08 março 2013

Justiça manda OSX suspender retirada de restinga em porto de Eike

FOLHA DE SP
DO RIO

A Justiça Federal em Campos dos Goytacazes, município da região norte do estado do Rio de Janeiro, concedeu liminar determinando que a OSX, empresa de construção naval do grupo EBX, "abstenha-se de suprimir" restingas localizadas em áreas de proteção permanente em São João da Barra, cidade a 30 quilômetros de Campos.

A informação foi divulgada nesta sexta-feira na página do Ministério Público no Rio de Janeiro por meio de nota. O texto não esclarece exatamente o que a OSX estaria fazendo no local. Na prática, o termo "abstenha-se de suprimir" significa "pare de destruir".

De acordo com nota, a Justiça afirma que a empresa está suprimindo as restingas por conta da construção do UCN (Unidade de Construção Naval) do Porto do Açu, que está sendo erguido em São João da Barra. A multa diária pelo descumprimento da liminar é de R$ 100 mil.

A liminar, concedida pela 1ª Vara Federal de Campos, determina que o Ibama realize em um prazo de 15 dias uma auditoria no local do empreendimento para informar à Justiça qual a extensão do dano causado à área de proteção permanente. Caso o Ibama não cumpra a determinação, a multa diária para o órgão será de R$ 10 mil.

De acordo com a nota, a decisão da Justiça foi motivada por uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF) em Campos, pela Associação dos Proprietários de Imóveis e Moradores do Açu, pelos Institutos Visão Social e Justiça Ambiental e pela Comissão Pastoral da Terra.

SENTENÇA VELHA


Por meio de nota, a OSX informou que as atividades de "supressão de vegetação" na UCN foram integralmente encerradas em 2012 e que todas as ações no local "foram realizadas de acordo com as licenças e autorizações emitidas pelas autoridades competentes".

Segundo a OSX, como contrapartida ao licenciamento exigido pelo Inea (Instituto Estadual do Ambiente), já foram plantados 457 mil metros quadrados de mudas de restinga, de agosto de 2012 a janeiro deste ano, em uma outra reserva da região, chamada Caruara.

A OSX informou ainda que a determinação divulgada nesta sexta-feira (8) não se trata de nova decisão judicial. De acordo com a empresa, a liminar foi publicada há um mês, em 8 de fevereiro, pelo Juiz da 1ª Vara Federal de Campos. "Não se trata, portanto, de nova decisão judicial", afirma a nota. A informação foi confirmada pela assessoria de imprensa da Procuradoria da República no Rio de Janeiro.

07 março 2013

Russos acham fóssil de cão com 33 mil anos na Sibéria

AFP
Em Washington

Cientistas russos descobriram o dente fossilizado de um cão doméstico na Sibéria que data de 33 mil anos, um dos vestígios mais antigos encontrados até agora, informou um estudo publicado nos Estados Unidos.

O exame de DNA feito no dente determinou que se trata de um antepassado do cão moderno, explicou Anna Druzhkova, pesquisadora do Instituto de Biologia Molecular e Celular da Rússia, uma das autoras principais do estudo.

O resultado da pesquisa foi publicado na revista científica americana PLOS One, uma publicação da Biblioteca Pública da Ciência, nesta quarta-feira (6).

A domesticação do cão é mais antiga do que o começo da agricultura, 10 mil anos atrás. Mas os cientistas não sabem exatamente quando os cães e os lobos se tornaram duas espécies distintas. Esta separação tem mais de 10 mil anos, segundo as estimativas.

Os fósseis mais antigos de cães modernos encontrados até agora remontavam há 36 mil anos.

Os cientistas que descobriram o dente fossilizado do chamado "cão de Altai", devido ao nome da montanha onde estava, informaram que este animal está muito mais próximo dos cães modernos e dos caninos pré-históricos encontrados no continente americano do que dos lobos.

"Este fóssil também revela uma história mais antiga dos cães fora do Oriente Médio ou do leste da Ásia, que até agora se pensava que era o berço do cão moderno", informaram os autores da descoberta.

"Invasão" de milhares de tubarões fecha praias da Flórida

AP | UOL

A invasão de milhares de tubarões fechou as praias da região de Palm Beach, na Flórida (EUA). Segundo os especialistasm, os animais estão migrando para o sul, devido a chegada do inverno.

