21 novembro 2015

Samarco não tinha plano de resgate e reação foi lenta, critica governador do ES

Paulo Hartung (PMDB) disse acreditar na recuperação do rio Doce e já pensa em usá-lo para, quando recuperado, abastecer a região metropolitana de Vitória


Eduardo Gonçalves | Veja

Quando a barragem da Samarco se rompeu no dia 5 de novembro e o "mar de lama" alcançou o rio Gualaxo do Norte, em Mariana (MG), o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung (PMDB), logo se deu conta de que o incidente não se limitaria às terras mineiras. O Gualaxo do Norte é um afluente do rio Carmo que, por sua vez, desemboca no rio Doce, que margeia nada menos do que 26 municípios capixabas, entre eles Baixo Guandu, Colatina e Linhares. O fluxo de lama, que não é tóxico, mas turva a água com o excesso de sedimentos, cruzou a fronteira do Estado nesta semana. Por onde passou, trouxe morte e destruição ao ecossistema local e enormes prejuízos às populações que dependiam do rio.

 

Em entrevista ao site de VEJA, o governador fez críticas à "reação lenta" da Samarco nos dias seguintes ao desastre e às multas preliminares anunciadas até este momento. "Qualquer coisa que se faça agora é precipitado. Ficar aplicando multa é um problema, porque ela cai na estrutura fiscal dos entes federados". O temor do governador é que o dinheiro pago pela Samarco seja usado para aliviar os cofres do Estado em crise econômica em vez de cobrir os estragos ambientais e sociais decorrentes da catástrofe. Por fim, ele afirmou que o processo de despoluição do rio Doce pode se tornar um exemplo de que é possível recuperar outras bacias do país. "O Doce recuperado pode ser usado para abastecer a região metropolitana de Vitória por causa da crise hídrica", diz Hartung. Confira trechos da entrevista.

A Samarco está cumprindo tudo o que diz fazer? 

A captação de água em poços e outros rios, o fornecimento de carros pipas e garantia de abastecimento, é tudo a empresa que está fazendo. Nós só estamos mostrando o que precisa ser feito. Agora nos primeiros dias a empresa ficou tonta, parecia que estava batendo cabeça. Mas no final de semana passado em diante começou a agir.

Como assim 'ficou tonta'? 

Ficou claro que eles não tinham um plano para enfrentar um desastre dessa magnitude. A reação foi lenta, a comunicação foi zero e muito contraditória. Não estou dizendo que esteja bom, mas agora melhorou, já estão conseguindo dar respostas. E esperamos que eles deem as respostas condizentes com o desastre. Eles tiveram dificuldades no início, tanto que nós o notificamos e, como não vimos reação, entramos na Justiça para forçá-los a cumprir as suas obrigações.

O sr. se reuniu ao longo desta semana com o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, e a presidente Dilma. Como o sr. avalia a atuação da presidente no caso? 
O que foi discutido nesses encontros?

A reunião foi positiva no sentido de forçar a empresa a dar respostas, a fazê-la se mover. Eu fui com a presidente para Mariana e Colatina. Fizemos o check list daquilo que era emergencial e depois começamos a discutir o que eu chamo de estrutural - a recuperação de Mariana e da Bacia do Rio Doce. Em relação ao Pimentel, estamos nos reunindo para afinar as ações. Mas este é apenas o início da discussão. Ainda há uma longa caminhada pela frente. Estamos cuidando de uma lama que está passando dentro do nosso território.

O governo de Minas e o Ibama já anunciaram multas preliminares. Quanto vocês pretendem cobrar da Samarco? 

A nossa proposta não é aplicar multa em cima disso ou daquilo. É buscar um ressarcimento para o dano. Estamos calculando. Qualquer coisa que se faça agora é muito precipitado. Qualquer ação nesse sentido - e eu respeito as que foram feitas até agora - tem um pouco de precipitação. Ainda é preciso dimensionar as consequências desse desastre para buscar o ressarcimento. A Samarco tem responsabilidade objetiva no caso e tem dois sócios robustos. A BHP e a Vale são as maiores mineradoras do mundo. Agora, isso está sendo estudado. Não dá para falar em valores. Teve uma reunião nesta semana em Brasília entre a procuradoria de Minas e do Espírito Santo e a Advocacia Geral da União (AGU) justamente para discutir isso.

