13 setembro 2013

Estudo indica que indústria do alumínio no Brasil prejudica saúde pública

Instituto Evandro Chagas estuda impactos da produção do metal em Barcarena, Pará, há 4 anos. Relatório em fase de conclusão aponta a degradação ambiental e contaminação da água como principais problemas.

Magali Moser - Deutsch Welle

A exploração de alumínio se tornou um problema de saúde pública no município de Barcarena, no estado do Pará. A cidade, de 120 mil habitantes, concentra a maior refinaria do metal do mundo. Toda a movimentação em torno da atividade industrial seria responsável por problemas ambientais, sociais e trabalhistas. A qualidade da água nas áreas do entorno das atividades industriais foram reprovadas em mais de 90% dos casos por fatores de controle químico ou microbiológicos. Esta é uma das principais constatações do relatório parcial feito pelo Instituto Evandro Chagas (IEC), ligado ao Ministério da Saúde. Os resultados finais só devem ser divulgados em outubro.

O órgão recebe denúncias desde 2001. Com um volume grande de reclamações dos impactos ambientais, o IEC passou a avaliar as denúncias do despejo de efluentes do processo de beneficiamento da bauxita nos igarapés da região em 2007. Em junho daquele ano, a bacia de deposição de resíduos de uma das empresas se rompeu e o problema foi amplificado. Foi então que o instituo elaborou um projeto em saúde e meio ambiente para avaliar os impactos mais a fundo. O programa, iniciado em 2008 duraria quatro anos, com previsão de encerramento até final de 2013. Nesse meio tempo, outro incidente ambiental foi registrado: um vazamento de efluentes alcalinos atingiu o rio Murucupi em 2009.

"O mais grave é a forma de relação e atuação das empresas, que poderiam ter muito mais respeito com o meio ambiente e os seres humanos que residem naquela região. Associado a isso, temos a clara omissão do poder público", aponta o pesquisador da Seção de Meio Ambiente do IEC, Marcelo Lima. "Diante disso, temos uma população que observa sua condição de qualidade de vida gradativamente piorar, agravados por tantos impactos ambientais", conclui.

Contaminação e desenvolvimento

O município é um dos mais afetados no Brasil com a produção industrial do metal. As etapas de produção deixam marcas na terra, na água e no ar, além da pele, olhos, pulmões e na vida dos trabalhadores e moradores próximos às fábricas de alumínio. Dos 120 mil moradores de Barcarena, 7.000 mil trabalham nas duas empresas do setor na cidade.

O caso já foi levado à Assembleia Legislativa pelo deputado estadual Edmilson Rodrigues. Ele afirma que o problema não atinge apenas os trabalhadores envolvidos na cadeia do alumínio, mas toda a comunidade do entorno, com a poluição e contaminação do solo. Segundo ele, a poluição é tão intensa que chega a deixar amarelados os azulejos brancos das casas próximas às empresas, por conta da quantidade de ferro.

"É um caso de saúde pública. Está comprovado o grau de incidência de doenças pulmonares e degenerativas por conta da poluição. Nem os trabalhadores nem os moradores estão imunes. É grande o número de pessoas com câncer provocado pela contaminação das águas, do solo ou pela poluição", aponta Rodrigues.

A denúncia foi comprovada por um dos estudos do IEC. No entanto, o instituto quer iniciar estudos mais específicos sobre a qualidade do ar na região. "Para isso, pretendemos adquirir tecnologias que sejam suficientes para a mensuração de parâmetros que possam ser indicativos do atual estágio da qualidade do ar", complementou o pesquisador Marcelo Lima.

A Superintendência Regional do Trabalho do Pará reconhece que a produção do alumínio é fruto de um processo agressivo. Mas alega infraestrutura limitada para aumentar o trabalho de fiscalização. São apenas dez fiscais para atender a todo o estado do Pará.

"É grave porque os trabalhadores ficam desassistidos. Nunca teremos uma condição de atender a todos. Mas temos de potencializar esforços. A situação está aquém do mínimo necessário", reconhece Edna Lucia Alves Ferreira da Rocha, auditora fiscal do trabalho chefe do setor de segurança e saúde da Superintendência Regional do Trabalho do Pará.

Situação dos trabalhadores

O alumínio é a principal fonte de economia local e uma importante commoditie nacional. O Brasil é o 4º maior produtor mundial de bauxita (matéria-prima para a produção de alumínio) e detentor da 3º reserva mineral; é o 3º maior produtor mundial de alumina.