05 março 2013

Inea diz que vazamento da Petrobras no Rio continua

Seriam 180 litros de óleo, afirma instituto. Problema começou quinta-feira

Daniel Haidar
e Ramona Ordoñez - O Globo

A presidente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), Marilene Ramos, informou ontem que ainda não foi contido o vazamento de óleo causado pela Petrobras no campo de Marlim, na Bacia de Campos, no Norte Fluminense. Em nota, a empresa diz que vem obtendo "evolução positiva" na solução do vazamento. 


O derramamento foi iniciado por defeito no equipamento Árvore de Natal (conjunto de válvulas que controla a produção), instalado na superfície do poço. Marilene disse ainda que vazaram 180 litros de petróleo até ontem em alto-mar, segundo informações do Ibama e da empresa. A estatal, porém, diz em nota que foram apenas 108 litros entre quinta-feira e sexta-feira e uma mancha de três litros identificada ontem por sobrevoos na região. O campo está a 172 quilômetros de Macaé. 


A Petrobras só identificou sexta-feira a mancha de óleo, avistada na véspera. O poço que apresentou problemas está desligado, fora de operação.


A estatal deslocou para a área cinco embarcações especializadas em contenção e recolhimento de óleo, três para inspeção submarina, e aeronave para sobrevoo. 


Agência Nacional do Petróleo, Ibama e Marinha foram notificados.

Mina em terra de índio

Empresas fazem 4.519 pedidos para explorar de ouro a cobre e aguardam o Congresso

Danielle Nogueira - O Globo


Enquanto o governo corre contra o tempo para tirar do papel o polêmico substitutivo ao projeto de lei 1610/96, que regulamenta a mineração em terras indígenas, solicitações para pesquisa mineral nessas áreas não param de chegar ao Departamento Nacional de Pesquisa Mineral (DNPM). 


Levantamento feito a pedido do GLOBO revela que existem 4.519 requerimentos de pesquisa em terras indígenas aguardando o aval do Congresso. Eles estão concentrados em 17 reservas na Amazônia Legal, como as dos ianomamis (RR) e dos caiapós, e têm como alvo desde ouro e cobre até níquel e estanho. Entre as empresas interessadas estão gigantes, como a Vale, e até multinacionais, como a anglo-sul-africana Anglo American. 


Organizações defensoras dos direitos indígenas temem que a atividade provoque danos ambientais e comprometa os costumes de povos tradicionais, tornando-os dependentes de recursos financeiros externos. Também criticam o substitutivo por não dar poder de veto às comunidades e não resguardar áreas dentro das reservas para cultos, cultivo de grãos e moradia. Após grita do movimento indígena, a Funai fixou um calendário de audiências públicas, de forma que os grupos étnicos afetados pudessem ser ouvidos. A primeira está prevista para a próxima quinta-feira, em Rio Branco (AC). 


Embora a maioria dos 4.519 pedidos seja da década de 90, nos últimos dois anos o número de solicitações voltou a subir: 102 em 2011 e 127 em 2012. Este ano, já há 12. Quem lidera a lista é a Mineração Silvana, do grupo Santa Elina (738). Em seguida vêm Vale (211, dos quais três protocolados em 2011), Mineração Tanagra (176); Mineração Serra Morena (166) e Mineração Itamaracá (125), controlada pela Anglo. 


A Anglo disse que "desde 1996 mantém diversos pedidos de pesquisa mineral junto ao DNPM, a fim de identificar e mapear recursos minerais que possam abrigar operações no futuro". Representantes da Serra Morena não foram encontrados. As demais companhias não se manifestaram.


O substitutivo prevê que as solicitações sejam anuladas e que sejam feitas licitações para a pesquisa nas reservas. Mas as mineradoras as mantêm ativas, na expectativa que as regras atuais sejam mantidas. Hoje, os pedidos são analisados por ordem de chegada no DNPM. 


O que está por trás desse movimento é a recente alta dos preços das commodities e a proximidade do esgotamento das reservas minerais de qualidade no mundo, o que tem levado empresas a pressionar o governo a liberar a mineração em terras intocadas. Desde 2008, o preço do ouro dobrou.
Não por acaso, é ele o alvo de metade (2.263) dos pedidos. 


