20 abril 2011

O custo de Belo Monte

Artigo de Felício Pontes Jr - O Globo
 

A tecnologia para exploração da energia solar sempre foi apresentada como de alto custo, bastante superior aos de outras fontes de energia. Por isso, um país como o Brasil, privilegiado pela alta incidência de insolação em seu território, deixou de investir na tecnologia solar em favor de outras fontes, principalmente a hídrica, responsável hoje pela geração de mais de 70% da energia no País. No entanto, esse argumento, o dos altos custos, não se justifica mais.

Nos Estados Unidos, dois projetos desenvolvidos na Califórnia de aproveitamento da energia térmica utilizando espelhos para a concentração de calor, Ivanpah e Blythe, provam que os custos dessa tecnologia já são bastante menores. O projeto Ivanpah, da empresa Brightsource, dobra a produção de energia solar no país. É prevista a geração de 370 MW de energia firme. São três usinas que, no total, terão um custo de R$ 3,4 bilhões. Já o projeto Blythe, das empresas Chevron e Solar Millennium, pretende produzir 960 MW ao custo de R$ 9,6 bilhões.

Se multiplicássemos o custo para geração de um megawatt nesses dois projetos de matriz solar por 4 mil megawatts médios – a quantidade, sendo otimista, de geração de energia prevista no projeto hidrelétrico de Belo Monte – teríamos um total de R$ 38 bilhões, no caso de Ivanpah, e de R$ 36,7 bilhões, se utilizarmos os valores relativos a Blythe.

Na primeira ação judicial contra Belo Monte, proposta em 2001, o governo dizia que a usina custaria R$ 10,4 bilhões. Ao pedir empréstimo ao BNDES, em 2011, o consórcio de empresas para fazer Belo Monte solicitou R$ 25 bilhões, o que representaria em torno de 80% dos custos. Logo, o custo oficial seria de R$ 31,2 bilhões. Nesse custo não estão previstos o valor do desmatamento que pode atingir 5,3 mil km² de floresta (segundo o próprio consórcio), o valor de 100 km de leito do Xingu que praticamente ficará seco, a indenização a povos indígenas e ribeirinhos localizados nesse trecho, todos os bairros de Altamira que estão abaixo da cota 100 e, portanto, serão inundados… só para mostrar alguns exemplos.

Os custos finais de Belo Monte ainda são incertos, graças ao descumprimento das leis do licenciamento ambiental em vários momentos. Conforme apontou o relatório de análise de riscos feito por especialistas e intitulado “Megaprojeto, Megarriscos”, Belo Monte tem elevados riscos associados a incertezas sobre a estrutura de custos de construção do empreendimento, referentes a fatores geológicos e topológicos, de engenharia e de instabilidade em valores de mercado. Tem elevados riscos financeiros relacionados à capacidade de geração de energia elétrica, que é muito inferior à capacidade instalada. E tem riscos associados à capacidade do empreendedor de atender obrigações legais de investir em ações de mitigação e compensação de impactos sociais e ambientais do empreendimento.

Assim, computando-se todos os custos socioambientais que normalmente estão fora do orçamento das hidrelétricas na Amazônia (vide Tucuruí, Jirau, Santo Antônio e Balbina) e mais os incertos custos da própria obra (como escavações), pode-se afirmar que o valor da energia solar já é competitivo com o de Belo Monte. Se não fosse, algumas das maiores empresas do mundo não estariam nessa área. O Grupo EBX investe na primeira usina solar comercial do País, no Ceará, a MPX Solar, com 4,4 mil painéis fotovoltaicos e capacidade de abastecer 1.500 residências. E a Google investe US$ 168 milhões no projeto Ivanpah.

Mas, enquanto países de clima temperado e com territórios muito menores, como a Alemanha e a Espanha, produzem mais energia a partir do sol do que o Brasil, aqui o governo prefere impor um modelo ultrapassado. E que agora não tem mais a vantagem de ser mais barato.

Em Belo Monte, senhores investidores, tenham certeza de que todos esses custos socioambientais serão cobrados se a barragem vier a ser construída.

Felício Pontes Jr é Procurador da República no Pará.

Governo pede mais tempo à OEA para responder sobre Belo Monte

Órgão internacional pediu a paralisação da obra da hidrelétrica do Xingu

Jornal da Energia

Da redação, com informações da Agência Brasil


A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA), prorrogou o prazo para que o governo brasileiro se posicione sobre medida cautelar que pede a suspensão do processo de licenciamento da hidrelétrica Belo Monte (11.233MW), que está sendo construída no Rio Xingu, no Pará. Segundo o órgão, o próprio governo pediu mais prazo e, com isso, o Brasil terá até a próxima terça-feira (26/4) para se manifestar. O prazo inicial dado pela CIDH para a resposta era de 15 dias e terminou na segunda-feira (18/4).

