27 novembro 2009

China rouba a cena em Copenhague

Gigante asiático ofusca meta dos EUA com corte de emissão de 40%

Paulo Marcio Vaz- Jornal do Brasil

Rio - Um dia depois de os Estados Unidos chamarem a atenção do mundo ao anunciar uma meta de redução de CO2 – considerada baixa, mas importante, por especialistas – de 17%, a China não perdeu tempo e roubou a cena ontem. Sem ter a obrigação de se comprometer com uma meta de redução – por ser um país e em desenvolvimento – a nação mais poluidora do planeta comprometeu-se a reduzir entre 40% e 45% sua emissão de dióxido de carbono por cada unidade do PIB, índice mais conhecido como intensidade energética. O anúncio consolida uma reversão na tendência pessimista que ameaçava o sucesso da conferência do clima de Copenhague, entre 7 e 18 de dezembro, que alguns chegaram a considerar “enterrada”. Pequim também informou que o presidente chinês, Hu Jintao, vai comparecer ao encontro.

O anúncio chinês deixa mais otimista a comunidade internacional a respeito de resultados significativos a serem alcançados em Copenhague. Em números absolutos, não é possível mensurar o quanto a redução chinesa vai representar em emissão de CO2, pois isso dependerá do crescimento do PIB chinês. Mas o coordenador do do Programa Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, Carlos Rittl, fez uma projeção considerando um avanço anual de 10% do PIB da China até 2020.

Números absolutos

Segundo Rittl, se a China não adotasse qualquer medida de redução de CO2, o país emitiria, até 2020, 19,5 gigatoneladas de dióxido de carbono. Com a redução de 45% (o índice mais otimista), a emissão seria de 10,7 gigatoneladas, ou seja, 8,8 gigatoneladas a menos.

– A China tem tomado medidas importantes de eficiência energética – elogia Rittl.

O coordenador da WWF disse que o anúncio feito pela China, um dia depois de o presidente americano, Barack Obama, anunciar também a meta americana, começa a criar um ambiente mais favorável para um acordo significativo de redução de emissões a partir de 2012. Apesar das dificuldades de se conseguir consenso, principalmente entre países industrializados e em desenvolvimento, Rittl se coloca do lado de quem sempre acreditou na possibilidade de sucesso da conferência de Copenhague.

– Sempre acreditei que era possível. Espero acordar, depois de Copenhague, podendo comemorar a existência de um acordo, com força de lei, que garanta uma redução substancial de CO2.

Cautela e fiscalização

Já a professora do Instituto de Geoquímica da UFF, Cátia Fernandes Barbosa, é mais cautelosa, e lembra de uma questão que a faz desconfiar da consolidação da meta chinesa, apesar de também saudar o anúncio de Pequim:

– Há um fator que diferencia o grau de credibilidade que podemos ter em relação à China. A falta de liberdade de expressão naquele país obriga a nós, cientistas. a ficarmos mais vigilantes sobre o

cumprimento real dessa meta – analisa.

A professora pondera que, nos EUA, por exemplo, cientistas são capazes de criar órgãos independentes de reivindicação e fiscalização, o que, segundo ela, não ocorreria na China.

-–Uma coisa é dizer, outra é fazer. Precisamos ser vigilantes e ficar atentos – completa. Cátia se mostra mais animada a respeito da confirmação da presença, na cúpula de Copenhague, de Jintao e Obama, líderes dos países mais poluentes no mundo.

- É fundamental que as barreiras políticas sejam vencidas nessa questão. Afinal de contas, a atmosfera é de todo mundo. É preciso que a questão das emissões de CO² alcance a mesma maturidade que outras questões já alcançaram, como, por exemplo, a do CFC (componente químico que afeta a camada de ozônio e tem sido substituído pela indústria mundial).

26 novembro 2009

EUA entram na luta

Obama viajará a Copenhague para apresentar meta de redução das emissões de gases do efeito estufa em 17% até 2020

Rodrigo Craveiro – Correio Braziliense

Foram oito anos de silêncio e de omissão absoluta. Uma época durante a qual George W. Bush se recusou a assumir compromissos para mitigar os efeitos do aquecimento global, enquanto o mundo vislumbrava sua própria destruição. A apenas duas semanas da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a Casa Branca anunciou “uma contribuição importante a um problema que os Estados Unidos têm negligenciado por tanto tempo”. “O presidente (Barack) Obama viajará a Copenhague, em 9 de dezembro, para participar do encontro. Ele está ansioso para trabalhar com a comunidade internacional no sentido de um progresso rumo a um acordo compreensivo e global”, afirma o comunicado divulgado ontem pela Presidência dos Estados Unidos. “No contexto de um pacto geral que inclua contribuições para uma mitigação robusta, por parte da China e de outras economias emergentes, o presidente está preparado para colocar sobre a mesa uma meta de redução das emissões de 17% (em relação aos níveis de 2005) até 2020, e alinhado com a legislação dos EUA sobre clima e energia”, acrescenta o texto.