A liberação de novas fronteiras exploratórias deve ser entendida ainda no bojo das mudanças do Código Mineral no país: 


- Há uma tendência na América do Sul de os governos mudarem as regras da mineração, com o objetivo de fomentar o desenvolvimento econômico e, ao mesmo tempo, ampliar a participação do Estado nessas riquezas, visando à obtenção de recursos para programas sociais. É o chamado neoextrativismo - diz Bruno Milanez, da Universidade Federal de Juiz de Fora, que estuda mineração e conflitos ambientais. 


O maior número de solicitações (664) incide sobre as terras dos ianomamis. Segundo cálculos do Instituto Socioambiental (ISA), esses requerimentos cobrem 55% de seu território. Casos ainda mais alarmantes são os das reservas de Xikrin do Cateté e Baú, ambas no Pará, onde os pedidos cobrem 100% e 93% do território. 


Além do risco de degradação ambiental, representantes do movimento indígena temem que a mineração crie uma dependência dos índios em relação a recursos externos, uma vez que estão previstos no substitutivo repasses de no mínimo 5% do faturamento bruto das mineradoras para as comunidades afetadas. Receiam ainda que haja uma substituição das obrigações do Estado, como o provimento de saúde, por contrapartidas oferecidas pelas empresas. 


- Os povos indígenas que estão nas áreas de influência de grandes empreendimentos recebem cesta básica e dinheiro, o que inibe os mais velhos a passarem adiante conhecimentos tradicionais sobre lavoura e caça. O mesmo vai acontecer com a mineração. Quando a atividade acabar e a fonte de recursos cessar, as novas gerações não saberão tirar da terra sua subsistência - diz Cleber Buzatto, secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Constituição prevê consulta a índios 


Os críticos também se opõem ao substitutivo porque este não prevê poder de veto aos índios. Se eles não aceitarem a mineração em suas terras, uma comissão da qual não participam, decidirá por eles.

Outro ponto polêmico é que não há salvaguardas para as reservas. Em tese 100% das terras podem ser alvo de mineração. 


A Constituição não prevê que os índios deem a palavra final sobre a lavra em suas reservas. No parágrafo terceiro do artigo 231, é dito que essa decisão cabe ao Congresso, mas os indígenas devem ser consultados, "ficando-lhes assegurada participação nos resultados da lavra, na forma da lei". Na ausência desta, vale a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho sobre Povos Indígenas e Tribais, ratificada pelo Brasil em 2002, que insiste na consulta aos índios "por meio de procedimentos adequados". 


O problema é que ainda não há parâmetros para esses procedimentos - se a audiência deve ser em língua nativa, por exemplo. Um grupo interministerial foi formado com esse intuito em 2012, mas não chegou a conclusão alguma. A Funai, então, decidiu organizar as audiências, que serão realizadas até junho. 


Sobre a mineração em terras indígenas, a Fundação afirma que as discussões devem ser feitas "em conjunto com o Estatuto dos Povos Indígenas", sob revisão. Para os críticos, o tema é tratado em projeto de lei para dar celeridade à sua aprovação.

O Ministério de Minas e Energia, por sua vez, diz que "a regulamentação das atividades em terras indígenas é essencial para formalização das lavras ilegais".


- O texto da Constituição foi o possível em 1988, tamanha a pressão das mineradoras. Não podemos deixar os índios de fora da discussão - afirma o antropólogo Ricardo Verdum, da Universidade de Brasília. 


O autor do substitutivo, o deputado federal Édio Lopes (PMDB/RR), frisa que seu projeto cria fundos a longo prazo para que os índios não fiquem desprotegidos e que as reservas de povos cujo "estágio cultural" não lhes permita entender o debate serão preservadas. Ele descarta o poder de veto aos índios e espera votar o projeto ainda este ano.

- A mineração em terras indígenas vai acontecer com ou sem consentimento, então, é melhor que eles negociem.

Niterói ganha sua primeira estação meteorológica

Folha de Niterói

Em parceria com o governo estadual, Niterói iniciou quarta-feira, 27 de fevereiro, a implantação de sua primeira estação meteorológica.

O equipamento, que vai transmitir em tempo real informações sobre umidade, pressão atmosférica, índice pluviométrico, além da direção e velocidade dos ventos, foi instalado no Morro da Detenção, no Parque das Águas, no centro do município.