Quanto tempo vai demorar para recuperar o rio? 

Pelo que estou ouvindo dos especialistas, essa recuperação vai levar de 15 a 20 anos. Queremos transformar essa recuperação do rio Doce em um caso de sucesso. Todas as bacias brasileiras hoje estão muito mal tratadas. Olha como estão as bacias do Paraíba e do São Francisco, só para citar dois casos. A própria ocupação do Vale do Rio Doce foi marcada por muita devastação.

O que precisa ser feito? 

Temos também uma preocupação estrutural. Como vamos colocar de pé um plano de recuperação do rio? É claro que a empresa vai ter que ressarcir este ano, mas como é que vamos transformar esse dinheiro numa ação efetiva. Como vamos impedir que esse ressarcimento seja pulverizado em ações menores. Como faremos para não criar um 'varejão desse trem'. É preciso três coisas: criar um plano bem estruturado, um fundo único e fazer a gestão desse fundo. Agora, ficar aplicando multa é um problema. Porque multa acaba caindo na estrutura fiscal dos entes federados. E o Brasil está passando por uma crise fiscal dolorosa, com uma desoneração fiscal bruta da União. Há duas formas de desaparecer com esse dinheiro, uma é botar no caixa único e a outra é pulverizar em cima de um conjunto de atendimentos pontuais.

O que o Brasil tira de lição dessa tragédia? 

Se nós conseguirmos tirar dessa tragédia uma ação positiva é a de recuperação do Rio Doce. A tragédia é horrorosa, a destruição é de tirar o fôlego de todo o mundo que vê a cena. Mas podemos criar um caso de sucesso para pensar a gestão dos recursos hídricos no Brasil. Olha a situação de São Paulo. Falta água no Estado, mesmo com os maiores reservatórios do país. Motivo: foram construídas casas, ruas, estradas onde se produzia água.

O que precisa mudar no setor de mineração? 

O que aconteceu com essa barragem foi de duas, uma: ou a norma não foi cumprida ou a norma é insuficiente. Se ela foi insuficiente precisa rever a norma, até porque existem muitas barragens no Brasil. Temos um dever de casa a ser trabalhado. Eu acho que o desastre mudará em todos os sentidos a tramitação do código mineral no Congresso Nacional.

Quando o governo do ES ficou sabendo que as águas iriam chegar ao Estado? O que foi feito? 

O desastre aconteceu na quinta-feira. Desde sexta, nós já estamos trabalhando. Nós não sabíamos a velocidade da 'onda de lama', como ela iria se deslocar dentro da calha do Rio Doce. Há quatro barragens no meio do caminho. Então, ninguém sabia dimensionar a sua velocidade. Mas nós começamos a nos preparar desde o dia seguinte, montando um escritório de gestão de crise, com governo, defesa civil, secretaria do meio ambiente e autoridades municipais.

Pode dizer o que foi ralizado na prática? 

No domingo, percorremos toda margem do Rio Doce, com a equipe e o helicóptero avisando a população ribeirinha do que estava acontecendo. Há uma população volumosa que vive ali, em ilhas e nas margens do rio. Em Baixo Guandu (de aproximadamente 30.000 habitantes, tiramos a captação do Rio Doce para o seu afluente, o Guandu. Em Colatina (de 120.000 habitantes), não havia nenhum rio com capacidade para captação. Montamos, então, um sistema com carros pipa e caixas d'água e passamos a furar poços. Cerca de 150 homens do exército cuidaram do esquema.

Mas em Governador Valadares, o abastecimento já foi retomado. Lá já voltou porque eles usaram um produto que pega o sedimento e decanta com mais rapidez do que usamos normalmente nas empresas de saneamento. É um produto importado, mais caro, e foi disponibilizado pela Samarco para o Espírito Santo nesta semana.

E quais foram os impactos ambientais? 

A foz do Rio Doce é uma área muita rica em biodiversidade. O projeto Tamar, por exemplo, tem um importantíssimo trabalho no local. Desde o começo, eles fizeram uma operação para tirar os ovos de tartaruga dali. Também solicitei que mandassem técnicos qualificados do Ibama com dois objetivos: amortecer esse impacto e monitorar a chegada da lama. Também pedi o apoio da Marinha, com cientistas e pesquisadores que trabalham com a vida marinha. O rio é fundamental para Minas e o Espírito Santo. O Doce recuperado pode ajudar a abastecer a Região Metropolitana de Vitória. Com a crise hídrica, estou procurando novas fontes para fazer a captação.