A Associação Brasileira de Alumínio estima que cerca de 500 empresas atuem diretamente na indústria do alumínio no Brasil. Desse total, cinco empresas são produtoras de alumínio primário, as demais atuam nas outras etapas da cadeia produtiva – mineração, refinaria, transformação, reciclagem e produção de ligas.

A produção industrial de alumínio e alumina em Barcarena se concentra em duas empresas, a Albrás e Alunorte, respectivamente. De acordo com o Sindicato dos Metalúrgicos do município, na Albrás há quadro reduzido de trabalhadores, desde que a empresa passou o controle de capital estrangeiro para estatal norueguesa.

"A empresa já teve na década de 1980 mais de 2 mil funcionários, hoje tem 1,2 mil funcionários, com uma produção 100% maior. A gente questiona muito a situação social, a responsabilidade das empresas com a região. Não há compromisso", pondera o presidente do sindicato, Josenildo Vilhena.

Segundo ele, os trabalhadores sofrem uma pressão muito grande por produtividade e atingimento de metas. A Albrás é a 8ª maior fábrica de alumínio do mundo, e a Alunorte, a maior planta internacional de alumina. "O impacto ambiental é forte porque explora bauxita. Para se produzir 100 milhões de toneladas de alumina tem que gerar na natureza mais de 12 milhões de toneladas de bauxita. É muita terra revirada, lençol freático agredido, uma agressão imensa", analisa.

Vilhena fala que a dívida social é "impagável". "Existe o impacto, ele tá ai há mais de 20 anos, mas nós precisamos transformar esse alumínio em outros produtos. Pra gente desenvolver a região de forma sustentável", conclui.

Caso já foi estudado

O médico Hermano Albuquerque de Castro, hoje diretor da Escola Nacional de Saúde Pública, estudou o caso dos impactos da produção de alumínio em Barcarena há quase dez anos. O levantamento apontou que o processo é muito penoso para os trabalhadores e a população.

"Barcarena praticamente vive dessa indústria e é um dos municípios muito contaminados por esse processo de produção. Não só Barcarena, mas na própria trajetória do metal há contaminação de rios pela bauxita", lembra Castro. Ele reafirma a gravidade da questão ambiental e aponta ainda outra questão ligada à saúde: "O alumínio é considerado uma substância carcinogênica (causadora de câncer) pelos órgãos internacionais".

Posicionamento das empresas

A refinaria de alumina Hydro Alunorte e a fábrica de alumínio Albras rebatem as críticas e afirmam cumprir todas as normas de responsabilidade social, qualidade dos produtos, saúde, segurança e meio ambiente. As empresas garantem que a reportam mensalmente a performance ambiental à Secretaria de Meio Ambiente do Estado do Pará, responsável pelo licenciamento e fiscalização das atividades industriais no Estado. Para gerenciar as emissões atmosféricas, ambas as unidades alegam ter equipamentos de tratamento.

As empresas reconhecem que em 2009 houve um incidente ambiental devido a uma forte e incomum chuva que incidiu na região. Parte do material na superfície do depósito de resíduos sólidos teria sido arrastada pelas águas pluviais e atingiu o rio Murucupi.

Após o incidente, a Alunorte diz ter aumentado a capacidade do sistema de tratamento de efluentes, incluindo uma bacia de contenção ainda maior. Em relação à contaminação da água potável, as empresas alegam que o estudo do Instituto Evandro Chagas indica que o problema é desencadeado pelo descarte de esgoto nos rios, e não devido às atividades industriais.

As empresas consideram injusta a acusação de que "só reagem quando estão sob pressão." Tanto a Hydro Alunorte quanto a Albras asseguram ter equipes específicas trabalhando com as comunidades de Barcarena, além de realizar investimentos sociais com o objetivo de melhorar a qualidade de vida dos habitantes.

Maior montanha da América do Norte 'encolhe'

BBC Brasil

A montanha mais alta da América do Norte "encolheu", segundo novos dados divulgados por uma agência do governo americano.

Uma nova medição do Monte McKinley, localizado no Estado do Alasca, chegou a uma altura 25,29 metros menor que a medida anterior.

A nova altura oficial da montanha é de 6.168 metros.

O Monte McKinley havia sido medido oficialmente pela última vez em 1952.

Segundo o US Geological Survey (agência geológica dos Estados Unidos), a redução na altura oficial do monte pode ser o resultado de tecnologias de medição mais precisas ou de "diferenças climáticas".