A instalação foi acompanhada pelo viceprefeito de Niterói, Axel Grael. Ele disse que, com a estação, o município terá mais capacidade de desenvolver ações preventivas.

O equipamento da estação meteorológica foi instalado em uma torre com altura de cerca de dez metros. O local será cercado, gramado e terá um portão. Inicialmente, entre 15 a 20 dias, a estação funcionará em caráter experimental e passará por uma fase de testes.

De acordo com Axel, o equipamento colherá dados da região do Centro. As informações coletadas serão transmitidas para os meteorologistas do órgão municipal. eles vão decodificar essas informações, elaborar os boletins climáticos da cidade e passar os dados para a sociedade.

O viceprefeito revelou que as informações serão transmitidas em tempo real. Segundo ele, os dados possibilitarão a geração de séries históricas de eventos climáticos. 

Axel Grael lembrou, ainda, da parceria com a Prefeitura do Rio, que fez com que Niterói passasse a ter uma cadeira no Centro de Operações no Rio de Janeiro e produzisse suas próprias informações. Axel adiantou que o objetivo da Prefeitura de Niterói é instalar outras três estações meteorológicas - no Barreto, em Pendotiba e na Região Oceânica. Outros possíveis locais para intalação são Charitas e o quartel do Corpo de Bombeiros. 

Está nos planos, também, da administração municipal a implantação de estações de monitoramento do ar. 

Segundo Axel, serão implantados também nas comunidades os chamados Nudecs (Núcleos de Defesa Civil), que vão capacitar moradores sobre como agir em caso de fortes chuvas.     

04 março 2013

"A Antártica é um continente em risco", diz especialista chileno

EFE - Terra

"A Antártica é um continente em risco, sem dúvida", afirmou em entrevista com a Agência Efe o diretor do Instituto Antártico Chileno (INACH), José Retamales, um dos principais especialistas em nível mundial no "continente branco".

A Antártica modera o clima do planeta; os furacões no Golfo do México ou a existência do deserto mais seco do mundo no norte do Chile têm a ver com o que acontece nesta parte do planeta cuja extensão (14 milhões de quilômetros quadrados) é equivalente à da América do Sul.

"Mas também chega à Antártica toda a poluição do resto do mundo", adverte o responsável do INACH, para quem a principal ameaça para o "continente gelado" é o vertiginoso crescimento da população mundial, que triplicou nos últimos 60 anos.

"As temperaturas podem aumentar, e as secas também. Não quero ser alarmista, mas isso é algo que pode acontecer", advertiu.

Retamales, de 54 anos, dirige o INACH há quase 10 e, ao contrário de seus antecessores, que eram militares ou diplomatas, seu perfil é acadêmico e científico.

Engenheiro civil de profissão, José Retamales se formou em engenharia química na Inglaterra e foi reitor da Universidade de Magalhães (sul do Chile), além de ter feito parte do diretório de empresas petrolíferas e de energia nuclear.

Seu domínio dos idiomas (fala inglês, francês, alemão e espanhol) lhe permitiu intensificar os contatos com instituições científicas de todo o mundo.

Ciente de que o Chile sempre teve um olhar defensor da soberania da Antártica, mas também que "a ciência atualmente é muito competitiva no mundo todo", Retamales se propôs abrir o INACH e transformá-lo em uma instituição na qual o ingresso é por mérito.

"O que pude fazer foi possível também porque o país agora tem mais recursos", reconheceu o diretor do INACH, um órgão que depende do Ministério das Relações Exteriores e que até há poucos anos tinha sua sede em Santiago, a 2.200 quilômetros de Punta Arenas, a cidade onde agora tem sua base.

Graças ao crescimento econômico que o Chile vivenciou nos últimos anos, o orçamento desta instituição cresce anualmente cerca de 15%.

A proximidade geográfica do Chile com a Antártica contribui para que com esse orçamento seja possível desenvolver um programa científico ainda maior.

No passado, o Chile reivindicou a soberania territorial das ilhas Shetland do Sul, a península Antártica e a chamada Terra de O'Higgins, mas em 1959 aderiu ao Tratado Antártico (assinado atualmente por meio centena de países), que estabelece que o "continente branco" é patrimônio da humanidade.

Hoje em dia, o Chile optou por ter uma presença marítima maior que a de outros países no setor do continente onde mais incide a mudança climática, o que favorece os projetos de pesquisa.

