13 maio 2011

A energia nuclear no mundo e no Brasil após Fukushima

Valor

O acidente de Fukushima arrefeceu o aquecimento que a indústria nuclear experimentava em anos recentes, nos países industrializados. Partidos ligados ao movimento verde ganham espaço e políticos que apoiavam as usinas nucleares estão revendo suas posições.
 
Na Alemanha - supridora da tecnologia das usinas de Angra - a expansão do parque nuclear foi cancelada e a chanceler Angela Merkel já declarou que as usinas existentes "serão desativadas o mais cedo possível".

 
No Brasil, entretanto, os políticos não têm mostrado sensibilidade para rever posições equivocadas. No dia seguinte ao acidente de Fukushima, o ministro de Minas e Energia declarou que "as usinas de Angra são 100% seguras e o plano de construir outras não será revisto".

 
Angra está perto dos centros mais densamente povoados e industrializados do Brasil. Um acidente nuclear ali provocaria perdas humanas e paralisaria grande parte da economia, como está acontecendo no Japão pós-Fukushima. Não precisamos correr esse risco. Apesar das conhecidas questões ambientais, a alternativa mais racional para se expandir o sistema elétrico é aproveitar o potencial hidráulico, em combinação com parques eólicos e com biomassa, complementados por térmicas flexíveis.
 

De acordo com a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o potencial hidrelétrico brasileiro é de 267,8 GW, dos quais 188,5 GW não estão em aproveitamento, aí incluído o potencial das pequenas hidrelétricas, que é de 17,5 GW, como se vê na tabela. A região norte (essencialmente a Amazônia) detém 65% do potencial não aproveitado.
 
Se, por motivos de caráter social e ambiental, os planos de expansão do sistema elétrico forem reformulados, limitando-se em 80% o potencial a aproveitar na Amazônia - e se as hidrelétricas amazônicas forem projetadas para inundar 0,3 km2 /MW, a área alagada pelos reservatórios será de aproximadamente 27 mil km2, incluindo a área já ocupada pelos rios nas estações chuvosas. Isso equivale a 0,5% da área da região - uma alteração perfeitamente assimilável pela natureza.

 
É indispensável que se faça um inventário dos aproveitamentos hidráulicos e eólicos, ordenando os por mérito econômico, social e ambiental; e que se institucionalize um processo decisório submetido a controle público, para organizar a sequência das usinas a serem construídas e descartar as que apresentarem problemas insuperáveis.

 
Se esse processo já estivesse em vigor em 2003, é possível que um aproveitamento como o de Belo Monte tivesse dado lugar a hidrelétricas com reservatórios pequenos, escalonados ao longo dos rios, com melhores atributos sociais e ambientais.

 
Mediante uma política energética que respeite o mérito dos projetos, as empresas públicas e o empresariado do setor de geração elétrica deverão se transformar nos maiores defensores do ecossistema amazônico, pois alterações causadas por desmatamentos comprometerão a vazão dos rios, inviabilizando as próprias hidrelétricas.

 
De acordo com um levantamento feito pelo Centro de Pesquisas de Energia Elétrica da Eletrobrás, em conjunto com as firmas Camargo-Schubert e True Windows Solutions há dez anos, o potencial eólico brasileiro para ventos com velocidade média superior a 7 m/s é de 143,47 GW. Em razão da evolução tecnológica, como a maior altura das torres dos aerogeradores, e do avanço nas medições de inventário, há indicações de que esse potencial poderá dobrar.

 
A interligação dos sistemas hidrelétrico e eólico permitirá que parte da energia gerada nos parques eólicos seja acumulada na forma de água nos reservatórios hidrelétricos - de modo semelhante às malhas termo-eólicas de alguns países europeus, nas quais a energia eólica permite que se economize gás natural ou óleo combustível.

 
Esse sistema hidroeólico poderá operar em sinergia com usinas termelétricas a biomassa, pois a frota automotiva brasileira é em grande parte alimentada com etanol, forçando a produção de bagaço em escala suficiente para alimentar termelétricas de pequeno porte, totalizando uma capacidade da ordem de 15 GW a partir de 2.012, segundo a Única.

 
Portanto, o sistema interligado hidroeólico-térmico teria uma capacidade global de 425 GW.