E quando a lama alcançar o mar... Isso deve ocorrer na próxima semana. Os técnicos já fizeram uma simulação do que essa onda pode produzir no ambiente marítimo.

Quais são as maiores preocupações neste momento? 

A primeira preocupação é a emergencial, da passagem da lama, de destruição da fauna e da flora. É evidente: a lama vai andando e matando a vida no rio. Ainda há o abastecimento humano, das comunidades que são banhadas pelo Doce. Você tem uma atividade pequena no entorno, em termos de volume econômico, mas é uma atividade de sobrevivência dos pescadores, que estão em todo o eixo do rio.


Buraco na camada de ozônio na Antártida volta a crescer

Neste sábado, a Agência Meteorológica do Japão (JMA) divulgou que o buraco registrou o quarto maior nível da história, que já havia sido alcançado em 1998


Veja

O buraco da camada de ozônio na Antártida alcançou o dobro do tamanho do continente, repetindo o seu quarto maior nível na história, de acordo com a Agência Meteorológica do Japão (JMA). Segundo a JMA, o buraco, que aparece todos os anos entre agosto e dezembro devido ao efeito dos clorofluorocarbonos (CFC) e de outros gases nocivos, chegou a 27,8 milhões de metros quadrados em 9 de outubro. Os dados, obtidos por satélites americanos, mostram que o buraco deste ano tem o mesmo tamanho do registrado em 1998. As medições tiveram início em 1979.

Ozônio

Para a JMA, o buraco voltou a crescer por causa das baixas temperaturas na estratosfera sobre a Antártida, que agravaram a diminuição da camada de ozônio.

Um estudo elaborado no ano passado por 300 cientistas, e aprovado pela Organização Mundial da Meteorologia (OMM) e pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), concluiu que a destruição da camada de ozônio está diminuindo e que este escudo natural da Terra, capaz de bloquear os raios ultravioleta, pode se recuperar em meados de século. Isto seria possível se as restrições aos produtos que a destroem, como os que contêm clorofluorocarbonos, continuarem a ser aplicadas.

O japonês Atsuya Kinoshita, do escritório de acompanhamento da camada de ozônio da agência japonesa, advertiu que, apesar da presença de gases nocivos estar diminuindo, as mudanças de temperatura permitem que se estendam amplamente, danificando a camada de ozônio, publicou a emissora pública "NHK".

(Com agência EFE)


18 novembro 2015

Samarco reconhece chance de rompimento de outras barragens

EFE

Rio de Janeiro - A mineradora Samarco, que pertence à Vale e à anglo-australiana BHP, admitiu nesta terça-feira que há risco de rompimento de outras duas barragens de resíduos próximas à Mariana, em Minas Gerais, o que seria uma repetição do acidente que causou a morte de pelo menos 11 pessoas no último dia 5.


Barragens que se romperam pertencem à mineradora Samarco
Barragens que se romperam da Samarco: diretor de operações e infraestrutura da Samarco reconheceu a possibilidade de ruptura das barragens de Santarém e Germano | Foto: Corpo de Bombeiros/MG - Divulgação

O diretor de operações e infraestrutura da Samarco, Kléber Terra, reconheceu a possibilidade de ruptura das barragens de Santarém e Germano durante uma entrevista coletiva em Mariana.

Segundo o diretor, Santarém tem um índice de estabilidade de 1,37 em uma escala que vai de 0 a 2. Já o dique Selinha, uma das estruturas da barragem de Germano, tem um índice de 1,22, o que indica uma maior probabilidade de rompimento.

A Samarco tinha explicado anteriormente que o fator de 1,00 marca o limite de segurança para esse tipo de barragem. A companhia está realizando trabalhos para reforçar as barreiras, que devem se estender pelos próximos 90 dias.

No último dia 5, a ruptura dos diques de contenção de resíduos minerais em uma mina de Bento Rodrigues, distrito de Mariana, provocaram uma mar de 62 milhões de metros cúbicos de lama.