A medida cautelar solicita a paralisação do projeto de Belo Monte até que sejam ouvidas as comunidades indígenas que vivem na região. Outra reivindicação é que os estudos de impacto ambiental, apresentados aos índios, sejam traduzidos para a língua indígena e que o Brasil adote medidas “vigorosas e abrangentes” a fim de proteger a vida dos integrantes das comunidades locais.

A decisão da CIDH é uma resposta à denúncia encaminhada, em novembro de 2010, por uma série de organizações não-governamentais (ONGs), reunidas no Movimento Xingu Vivo Para Sempre. De acordo com a denúncia, as comunidades indígenas e ribeirinhas da região não foram consultadas de forma apropriada sobre o projeto.

Embora ainda não tenha respondido à OEA, o governo já anunciou que não abre mão da construção de Belo Monte, que será a terceira maior hidrelétrica do mundo. Até o momento, o empreendimento tem apenas uma licença parcial do Ibama para iniciar o canteiro de obras.

Consulta Pública

Ainda nesta quarta-feira (20/4), o governo anunciou que está aberta a consulta pública para formar um comitê gestor na região do Rio Xingu, no Pará, onde se localiza o canteiro de obras de Belo Monte. De acordo com informações da Secretaria-Geral da Presidência, a consulta servirá para que entidades da sociedade civil indiquem representantes ao Comitê Gestor do Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Xingu (PDRS-Xingu).

As indicações poderão ser feitas até o dia 6 de maio para 16 vagas de titulares e suplentes. O convite é endereçado a entidades sindicais de trabalhadores urbanos, rurais e pescadores, movimentos sociais e organizações ambientais.

A inscrição poderá ser feita no endereço eletrônico articulacaosocial@presidencia.gov.br.

Mar avança e autoridades decretam situação de emergência no litoral cearense

Angélica Feitosa
Especial para o UOL Notícias
Em Fortaleza 

 
O avanço do mar provocou destruição no litoral cearense. Tanto nas faixas de praia do Litoral Leste quanto do Oeste, já é possível reparar erosão intensa, dunas destruídas, casas devastadas pela ação violenta das ondas. A cidade de Cascavel (60 quilômetros de Fortaleza) decretou situação de emergência por conta da ação do mar na praia da Caponga, litoral leste do estado.

Em Mundaú, litoral oeste, a destruição tem espantado turistas. Localizada na cidade de Trairi (124 quilômetros de Fortaleza), as dunas da praia são um atrativo para visitantes do mundo inteiro. Várias pousadas, casas e algumas das luxuosas casas de veraneio foram completamente ou parcialmente destruídas pelo mar. A luta agora é pela preservação do que sobrou.

“Estamos trabalhando para agilizar a construção de uma barreira, mas o município não tem condições de bancar sozinho a obra”, informa o secretário de Infraestrutura de Trairi, Carlos Holanda. Segundo ele, trabalho similar resolveu o mesmo problema em outro importante destino turístico do Ceará, na praia de Flexeiras, também em Trairi. Os custos, pela previsão do secretário, serão da ordem de R$ 1,5 milhão para a construção de 1400 metros de barreira. O projeto aguarda o aval do Ministério da Integração Nacional.

No outra margem do litoral cearense, a praça de eventos da Praia da Caponga, recém-reformada, foi devastada pela força das ondas. Com o decreto da situação de emergência da cidade de Cascavel, o município espera que nos próximos dias o valor de aproximadamente R$ 1 milhão seja liberado. De acordo com o secretário de Turismo, Cláudio Hagihara, o intuito é realizar a construção de uma barreira de pedras para tentar conter o avanço do mar. Segundo o chefe da Defesa Civil da cidade, Davi Garcês, o temor é que o mar chegue a entrar na cidade. “Nos últimos 20 anos, foi o maior avanço do litoral”, opina Garcês.

Em Icapuí, Litoral Leste do Ceará, a praia da Barrinha é a mais prejudicada. O mar já avançou cerca de 200 metros e 10 casas tiveram de ser demolidas antes que fossem destruídas pelas marés altas. As construções nas faixas de praia do litoral cearense são intensas. O mar já avançou entre 150 e 300 metros, de acordo com o Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), desde a década 1990. As praias de Pacheco, Icaraí e Cumbuco, em Caucaia (Região Metropolitana de Fortaleza) perderam aproximadamente um terço da faixa de areia. Em cada trecho, são inúmeras as barracas invadidas pelas águas e completamente devastadas. A mesma situação pode ser observada nos municípios de Beberibe e Aracati.