 
Como reserva de segurança, esse sistema teria um pequeno parque de usinas a gás, flexíveis, que somente operariam em períodos hidroeólicos críticos. Essa solução tem custos de investimento inicial significativamente inferiores aos da alternativa nuclear equivalente, sem exigir os custos e cuidados das gerações futuras, por séculos, para o combustível nuclear irradiado, de cerca de 1 mil toneladas por reator.

Por outro lado, segundo o IBGE, a população brasileira deverá se estabilizar em 215 milhões de habitantes por volta do ano 2.050, de modo que daí em diante o referido sistema integrado poderá oferecer continuamente cerca de 8.650 kWh firmes por habitante por ano, superior a muitos países de alta qualidade de vida. Com isso, o Brasil seria o primeiro grande país a ter um sistema elétrico de fato sustentável, econômica e socioambientalmente.


Joaquim Francisco de Carvalho é doutor em Energia pela USP, pesquisador do programa de pós-graduação em Energia da USP (PPGE/USP), ex-diretor industrial da Nuclen, primeiro presidente do IBDF (precursor do Ibama).


Joaquim F. de Carvalho e Ildo Sauer - é diretor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo, Coordenador do PPGE/USP, Ph.D. em Engenharia Nuclear pelo MIT, ex-gerente de projeto do circuito primário do reator nuclear da Marinha (1986-89)

10 maio 2011

Exposição mostra valor da Mata Atlântica no dia a dia

Débora Spitzcovsky - Planeta Sustentável

A partir da próxima quinta-feira, dia 5 de maio, a exposição itinerante Sua Mata, Sua Casa, promovida pela Fundação SOS Mata Atlântica, chega a São Paulo para conscientizar as pessoas sobre a importância do bioma no nosso dia a dia.


Imitando o formato de uma casa, a exposição pretende mostrar aos visitantes a presença da Mata Atlântica na nossa rotina, a partir de ferramentas interativas, como iPads, mesas touchscreen e televisores. O evento ainda conta com uma porção de atividades gratuitas - entre elas, palestras e shows.

Montada para comemorar os 25 anos da Fundação SOS Mata Atlântica, a exposição Sua Mata, Sua Casa já passou por quatro capitais brasileiras e, até janeiro de 2012, percorrerá mais sete: Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Vitória, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Recife e Brasília.

Ao visitar a exposição, o público ainda terá a oportunidade de opinar sobre as necessidades de cada região para aumentar a preservação da Mata Atlântica. As sugestões serão transformadas em um dossiê, que será entregue em Brasília e, também, na Rio+20 - Conferência das Nações Unidas em Desenvolvimento Sustentável, que acontecerá em junho de 2012.

Exposição Sua Mata, Sua Casa
Data: 5 a 29 de maio
Horário: de segunda a sábado, das 10h às 22h, e aos domingos, das 12h às 20h
Local: Praça de eventos do Shopping Metrô Tatuapé
Endereço: Rua Domingos Agostim, nº 91, Tatuapé - São Paulo/SP
Mais informações por e-mail

Estados do Nordeste ainda sofrem consequências das chuvas

RAFAEL GREGORIO
SÉRGIO MADURO

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA DE SP

A intensidade da chuva diminuiu no Nordeste brasileiro nesta terça-feira (10), principalmente nos Estados mais afetados -- Pernambuco, Paraíba, Alagoas e Rio Grande do Norte. O acúmulo de água, no entanto, ainda causa transtorno à população.


Em Pernambuco, o número de municípios em situação de emergência saltou de 16, na quinta-feira passada, para 26. Outros nove continuam em estado de calamidade pública desde o último dia 5: Água Preta, Barreiros, Catende, Cortês, Jaqueira, Maraial, Palmares, Primavera e Xexéu.

Segundo o Lamepe (Laboratório de Meteorologia de Pernambuco), os rios Una, Capibaribe e Mundaú seguem acima do nível normal, mas sem registros de transbordamentos.

A Codecipe (Coordenadoria Estadual da Defesa Civil) afirmou que o Estado contabiliza 10.671 famílias desalojadas, transferidas de suas casas por risco iminente de inundação ou acidentes. Outras 5.137 tiveram as casas destruídas e estão desabrigadas. As prefeituras disponibilizaram 218 abrigos públicos para a população afetada. Interessados em efetuar doações devem procurar a Defesa Civil de seus Estados com comida, água e roupas.