A enchente, a mais grave ocorrida no mundo em pelo menos uma década, destruiu completamente Bento Rodrigues, inundou seis comunidades próximas e uma enorme extensão de terra, além de afetou seriamente o Rio Doce, um dos mais importantes da região.

Segundo o último balanço oficial, o rompimento causou pelo menos 11 mortos. Quatro vítimas ainda não foram identificadas, enquanto as equipes de resgate seguem procurando por 12 desaparecidos.

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, classificou o incidente de "catástrofe ambiental" que "teve impactos extremamente graves" na fauna da região.



Ministério Público Federal vê ameaça em Paracatu após tragédia em Mariana

A comunidade de Paracatu, Noroeste de Minas, assim como a de Mariana, guarda características de patrimônio histórico e turístico e possui a mineração como vocação desde os tempos do garimpo


Mariana Laboissière | Correio Braziliense

A tragédia que atingiu Mariana, na Região Central do estado, fez acender um alerta em Paracatu, no Noroeste de Minas, distante aproximadamente 200km de Brasília. Rodeada por reservatórios similares, com materiais tóxicos, a cidade no Noroeste do estado abriga a maior extratora de ouro a céu aberto do país, localizada em perímetro urbano – uma das únicas no mundo com essas características. Diante da catástrofe de 5 de novembro, o Ministério Público Federal (MPF) decidiu abrir inquérito civil público para apurar a situação das estruturas que pertencem à Kinross Gold Corporation, multinacional canadense que explora a área. A comunidade de Paracatu, assim como a de Mariana, guarda características de patrimônio histórico e turístico e possui a mineração como vocação desde os tempos do garimpo.

Minervino Junior/CB/D.A Press - 11/3/15
Lagoa de resíduos de mineração da exploração da multinacional canadense Kinross Gold Corporation (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press - 11/3/15)

Na última semana, o assunto chegou à Câmara de Vereadores da cidade, quando parlamentares usaram a tribuna para alertar os moradores sobre os riscos na vizinhança. O vereador João Macedo (DEM) disse, com base em imagens de satélites, que uma das barragens no perímetro seria entre 20 e 30 vezes maior do que as de Mariana. Na ocasião, Macedo rasgou um comunicado emitido pela empresa dizendo que as atividades na área são seguras. Em entrevista ao Correio, por telefone, o político confirmou o fato e adiantou que ingressará com uma ação civil pública no intuito de pedir esclarecimentos à empresa. “O clima em Paracatu, principalmente entre os moradores da Lagoa, região localizada ao lado da mineradora, é de medo”, disse.

Em busca de mais informações, outro vereador da cidade, Glewton Guimarães (Pros), quer a realização de audiência pública com representantes da sociedade civil e da empresa. A ideia é que a Kinross informe sobre o estado de conservação e manutenção das barragens, enquadradas pela Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) como de alto potencial de dano ambiental. Assim como elas, mais de 150 barragens de mineração em Minas Gerais recebem a mesma classificação. Desse total, 8,2% não têm estabilidade garantida ou não têm parecer concluído pelo auditor. Esse, contudo, não é o caso das construções da Kinross, que possuem, de acordo com o inventário de barragens 2014, produzido pelo órgão, estabilidade garantida.

Especialistas ouvidos pelo Correio informaram que, caso os reservatórios em Paracatu se rompam, regiões próximas à cidade, em altitudes inferiores, poderão ser atingidas, o que não é o caso do Distrito Federal. Mesmo assim, o DF sofreria os impactos da devastação, com a infiltração dos materiais tóxicos no solo. Os estragos nas proximidades de Paracatu poderiam ser maiores que os observados em Mariana, já que os resíduos de retirada do ouro seriam mais prejudiciais.

Precauções

Após receber informações de que as barragens no estado estavam em situação delicada, o promotor de Justiça Felipe Faria de Oliveira, do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), afirmou que também vai solicitar dos órgãos competentes dados acerca das estruturas. “Assim, poderemos priorizar uma atuação direcionada às situações mais emergenciais”, afirmou o promotor.

O nível da água nas barragens é apenas um dos aspectos que devem ser observados durante a manutenção e fiscalização das estruturas. Segundo o coordenador do Centro de Pesquisas Hidráulicos e Recursos Hídricos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Carlos Barreira Martinez, a saída de água no pé das construções também pode causar problemas. “Catástrofes como a de Mariana não são acidentes. Qualquer obra de engenharia implica em risco. O que temos de fazer é diminuir esse risco, acompanhando as estruturas.”, concluiu.