O US Geological Survey divulgou os novos dados como parte de um esforço para atualizar todos os mapas topográficos do Alasca.

A nova medição foi feita no ano passado, usando um radar de abertura sintética interferométrico, tecnologia desenvolvida para identificar digitalmente pequenas formas geográficas.

O Monte McKinley, também conhecido localmente como Denali, é um destino turístico popular, localizado no Parque Nacional Denali, no Alasca.



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Mudanças climáticas devem reduzir áreas de cultivo no Brasil

Da Agência Fapesp

O aumento das temperaturas e as mudanças no regime de chuvas previstos para ocorrer nas várias regiões do Brasil em decorrência do aquecimento global poderão afetar bastante a agricultura do país. Culturas como feijão, soja, trigo e milho serão especialmente impactadas, apontam estudos da Rede Brasileira de Pesquisa e Mudanças Climáticas Globais, a Rede Clima.

A partir do cruzamento de modelos do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas) e de modelos regionais brasileiros, pesquisadores da Rede Clima analisam o impacto das mudanças climáticas sobre as áreas de cultivo nacionais.

Tomando como base os hectares cultivados em 2009 e, se mantidas as atuais condições de produção, as projeções para 2030 apontam grandes reduções de área, tanto nos prognósticos pessimistas como nos cenários mais otimistas.

Para o feijão, a queda vai de 54,5% a 69,7%. Para a soja, a redução é estimada de 15% a 28%; para o trigo, de 20% a 31,2%; para o milho, de 7% a 22%; para o arroz, de 9,1% a 9,9%; e para o algodão, de 4,6% a 4,9%.

As diferentes variedades do feijão necessitam de condições climáticas particulares. Com isso, o cultivo, feito em até quatro safras por ano, é mais suscetível às variações de temperatura e precipitação. Contornar tal redução dependerá, portanto, de modificações em termos de produção e do investimento em variedades capazes de se adaptar às novas condições de cada local.

"O café, por exemplo, precisa de 18 ºC a 22 ºC de média anual. Fora dessa janela, a cultura não se desenvolve. Passamos essas informações para o computador e simulamos diferentes cenários", disse Hilton Silveira Pinto, coordenador da sub-rede Agricultura e pesquisador da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Os números foram apresentados durante a 1ª Conclima (Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais), que ocorre até a próxima sexta-feira (13), em São Paulo.

"Com o estudo sobre áreas cultivadas, temos agora uma lista de municípios com maior e menor risco de serem afetados por mudanças climáticas, um importante instrumento para pesquisa e tomadas de decisão", afirmou.

De acordo com o pesquisador, os trabalhos do grupo são encaminhados diretamente às instâncias governamentais, em especial por meio da Embrapa Informática Agropecuária, instituição coordenadora da sub-rede Agricultura.

Outra frente de atuação da equipe é a SCenAgri (Simulação de Cenários Agrícolas Futuros), que traça prognósticos para as próximas décadas considerando o aumento de temperatura, o regime de chuvas e a demanda climática de cada cultura.

O SCenAgri conta hoje com campos de plantio de 19 culturas, 3.313 estações de chuva com dados diários, 23 modelos globais e três modelos regionais de projeções climáticas.

Também há estudos com injeção de carbono na atmosfera, para verificar a resposta de plantações em uma superfície controlada, e treinamentos com modelos agrometeorológicos para pesquisas em produtividade nas condições atuais e futuras.



Seca no semiárido brasileiro deve se agravar nos próximos anos

UOL

Os problemas de seca prolongada registrados no semiárido brasileiro devem se agravar ainda mais nos próximos anos por causa das mudanças climáticas globais. Por isso, é preciso executar ações urgentes de adaptação e mitigação desses impactos e repensar os tipos de atividades econômicas que podem ser desenvolvidas na região, avaliam pesquisadores durante a 1ª Conclima (Conferência Nacional de Mudanças Climáticas Globais), que ocorre até esta sexta-feira (13), em São Paulo.

De acordo com dados do Cenad (Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres), só nos últimos dois anos foram registrados 1.466 alertas de municípios no semiárido que entraram em estado de emergência ou de calamidade pública em razão de seca e estiagem. Esses são os desastres naturais mais recorrentes no Brasil, segundo o órgão.

O Primeiro Relatório de Avaliação Nacional do PBMC (Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas), que foi divulgado no dia de abertura da Conclima, estima que esses eventos extremos aumentem principalmente nos biomas Amazônia, Cerrado e Caatinga, e que as mudanças devem se acentuar a partir da metade e até o fim do século 21. Dessa forma, o semiárido sofrerá ainda mais no futuro com o problema da escassez de água que enfrenta hoje, alertaram os pesquisadores.