A Secretaria Nacional de Defesa Civil liberou R$ 18 milhões para os nove municípios em estado de calamidade pública em Pernambuco.

Na manhã de hoje, o governador Eduardo Campos (PSB) inaugurou uma sala de situação da Agência Pernambucana de Águas e Clima, com 93 funcionários e sete plataformas integradas de coleta de dados. Segundo Campos, a tecnologia deverá auxiliar no monitoramento da bacia hidrográfica do Estado e minimizar danos humanitários até soluções definitivas: "Antes da construção das barragens, esse é um instrumento para dar segurança à população ribeirinha", afirmou.

ALAGOAS


Segundo informações da Associação dos Municípios Alagoanos, as cidades de Jacuípe, Jundiá, São Luis do Quitunde, Novo Lino, Porto de Pedras, Japaratinga, Colônia Leopoldina, Campestre e São Miguel dos Milagres decretaram situação de emergência devido às chuvas.

A situação mais grave, segundo Margarete Bulhões, 45, secretária da associação, é a do município de São Luís do Quitunde, que registrou, em 29 de abril, a morte de uma menina por soterramento. Bulhões também disse que, no último informativo da Defesa Civil, datado de 4 de maio, havia registro de mil desalojados (em casa de parentes) e 4.500 desabrigados (em abrigos públicos). Os números subiram nos últimos dias e, agora, 6.200 pessoas estão desabrigadas e desalojadas em Alagoas.

A região norte do Estado foi a mais atingida, especialmente os vales dos rios Mundaú e Paraíba.

O diretor de gestão ambiental da Secretaria do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos de Alagoas, José Gino de Oliveira, 39, disse que a situação dos rios está sob controle: a chuva diminuiu e não há risco iminente de transbordamentos. Ele informou que a situação em Jacuípe (a 124 km de Maceió), que chegou a ficar isolada por alguns dias, já voltou ao normal.

PARAÍBA

Na Paraíba, as fortes chuvas que ainda atingem o Estado deixaram entre 800 e 900 famílias desalojadas, num total de 4.000 pessoas. Não há mortos ou feridos, mas treze municípios seguem em estado de emergência.

A lista inclui a capital, João Pessoa, onde alguns bairros estão em situação de risco, Campina Grande e Bayeux. Juntas, as três cidades abrigam mais de 1,1 milhão de pessoas. Outras cidades em estado de emergência são Arara, Areial, Barra de Santana, Ingá, Umbuzeiro, Itabaiana, Natuba, Pilar, Salgado de São Félix e Santa Rita.

Segundo o secretário-executivo de Infraestrutura do Estado, Carlos Alberto Dantas Bezerra, a ajuda federal ainda não chegou. "O governador (Ricardo Coutinho, do PSB) comunicou o ministro da Integração Nacional (Fernando Bezerra de Souza Coelho, do PSB) e o secretário-nacional (coronel Humberto de Azevedo Viana Filho), mas ainda não recebemos nada", afirmou.

A Secretaria Nacional de Defesa Civil confirmou a liberação de recursos para Pernambuco e informou que o pedido dos municípios paraibanos está pendente por falta de documentos.

CHUVAS MENOS INTENSAS


Choveu em Recife e Maceió na manhã desta terça. Na capital pernambucana, ainda há nuvens, mas sem chuva. Em João Pessoa e Natal, choveu de madrugada e no início da tarde.

Segundo a meteorologista do Cptec/Inpe Mônica Lima, a tendência para os próximos dias é de arrefecimento da chuva. "[Esperamos] Um dia instável entre Alagoas e Pernambuco, com alguma chuva mais forte em PA e RN, mas sem atenção", afirmou.

Vendaval danifica prédios públicos em Tamandaré (PE)

MARCIO AQUILES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA DE SP

Um vendaval destelhou imóveis e danificou diversos prédios públicos em Tamandaré, no litoral sul de Pernambuco, no fim da tarde de segunda-feira (9).


Segundo a Defesa Civil do município, foram atingidos os prédios da Secretaria de Assistência Social, o Centro de Referência Especializada da Assistência Social e o Hospital José Múcio Monteiro. A avaliação dos estragos está sendo feita por técnicos.

A sala de atendimento do Bolsa Família também foi danificada, e os serviços estão temporariamente suspensos. Ainda não há previsão para o retorno das atividades.

Um morador da cidade filmou o fenômeno, e o material está sendo analisado por técnicos do Laboratório Meteorológico de Pernambuco (Lamepe).