O engenheiro Dickran Berberian, professor da Universidade de Brasília (UnB), sustenta que as barragens brasileiras estão entre as melhores do mundo. “Temos os melhores consultores técnicos nessa área. Essas estruturas praticamente não se rompem por aqui. Mesmo assim, é necessário fiscalização, tanto da parte de concreto, como da de solo.”

Procedimentos de segurança

A empresa Kinross divulgou nota sobre a situação de segurança das barragens em Paracatu, em que garante implementar “procedimentos rigorosos de manutenção, monitoramento e resposta a emergências, incluindo inspeções diárias e acompanhamento mensal por instrumentos e análise de dados.”

“A Kinross afirma que tem a segurança das comunidades locais, dos funcionários e do meio ambiente como prioridades em suas operações”, afirma a nota.

De acordo com o documento, a Kinross é “periodicamente inspecionada por engenheiros especializados e credenciados que projetaram as barragens, por representantes da comunidade, órgãos reguladores estaduais e federais e auditores internos e externos.” Além disso, peritos independentes também inspecionam as estruturas a cada três anos, segundo informações da empresa. “Controles e monitoramentos garantem e atestam a estabilidade da estrutura da barragem e a qualidade da água devolvida ao ambiente”, informa.

A especialista em barragens Rafaela Baldi Fernandes esclarece que, por lei, todo o empreendimento de mineração precisa protocolar um plano de segurança no órgão governamental de fiscalização. “A legislação vigente diz que a população deve ter conhecimento da matriz de comunicação desse planejamento, isto é, ser informada caso algo de errado aconteça durante as atividades normais da barragem. É previsto, ainda, por lei, treinamentos com comunidade, prefeitura e corpo de bombeiros, no caso hipotético de um evento de emergência”.

O Correio publicou uma série de reportagens no início deste ano, após denúncias sobre uma suposta contaminação em massa por arsênio, substância tóxica que seria decorrente do processo de extração do ouro. Moradores e acadêmicos vinculados à cidade ainda fazem relação do problema com a incidência de câncer na região. O MPF solicitou novos estudos no município para esclarecer o fato. A Kinross rebate as alegações. As reportagens foram finalistas do Prêmio Esso deste ano.

Cientistas independentes se mobilizam para estudar impactos da lama tóxica no Rio Doce

Mais de quatro mil brasileiros estão se voluntariando no Grupo Independente para Análise do Impacto Ambiental (GIAIA): ideia é mensurar a real dimensão da tragédia


Isabela Moreira | Galileu

No dia 5 de novembro ocorreu o rompimento das barragens da mineradora Samarco, joint venture da BHP e da Vale, que deixou a cidade de Mariana, em Minas Gerais, em estado de calamidade pública e causou um desastre ambiental sem precedentes no Brasil.

 (Foto: Reprodução/Facebook)

Na última segunda-feira (16), o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e o Ministério Público Federal em Minas Gerais (MPF-MG) anunciaram que a Samarco pagará R$ 1 bilhão por conta dos prejuízos causados pelo rompimento das barragens.

Desde a ocorrência, imagens do desastre têm aparecido nas redes sociais: grandes quantidades de lama, peixes e outras espécies mortas, sem contar a situação de centenas de pessoas que perderam suas casas em meio ao desastre. Muito do que um dia foi o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, desapareceu.

Está em andamento a Operação Arca de Noé, na qual as autoridades pretendem transferir os peixes das regiões da bacia hidrográfica do Rio Doce que ainda não foram atingidas para lagoas de água limpa. Ainda não se sabe, no entanto, qual é a real dimensão dos impactos causados pela tragédia.

Ao acompanhar as notícias, um grupo de pesquisadores brasileiros começou a se mobilizar virtualmente para realizar um estudo independente sobre os impactos do rompimento das barragens. “Vimos alguns órgãos falando que não havia contaminação na água, outros que sim. Decidimos fazer uma iniciativa independente, realizada por meio de crowndfunding, com a maior precisão possível”, conta Alexandre Camargo Martensen, graduado na Universidade de São Paulo e doutorando em ecologia na Universidade de Toronto, no Canadá.