"A Antártica também é política. Por isso, a China ou a Rússia estão disseminando bases por todo o continente, mas nós não podemos fazer isso", explica Retamales, que acha que falta uma maior cooperação entre os 28 países que atualmente desenvolvem pesquisas científicas nesta parte do planeta.

"E embora na Antártica não haja muitos votos - acrescentou -, interessa aos governos mostrar que se preocupam, porque isso também atrai apoios".

O diretor do INACH se diz convicto de que a Antártica pode ajudar a remediar a escassez enérgica no futuro.

"Da mesma maneira que o buraco na camada de ozônio mostrou que a humanidade pode danificar o planeta, o mesmo vai acontecer com a energia", afirmou.

"Quais são os caminhos para remediá-lo? O mundo terá que buscar processos mais eficientes que funcionem com menos energia, a temperaturas mais baixas, e nisso a Antártica pode nos ajudar bastante", disse.

Assim como os microorganismos antárticos são a solução para muitos dos problemas atuais, o modelo de desenvolvimento representa uma séria ameaça.

"Quanto tempo continuará a Antártica sem poluição? Não me atreveria a jurar que para sempre", opinou Retamales.

A onça-pintada contra a energia eólica

Bruno Calixto - Blog do Planeta - Época

No interior da Bahia, próximo ao local onde o Rio São Francisco foi barrado para a construção da hidrelétrica de Sobradinho, existe um santuário de conservação da Caatinga. O Boqueirão da Onça é uma região de mais de um milhão de hectares de vegetação nativa bem conservada, com poucos povoados humanos e uma biodiversidade muito grande para os padrões do semi-árido brasileiro. Há registros da existência da arara-azul-de-lear, uma espécie classificada como Vulnerável e, em 2006, descobriu-se que a área possui uma das poucas populações de onça ainda existentes da Caatinga. A onça é classificada como Criticamente em Perigo no bioma. Além disso, o Boqueirão possui as duas maiores cavernas da América Latina. Todas essas características fizeram com que a região fosse considerada prioritária para a conservação no Brasil.

Ambientalistas reivindicam a criação de uma unidade de conservação no local, e um projeto para transformar o Boqueirão em Parque Nacional existe desde 2002. No entanto, enquanto o projeto não anda, pesquisadores temem que esse santuário de conservação possa estar ameaçado, ironicamente, por outro campeão ambiental: a energia dos ventos. As usinas eólicas não lançam gases poluentes que causam o aquecimento global. Mas a sua construção também causa impacto – usa-se concreto, ferro, e muitas vezes é preciso derrubar a mata nativa para erguer as torres. Acontece que ao mesmo tempo que o Boqueirão da Onça é uma área prioritária para a conservação, é também uma das regiões com maior potencial de geração de energia pelo vento do Brasil.

Segundo Angela Kuczach, pesquisadora da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem, a instalação desses projetos eólicos não está sendo feita da forma adequada na região, o que coloca em risco não só onças e araras, como também a população local. “Ninguém é contra energia eólica. É energia limpa, não gera gases de efeito estufa. O problema é a forma que está sendo feito”, diz.

A pesquisadora voltou recentemente de uma viagem no local e encontrou um cenário preocupante. Estradas enormes foram abertas para transportar as torres, derrubando a mata nativa. Ainda não se sabe se a região suporta a construção dessas torres – a Caatinga é um bioma muito frágil, e qualquer mudança pode comprometer não apenas a biodiversidade como também a agricultura de subsistência da população. Mais preocupante ainda é a questão da água. Em uma região de pouca incidência de chuvas, a população local, que já conta com poucos recursos, vive com menos de 450 litros de água por família por semana. A construção das torres eólicas, no entanto, consome cerca de 150 mil litros de água. “Não existe uma avaliação sobre o quanto está sendo retirado de água da região. Não se sabe se essa água vai afetar as nascentes do Boqueirão da Onça, que abastecem toda a população do entorno, além da fauna e flora”, diz Angela.

A tese de que os parques eólicos estão sendo construídos sem o devido estudo de impacto ambiental é refutada pela Abeeólica, a associação das empresas do setor. Segundo Elbia Melo, presidente da associação, todos os empreendimentos passam por estudos ambientais antes mesmo de participar dos leilões do Ministério de Minas e Energia. “A empresa só consegue a licença depois de fazer um estudo muito apurado. O órgão licenciador não permite que parques eólicos sejam licenciados sem esse estudo”, diz.