Obama viajará acompanhado dos secretários Ken Salazar (Interior), Tom Vilsack (Agricultura), Gary Locke (Comércio), Steven Chu (Energia) e Lisa Jackson (Meio Ambiente). “Pela primeira vez, a delegação norte-americana terá um Centro dos Estados Unidos na conferência, fornecendo um fórum único e interativo para compartilhar nossa história com o mundo”, reitera o comunicado da Casa Branca.

Cientistas e ambientalistas consultados pelo Correio receberam a notícia com um “otimismo reticente”.

Por telefone, Rajendra Kumar Pachauri, chefe do Paintel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, pela sigla em inglês) e Prêmio Nobel da Paz, considerou a atitude de Obama “um bom começo”.

“Obama está no poder há apenas um ano e depende muito do Congresso, que não tem se mostrado muito entusiástico com o assunto”, criticou. “Mas estou grato por ele ir a Copenhague. É um bom desenvolvimento.”

O dinamarquês Bjorn Lomborg faz jus ao apelido de “ambientalista cético”. Em entrevista por email, ele admitiu que a meta de redução de 17% até 2020 “soa como uma boa promessa, mas simplesmente não será alcançada”. Para o especialista, as análises mostram que será mais provável uma redução de 3% a 4% — o restante viria do mercado de carbono. “É como usar truques de contabilidade para fazer com que o balanço bancário pareça maior. Muitos políticos estão prometendo coisas que não serão capazes de cumprir”, opinou. Lomborg crê que o mandatário norte-americano prestigiará apenas a abertura da conferência. “Ele não estará lá quando decisões reais forem tomadas e transmitidas ao mundo”, atacou.

Por sua vez, o cientista neozelandês Kevin Trenberth — autor dos três últimos relatórios do IPCC (1995, 2001 e 2007) — acredita que o problema está no aumento das emissões, apesar de o Protocolo de Kyoto ainda teoricamente vigorar. “Os EUA estão planejando reduzir as emissões, mas a meta ainda não está clara e o modo como será cumprida é incerto. Apesar de os números em discussão serem muito pequenos, precisamos começar de algum ponto, fazer mudanças em incentivos e penalidades, para então progredir”, comentou. Na opinião dele, o governo Obama “é forte na intenção” em lidar de modo responsável com as mudanças climáticas, “mas o processo político norte-americano revela-se lento, atrasado pelo debate da reforma da saúde”.

De viagem a Caxias do Sul (RS), Carlos Nobre, cientista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e também membro do IPCC, não vê grandes novidades no anúncio da Casa Branca.

“Pela nova proposta, em 2020, os Estados Unidos reduziriam suas emissões em 1,23 bilhão de tonelada de dióxido de carbono equivalente. O Brasil tem uma meta voluntária de reduzir até 1,1 bilhão. Ao compararmos o tamanho das emissões americanas e brasileiras, veremos que essa meta dos EUA é muito modesta”, disse, por telefone. De acordo com ele, os países em desenvolvimento e o IPCC indicaram que as nações desenvolvidas deveriam diminuir suas emissões em 40%, em relação a 1990. “Quando olhamos que o IPCC recomendou um corte muito rápido nas emissões, para que a temperatura não suba mais de dois graus Celsius, vemos que a promessa dos EUA é aquém do que o mundo está pedindo”, acrescentou.

Eu acho...

“É um bom começo, considerando que os Estados Unidos não têm feito muito na área. Se observamos desse ponto de vista, veremos que foi um passo adiante. Obama está no poder há apenas um ano e depende muito do Congresso. Sob essas circunstâncias, não estou certo de que ele conseguiria metas mais altas. Mas estou grato por ele ir a Copenhague. É um bom desenvolvimento” Rajendra Kumar Pachauri, chefe do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e Nobel da Paz

EUA vão cortar 17% de CO2 até 2020

Meta é considerada baixa, mas importante. Na prática, corte é similar ao anunciado pelo Brasil

Paulo Marcio Vaz – Jornal do Brasil

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fará uma breve mas importante aparição no dia 9, em Copenhague, para anunciar, durante a conferência do clima, que os EUA desejam cortar em torno de 17% de suas emissões de gases do efeito estufa até 2020, baseado em índices de 2005. Na prática, a meta representa a redução de 1 bilhão de toneladas de CO2, quantidade similar à proposta pelo Brasil para daqui a 10 anos. A presença de Obama na Dinamarca será uma escala na viagem até Oslo, na Noruega, onde ele receberá, no dia 10, o Prêmio Nobel da Paz. A proposta de corte oferecida pelos EUA foi aprovada pela Câmara dos Deputados americana, mas é inferior àquela a ser apreciada pelo Senado, que prevê um corte de 20%.

