05 agosto 2010

Equador não explorará petróleo na Amazônia

Jornal do Brasil

O Equador apostou em um programa de proteção ao meio ambiente quando assinou um termo de compromisso com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), que prevê que o país não deve explorar reservas de petróleo na Amazônia. O local fica em uma área de proteção ambiental, e o governo equatoriano calcula que ali pode produzir 846 milhões de barris do óleo.

Em troca, o país recebe cerca de US$ 3,6 bilhões de países ricos como Alemanha, Holanda, Noruega e Itália.

O Equador pedirá ajuda aos países árabes, em uma operação inédita de contribuição à luta contra os perigos de mudanças climáticas. Segundo informação oficial, isso evita a emissão de 407 milhões de toneladas de carbono para a atmosfera.

Os campos Ishpingo, Tambococha e Tiputini, situados no Parque Nacional Yasuni-ITT, na Amazônia equatoriana, devem ficar intactos por pelo menos uma década. O lugar é habitado por populações indígenas que mantêm seus costumes e formas de vida.

Pioneirismo

Rebeca Grynspan, representante do Pnud que estava presente na assinatura do termo, em Quito, lembrou que esta é a primeira vez que um país se compromete com um acordo deste tipo:

– A assinatura deste acordo é uma medida audaciosa, vanguardista e histórica. Este é o primeiro país do mundo a fazê-lo, mantendo permanentemente a fonte de carbono embaixo da terra, com um mecanismo efetivo e verificável.

02 agosto 2010

Cientistas temem revés na Antártida

Pesquisadores brasileiros nunca tiveram tantos recursos para estudar o continente, mas previsão de investimento para 2012 é ruim; de acordo com o coordenador de um instituto governamental, compreender a influência da região sobre o País é importante


Afra Balazina, enviada especial a Natal - O Estado de S.Paulo

Nos últimos 28 anos, os cientistas brasileiros nunca tiveram tantos recursos para fazer pesquisas na Antártida. Mas eles não têm tempo para comemorar: estão preocupados com o futuro de seu trabalho no continente gelado.

O glaciologista Jefferson Cardia Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que a situação só e boa até o próximo ano.

"Ao longo dos últimos três anos, foram alocados cerca de R$ 35 milhões para o Programa Antártico Brasileiro (Proantar). E estamos tranquilos até 2011. Agora, no plano plurianual, o que está previsto é somente R$ 1,2 milhão para 2012", explica.

O receio dos pesquisadores do Proantar é que voltem a sofrer com o conhecido problema de irregularidade dos programas científicos. "Até 2002, a situação era muito inconstante. A partir de então, por meio de uma ação do Ministério do Meio Ambiente, começaram a vir recursos", afirma. Antes disso, segundo ele, o País "fazia alguma pesquisa, muitas vezes com o esforço de cientistas abnegados, mas sem dinheiro". Simões recorda que, por volta de 2000, o Proantar chegou a receber somente R$ 360 mil. E diz esperar que o próximo governo não permita um retrocesso.


O avanço das pesquisas também ocorreu com a criação, em 2008, de dois Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) com foco na Antártida. Um deles, o da Criosfera - a superfície terrestre coberta por gelo ou neve - é coordenado por Simões. O outro se chama Pesquisa Ambiental Antártica.

O primeiro congrega cerca de 150 pessoas. "São 50 doutores. Muitos são daqui, mas temos colaboração também do exterior, numa proporção de 15% a 20%. Não é muito, é mais para reforçar as colaborações", diz.

Relevância. De acordo com Simões, quando existem recursos, há um envolvimento maior da comunidade científica. "O cientista começa a se interessar e se motivar a montar seu laboratório. E pode se dedicar em grande parte do tempo a isso", explica.

Para quem pergunta qual é a relevância de o País pesquisar em outro continente, ele tem a resposta pronta:

"Os processos que ocorrem lá no Ártico e na Sibéria nos afetam. Aquele tsunami que aconteceu na Indonésia nos afeta. Assim como a Antártida. O brasileiro precisa parar de pensar que é um País isolado, tropical, abençoado por Deus em termos climáticos. Não é."

Segundo ele, ao longo dos anos houve uma fase de projetos individuais no continente gelado e, atualmente, chegou-se a uma fase de identificar grandes temas para estudar. E a principal pergunta que os cientistas têm de responder é qual a influência do continente antártico sobre o País.

Qualidade da pesquisa vale mais que possuir estação

O glaciologista Jefferson Cardia Simões afirma que, dentro do sistema do Tratado Antártico, é a qualidade da pesquisa científica que garante status, não a presença física. "Aquela ideia da década de 90, de ter uma estação e pronto, não dá status. Qualquer um pode ter. Paquistão tem estação, Uruguai também, a Índia tem duas estações, a China tem três." Para ele, é importante que o Brasil mantenha o status para poder participar de qualquer decisão que venha a ser tomada sobre a Antártida. "Não podemos abdicar do direito de decidir sobre o futuro de 10% do planeta. Ainda mais quando o futuro desses 10% impacta todo o restante da Terra."

Brasil não pretende ser dono de parte do continente, diz Jobim

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, afirma que o Brasil não tem interesse em obter parte do território da Antártida, mas em investir em ciência para se manter no continente com credibilidade.

"Argentina e Chile têm pretensões territoriais. Os chilenos até levam famílias de soldados para que nasçam crianças na Antártida. Mas o Brasil não tem", disse.

Ele afirma ter dito ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que "tínhamos de ser o primeiro país em termos de capacidade científica de pesquisa na Antártida para incentivar e fortalecer a presença do Brasil no continente".

O ministro fez as declarações na 62.ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Natal, semana passada. Segundo ele, a compra do navio polar Almirante Maximiano de pesquisa, no ano passado, "está dentro da política de crescimento e da consolidação do Brasil" na Antártida.

O contra-almirante Marcos Ferreira, secretário da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, explica que as reivindicações territoriais foram congeladas pelo Tratado da Antártida.

"Provavelmente, continuará assim para sempre, sem nova divisão." O Brasil é um dos 48 países que integram o tratado e tem papel consultivo, ou seja, tem direito a voto. Vinte desses países são não consultivos (e não fazem pesquisas regulares).