A desconfiança de ambientalistas é de que esses estudos foram feitos às pressas, já que a expansão das eólicas acontece com muita rapidez. O primeiro leilão de energia eólica do governo federal foi feito em 2009. Em menos de dois anos, mais de 50 torres foram erguidas em toda a Bahia. O Plano Decenal de Expansão de Energia, da EPE, mostra que a região de Boqueirão da Onça é um dos principais focos de eólicas no Estado. Já foram instalados 48 MW em Sobradinho, 86 MW em Sento Sé e 180 MW em Casa Nova. A expecativa é que, em 2016, o Nordeste tenha mais de 450 projetos em funcionamento, com 12 mil MW de potência instalada.

“Essas empresas de energia eólica são importantes, geram energia limpa, trazem recursos para uma das regiões mais pobres do país. Nós só queremos que esses projetos sejam feitos do jeito certo”, diz Angela. Para ela, a única forma de conciliar esse rápido crescimento das eólicas na região é transformar o Boqueirão da Onça em uma unidade de conservação o mais rápido possível. “O parque tem que ser decretado rápido, com 600 mil hectares no mínimo, para suportar a população das onças. Isso garantiria a conservação do local”, diz Angela. Segundo ela, se a área da unidade de conservação for muito pequena, a fauna teria dificuldades para encontrar água e comida, e a região poderia se transformar em uma floresta vazia.

A proposta de criação do Parque Nacional do Boqueirão da Onça existe desde 2002. O projeto inicial previa a criação de uma unidade de conservação com mais de um milhão de hectares. A proposta não andou, e só foi retomada em 2008, quando foram feitas consultas públicas com a população local.

No projeto atual, o parque nacional foi substituído por um mosaico com três unidades de conservação que somam cerca de 850 mil hectares. Desses, apenas 320 mil hectares continuam com a proteção integral. 106 mil hectares foram definidos como monumento natural, onde estão as cavernas, e 423 mil foram definidos como Área de Proteção Ambiental (APA). Essa classificação permite a manutenção de atividades produtivas. Segundo o ICMBio, a mudança foi feita para evitar conflitos com a população e permitir a existência de atividade econômica – incluindo as usinas eólicas – na região. O instituto promete encaminhar o projeto ao Ministério do Meio Ambiente no final de março. A partir de então, caberá ao ministério decidir enviar o parque ao gabinete da presidente Dilma Rousseff. É importante que o parque saia do papel, porque o Brasil precisa da energia dos ventos, mas não pode deixar de conservar suas cavernas, onças e araras.

Brasil cria modelo climático inédito no mundo

Com apoio do governo, cientistas brasileiros criam primeiro sistema nacional de simulação do clima global. A iniciativa vai aumentar o número de informações a respeito dos fenômenos climáticos do Brasil e do continente sul-americano, que serão usadas no próximo relatório do IPCC sobre o tema

Débora Spitzcovsky
Planeta Sustentável


O Brasil anunciou nesta terça-feira (19) uma contribuição inédita para os debates internacionais a respeito do futuro climático do planeta: trata-se do Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre (BESM), o primeiro sistema nacional de simulação do clima global, que está sendo produzido desde 2008 por cientistas locais e que foi apresentando oficialmente ontem, durante evento em São Paulo.

A iniciativa promete trazer informações mais detalhadas a respeito dos fenômenos climáticos tropicais que acontecem em todo o continente sul-americano e, sobretudo, no Brasil e que ainda são pouco conhecidos na comunidade internacional. Entre eles, a variação de temperatura das águas do Atlântico Sul e o desmatamento da Amazônia, do Cerrado e de outros biomas brasileiros, que podem trazer consequências climáticas continentais e até globais.

Por seu ineditismo, as informações produzidas pelo modelo climático brasileiro devem ser incorporadas ao AR5 - quinta edição do relatório do IPCC a respeito das mudanças climáticas, que está previsto para ser lançado no segundo semestre de 2013 -, dando ao Brasil o título de primeiro país da América Latina e segundo do Hemisfério Sul - atrás, apenas, da Austrália - a contribuir para os modelos de mudanças climáticas globais produzidos pela ONU.