Assim nasceu o Grupo Independente para Análise do Impacto Ambiental (GIAIA) – Samarco/Rio Doce. O objetivo da iniciativa é, além de tudo, criar um relatório completo e transparente para a sociedade. “Poucas vezes a comunidade diretamente afetada é contatada sobre o que está ocorrendo”, diz Martensen. “Entendemos que isso não deveria ser feito dessa maneira. Queremos entender os impactos diretos desse acidente.”

O que começou com um grupo de dez pesquisadores acadêmicos se tornou uma comunidade com mais de quatro mil adeptos - entre eles cientistas e voluntários. O GIAIA está aberto à ajuda de quem puder prestá-la: desde quem tem a possibilidade de ir a campo coletar amostras até quem mora na região e tem disponibilidade para hospedar os pesquisadores.

Os primeiros cientistas que foram a campo foram por conta própria ou com a ajuda de suas universidades. Por isso o grupo criou uma campanha de crowndfunding para arrecadar recursos para enviar mais pessoas a campo e fazer as devidas análises. A meta era de R$ 50 mil em trinta dias - até a publicação dessa matéria, foram doados R$ 51,6 mil.

Ainda é possível doar e, com o crescimento da rede, foi iniciada uma série de grupos de trabalho. Entre elas, análises de amostras da água antes e depois da passagem da lama; das espécies do meio biótico; das aquáticas e das plantações. O apoio vem de diferentes partes do mundo: gente do Espírito Santo até a Austrália já se disponibilizou a ajudar. Um pouquinho de luz e solidariedade em tempos tão difíceis.

É possível realizar doações para a campanha do GIAIA, participar do grupo de voluntários e acompanhar as atualizações da equipe na página do Facebook.


Brasil investe mal em novas fontes de energia, diz cientista

Raphael Martins | EXAME.com

São Paulo – Um dos principais entraves climáticos, a emissão de gases estufa deve ser um dos principais assuntos da COP 21, principal encontro entre líderes mundiais para debates sobre clima, marcado para o final desse mês na cidade de Paris, na França. 


Luíz Pinguelli, secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, fala no EXAME Fórum Sustentabilidade 2015
Luíz Pinguelli: “São cenários otimistas, sim, mas a ideia era mostrar que mesmo estes são possíveis de realizar”

Para discutir a questão por aqui, o EXAME Fórum Sustentabilidade 2015 promoveu uma roda de conversa nesta terça-feira (17) sobre maneiras de manter a busca pelo desenvolvimento gerando uma pegada de carbono cada vez menor e o papel do Brasil neste missão.

A mesa contou com Luíz Pinguelli, secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, e Suzana Kahn, professora especialista em meio ambiente e ex-representante da ONU em mudança climática.

O principal fator em discussão foi uma mudança de discurso dos governantes sobre o assunto na última década. Se há 10 anos havia chefes de estado que refutavam quaisquer efeitos da ação do homem no clima, hoje não há mais como negar. Significa um avanço de mentalidade.

No Brasil, a presidente Dilma Rousseff anunciou em setembro que as metas brasileiras para reduzir a emissão de gases de efeito estufa são de 37% até 2025 e de 43% até 2030. Entretanto, o plano de utilização das fontes de energia ainda é majoritariamente fóssil, contrariando a tendência internacional.

“Para as próximas décadas, 71% da energia do país virá de combustíveis ligados ao petróleo, algo que vai na contramão dos investimentos das grandes potências e países em desenvolvimento”, diz Suzana Kahn.

“Os custos de energia fotovoltaica caíram pela metade nos últimos cinco anos, então há um movimento de preços para novas fontes de energia e novas tecnologias”, afirma Suzana. “Aumentando a participação de fontes mais limpas, os investimentos em fontes emissoras de carbono ficará reduzido.”

Suzana analisa ainda as propostas do Brasil para a COP 21, mostrando que o prognóstico mudou pouco desde a edição da convenção de 2009.

“Não dá para ter mudanças tão radicais nesse meio tempo, mas o importante é que há a intenção dos países de reduzir as emissões”, diz. “Essa vontade é fundamental, pois acertar um tratado ou acordo com metas mexe com a soberania nacional de grandes potências sem garantir as capacidades nacionais de desenvolvimento. Ninguém ia querer entrar nisso.”