"Se hoje já vemos que a situação é grave, os modelos de cenários futuros das mudanças climáticas no Brasil indicam que o problema será ainda pior. Por isso, todas as ações de adaptação e mitigação pensadas para ser desenvolvidas ao longo dos próximos anos, na verdade, têm de ser realizadas agora", disse Marcos Airton de Sousa Freitas, especialista em recursos hídricos e técnico da ANA (Agência Nacional de Águas).

Segundo o pesquisador, o semiárido - que abrange Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba, Ceará, Piauí e o norte de Minas Gerais - vive hoje o segundo ano do período de seca, iniciado em 2011, que pode se prolongar por um tempo indefinido.

Um estudo do órgão, com base em dados de vazão de bacias hidrológicas da região, apontou que a duração média dos períodos de seca no semiárido é de 4,5 anos. Estados como o Ceará, no entanto, já enfrentaram secas com duração de quase nove anos, seguidos por longos períodos nos quais choveu abaixo da média estimada.

De acordo com Freitas, a capacidade média dos principais reservatórios da região - com volume acima de 10 milhões de metros cúbicos de água e capacidade de abastecer os principais municípios por até três anos - está atualmente na faixa de 40%. E a tendência até o fim deste ano é de esvaziarem cada vez mais.

"Caso não haja um aporte considerável de água nesses grandes reservatórios em 2013, poderemos ter uma transição do problema de seca que se observa hoje no semiárido, mais rural, para uma 'seca urbana' - que atingiria a população de cidades abastecidas por meio de adutoras desses sistemas de reservatórios", alertou Freitas.

Ações de adaptação

Uma das ações de adaptação que começou a ser implementada no semiárido nos últimos anos e que, de acordo com os pesquisadores, contribuiu para diminuir sensivelmente a vulnerabilidade do acesso à água, principalmente da população rural difusa, foi o Programa Um Milhão de Cisternas.

Lançado em 2003 pela Articulação Semiárido Brasileiro, rede formada por mais de mil ONGs (organizações não governamentais) que atuam na gestão e no desenvolvimento de políticas de convivência com a região semiárida, o programa visa implementar um sistema nas comunidades rurais da região por meio do qual a água das chuvas é capturada por calhas, instaladas nos telhados das casas, e armazenada em cisternas cobertas e semienterradas. As cisternas são construídas com placas de cimento pré-moldadas, feitas pela própria comunidade, e têm capacidade de armazenar até 16 mil litros de água.

O programa tem contribuído para o aproveitamento da água da chuva em locais onde chove até 600 milímetros por ano - comparável ao volume das chuvas na Europa - que evaporam e são perdidos rapidamente sem um mecanismo que os represe, avaliaram os pesquisadores.

"Mesmo com a seca extrema na região nos últimos dois anos, observamos que a água para o consumo da população rural difusa tem sido garantida pelo programa, que já implantou cerca de 500 mil cisternas e é uma ação política de adaptação a eventos climáticos extremos. Com programas sociais, como o Bolsa Família, o programa Um Milhão de Cisternas tem contribuído para atenuar os impactos negativos causados pelas secas prolongadas na região", afirmou Saulo Rodrigues Filho, professor da UnB (Universidade de Brasília).

Como a água tende a ser um recurso natural cada vez mais raro no semiárido nos próximos anos, Rodrigues defendeu a necessidade de repensar os tipos de atividades econômicas mais indicadas para a região.

"Talvez a agricultura não seja a atividade mais sustentável para o semiárido e há evidências de que é preciso diversificar as atividades produtivas na região, não dependendo apenas da agricultura familiar, que já enfrenta problemas de perda de mão de obra, uma vez que o aumento dos níveis de educação leva os jovens da região a se deslocar do campo para a cidade", disse Rodrigues.

"Por meio de políticas de geração de energia mais sustentáveis, como a solar e a eólica, e de fomento a atividades como o artesanato e o turismo, é possível contribuir para aumentar a resiliência dessas populações a secas e estiagens agudas", afirmou.

Outras medidas necessárias, apontada por Freitas, são de realocação de água entre os setores econômicos que utilizam o recurso e seleção de culturas agrícolas mais resistentes à escassez de água enfrentada na região.