Além de colaborar internacionalmente, o BESM trará benefícios locais, como:
- o aprimoramento da capacidade de previsão do tempo e da ocorrência de eventos climáticos extremos no Brasil, e
- a formação de uma nova geração de pesquisadores climáticos no país, que será mais capacitado para a produção de ciência de qualidade nessa área.

O modelo climático brasileiro foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e pelo Programa Fapesp de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) no supercomputador Tupã, uma máquina de R$ 50 milhões usada para rodar toda a matemática por trás das previsões. O equipamento foi pago pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTI) e pela Fapesp.

Os primeiros resultados obtidos por meio do BESM foram apresentados ontem durante o evento em São Paulo. Entre eles, está a constatação de que o desmatamento da Amazônia aumenta a ocorrência do fenômeno El Niño.
 

03 março 2013

No Pantanal, pesquisadores conseguem flagrar filhote de tatu-canastra pela 1ª vez

BBC Brasil
  • Armadilhas foram instaladas para flagrar mãe e filhote no pantanal Armadilhas foram instaladas para flagrar mãe e filhote no pantanal
Uma equipe de pesquisadores registrou no Pantanal o que dizem ser as primeiras imagens já feitas de um filhote de tatu-canastra (Priodontes maximus).

As fotos inéditas do tatu foram feitas na Fazenda Baía das Pedras, no município de Aquidauana, no Pantanal sul-matogrossense.

Desde novembro de 2011 a equipe do Projeto Tatu-Canastra Pantanal monitora uma fêmea adulta da espécie com a ajuda de rádiotelemetria e armadilhas fotográficas.

Em junho de 2012 a fêmea foi observada pela primeira vez compartilhando sua toca com um macho adulto. Eles permaneceram juntos por alguns dias mas, depois, o macho desapareceu e nunca mais foi visto.

A fêmea continuou com seu comportamento e alimentação normais até que, em novembro, o comportamento mudou. Em vez de mudar de toca periodicamente, ela começou a reutilizar a mesma toca por mais de 30 dias.

A partir daí, a equipe de pesquisadores começou a monitorar mais de perto a toca até que, três semanas depois, as armadilhas fotográficas conseguiram capturar o focinho do filhote quando a fêmea entrava de volta na toca.

A primeira foto de corpo inteiro do filhote foi tirada cerca de quatro semanas após o nascimento, quando os dois animais mudavam de toca e o filhote seguiu a mãe por aproximadamente 200 metros.

"Documentar o nascimento de um filhote de tatu-canastra é um passo extraordinário que nos ajudará a compreender a biologia e reprodução desta espécie tão enigmática para que finalmente possamos conservá-la", afirmou Arnaud Desbiez, coordenador do Projeto Tatu-Canastra Pantanal.

Os cientistas já tinham observado rastros de um tatu-canastra adulto seguido de outro menor, o que, de acordo com eles, potencialmente confirma a gestação de apenas um filhote por vez.

No entanto, os pesquisadores ainda não sabem, por exemplo, qual é o intervalo entre uma gestação e outra.

"Isso ilustra a importância de estudos de longo prazo e a necessidade de árdua dedicação da equipe a fim de obter as informações cruciais para a conservação de espécies raras", disse Desbiez. 


Vulnerável

O tatu-canastra pode chegar a 1,5 metro (incluindo a cauda) e pesar cerca de 50 quilos. Ele tem enormes garras, que podem chegar a medir até 20 centímetros, e hábitos noturnos.

O habitat do tatu-canastra está espalhado por toda a América do sul. Ele é encontrado em florestas tropicais e também no cerrado, mas seu comportamento reprodutivo é pouco conhecido.


A espécie está classificada como "vulnerável" pela Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em Inglês).

A queda da população do tatu-canastra pode estar associada à perda de habitat natural.

Os pesquisadores do projeto relatam que a maior parte dos moradores da área onde eles concentram os estudos do tatu-canastra, muitos deles nascidos e criados na região, relatam nunca ter visto o animal, acreditando que ele já estava extinto na região.

O Projeto Tatu-Canastra Pantanal teve início em julho de 2010, na Fazenda Baía das Pedras e é uma parceria com a ONG escocesa Royal Zoological Society of Scotland, além da ONG brasileira Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) e outras instituições em vários países.