03 março 2011

Pequenos produtores mantêm reserva legal, com vantagens ambientais e econômicas

Eles recuperaram ou preservaram área de mata exigida pelo Código Florestal, com vantagens ambientais e econômicas

Até meados do mês, está prevista a votação, no Congresso Nacional, de modificações no Código Florestal. O relatório do deputado federal Aldo Rebelo (PC do B-SP), já aprovado em comissão especial, isenta, entre outras medidas, pequenas propriedades, de até 4 módulos fiscais (que variam conforme a região), da recomposição de reserva legal, além de reduzir a área de proteção de cursos d”água e mananciais. 

Leandro Costa e José Maria Tomazela, em O Estado de S.Paulo.

Mesmo pequenos e na contramão dessas modificações propostas pelo deputado, os produtores abaixo preservaram ou recuperaram a área de Reserva Legal exigida pelo atual Código, que determina que 20% da propriedade tenha mata nativa, sem contar Áreas de Preservação Permanente. No caso da Amazônia, a reserva deve ser de 80%. Estes produtores relatam os benefícios ambientais e econômicos da opção, não só para os seus negócios, como para o entorno.

Capela do Alto. O agricultor João Carlos Wincler estava a ponto de desistir da lavoura e da criação de gado de leite no Sítio da Alvorada, em Capela do Alto (SP). O terreno é declivoso e a cada chuva ele via brotar a erosão, que abria sulcos no mandiocal e acabava com o pasto. “A mina de água secou e tivemos de dar água da torneira para o gado.” Wincler e os três irmãos herdaram do pai a propriedade de 14,5 hectares e não tiveram o cuidado de evitar que o gado pisoteasse a pequena mata do sítio. A capoeira de 3,6 hectares estava sendo dizimada, além da erosão.

Há quatro anos, eles aderiram ao programa estadual de microbacias e receberam a visita do agrônomo Antonio Vieira Campos, da Casa da Agricultura local. “Ele mandou cercar a mata para o gado não entrar e recomendou que recuperássemos a área degradada.”

Com equipamentos do programa, foram construídas duas bacias de contenção na parte de cima do terreno. Na parte mais sujeita às enxurradas foram plantadas touceiras de bambu e outras espécies de crescimento rápido. Os resultados logo surgiram. Sem o gado comendo os brotos e plantas novas, a mata encorpou. A mina voltou a jorrar. “É uma água tão boa que a gente enche os galões para beber.” O pasto passou a produzir mais e a produção de leite melhorou.

O melhor mesmo foi recuperar a mina. O veio de água tornou-se permanente e, além de abastecer gado e lavoura, encorpa o riacho que atende às propriedades vizinhas. Pequenos produtores de abobrinha e outras hortaliças usam a água para irrigação. “Do jeito que estava indo, o sítio ia acabar”, diz José Carlos, que não se importa de destinar à reserva legal mais de 20% da área do sítio. “Quando passamos a cuidar da mata, tudo melhorou, até a lavoura.”

Em Apucarana. Quando regularizou a situação da sua propriedade, em Apucarana (PR), há três anos, o cafeicultor Paulo Fenato perdeu 3, de 38 hectares de cultivo. Para recompor a área de reserva, arrancou 3.500 pés de café. Fenato não se sente punido, porém. “Foi necessário. Não só porque a lei pede, mas porque a preservação dos recursos naturais depende disso”, diz ele, cuja propriedade está na bacia do Rio Pirapó, que, além de Apucarana, abastece municípios da região central do Paraná, como Maringá.

Compensar a redução na área de plantio não está sendo tão difícil. Com técnicas avançadas em uma pequena parcela da propriedade ele já igualou a produção anterior. “Substituí o plantio convencional pelo adensado em 2 hectares e já recuperei a perda. Se antes eu plantava 550 pés/hectare, agora planto 4.100 no mesmo espaço.” Fenato pretende multiplicar a produtividade nos próximos anos, estendendo o adensamento para toda a lavoura.

Em relação às vantagens de preservar, Fenato diz: “A paisagem mudou. Depois que reflorestei minha propriedade ela voltou a ter vida, com bichos e pássaros”, diz. Ele frisa a importância da preservação. “Quanto mais a natureza sofrer, mais nós, produtores, sofreremos”. Para preservar as mata ciliares e manter a reserva legal, ele recebe da Prefeitura de Apucarana um prêmio mensal de R$ 562. Junto com outros 68 produtores, ele integra o Projeto Oásis Apucarana, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Turismo, que visa a incentivar a conservação das matas em torno dos Rios Pirapó e Tibagi, que banham a região.