"Há culturas no semiárido, como capim para alimentação de gado, que dependem de irrigação por aspersão. Não faz sentido ter esse tipo de cultura que demanda muito água em uma região que sofrerá muito os impactos das mudanças climáticas", afirmou Freitas.

Transposição do Rio São Francisco

O pesquisador também defendeu que o projeto de transposição do Rio São Francisco tornou-se muito mais necessário agora, tendo em vista que a escassez de água deverá ser um problema cada vez maior no semiárido nas próximas décadas, e é fundamental para complementar as ações desenvolvidas na região para atenuar o risco de desabastecimento de água.

Alvo de críticas e previsto para ser concluído em 2015, o projeto prevê que as águas do Rio São Francisco cheguem às bacias do Rio Jaguaribe, que abastece o Ceará, e do Rio Piranhas-Açu, que abastece o Rio Grande do Norte e a Paraíba.

De acordo com um estudo realizado pela ANA, com financiamento do Banco Mundial e participação de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará, entre outras instituições, a disponibilidade hídrica dessas duas bacias deve diminuir sensivelmente nos próximos anos, contribuindo para agravar ainda mais a deficiência hídrica do semiárido.

"A transposição do Rio Francisco tornou-se muito mais necessária e deveria ser acelerada porque contribuiria para minimizar o problema do déficit de água no semiárido agora, que deve piorar com a previsão de diminuição da disponibilidade hídrica nas bacias do Rio Jaguaribe e do Rio Piranhas-Açu", disse Freitas.

O Primeiro Relatório de Avaliação Nacional do PBMC, no entanto, indica que a vazão do Rio São Francisco deve diminuir em até 30% até o fim do século, o que colocaria o projeto de transposição sob ameaça.

Freitas, contudo, ponderou que 70% do volume de água do Rio São Francisco vem de bacias da região Sudeste, para as quais os modelos climáticos preveem aumento da vazão nas próximas décadas. Além disso, de acordo com ele, o volume total previsto para ser transposto para as bacias do Rio Jaguaribe e do Rio Piranhas-Açu corresponde a apenas 2% da vazão média da bacia do Rio São Francisco.

"É uma situação completamente diferente do caso do Sistema Cantareira, por exemplo, no qual praticamente 90% da água dos rios Piracicaba, Jundiaí e Capivari são transpostas para abastecer a região metropolitana de São Paulo", comparou. "Pode-se argumentar sobre a questão de custos da transposição do Rio São Francisco. Mas, em termos de necessidade de uso da água, o projeto reforçará a operação dos sistemas de reservatórios existentes no semiárido."

De acordo com o pesquisador, a água é distribuída de forma desigual no território brasileiro. Enquanto 48% do total do volume de chuvas que cai na Amazônia é escoado pela Bacia Amazônica, segundo Freitas, no semiárido apenas em média 7% do volume de água precipitada na região durante três a quatro meses chegam às bacias do Rio Jaguaribe e do Rio Piranhas-Açu. Além disso, grande parte desse volume de água é perdido pela evaporação. "Por isso, temos necessidade de armazenar essa água restante para os meses nos quais não haverá disponibilidade", concluiu.



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12 setembro 2013

Sete municípios estão em colapso e 357 mil paraibanos enfrentam falta de água

Em todo o estado, 26 localidades passam por racionamento.

Portal Correio

Sete municípios da Paraíba já estão em colapso nos seus abastecimentos de água para consumo humano e outros 19 convivem com racionamento. Uma população estimada em quase 357 mil habitantes, nessas 25 cidades, enfrenta uma situação crítica no fornecimento de água tratada. De acordo com o levantamento da Companhia de Água e Esgotos da Paraíba (Cagepa), mais 15 municípios estão seriamente ameaçados devido ao baixo nível dos reservatórios.

Por conta da estiagem prolongada na Paraíba, são 26 localidades (ao todo) que enfrentam racionamento, sendo 19 cidades (Nova Palmeira, Barra de São Miguel, Areia, Umbuzeiro, Remígio, Esperança, Aroeiras, Gado Bravo, Belém, Caiçara, Logradouro, Alagoa Grande, Serraria, Arara, Casserengue, Solânea, Bananeiras, Cacimba de Dentro e Araruna) e sete distritos (São Miguel, Lagoa do Mato, Cepilho, Novo Pedro Velho, Rua Nova, Cachoeirinha e Braga).

Outras 12 localidades estão em colapso, sendo sete cidades (Triunfo, São João do Rio do Peixe, Imaculada, Riachão, Tacima, Dona Inês e Nazarezinho) e cinco distritos (Barreiros, Logradouro, Damião, Cozinha e Gravatá).