Alagoas confirma três tipos diferentes de superbactéria em hospital

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Ciência e Saúde
Em Maceió

A maior emergência pública de Alagoas, o HGE (Hospital Geral do Estado), confirmou que oito pacientes estão contaminados com a superbactéria Acinectobater baumannii e isolados na unidade, localizada em Maceió. Além desses casos, a assessoria de imprensa do hospital confirmou ao UOL Ciência e Saúde, que outros quatro pacientes estão internados com outras duas bactérias também multiresistentes: Estafilococos e Pseudomonas aeruginosa.


A bactéria já matou oito pessoas no Hospital Universitário, que precisou fechar a maternidade e UTI neonatal por 21 dias (entre 30 de março e 19 de abril) após o surto.

Segundo o HGE, o primeiro caso de paciente infectado com a Acinectobater Baumannii foi confirmado ainda em julho de 2010. “Das 349 pessoas que estão internas no HGE, apenas oito estão com a bactéria multirresistente e se encontram isoladas e em tratamento”, informou o hospital nesta terça (19), sem informar quantas mortes foram registradas no HGE por conta de superbactérias em 2011. Um dos infectados está isolado na UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

Por conta da infecção com superbactérias, várias enfermarias do HGE estão fechadas exclusivamente para tratamento de pacientes contaminados, o que gera superlotação e medo aos demais internos da unidade. “A gente só ouve as pessoas falarem aqui que é a bactéria cinco, que a UTI está contaminada, que ela é muito perigosa. Todos estão com medo, pois não tem como se defender”, disse uma esposa de paciente, que pediu para não ter o nome revelado.

O HGE informou que todos os pacientes da unidade estão sendo acompanhados de perto e que os demais pacientes estão em segurança. Segundo o diretor do hospital, Carlos Alberto Gomes, logo após perceber a primeira contaminação foi elaborado um manual, com base nas normas técnicas da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), para o controle de bactérias multirresistentes. “Pelo manual de Investigação e Controle de bactérias da Anvisa, nenhuma unidade hospitalar poderá se recusar a atender os pacientes transferidos que comprovadamente são infectados ou colonizados”, disse , em nota.

A Vigilância Sanitária Estadual informou que, a partir da próxima semana, será feita uma nova inspeção no HGE e em todas as unidades particulares de Maceió para saber se a superbactéria está presente nos hospitais. “Vamos fazer uma varredura em todas as unidades hospitalares. Seremos rigorosos para sabermos se há cumprimento das normas de controle de infecção”, disse Paulo Bezerra, diretor da Vigilância Sanitária Estadual.

Médica diz que não há motivo para pânico

Apesar das infecções, a presidente da Comissão Estadual de Controle de Infecção de Serviços de Saúde, Cássia Sales, assegurou que não há motivo para pânico da população e não há situação fora de controle no Estado. “O HGE recebe muita gente que vem do interior, e não podemos atribuir culpas. Seria um crime deixar de receber esses pacientes. O que tem que fazer, quando se há contaminação, é adaptar o hospital e fazer o isolamento. Não é nada apavorante, o pessoal do hospital é treinado e sabe lidar com isso”, assegurou.

A enfermeira e mestre em Ciências da Saúde e infectologia, Aracele Cavalcanti, afirma que o número de contaminação tem relação direta com os hábitos de higiene dos profissionais da unidade. “O mais importante, quando se confirmam casos, é evitar que a bactéria seja transferida para outros pacientes. Para isso é preciso um isolamento de contato, com higienização das mãos, utilização de luvas e avental no contato íntimo com esses pacientes. É preciso ter cuidado com os acessórios desse pessoa também, que deve termômetro e tensiômetro próprios. O ideal também é deixar um funcionário em enfermagem próprio”, explicou.

Segundo ela, as três bactérias encontradas no HGE, quando adquirem perfil de superresistência, têm índice de letalidade e efeito similar à KPC - que causou medo após uma série de mortes constatadas em vários Estados do país.

“O problema é quando essas bactérias passam a ter um perfil de resistência alto e elas podem gerar surtos. Quando um paciente está com infecção causada por ela, reduz a chance de tratamento. Ao invés de 20 remédios, passamos a ter dois antibióticos. Como tem menos opção, o risco de morrer, consequentemente, é maior”, disse Cavalcanti.