Também em Apucarana, o sojicultor Satio Kayukawa diz que nunca contou com os 9 hectares de área de preservação de seu sítio. Quando comprou a propriedade de 36 hectares, no fim da década de 1980, ela já possuía essas áreas de reserva e só mexeu nelas para substituir 1.800 eucaliptos por árvores nativas.Há, dentro da propriedade, seis nascentes, que ele diz cuidar com zelo. “Elas são minha garantia de água boa.” O investimento em variedades de soja mais produtivas permitiu ao produtor tocar a propriedade sem expandir a área de plantio, de 17 hectares.

Casa Branca. Em Casa Branca (SP), o agricultor Odair Mira investe em uma área de reserva legal no sítio no qual é sócio com o irmão. “Não quero ter problemas com a lei e, além disso, sempre adotei práticas conservacionistas, como curvas de nível”, diz Mira, que possui 48 hectares e cultiva milho e feijão. Para preservar 20% da área, ele abriu mão de parte do pasto, agregando-o a um trecho de mata. “Retirei os animais e cerquei a área. Fiz um projeto de reflorestamento, mas ainda não sei quanto vou gastar.” Ele conta que há seis anos, dentro do programa de microbacias do governo estadual, obteve R$ 5 mil de financiamento para investir na preservação. “Comprei calcário, cerca, arame, mourão, mudas, tudo com recursos desse projeto. Plantei 500 mudas que hoje ajudam a compor a área de reserva”, diz. “Nunca mais tive problema com erosão.” Mesmo sabendo que a reserva não dará retorno imediato, ele acredita que o investimento trará outro ganho, já que o sítio está em área de microbacia e é cortado por um córrego que ajuda no abastecimento de água de vários produtores. “Na seca, o córrego some”, diz. 
“A reserva deve nos ajudar a ter água o ano todo.” Na região, muitos produtores cultivam feijão e adotam a irrigação por pivô. Mira acredita, porém, que 20%, para um pequeno produtor, é muita coisa. “Se plantando alguma coisa já é difícil ter lucro, imagine abrir mão de 20% de área? Não adianta só o produtor preservar a mata. Cada um precisa fazer a sua parte.” 

COLABOROU FERNANDA YONEYA

Portugal cria projeto de observação das aves migratórias da primavera

ANDA

Com o aproximar da primavera na Europa, começam a chegar a Portugal as primeiras aves migradoras do ano, uma altura particularmente interessante para todos que gostam de observar e fotografar estes animais. Se a este prazer quiser associar uma vertente mais científica e conhecer um pouco melhor as suas rotas migatórias, poderá fazê-lo participando no Spring Alive. Trata-se de um projeto promovido pela associação BirdLife International, que há cinco anos é organizado em Portugal pela SPEA (Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves).

“O objetivo é o de incentivar a sociedade no seu geral a participar de um projeto que tem também um caráter científico, por meio de recolha de informação e imagens sobre cinco espécies de aves migratórias”, explicou Alexandra Lopes, da SPEA. A escolha das cinco espécies – cegonha-branca, cuco-canoro, andorinha-das-chaminés, andorinhão-preto e abelharuco – foi feita com base em três critérios: o fato de serem todas espécies migratórias, serem de fácil identificação e estarem presentes em todos os países europeus.

Para participar no Spring Alive, basta fazer o registro no site e, em seguida, introduzir os dados (dia, local, nome da espécie e, eventualmente, foto) da primeira vez que avistou um indivíduo destas cinco espécies em determinada região do país, arquipélagos incluídos. “Estes dados permitem à BirdLife International atualizar o mapa das migrações, que podem ser visualizados no site. Daqui a uns anos, com as informações recolhidas, vamos poder perceber se há alterações nas rotas e se as datas de chegada em cada país também se alteraram”, sublinhou a mesma responsável.

Este é um projeto centrado na migração primavil. Os registos começaram no dia 1 de fevereiro e podem ser feitos até ao final da Primavera. Na edição do ano passado, foram observadas mais de 103.500 aves no âmbito do Spring Alive. Até hoje, foram registadas 320 observações, maioritariamente de andorinhas (44%) e de cegonhas (43%). Este ano, a SPEA está apostando na divulgação do projeto junto da comunidade escolar, em especial nas crianças com idades entre os 8 e os 12 anos.