Devido ao baixo nível dos mananciais, se encontram em estado de alerta 15 cidades da Paraíba (Taperoá, Juru, Emas, Algodão de Jandaíra, Natuba, Montadas, Areial, Gurjão, Puxinanã, Jericó, Mato Grosso, Bom Sucesso, Brejo dos Santos, Lagoa e São José da Lagoa Tapada).

Seca causa colapso em abastecimento de 7 cidades
Créditos: Reprodução/Facebook/Padre Djacy Brasileiro
De acordo com dados da Agência Executiva de Gestão das Águas (Aesa), 19 reservatórios estão com situação extremamente crítica, com menos de 7% da capacidade total.

Dos municípios com açudes que apresentam entre 0 e 3% estão o de Emas, que suporta pouco mais de dois milhões de metros cúbicos, mas tem apenas 17,6 mil (0,9% do seu total); o açude Serrote, que abastece Monteiro, tem 16 mil metros cúbicos de água (0,3% do total de 5,7 milhões de metros cúbicos que ele comporta); e o de Ouro Velho tem 2,5 mil metros cúbicos de água (0,2%, de 1,7 milhão de sua capacidade). Esses municípios ficam localizados na região do Cariri paraibano.
No Sertão, o manancial de São Mamede tem 157 mil metros cúbicos, o que representa 1% dos 15,7 milhões de sua capacidade de acúmulo; Chupadouro I, em São José do Rio do Peixe, tem 36,9 mil metros cúbicos, 1,3% da capacidade total de 2,8 milhões.

Caraibeiras, que abastece Picuí (na região do Curimataú), assim como São José IV, de São José do Sabugi, e três açudes que abastecem Teixeira (todos no Sertão) estão completamente secos.

Com porcentagens que variam entre 3 e 7% estão os açudes de Campos (no município de Caraúbas), com 219 mil metros cúbicos, equivalente a 3,3% dos 6,6 milhões que comporta; Carneiro (em Jericó), que está com 960 mil metros cúbicos, 3,1% dos 31 milhões cabem no reservatório; Jatobá I (em Patos) com 2,6%, ou seja, 456 mil metros cúbicos dos 17,5 milhões suportado; e Taperoá II (em Taperoá) com 550 mil metros cúbicos, 3,6% dos 15,1 milhões totais.

Os reservatórios que abastecem os municípios de Algodão de Jandaíra, Areial, Carrapateira, Gurjão, Imaculada, São Francisco e São José da Lagoa Tapada estão com índices que vão de 6 a 7% de suas respectivas capacidades.

Confira a população de cada um dos 25 municípios com fornecimento de água em situação crítica:

MUNICÍPIO
POPULAÇÃO
Nova Palmeira
4.480 
Barra de São Miguel 
5.611 
Areia
23.837 
Umbuzeiro
9.300 
Remígio
17.581 
Esperança
31.095 
Aroeiras
19.048 
Gado Bravo
8.365 
Belém 
17.083 
Caiçara
7.205 
Logradouro
3.942 
Alagoa Grande
28.482 
Serraria
6.218 
Arara
13.157 
Casserengue
7.058 
Solânea
26.693 
Bananeiras
21.854 
Cacimba de Dentro
16.755 
Araruna
18.886 
Triunfo
  9.223 
São João do Rio do Peixe
18.201 
Imaculada
11.423 
Riachão
3.274 
Tacima
10.263 
Dona Inês
10.517 
Nazarezinho  7.280
                                                       TOTAL:
356.831
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Vacina 'erradica' vírus semelhante ao HIV em estudo em macacos

Rebecca Morelle
Repórter de Ciência da BBC News

Uma pesquisa publicada na revista Nature mostrou que uma vacina que age contra um vírus semelhante ao HIV que atinge macacos parece ter conseguido erradicá-lo.

Segundo cientistas americanos, nove dos 16 macacos vacinados durante o estudo e infectados depois aparentaram posteriormente não ter mais o vírus da imunodeficiência símia (SIV, na sigla em inglês).

"É sempre difícil afirmar que houve uma erradicação total – sempre pode haver uma célula que não analisamos e que pode conter o vírus. Mas, de uma maneira geral, usamos critérios bem rigorosos e podemos dizer que não havia vírus no corpo desses macacos", disse o coordenador da pesquisa, Louis Picker, do Instituto de Vacinas e Terapia Genética no Universidade de Saúde e Ciência do Oregon.