19 abril 2011

Robôs detectam alto nível de radiação em Fukushima

Radioatividade ainda é muito elevada para que trabalhadores entrem na usina e tentem resfriar os reatores 

O Estado de SP

Dados coletados por robôs que exploraram o interior dos reatores nucleares da usina de Fukushima indicaram ontem que os níveis de radiação permanecem altos demais para permitir que equipes de trabalho entrem no local para realizar os reparos. Apesar disso, autoridades mantêm o otimismo e acreditam que seguirão o plano para a estabilização da central até o fim do ano.
 
Engenheiros não conseguem assumir o controle da usina nem entrar nos reatores. Os equipamentos tiveram seus sistemas de refrigeração danificados. A empresa que opera a usina, a Tokyo Electric Power (Tepco), espera reduzir os vazamentos em três meses e resfriar os reatores dentro de nove meses.

 
"O que os robôs podem fazer é limitado. Em algum momento, pessoas precisarão entrar lá", disse um funcionário da Tepco. O porta-voz do governo, Yukio Edano, diz que é impossível prever quando os dezenas de milhares de moradores da região poderão voltar para suas casas. Edano também não respondeu se todos os moradores poderão voltar.

 
Uma pesquisa publicada no Japão no fim de semana apontou que a maioria dos japoneses é a favor do aumento de impostos para a reconstrução do país, estimada em US$ 300 bilhões, o que torna a tragédia o desastre natural mais caro da história. Quase 70% das pessoas ainda reprovam a reação do governo à crise nuclear e disseram que o primeiro-ministro, Naoto Kan, deveria ser substituído.

 
Segundo a polícia japonesa, as cidades que tinham mais habitantes idosos foram as mais afetadas pela tragédia. Mais da metade das vítimas tinha mais de 65 anos e a maior parte das mortes foi causada por afogamento.

 
Até agora, o número de mortes confirmadas é de 13.843. Outras 14.030 pessoas estão desaparecidas. Dos 9.112 mortos que viviam nas províncias de Iwate, Miyagi e Fukushima, as mais atingidas pelo tsunami, 54,8% tinham mais de 65 anos.

 
Segurança. Segundo a polícia de Miyagi, cerca de 95,8% das vítimas na cidade morreram afogadas. Os números mostram que os desmoronamentos causados pelo terremoto não foram a principal causa da tragédia.

 
Fumihiko Imamura, especialista em tsunamis da Universidade de Tohoku, afirmou que, com a tragédia, os governos deveriam planejar cidades com zonas costeiras mais seguras para as pessoas da terceira idade, com maior acessibilidade em casos de emergências. 


AP e EFE

Energia como fator de segurança nacional

*Antonio M. Buainain e José Maria da Silveira - O Estado de S.Paulo
 
Na apresentação do livro Biomassa - a eterna energia do futuro, escrito pelo professor Gilberto Vasconcellos em 2002, o fim do petróleo e do carvão mineral é anunciado. Desde o final dos anos 70 o professor associava a questão energética aos temas de desenvolvimento econômico e de segurança nacional num sentido francamente "anti-imperialista". Todavia, o cenário internacional e mesmo o cenário interno vêm-se transformando de forma vertiginosa. Passamos rapidamente de uma situação em que as vantagens comparativas do etanol de cana-de-açúcar e suas benesses ambientais eram irrefutáveis para colocá-los no meio de um debate acirrado e complexo.

 
Fale mal, mas fale de mim. Todo pesquisador brasileiro da área sente a responsabilidade de contestar afirmações peremptórias de que há um elo de ligação entre a expansão da área cultivada para fins energéticos e a destruição da Floresta Amazônica. O professor Bruce Babcock, da Universidade de Iowa, em seminário sobre bioenergia na Universidade de Berkeley, mostrou suas "fotos tiradas do avião" para comprovar como a agricultura devastava a floresta, justamente no município modelo de Lucas do Rio Verde, na fronteira entre a Floresta Amazônia e o Cerradão. Suas fotos não mostravam qual o tipo de vegetação foi retirada, mas a crítica estava feita. E correu o mundo!

 
O debate não se restringe ao corte da floresta. O custo de conversão de terra agrícola em terra para energia vem sendo associado ao fato estatístico de que os preços de energia e de alimentos agora caminham juntos, o que não ocorria antes da segunda metade da presente década. Isso abre espaço para que as declarações do presidente do Banco Mundial sobre o impacto da alta de preços dos alimentos sejam entendidas como um alerta às alternativas energéticas que envolvam cultivos em regiões agrícolas do continente americano, em vez de serem interpretadas como um apelo para maior atenção com a pesquisa agrícola mundial.