Luís Costa, director da SPEA, referiu que, “hoje em dia, a observação de aves se tornou num passatempo ao qual se dedicam cada vez mais pessoas, cada vez mais organizadas e com melhor equipamento”. Muitos destes observadores, que se dedicam também à fotografia da natureza, participam voluntariamente nos projetos da SPEA, nomeadamente, no censos anual de aves. “No outono, temos já previstos 500 voluntários para começarmos a trabalhar num futuro Altas das aves invernantes em Portugal. Trata-se de um projeto que se irá realizar nos próximos dois invernos”, acrescentou.

Fonte: Jornal de Notícias

02 março 2011

BNDES aprova financiamentos de R$ 790 milhões para nove parques eólicos

Oito instalações serão construídas no Ceará, com capacidade instalada total de 211,5 MW, e uma no RS, com 70 MW de potência instalada

Canal Rural


A diretoria do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES) aprovou nesta quarta, dia 2, financiamento de R$ 790,3 milhões para nove parques eólicos. Oito deles serão construídos no Ceará, com capacidade instalada total de 211,5 MW. O nono parque eólico, em Tramandaí, no Rio Grande do Sul, terá 70 MW de potência instalada.


Os recursos serão destinados a oito sociedades de propósito específico (SPEs) constituídas pelo Grupo IMPSA em parceria com o Fundo de Investimento do FGTS, exclusivamente para os projetos. O BNDES financiará, de forma indireta, R$ 562,6 milhões a serem repassados pela Caixa Econômica Federal.

Os parques, situados nos municípios de Acaraú, Itarema e Aracati (CE), terão capacidade de 156 MW, 30MW e 25,5MW, respectivamente, e foram vencedores no segundo Leilão de Energia de Reserva de 2009. Com isso, tiveram direito a assinar Contratos de Comercialização da Energia com a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) por período de 20 anos, com preço médio de R$ 151/MWh ajustado anualmente pela variação do IPCA.

O valor reflete o aumento da concorrência entre os fabricantes de aerogeradores. Esse novo cenário pode ser atribuído à futura instalação de novos competidores no Brasil.

Os aerogeradores utilizados pelos Parques são credenciados pelo BNDES e fabricados na fábrica do grupo IMPSA, Wind Power Energia (WPE), no Complexo de Suape, em Pernambuco.

O Parque Eólico Elebrás Cidreira 1, no município de Tramandaí (RS), está incluído no Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa), do governo federal, e receberá do BNDES R$ 227,7 milhões. Toda a energia do parque foi vendida para a Eletrobras por um prazo de 20 anos e deverá começar a ser entregue pelas distribuidoras a partir de março de 2011. Os investimentos serão realizados pela Elebrás Projetos S/A, do Grupo EDP.

O crescente apoio do banco ao setor vem contribuindo para o aumento da capacidade de energia renovável na matriz energética brasileira. Atualmente, os 51 parques eólicos em operação no Brasil possuem capacidade instalada de 937 MW. Além destes, outros 18 projetos estão em construção, com mais 500,8 MW para entrar em operação ao longo de 2011, incluindo o parque eólico de Tramandaí. As autorizações para investimentos em energia eólica cuja construção ainda não foi iniciada já atingem 3.600 MW, distribuídos por 134 projetos.

No BNDES, já foram assinados ou estão em processo de assinatura, incluindo as duas operações recém-aprovadas, 51 contratos de financiamento diretos e indiretos, no valor total de R$ 4,1 bilhões, para a implantação de 1.369 MW. Além desses, outras 44 operações estão em análise, demandando financiamentos da ordem de R$ 3,3 bilhões.

01 março 2011

Lixo nos igarapés é um grande problema ambiental de Manaus

De acordo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), pelo menos seis toneladas de lixo foram retiradas no último mutirão de limpeza no igarapé do Mindu

Diário do Amazonas

Manaus - O acúmulo anormal de lixo embaixo da ponte da rua H, que leva ao Conjunto Nova República, no bairro Distrito Industrial, zona Leste de Manaus, tráz a discussão o comportamento da população que continua a jogar detritos nos igarapés de Manaus.