As formas de conciliar esse desenvolvimento no país com a redução das emissões de gases foram tema de estudo de Pinguelli. Em “Implicações Econômicas e Sociais da Mitigação de Gases”, o estudioso montou uma equipe com representantes de governo, universidades, empresários e ONGs para montar três cenários de ações e investimentos para diminuir a carga de poluentes emitidas pelo país.

“São cenários otimistas, sim, mas a ideia era mostrar que mesmo estes são possíveis de realizar”, afirma Pinguelli. As principais ações seguem tendências internacionais e seguem o princípio de substituição de combustíveis fósseis por energias alternativas, como a eólica e solar.

“Não adianta querer fazer uma usina concentrada de energia solar, ela tem por caráter ser disseminada. Se comparar custos de megawatt/hora de uma Belo Monte, a energia solar fica inviável. Mas se disseminar essa fonte e cada residência, edificício, shopping e outros empreendimentos tiverem uma produção individualizada, torna-se possível”, diz. “O problema é o investimento que ainda é caro.”

Para os pesquisadores, o país ainda tem um longo caminho a seguir, mas com demonstrações de que o investimento em políticas verdes não será em vão, é possível mobilizar o mercado nesse sentido. Basta que haja regras mais claras de incentivo.

“O que não pode é acontecer de novo o que aconteceu com o setor de combustíveis”, diz Pinguelli. “Com uma política, o governo prejudicou a Petrobras, que tinha que comprar caro e vender barato, e o produtor de álcool, que perdeu competitividade de seu produto.”


16 novembro 2015

Deputados que debatem o Código de Mineração e acidente de Mariana receberam R$ 6,6 milhões de mineradoras

Foram identificados R$ 3,39 milhões a 11 deputados da comissão externa da Câmara criada para monitorar os efeitos do rompimento das barragens da Samarco no município de Mariana (MG)


Diário do Poder

Empresas mineradoras doaram ao menos R$ 6,6 milhões às campanhas de deputados federais que tratam diretamente do novo Código de Mineração e aos parlamentares da comissão externa da Câmara criada para monitorar os efeitos do rompimento das barragens da Samarco no município de Mariana, em Minas. Nesta segunda-feira, 16, eles estarão em visita à região do desastre. As doações declaradas à Justiça Eleitoral foram feitas aos comitês dos candidatos ou aos diretórios dos partidos.


DOS 18 DEPUTADOS DO GRUPO QUE VIAJARÁ A MARIANA, 13 FORAM FINANCIADOS POR MINERADORAS, NO TOTAL DE R$ 2,5 MILHÕES (FOTO: ANTÔNIO CRUZ/ABR)

Levantamento no banco de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que 28 dos 36 deputados de três comissões sobre mineração receberam doações do setor no ano passado.

Na recém-criada comissão especial para discutir o Código de Mineração, 11 dos 20 parlamentares já indicados receberam R$ 3,39 milhões. O valor pode aumentar, uma vez que ainda faltam sete indicações para o colegiado. Dos 18 deputados do grupo que viajará a Mariana, 13 foram financiados por mineradoras, no total de R$ 2,5 milhões.

A Vale, controladora da Samarco com a BHP, doou R$ 4,2 milhões a deputados, segundo o Estadão Dados. A reportagem só contabilizou empresas que trabalham com mineração em seus grupos.

Membro da comissão externa, o deputado Rodrigo de Castro (PSDB-MG) foi o que recebeu no grupo o maior volume de doações diretas ou indiretas, feitas via direção nacional de seu partido. Foram R$ 801,1 mil. Castro não atendeu às ligações nem respondeu a mensagens até as 20h50 deste domingo, 15.

Campeão


O líder de doações é justamente o relator do texto que propõe novas regras para o setor, deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG). Ele recebeu R$ 1,4 milhão em doações diretas e indiretas. É também o maior beneficiário das mineradoras quando analisados os 18 deputados da comissão criada no início do ano que receberam doações do setor.

Quintão diz que o “apoio” que recebe das mineradoras não interfere em seu trabalho. “Não cedi a lobby de mineradora. Recebo apoio financeiro, como tenho sido acusado pelos ambientalistas, legalmente do setor. Mas o projeto não tem nada de minha parte que isente mineradora. Ao contrário, estou aumentando (as cobranças às empresas)”, afirma.