 
Um mais um é igual a mil, é a regra da mídia atual. Dois argumentos contrários são suficientes para se contrapor o fato de que a bioenergia tem menos impactos ambientais não só no presente, mas também a partir da projeção de suas possibilidades futuras? Acreditamos que não, mas agora temos pela frente de defender o etanol de cana das alternativas que se desdobram das pesquisas voltadas para as chamadas 2.ª e 3.ª gerações, do etanol de celulose até o uso de algas marinhas, áreas em que acompanhamos as pesquisas internacionais, mas não lideramos.

 
O Energy Biosciences Institute (EBI), uma ação conjunta da Universidade da Califórnia em Berkeley, Universidade de Illinois, Lawrence Berkeley National Laboratory e a British Petroleum iniciada em 2007, tem um orçamento de US$ 500 milhões em dez anos com foco em 2.ª geração, utilizando fontes alternativas ao milho e visando também ao aproveitamento de resíduos dos cultivos agrícolas.

 
Segundo Madhu Khanna, da Universidade de Illinois, o crescimento do uso de bioenergia de 2.ª geração atenuaria em muito os efeitos que seriam atribuídos ao etanol de 1.ª geração, caso este tivesse de substituir progressivamente as fontes de energia fóssil.

 
Infelizmente, o cenário "todos unidos" para um Brasil potência energética passa a depender de encararmos, como os EUA, a questão energética como de segurança nacional, e que passemos a definir prioridades não só a partir das facilidades resultantes dos acertos do passado, mas do binômio competição e cooperação, típico das economias de redes atuais. Isso implica encontrar soluções para a cana-de-açúcar não só no campo da produção de etanol de 1.ª geração (cujos ganhos de produtividade em dez anos foram elevados), mas de sua articulação com o uso energético de resíduos e o uso do etanol (e da biomassa em geral) como matéria-prima da indústria petroquímica, entre outros usos.

 
O desastre atômico no Japão serve como um chamado: potência energética ou produtores de cana-de-açúcar? Temos de decidir isso rapidamente.

 
*PROFESSORES DO INSTITUTO DE ECONOMIA DA UNICAMP

Maioria é contra energia nuclear no Brasil, diz pesquisa

Oposição a esse tipo de geração de energia cresce 5 pontos após acidente em Fukushima; reação negativa ocorre em outros países
 
Daniel Bramatti e José Roberto de Toledo - O Estado de S.Paulo
ESPECIAL PARA O ESTADO

 
O desastre nuclear no Japão consolidou uma maioria entre os brasileiros contrária ao uso da energia atômica para gerar eletricidade no País. São 54%, dos quais 7 em cada 10 são "totalmente contra" e os demais, "parcialmente contra". A oposição a esse tipo de produção de energia cresceu 5 pontos após o acidente na usina de Fukushima.

 
Esses são alguns dos resultados da sondagem Global WIN (uma rede mundial de empresas de pesquisa) sobre o uso de energia nuclear. Ainda segundo a pesquisa, uma fatia ainda maior dos brasileiros, 57%, mostrou-se preocupada - metade deles muito preocupados - com a possibilidade de um acidente nuclear acontecer também no Brasil. O grau de preocupação é superior à média mundial, de 49%.

 
Possível explicação para isso é que 40% não sabem dizer se o governo brasileiro controla adequadamente a segurança das usinas de Angra 1, 2 e 3. Além desses, 19% acham que não há controle adequado. Só 41% confiam nas medidas de segurança oficiais.

 
O governo federal estuda construir mais quatro centrais nucleares para produzir eletricidade no Brasil. A decisão final dependerá, segundo o ministro da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, das consequências do acidente japonês.

 
No mundo. A reação negativa à energia atômica não se restringe ao Brasil. Na média mundial, o porcentual daqueles que são contrários às centrais nucleares cresceu 11 pontos após o tsunami provocar o colapso da usina japonesa e a contaminação de trabalhadores, da água e do solo por radiação. Foi de 32% para 43%.

 
A oposição às centrais atômicas varia muito de país para país: de apenas 24% na Coreia do Sul a 90% na Áustria. O Japão foi onde mais cresceu o porcentual dos que são contra: de 28% para 47% (40% ainda apoia esse tipo de produção de energia).