Vários igarapés da cidade apresentam o mesmo problema e a situação se agrava nos períodos chuvosos, quando a força da água leva a sujeira cada vez mais longe, e barreiras se formam levando ao acúmulo inevitável. Exemplos disso são os igarapés do Passarinho, zona Norte, e igarapé de Manaus, na zona Sul que estão assoreados e transbordam com facilidade.

De acordo com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas), pelo menos seis toneladas de lixo foram retiradas no último mutirão de limpeza no igarapé do Mindu, no trecho que corta o parque. São detritos que percorrem pelo menos nove bairros da zona leste, desde a Cidade de Deus, antes de chegar até o parque, e desembocar no igarapé do São Raimundo, na zona Oeste.

Para tentar diminuir a ação da predatória da população, a Semmas trabalha nas comunidades com projetos que realizam oficinas, mini-cursos e palestras para conscientizar e oferecer alternativas de uso recicláveis para os objetos que possuam capacidade de serem reaproveitados.

"Nós trabalhamos desde 1999 realizando essas oficinas, e já capacitamos mais de 42 mil pessoas. Infelizmente a preservação do meio ambiente ainda não faz parte da cultura básica do nosso povo, mas continuamos trabalhando nesse sentido", explica a chefe em exercício do setor de ações educacionais às comunidades da Semmas, Kelly Cabral.

A Secretaria Municipal de Limpeza e Serviços Públicos (Semulsp) estima que foram retirados dos igarapés de Manaus no último ano aproximadamente 1.100 mil toneladas de lixo, mas que mesmo com o serviço sendo executado diariamente, enquanto não houver a mudança de comportamento das pessoas o lixo ainda será um transtorno.

Renda do Lixo

O que para os órgãos de limpeza e proteção do meio ambiente é um transtorno, para algumas pessoas acaba se transformando em opção de obter alguma renda. Há dois anos o desempregado Arildo Torres diz que cata objetos de plástico debaixo da ponte do conjunto Nova República e que sempre depois de uma chuva ele sabe que vai encontrar o material disponível.

"Dá pra tirar de R$ 300 a R$ 500 por mês com esse trabalho. Esse lixo todo vem lá de cima, do 'Quarentão', e agora com essas chuvas mais fortes e o cano segurando o lixo, é que ficou mais acumulado", comenta o catador.

O cano em questão é da concessionária Águas do Amazonas e leva água para os conjuntos daquela região. Questionada, a concessionária ainda não respondeu se pretende elevar o cano para evitar que ocorra a barragem dos detritos. O serviço de limpeza do igarapé será feito pela Semulsp em até 72h, que ficou de enviar uma equipe ao local para verificar a gravidade da situação.

28 fevereiro 2011

“A poluição mata mais em São Paulo que AIDS e tuberculose somadas”

Por Luana Caires - O Eco

No Brasil, 80% da população está nas áreas urbanas, mas os efeitos da falta de políticas ambientais e do crescimento desordenado das metrópoles na saúde dos seus habitantes ainda são pouco discutidos. Tentando mudar essa realidade, o Instituto Saúde e Sustentabilidade lança o livro Saúde e Meio Ambiente: o desafio das metrópoles. O Ecocidades conversou sobre esse assunto com o coordenador da obra, Paulo Saldiva, professor titular de Patologia da Faculdade de Medicina da USP e membro do Comitê da OMS que definiu os novos padrões de qualidade do ar. Na área metropolitana de São Paulo, estima-se um excesso de 7 mil mortes por ano decorrentes de problemas causados pela poluição do ar – número maior do que os de AIDS e tuberculose somados. O livro será lançado nesta sexta-feira, 25 de fevereiro, em São Paulo. 

Como surgiu a ideia de lançar o livro?

Esse projeto do Instituto Saúde e Sustentabilidade pretende reunir em um só lugar informações de múltiplas fontes, para permitir às pessoas se inteirarem sobre o tema. A ideia era pegar os milhares de trabalhos científicos que estudam o efeito das condições de vida nas megacidades sobre a saúde. Isso engloba falar sobre ilhas de calor, o perigo de morar em regiões com riscos de inundações e deslizamentos e a política de formar cidades cada vez menos compactas – o que obriga a construção de uma enorme infraestrutura de mobilidade e de fornecimento de água e esgoto. A ideia era traduzir isso em uma obra clara, para quem não tem formação técnica no assunto e que oferecesse uma visão global dos problemas. Queremos que os cidadãos vejam essa fotografia. No momento em que a discussão é trazida para perto das pessoas, elas se interessam.