A Câmara manteve em funcionamento uma comissão especial que, por sete meses, discutiu o Código de Mineração, mas foi encerrada sem votar o relatório de Quintão. Agora, um novo colegiado será constituído.

Coordenador da Frente Parlamentar Mista da Agropecuária, a chamada bancada ruralista, o deputado Marcos Montes (PSD-MG) recebeu R$ 788,7 mil de mineradoras. Integrante das duas comissões, a encerrada e a recém-criada, ele diz acreditar “ser extremamente normal” a situação.

“Não é o fato lamentável do acidente que vai tirar o mérito das mineradoras”, diz. “Já fui ajudado por muitas empresas, porque acho que confiam em mim e sabem que posso fazer a defesa de setores que prestam serviço ao País.” (AE)

Rompimento de barragem pode devastar meio ambiente por anos

Correio do Brasil, com Reuters – de São Paulo:

O rompimento das duas barragens de Minas Gerais cortou o fornecimento de água potável para 250 mil pessoas e saturou cursos de água com um sedimento laranja denso que pode afetar o ecossistema por anos a fio.


meio ambiente
Nove pessoas morreram e 500 pessoas ficaram desabrigadas quando as barragens se romperam

Nove pessoas morreram, 19 continuam desaparecidas e 500 pessoas ficaram desabrigadas quando as barragens se romperam em uma mina de minério de ferro, no dia 5 de novembro.

O volume total de água expelido pelas barragens e carregado com resíduos minerais por 500 quilômetros é impressionante: 60 milhões de metros cúbicos, o equivalente a 25 mil piscinas olímpicas ou o volume carregado por cerca de 187 tanques de petróleo.

A presidente Dilma Rousseff comparou os estragos com o derramamento de petróleo da BP em 2010, no Golfo do México, e a ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira chamou-o de “catástrofe ambiental”.

Cientistas disseram que o sedimento, que contém químicos usados pela mineradora para reduzir impurezas do minério de ferro, podem alterar o curso das correntes à medida que endurecem, reduzir os níveis de oxigênio na água e diminuir a fertilidade das margens de rios e da terra por onde a enxurrada passou.

A mineradora Samarco, joint venture entre as gigantes Vale e BHP Billiton, e proprietária da mina, disse repetidamente que a lama não é tóxica.

Porém, biólogos e especialistas ambientais discordam. Autoridades locais pediram que as famílias resgatadas da inundação lavem cuidadosamente e descartem as roupas que ficaram em contato com a lama.

– Já está claro que a fauna está sendo morta por esta lama – disse Klemens Laschesfki, professor de geociências da Universidade Federal de Minas Gerais.

– Dizer que esta lama não é um risco à saúde é muito simplista – afirmou.

Com o endurecimento da lama, disse Laschesfki, a agricultura será dificultada. E tanto lodo irá se assentar no fundo do Rio Doce e dos afluentes que levaram a lama até lá, que o curso da bacia hidrográfica pode mudar.

– Muitas regiões jamais serão as mesmas – disse ele.

Pesquisadores estão testando a água do rio e os resultados devem ser publicados nas próximas semanas, dando uma ideia melhor sobre o conteúdo dos rejeitos minerais.

Um motivo de preocupação é que os compostos conhecidos como aminas de éter podem ter sido utilizados na mina para separar sílica do minério de ferro, para produzir um produto de melhor qualidade.

De acordo com a pesquisa da indústria de mineração e a literatura científica publicada nos últimos anos, os compostos são comumente usados em minas brasileiras, incluindo as da Samarco.

Pelo menos alguns dos compostos, de acordo com o site da Air Products, empresa que os produz, “não são prontamente biodegradáveis e têm uma elevada toxicidade para os organismos aquáticos”. Eles também podem aumentar os níveis de pH a um ponto que é prejudicial ao meio ambiente.

– Haverá problemas sérios ao usar a água do rio agora – disse Pedro Antonio Molinas, um engenheiro de recursos hídricos e consultor da indústria de mineração familiarizado com a região.

A Samarco não respondeu as perguntas sobre se usou os compostos ou se eles estavam na chamada bacia de rejeitos, cujo conteúdo estourou através das barragens quebradas.