 
Entre os brasileiros, 14% não souberam responder, 12% se disseram totalmente favoráveis ao uso da energia nuclear, 20% parcialmente a favor, 15% parcialmente contra e 39% totalmente contra. O apoio é maior entre os mais ricos e escolarizados. Já o crescimento dos que são contra a energia nuclear veio principalmente de quem não tinha opinião sobre o assunto.

 
A pesquisa mostra que 98% dos brasileiros tomaram conhecimento do terremoto no Japão, e 93% ficaram sabendo do vazamento de radiação. Ambos os resultados ficaram acima da média mundial. 


A TV foi a principal fonte de informação sobre o terremoto e o tsunami para 94% dos brasileiros. Em segundo lugar ficou a internet, com 3%.
 
O Brasil é um dos países mais otimistas no prognóstico sobre o que acontecerá com o Japão após a sequência de desastres. Para 49%, os japoneses vão se recuperar rapidamente e voltar ao nível de desenvolvimento anterior ao terremoto. A eles se somam 13% de brasileiros que acham que o Japão vai sair ainda mais forte da crise. Só 31% apostam no contrário.

 
PARA ENTENDER

 
A pesquisa foi realizada pela Global WIN em 47 países de todos os continentes entre 21 de março e 10 de abril. No Brasil, o levantamento foi feito pelo Ibope, instituto que representa a rede no País. As técnicas de entrevista variam de local para local. Em alguns países foram feitas pelo telefone, em outros, pessoalmente, e houve locais onde a plataforma foi a internet. As amostras variam de 500 a 2,7 mil entrevistas por país. No Brasil, o Ibope entrevistou mil pessoas no método face a face. A margem de erro também varia conforme o tamanho da amostra local, de 3 a 5 pontos porcentuais, para mais ou para menos. No mundo todo foram entrevistadas 34 mil pessoas.

 
Como não havia pesquisa anterior para comparar, o questionário incluiu uma pergunta sobre qual a opinião do entrevistado sobre a energia nuclear antes do terremoto no Japão.

Interior de SP aposta no reúso de água para atrair investimentos

Samantha Maia | De São Paulo - Valor

Os investimentos industriais esperados para a região próxima ao aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP) - sob o atrativo de sua expansão e da construção do trem-bala que vai ligar a cidade ao Rio, passando por São Paulo -, devem ser viabilizados com o fornecimento de água tratada a partir do esgoto. A necessidade de apostar em projetos de reúso da água surgiu da baixa disponibilidade hídrica da região no período seco, que é de apenas um terço do nível considerado crítico pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Foi esse cenário de escassez de água para grandes consumidores que levou a companhia de saneamento do município, a Sanasa, a desenvolver um projeto de reúso de água. "Sabemos que haverá expansão industrial ali e que há dificuldade em buscar água. É um mercado para nós", diz Rovério Pagotto Junior, gerente de Planejamento da Sanasa.

Projetos de reutilização de água e controle de perdas ganham força na bacia dos rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí (PCJ), onde está localizada Campinas e que abrange uma área que representa 7% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. O local é um importante polo de desenvolvimento e a preocupação demonstrada por autoridades e representantes das empresas na região é que os investimentos não sejam afetados pela falta de água. Indústrias já instaladas na região, como a Rhodia, em Paulínia (SP), investem em sistemas de reutilização da água para expandir a produção sem aumentar o volume retirado dos rios.

A preocupação com o assunto levou o Consórcio PCJ, associação privada que reúne empresas e prefeituras da região, a promover, em conjunto com o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), um curso para capacitar as indústrias em técnicas de uso racional da água. "É muito importante que a gestão dos recursos hídricos seja bem feita nessa bacia, que sofre com a carência de água", diz o gerente-técnico do Consórcio PCJ, Alexandre Vilella.

Nos períodos secos (outono e inverno), a oferta de água já está em situação crítica para a necessidade de abastecimento. A disponibilidade hídrica na bacia do PCJ fica em 408 m3 /habitante no ano, enquanto a situação apontada como crítica pela ONU é de 1.500 m3 /habitante/ano. Além do uso da água pelos municípios da região, parte da vazão dos rios (29 m3 /s) é levada para o Sistema Cantareira, operado pela Sabesp, que abastece 50% da região metropolitana de São Paulo.

Luiz Roberto Moretti, diretor do Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee) - órgão estadual responsável pela concessão de outorgas para uso do recurso hídrico -, diz que há áreas em que a escassez é mais grave, como o caso da região central da bacia PCJ. "Avaliamos cada situação, e quando há restrições para a oferta do recurso, não costumamos negar a outorga e sim colocar condições, já que a falta de água não ocorre o ano inteiro", diz. Entre essas condições, está a exigência de que o usuário tenha mecanismos para reduzir sua captação de água nos períodos críticos. "Aí a empresa analisa se vale a pena economicamente", diz.