Nesse trabalho são abordados problemas principalmente de São Paulo. Por quê?

Nós escolhemos São Paulo primeiro por ser uma megalópole que teve um crescimento desordenado e, segundo, por contarmos com bom um banco de dados sobre ela. Cada grande cidade tem seu diagnóstico particular e complexo. Aqui a velocidade do trânsito é baixa, as ilhas de calor estão preservadas, o nível de poluição está demonstrado. Todo mundo sabe o que faz mal e o remédio não é tomado. Depois, gostamos de São Paulo e queremos melhorá-la. É muito fácil gostar da Gisele Bündchen, ela não precisa nem abrir a boca… O duro é você gostar de São Paulo, que tem muito problemas e nenhuma beleza natural evidente.

Se o remédio é conhecido, por que não é usado?

Os interesses econômicos dentro da cidade de São Paulo são muito poderosos. É o lugar onde um quarto do combustível do Brasil é vendido, é onde se encontram as sedes dos maiores grupos financeiros e é onde, digamos, a polêmica entre a aparente divisão entre desenvolvimento e sustentabilidade ocorre com maior intensidade. Existem soluções para tudo, você pode facilmente colocar combustível limpo na frota de São Paulo. Ou poderíamos pegar a Avenida Paulista e dividi-la em duas metades, com corredores exclusivos para ônibus, como fez o prefeito de Bogotá. Mas também existe um problema cultural. As pessoas ainda estão esperando uma solução milagrosa, uma solução tecnológica. E sozinha a solução tecnológica não vai resolver. É preciso mudar hábitos.  Se isso não acontecer, os gestores terão que tomar medidas muito impopulares. Imagine o dia em que utilização de automóveis na Paulista for restringida. Acho que vai ter uma forte campanha contra. E o prefeito que fizer isso não vai se eleger mais para nada, nem para síndico de prédio. Ninguém em sã consciência vai tomar medidas que comprometam para sempre o seu futuro político.

Qual é a magnitude do problema da poluição do ar?

No Brasil, de modo geral, está melhor porque houve melhoria tecnológica. Mas em algumas áreas piorou. É o caso do campo, por conta das queimadas, uso intensivo de pesticidas e, também, por menor fiscalização. Nas grandes cidades tende a melhorar, mas ela ainda é suficiente para causar problemas. Estima-se um excesso de 7 mil mortes ao ano na região metropolitana de São Paulo e  4 mil na capital. Esse número é maior do que os de AIDS e tuberculose somados, que são considerados problemas de saúde pública. A própria Organização Mundial de Saúde (OMS) diz que, entre as causas evitáveis, a poluição do ar mata mais do que cigarro. Embora o cigarro seja muito pior do que a poluição do ar, o seu risco se aplica apenas aos fumantes, enquanto a poluição atinge a todos.

Como a poluição afeta a saúde do indivíduo? 

A poluição do ar age da mesma maneira que o cigarro, só que em menor escala. Causa e piora doenças respiratórias, causa câncer de pulmão, doenças coronarianas e aumenta o número de partos prematuros…. A diferença é que quando você põe todo mundo para respirar ar poluído, aumenta o número de vulneráveis. A poluição do ar é a mais democrática das poluições. No caso da água contaminada, só é afetado quem tem contato direto. É possível comprar água engarrafada ou ter uma estação de tratamento. Não existe uma estação de tratamento do ar, nós temos que lidar com o ar que nós temos.

O que o paulistano deve fazer para se proteger?

Os cuidados que cada um pode tomar vão depender da sua condição financeira. Do ponto de vista da exposição, é recomendado evitar os horários de pico e minimizar o seu tempo de permanência nos corredores de tráfego. Mas se o indivíduo bate ponto fica meio difícil. O que se pode fazer é praticar um pouco mais de exercício físico, que é anti-inflamatório e melhora as defesas contra a poluição. Também é bom beber mais água, porque tanto a parte respiratória quanto a cardiovascular se beneficiam da hidratação. Em relação à alimentação, deve-se ingerir frutas e tudo o que envolve betacaroteno e vitamina E. Há estudos mostrando que crianças e adultos adeptos a uma dieta rica em antioxidantes naturais mantêm uma saúde melhor.

