente não tem água”, diz dona Francisca Ferreira, de 65 anos. Moradora de uma casa simples, ela depende de uma vizinha que tem um poço e revende água. O racionamento a obriga a escolher o dia que lavará roupa, o dia que tomará banho e o dia que terá água potável para beber.

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Sergipe

No Baixo São Francisco, a seca mexe com a rotina dos ribeirinhos, que pouco a pouco acompanham o desaparecimento de importantes reservas hídricas. Se a natureza dá sinais de cansaço, a fé entra como último recurso para amenizar o sofrimento. O jovem Haleph Ferreira resolveu fazer uma oração às margens da Lagoa Salomé, pedindo a intercessão de Nossa Senhora Aparecida para mudar o cenário da seca. Com a água baixando, os peixes estão morrendo.

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