Os estudiosos disseram que agora eles querem usar uma metodologia semelhante para testar uma vacina contra o HIV em humanos.


Pesquisar e destruir

Os pesquisadores analisaram uma forma agressiva do vírus SIV, que chega a ser cem vezes mais letal que o HIV.

Normalmente, os macacos infectados costumam morrer em dois anos. Mas, no teste, o vírus não se fixou nos animais que receberam a vacina.

A vacina é feita a partir de outro vírus chamado citomegalovírus, que tem semelhanças com o da herpes.

O medicamento usou o poder de infecção do citomegalovírus para fazer uma espécie de varredura no corpo. Mas, ao invés de causar doenças, o vírus foi modificado para estimular o sistema imunológico e combater o SIV.

"Ela (a vacina) mantém uma força armada, que patrulha todos os tecidos do corpo, o tempo todo, indefinidamente", explica Picker.

Os pesquisadores vacinaram macacos rhesus e, em seguida, os infectaram com o SIV. Eles descobriram que, primeiro, a infecção começou a se manifestar e a se espalhar. Mas, em seguida os corpos dos macacos começaram a reagir, procurando e destruindo todos os sinais dos vírus.

Os macacos que responderam bem à vacina permaneceram livre da infecção entre um ano e meio e três anos depois da aplicação.

Teste em humanos

Picker disse que sua equipe ainda está tentando descobrir por que a vacinação funcionou em apenas pouco mais da metade dos macacos.

"Pode ser pelo fato de o SIV ser tão patogênico que isso talvez seja o melhor que se consiga", disse o pesquisador ."Há uma batalha em curso e em metade do tempo a vacina vence e no restante, perde."

O cientista ressaltou que, "para fazer uma versão para humanos da vacina, precisamos ter certeza de que ela é absolutamente segura".

"Nós já criamos um citomegalovírus que gera uma resposta imune semelhante (em humanos), mas que foi atenuado ao ponto em que acreditamos que ele é totalmente seguro."

Tal vacina teria que receber o respaldo das autoridades regulatórias. O pesquisador disse que, se isso ocorrer, espera que os primeiros testes clínicos em humanos aconteçam nos próximos dois anos.

Andrew Freedman, médico da Universidade de Medicina de Cardiff, vê com otimismo a nova vacina.

"O teste sugere que vacinas profiláticas – criadas para prevenir uma infecção – que usam vetores de citomegalovírus podem se revelar abordagens promissoras para combater o HIV."

"Apesar de não prevenir a infecção inicial, ela pode levar a uma erradicação posterior, em vez de termos um estabelecimento crônico da infecção."


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11 setembro 2013

Brasil mais quente e seco pode desencadear crise

Com aumento da temperatura e queda das chuvas, estudo diz que floresta amazônica pode virar savana até 2100. Cenário ameaça desencadear crise nos setores agropecuário e energético.

Deutsch Welle


Até 2100, a robusta floresta amazônica pode dar lugar a uma paisagem dominada pela savana. A Caatinga, bioma do semiárido mais rico em fauna e flora do mundo, vai virar deserto. Em todo o território nacional, a temperatura média pode aumentar 6ºC. As projeções fazem parte do primeiro estudo que analisa os efeitos das mudanças climáticas no Brasil, e estão sendo apresentadas no Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), que segue até a próxima sexta-feira (13/09).

Com um Brasil mais quente e mais seco, o setor energético e a agricultura serão os mais atingidos. "Essas informações científicas devem ser consideradas no planejamento energético do país. Para a agricultura é a mesma coisa", avalia Andrea Santos, secretária-executiva do PBMC.

No futuro, a mudança de cenário vai forçar a migração de algumas culturas – como a do café, que precisa de um clima mais ameno. "Esses impactos no setor agrícola vão demandar melhoramento genético e recursos para a adaptação", complementa Andrea.

"Daqui a 100 anos, a agricultura brasileira terá que ser diferente para se adaptar às mudanças climáticas", sentencia por sua vez Carlos Nobre, membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e secretário do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. "Não é muito correto fazer previsões e dizer que não haverá adaptação que faça frente", adiciona, lembrando que medidas de adaptação estão em curso.

Força-tarefa nacional

O relatório é fruto do trabalho de 345 pesquisadores. Eles vasculharam as publicações científicas dos últimos seis anos e o relatório do IPCC. Concluíram que, até 2100, a queda no volume de chuvas na Amazônia deve chegar a 45%, e a temperatura aumentará até 6°C na região. Somadas aos efeitos do desmatamento, as mudanças climáticas vão contribuir para a savanização.