Quanto tempo de vida pode perder uma pessoa que mora em São Paulo?

Ela pode sofrer uma redução de mais ou menos 9 a 10 meses para cada 10 microgramas de material particulado fino inalado. Isso significa que a expectativa de vida em São Paulo aumentaria em um ano e meio caso a gente tivesse a poluição de Recife, por exemplo.

E qual é o impacto que a poluição do ar no orçamento público destinado à saúde?

Na cidade de São Paulo a poluição do ar custa, considerando as internações no SUS, de 180 a 200 milhões de reais por ano. Se multiplicar esse valor por três, ou seja, cerca de 600 milhões de reais, você chega ao número do SUS somado ao das redes conveniadas. Se contabilizar a mortalidade precoce, que contabiliza a perda do valor de anos produtivos, esse custo ultrapassa 2,5 bilhões de reais. A conta que se faz é que, no nível em que estamos hoje – de poluição intermediária –, para cada real investido em controle de poluição você economiza de R$7 a 8 em gastos de saúde nos cinco anos subsequentes. Não existe nenhum investimento público hoje com taxa de retorno tão alta. Defendemos igualmente que esse enorme custo da poluição, hoje pago por todos, deveria ser pago por quem polui. Agora, não adianta ficar só apelando para a responsabilidade social e ambiental das empresas. O compromisso delas é diferente, é com o lucro. Ninguém vai prejudicar os seus acionistas em nome de uma causa ambiental vaga.

Que tipo de medidas de curto prazo podem ser tomadas para melhorar a situação da cidade?

Embora com atraso, algumas já começaram, como a expansão da malha do metrô. É possível investir em transporte público de qualidade e na criação de corredores de ônibus. O governo municipal já proibiu, a partir de 2018, sua frota de utilizar combustíveis fósseis. Houve um avanço grande recente, mas ele foi circunstancial, porque o Secretário Municipal do Meio Ambiente é médico. Assim, certas providências não foram fruto de um diálogo institucional, mas de um feliz acaso. E boa política pública, de longo prazo, não se faz a partir de acasos felizes.

Existe um descompasso entre a produção científica e a formulação de políticas públicas?

Sim, a Universidade de São Paulo está entre os cinco grupos que mais publicam no mundo sobre poluição do ar e saúde e, apesar disso, nós não temos conseguido controlar de forma adequada a poluição, mostrando que a universidade falhou em criar mecanismos que influenciem as políticas públicas. Além disso, a qualificação dos nossos gestores, do ponto de vista técnico, não é das melhores – e olha que nós temos uma agência ambiental muito sofisticada que é a Cetesb. Fazer vigilância ambiental ainda não entrou na agenda do Brasil. E não somos apenas nós. Pouco se faz na América Latina e África mesmo que, de acordo com a OMS, as condições ambientais sejam responsáveis por 20% a 30% das causas evitáveis de doenças e mortes.

Qual a razão desse imobilismo?

Aqui a gente separou saúde e meio ambiente. Floresta faz parte da agenda ambiental, cidade não. Tiramos o homem do elenco das espécies a serem preservadas. Além disso, nós, pesquisadores, temos muita dificuldade de diálogo com o sistema público. Na academia, o horizonte é de longo prazo. Eu posso fazer um projeto que demora seis anos para ser concluído e não depende da mudança de prefeito. Então, você progride, mesmo a passos lentos. A burocracia interna das universidades, incluindo a USP, faz com que as pesquisas andem em velocidade de lesma paralítica. Mas quando chega a parte do governo, a velocidade é de lesma paraplégica, porque lá o peso dos interesses econômicos é muito maior. Mesmo assim, a produção científica faz diferença. Não fomos o único fator, mas as informações desse grupo de pesquisa da USP influenciaram a revisão dos padrões de qualidade do ar da cidade de São Paulo. Acho que se São Paulo pode mudar, o Brasil também pode.

Controle de emissões não basta

Por Daniel Santini - O Eco

Acabou de sair o 1º Inventário Nacional de Emissões Atmosféricas por Veículos Automotores Rodoviários. Trata-se de um estudo do Ministério do Meio Ambiente que levou quase dois anos para ficar pronto e que detalha a poluição provocada por motores de carros, caminhões, motos e ônibus de 1980 a 2009.