"Quando o Sistema Cantareira foi criado, estabeleceram-se as vazões mínimas para alimentar os rios da região do PCJ. Mas o crescimento industrial acabou indo para essa área, um grande erro de planejamento", diz Francisco Lahóz, coordenador de projetos do Consórcio PCJ.

Segundo Paulo Massato, diretor da Sabesp, o conflito em torno da gestão do recurso na região foi resolvido em 2004, quando foi instituído o banco de água nas represas do sistema Cantareira. "Essa solução está sendo bem conduzida e é satisfatória", diz. O modelo, no entanto, está sendo rediscutido.

Em Campinas, onde a prefeitura planeja destinar uma área de 20 milhões m2 próxima ao aeroporto de Viracopos a um centro empresarial, a Sanasa deve entregar até o fim de abril o primeiro de quatro módulos da estação de tratamento terciário de esgoto, que deixa a água mais limpa que o padrão exigido para lançamento nos rios. O investimento é de R$ 91 milhões. "Estamos nos antecipando, pois temos percebido a demanda da indústria, já que a escassez de água está cada vez maior na região", diz Pagotto Junior. Segundo ele, essa é a primeira estação do país a fazer tratamento terciário em grande volume, o que permite o uso da água em processos industriais.

A Estação de Produção de Água de Reúso (Epar) também tratará efluentes industriais. Cada módulo tem capacidade para tratar 162 litros por segundo, o que equivale ao abastecimento de uma cidade de 200 mil habitantes. "Vamos começar a atender parte da Bacia do rio Capivari e já temos contrato com o mesmo consórcio para fazer o segundo módulo até o começo do ano que vem", diz o gerente da Sanasa. As obras estão sendo tocadas pela construtora Odebrecht e pela GE, fabricante da membrana que filtra o esgoto e faz o tratamento biológico. Os dois últimos módulos serão realizados conforme a empresa perceber que há mais demanda.

Para conduzir seus planos de expansão, a Rhodia, que tem sua maior fábrica do país localizada em Paulínia (SP), investiu no ano passado R$ 5,5 milhões num sistema de tratamento do lodo residual da água captada no rio Atibaia e assim conseguiu aumentar em 10% o recurso disponível, água que antes era descartada. "Sabemos que estamos numa região muito povoada e com carência de recursos hídricos", diz Jorge Galgaro, gerente de meio ambiente da companhia na fábrica de Paulínia.

A empresa consome 10%, ou 0,21m3 /s, do total que capta. O restante é utilizado no resfriamento das máquinas e devolvido ao rio. Outra saída para evitar a necessidade de mais água é a expansão da produção com a conversão dos equipamentos para um modelo fechado que reutiliza o recurso captado. Hoje, parte da fábrica já trabalha dessa forma, mas o gerente não sabe quantificar o quanto representa do total. "No longo prazo, devemos trabalhar apenas com sistemas fechados", diz Galgaro.

Resina verde chega ao dia-dia do consumidor

Vanessa Dezem | De São Paulo - Valor

O uso do plástico fabricado a partir da cana-de-açúcar, por isso batizado de "verde", vem ganhando espaço na indústria de consumo. Com forte apelo ecológico, a resina verde atrai principalmente o público de alta renda. Já é usado em sacos de lixo e logo chegará aos supermercados levando iogurtes e às praias nos tubos de protetor solar.

A Braskem, a única produtora de polietileno renovável no mundo, admite uma expansão da demanda por parte das companhias de embalagens alimentícias, higiene e limpeza, cosméticos e fabricantes de sacos e sacolas de supermercados. A empresa, que costuma fechar acordos de exclusividade com esses clientes, está em conversações ainda com a indústria automobilística, que busca substituir peças de metais dos automóveis por peças de plástico.

Acreditando na conscientização do consumidor com relação à redução do uso de produtos derivados de petróleo, a Embalixo, fabricante de sacos de lixo, é uma das empresas que adotou a resina verde. A companhia colocou no mercado em fevereiro os sacos feitos a partir da matéria-prima renovável. "Decidimos nos preparar para o novo comportamento focado no meio ambiente", afirmou o presidente da empresa, Rafael Costa.