Os cenários climáticos previstos pelo relatório apontam o aumento das secas e estiagens prolongadas não só na Amazônia, mas também no Cerrado e na Caatinga e uma elevação da temperatura em todo o país, causando alterações nos ecossistemas.

Para a Caatinga, é esperada uma elevação de até 4,5°C na temperatura e uma redução de até 50% da precipitação. "Essas mudanças podem desencadear o processo de desertificação", conclui o relatório. No Cerrado, para o mesmo período, estima-se um aumento de 5,5°C e uma diminuição de 45 % no volume de chuva.

Já nos Pampas, deve ocorrer um aumento de 40% na precipitação e de 3°C na temperatura até 2100. Apesar de as previsões terem sido formuladas para ao longo do século, algumas transformações no clima já podem ser percebidas atualmente.

"Nós já observamos aumento de temperatura e alteração no padrão de precipitação em várias regiões do Brasil, bem como o aumento das frequências de eventos climáticos extremos como chuvas e inundações", afirma Paulo Artaxo, coordenador do programa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) sobre estudos em mudanças climáticas, que também participou do relatório.

Crise anunciada

As periferias nas grandes cidades são as regiões mais expostas aos efeitos das mudanças climáticas. "O processo desordenado de ocupação gerou grande vulnerabilidade", pontua Nobre. Há algumas décadas, catástrofes provocadas por chuvas intensas, por exemplo, eram registradas a cada dez anos. Atualmente, são de dois a três episódios por ano.

Outro impacto muito sério apontado por Nobre é a tendência de haver menos água disponível na região semiárida do Nordeste. "Essa é a região semiárida mais populosa do mundo. Vai faltar água para o abastecimento humano. Agricultura vai se tornar menos provável no futuro." A região, marcada pela seca, já sofre especialmente com a falta de chuva dos últimos dois anos.
Se globalmente não houver uma rápida redução dos gases, a região da América do Sul deve ser uma das mais afetadas do mundo – a grande biodiversidade, principalmente da Amazônia, corre um sério risco. "Até 40% das espécies podem não conseguir sobreviver", comenta nobre. A equação é intangível: ainda não existem estudos que quantifiquem economicamente o que o desaparecimento de espécies significaria.

Aumento do nível do mar

Além dessas mudanças, também já foram identificadas a elevação do nível do mar, alterações nas características das massas de água do oceano e aumento da salinidade em alguns locais.

"O nível do mar está aumentando e variações de 20 a 30 cm esperadas para o final do século 21 já devem ser atingidas, em algumas localidades, até meados do século ou até antes disso", aponta o estudo.

No Brasil, essa alteração vem sendo reportada pela comunidade científica desde o final dos anos 1980. A intensificação do processo erosivo na costa brasileira na última década é consequência, além da mudança dos padrões de ventos e ondas, também dessa elevação.

O principal vilão do aquecimento global são as emissões de gases de efeito estufa. As maiores fontes de emissão no país são o desmatamento da Amazônia – apesar das reduções significativas nos últimos anos –, o setor agropecuário, a indústria e o setor de transporte com a queima de combustíveis fósseis.

"Colcha de retalhos"

Para o coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF Brasil, Carlos Rittl, o país ainda não desenvolveu uma política integrada para enfrentar o tema. "Apesar de algum progresso nos últimos anos, a agenda climática do Brasil ainda é marginal e não integrada aos grandes planos de desenvolvimento do país,” afirma Rittl.

A organização ambiental critica a destinação dos investimentos do setor de energia: cerca de 700 bilhões de reais vão para os combustíveis fósseis, ou seja, 70% do total destinado ao setor. Desta forma, o país desperdiçaria o grande potencial das fontes renováveis de baixo impacto, como a eólica, solar, biomassa e biocombustíveis, argumenta o WWF.

Outra contradição vista pelo grupo é o investimento de mais de 107 bilhões de reais para produção agrícola e expansão agropecuária, setor que liderou o ranking de emissões do país em 2010, responsável por 35% do total. "Além de representar imensa pressão sobre as florestas nativas do país", adiciona.

Falta coerência, na opinião do WWF Brasil. Governos e instituições financeiras têm que aumentar os seus investimentos em energia renovável e sustentável e, aos poucos, devem eliminar os gastos em combustíveis fósseis. "O Brasil precisa seguir o mesmo caminho. E não é o que está acontecendo até agora,” conclui Rittl.



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