09 maio 2011

Designer cria carro biodegradável


FOLHA DE SP
DE SÃO PAULO

O designer filipino Kenneth Cobonpue apresentou nesta semana, em seu estúdio, o protótipo de um carro biodegradável.


Batizado de Phoenix, o carro conceito foi desenvolvido em parceria com o designer alemão Birkner Albrecht.

O nome é inspirado na ave da mitologia grega que renasce das cinzas após morrer queimada.

O Phoenix foi criado em apenas dez dias, com materiais como bambu, vime, aço e náilon. Cobonpue costuma criar móveis com os mesmos materiais.


Divulgação
Phoenix, carro conceito biodegradável apresentado por designer filipino
Conceito Phoenix é biodegradável e tem data de validade

O modelo, de acordo com seus criadores, tem data de validade. O carro foi projetado para durar de 10 a 20 anos em locais industrializados e até 30 anos em áreas rurais.

A principal vantagem do Phoenix é que ele pode ser descartado sem danos ao ambiente depois de "vencido".

O modelo ecologicamente correto ainda não tem motor, mas os criadores estudam adotar um propulsor elétrico. O desafio é criar um sistema de baterias de baixo peso.

Segundo Kenneth Cobonpue, como outros protótipos, o Phoenix não tem previsão de ganhar as ruas, mas serve como referência para a pesquisa de uso de materiais alternativos na indústria.

Norte de MG pode virar deserto em 20 anos

Desmatamento, agropecuária e mudanças climáticas deixarão um terço do Estado com suas terras improdutivas

Segundo o governo de MG, é preciso R$ 1,3 bi para frear o processo; governo federal investe R$ 6 mi em todo o país


RAPHAEL VELEDA - FOLHA DE SP

DE BELO HORIZONTE

Um terço do território de Minas Gerais pode virar "deserto" em 20 anos. A conclusão é de um estudo encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente ao governo mineiro e concluído em março.

 
O desmatamento, a monocultura e a pecuária intensiva, somados a condições climáticas adversas, empobreceram o solo de 142 municípios do Estado.

 
Se nada for feito para reverter o processo, de acordo com o estudo, essas terras não terão mais uso econômico ou social, o que vai afetar 20% da população mineira.

 
Isso obrigaria 2,2 milhões de pessoas a deixar a região norte do Estado e os vales do Mucuri e do Jequitinhonha.

 
"A terra perde os nutrientes e fica estéril, não serve para a agricultura nem consegue sustentar a vegetação nativa", afirma Rubio de Andrade, presidente do Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas, responsável pelo estudo.

 
A região engloba cerrado, caatinga e mata atlântica.

 
Segundo o governo do Estado, é preciso investir R$ 1,3 bilhão nas próximas décadas para frear o processo, que já causa danos no semiárido mineiro. Lá estão 88 das 142 cidades consideradas suscetíveis à desertificação.

 
Vladia Oliveira, professora do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará, disse que áreas desertificadas são diferentes de desertos naturais porque passam por um acentuado declínio de biodiversidade até se tornarem estéreis. 

 
"Já os desertos são ecossistemas com sustentabilidade, ainda que com baixa diversidade. Eles estão vivos."

PROGRAMA NACIONAL


O estudo foi encomendado para o Programa de Ação Nacional de Combate à Desertificação, que terá R$ 6 milhões neste ano para combater a desertificação no país.

 
Andrade diz que, para reduzir o fenômeno, é preciso aumentar as reservas naturais de vegetação e recuperar os recursos hídricos.

 
O agricultor Geraldo Moreno, 50, dono de três hectares em Espinosa (700 km de BH), já sente as mudanças em sua pequena lavoura de feijão.

 
"Se der para [alimentar] a família dá para comemorar", diz ele, que sustenta mulher e quatro filhos com a terra.

 
"Aqui não chove quase nada e não tenho dinheiro para adubar a terra. O que salva são as cabras, mas estão magras", diz o mineiro, que recebe verba do Bolsa Família para complementar a renda.

 
O governo pretende reduzir o espaço destinado ao gado nas áreas de caatinga e restringir atividades prejudiciais ao meio ambiente, como a extração de carvão.

 
"A população tem de se conscientizar de que, se essas ações não forem tomadas, nada mais poderá ser produzido", diz Andrade.