A empresa vende cerca de 130 toneladas de saco verde por mês, enquanto a venda do saco feito de polietileno tradicional (a partir do petróleo) está no patamar de 300 toneladas por mês. Até o fim deste ano, a companhia espera vender cerca de 2 mil toneladas do produto verde e 3,6 mil toneladas do saco de petróleo.

A projeção está baseada na redução da utilização das sacolinhas de supermercado - que muitas pessoas acabam usando como saco de lixo - principalmente por parte das classes de alta renda. A Embalixo acredita que os produtos diferenciados têm boa aceitação nesse público e, para ganhar mercado, projeta investimentos de R$ 1,5 milhão para a divulgação do novo produto.

O argumento mais importante na defesa da resina verde (principalmente na hora do marketing) é realmente o ambiental. Dados do mercado apontam que na fabricação de uma tonelada de polietileno de cana-de-açúcar, se retira 2,5 toneladas de carbono do ar.

Em época de petróleo caro, outra grande vantagem da matéria-prima é a possibilidade de aplicá-la em qualquer produto que antes utilizava polietileno tradicional, já que ambas resinas têm as mesmas características. Desse modo, são poucas as adaptações que os fabricantes que utilizam o plástico verde têm de fazer em suas linhas de produção. "Nossa unidade pode ser convertida tanto para produzir o saco renovável, quanto o comum", explicou Costa.

O setor de alimentos também se beneficia dessa característica. A Danone promete colocar neste primeiro semestre os lácteos Activia e o Danoninho em garrafinhas de polietileno verde. Neste momento, a adoção da matéria-prima encontra-se em fase de validação fabril, ou seja, estão sendo testadas suas características e formas de adaptação dentro das linhas de produção. 


"Acreditamos que não é necessária grande adaptação (de nossa produção) para receber a embalagem de resina verde. E não voltamos atrás: queremos usar materiais sustentáveis em nossos produtos", contou a diretora de sustentabilidade da empresa, Adriana Matarazzo.

Por outro lado, a desvantagem da resina verde fica por conta do preço. De 20% a 50% mais cara do que a matéria-prima originada do petróleo, o produto pesa sobre os negócios das empresas. Para colocar o saco de lixo renovável no mercado e torná-lo competitivo, a Embalixo, por exemplo, absorveu completamente esse custo e lançou o produto final em preço semelhante ao comum. Agora, as expectativas da companhia é que as vendas cresçam e tornem possíveis ganhos de escala produtiva, para que não seja necessário um aumento futuro do preço saco de lixo verde. "Até agora não temos margem, mas acreditamos que no segundo semestre já começaremos a ter", afirmou Costa, que prevê que o faturamento da empresa deva avançar 40% neste ano, sendo que mais da metade desse crescimento deverá ser originado pelo produto sustentável.

A J&J também acredita no apelo mercadológico e no aumento das vendas com o plástico verde. A empresa pretende lançar o Sundown com embalagem originada da matéria-prima no verão 2011/12. "Acreditamos que é um investimento natural que estamos fazendo na marca e não vamos repassar o custo ao consumidor", explicou o gerente de marketing do Sundown, Marcelo Scatolini.

A explicação para a resina verde ser mais cara envolve o custo do etanol e o conceito do produto. A Braskem, que detém esse monopólio, afirma que o custo de fabricação da matéria-prima, em geral, não é maior do que o da produção da resina proveniente do petróleo. Segundo a empresa, a resina verde é a mais barata dentre os biopolímeros (polímeros de origem renovável ou biodegradável), devido ao processo e da escala da produção. "Há muita especulação em torno dos custos. Não dá pra comparar com a resina comum, é outra coisa. Quem vai comprar a verde procura algo diferente", enfatizou o vice-presidente de negócios internacionais da Braskem, Luiz Mendonça.

A fábrica - localizada na cidade de Triunfo (RS) e inaugurada em setembro do ano passado - produz o eteno a partir da desidratação do etanol da cana-de-açúcar. O produto químico depois passa por uma polimerização para ser transformado em polietileno, um dos plásticos mais utilizados no mundo. Absorvendo investimentos de cerca de US$ 290 milhões, a capacidade de produção de polietileno verde da unidade da Braskem é de 200 mil toneladas.

Diante da demanda, a empresa já vê a possibilidade de ampliar os investimentos nessa área. Um dos pedidos que ela tem recebido, por exemplo, é para o fornecimento de eteno verde antes da transformação, para que os clientes possam fabricar o químico que quiserem. "Esse pode ser nosso próximo investimento. Queremos transformar esse negócio em alguns bilhões de dólares. Hoje já são centenas de milhões de dólares", afirmou Mendonça.