Houve avanços incontestáveis no controle de emissões no período, mas, de acordo com o estudo, as perspectivas para a próxima década são críticas e apontam a necessidade imediata de novas políticas públicas de transporte. Especialistas alertam que mesmo os atuais níveis de poluição causam problemas, cujas principais vítimas são crianças e idosos.

Desde 1986, quando o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) determinou a criação do Programa de Controle de Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), um conjunto de ações que vão da determinação de limites de emissões à adoção de combustíveis mais limpos, o nível de concentração de poluentes têm diminuído. “Alguns caem desde a virada da década de 1990, outros a partir do final dos anos 1990”, explica André Luís Ferreira, diretor do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), responsável pelo estudo. Ele alerta que, apesar do avanço, não será mais possível evitar uma crise grave apenas controlando as emissões. “Já estabilizamos e podemos detectar que as emissões voltarão a crescer seguindo o aumento da frota. Apenas controle dos escapamentos não adianta mais”, afirma. “Há um limite para o controle de emissões por veículo e a partir de agora os ganhos serão cada vez mais custosos e menores”.

Transporte individual x transporte coletivo

“Quando se compara o Brasil com outros países da mesma dimensão, como China, Rússia, Índia e Canadá, é fácil constatar que a participação do transporte rodoviário é muito menor do que no Brasil. Temos um transporte excessivamente dependente do rodoviário. Nas estradas e nas cidades”, diz Ferreira. Ele destaca que não tem sentido o Brasil seguir investindo e priorizando o transporte de cargas rodoviário, com caminhões movidos principalmente a diesel, em vez de apostar em alternativas como redes ferroviárias e hidroviárias. O representante do IEMA ressalta que as iniciativas devem deixar de ser exclusivas aos órgãos de defesa do meio ambiente. “O problema deveria ser endereçado também à área de transporte dos municípios, aos órgãos de trânsito. A decisão de se priorizar o transporte motorizado individual não é de quem faz gestão da qualidade do ar”.

Idosos e crianças primeiro

Constatar quão crítica é a situação atual é fácil. Basta escolher um dia seco em São Paulo, qualquer dia, e ir até o Instituto da Criança do Hospital das Clínicas. Passando a recepção, depois de cruzar um piano velho, onde invariavelmente crianças com olhar moleque dedilham notas fora de tom, é só descer um corredor e procurar a sala de inalação para encontrar pelo menos um menino ou menina com a cara enfiada em uma máscara de oxigênio. Mesmo auxiliados por gentis enfermeiras, os pequenos têm o olhar aflito de quem não consegue respirar direito.

Não só em São Paulo, mas em todo Brasil a poluição provocada por veículos automotores já afeta a saúde. “Os mais atingidos são sempre os que estão nos extremos da idade, os mais jovens e os mais velhos. Crianças com doenças respiratórias e idosos são os grupos de risco”, resume o médico Ericson Bagatin, presidente da Comissão de Doenças Respiratórias Ambientais e Ocupacionais da Sociedade Paulista de Pneumologia e Tisiologia (SPPT). “Com a quantidade de veículos entrando não tem jeito. Mesmo com controle de um lado, com atenção às emissões, escapa do outro, com o aumento da frota”.

Outra preocupação de quem estuda e monitora o assunto é com a tendência a extremos no clima em função do aquecimento global. As variações cada vez mais drásticas são um problema, considerando que quanto mais seco e quente, mais a poluição afeta a saúde e agrava doenças respiratórias. “Em agosto de 2010, após uma semana de 11 dias consecutivos com a umidade relativa do ar baixa, o que é um evento raro, houve aumento de mortes relacionadas a doenças cardiovasculares e respiratórias”, relata Micheline Coelho do Nascimento, colaboradora do Laboratório de Poluição Atmosférica da Universidade de São Paulo. “Estudamos poluição usando variáveis meteorológicas para isolar os dados, mas isso é cada vez mais difícil. Vivemos dias extremos, não dá mais para estudar uma coisa separada da outra”, diz a especialista. “A população não está percebendo isso e a gravidade dessas mudanças. A impressão é que as pessoas estão à parte do clima. Não dá mais para fazer as coisas da mesma forma de antes. O mundo vai parar. Temos que começar a ter uma visão diferente. Na prática não estamos preparados para a revolta da natureza”, conclui.