Apesar de comemorar o anúncio, o secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas e diretor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, acha “muito pouco” o índice de redução de CO2 proposto pelos EUA.

– A proposta americana não é uma coisa de outro mundo. Na verdade, em quantidade de CO2, é igual à proposta brasileira. Considerando que os EUA emitem muito mais, fica claro que, proporcionalmente, a meta deles é muito inferior à nossa – analisa Pinguelli.

Mais otimismo No entanto, o pesquisador considera importante que Obama estabeleça uma meta e compareça a Copenhague, o que aumenta a expectativa de sucesso da conferência do clima na Dinamarca, que enfrenta uma onda de descrença entre especialistas. O próprio Pinguelli se diz mais confiante a partir do anúncio feito ontem pela Casa Branca.

– Diria que, até antes do anúncio do Obama, de 0 a 10, meu grau de otimismo sobre a conferência estava em 5,5. Agora, aumentou para 7,5 – avalia Pinguelli.

O diretor da Coppe diz ainda que a decisão americana pode influenciar a China, outro grande emissor de CO2, que ainda não se manifestou sobre uma proposta concreta para Copenhague.

– Se Obama mudou o seu discurso, quem sabe a China também reveja sua posição e anuncie uma meta concreta – diz Pinguelli.

Segundo a Casa Branca, a meta de redução das emissões americanas aumentaria ao longo dos anos, alcançando 30% até 2025, e 42% até 2030. Mas os EUA não precisaram a correspondência dessas reduções em relação a 1990, ano de referência escolhido pela maioria dos países participantes da conferência.

O encontro de Copenhague começa no dia 7 e vai até o dia 18 de dezembro, onde autoridades de todo o mundo se reunirão para pactuar um acordo que substitua ao Protocolo de Kyoto em 2012. Mais de 60 chefes de Estado e de governo já confirmaram presença, como os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e o francês, Nicolas Sarkozy, e a chanceler alemã, Angela Merkel.

24 novembro 2009

O sonho de voar sem poluição

Equipe de cientistas trabalha na construção de avião capaz de dar a volta ao mundo utilizando apenas energia solar. Realização da façanha está prevista para 2012

Silvia Pacheco – Correio Braziliense

Um avião capaz de dar a volta ao mundo sem usar uma gota de combustível parece ficção, mas não é. Trata-se do Solar Impulse, projeto que tem o objetivo de dar a volta no globo a bordo de um avião movido exclusivamente por energia solar, deixando de lado qualquer outro tipo de fonte energética.

Chamada de HB-SIA, a aeronave, semelhante a um aeroplano, deve voar durante o dia e à noite, demonstrando o potencial de uso das energias renováveis. Os suíços Bertrand Piccard e Andre Borschberg(1), idealizadores da iniciativa, esperam induzir indústria, cientistas, políticos e sociedade civil às mudanças necessárias para alcançar uma melhor utilização dos recursos energéticos e maior respeito ao meio ambiente.

O Solar Impulse nasceu da crença de Piccard de que a maior façanha deste século consistirá na preservação e melhoramento da qualidade de vida no planeta. “O grande desafio é conciliar os interesses econômicos e ecológicos e promover o uso de novas tecnologias para economizar energia e gerar recursos alternativos”, afirma o pesquisador ao Correio, por e-mail. Esse desafio se torna pertinente, uma vez que, atualmente, a aviação mundial é responsável por 2% das emissões de dióxido de carbono na atmosfera, segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês).

À frente do projeto com Piccard, o engenheiro mecânico e piloto André Borschberg comanda a construção do avião, que envolve uma equipe de 65 pessoas composta por especialistas de todas as origens e de diferentes formações — engenheiros de materiais, físicos, gestores de energia e membros da Escola Politécnica Federal de Lousanne (EPFL), considerada uma das principais instituições tecnológicas da Europa. “Uma equipe diversificada estimula a criatividade e a força, trazendo soluções originais e inovadoras a partir da comparação de suas experiências”, diz Borschberg à reportagem.

O desafio não é nada simples. O grupo precisou projetar um avião gigantesco (veja arte), com a envergadura de um Airbus A340, mas que pesa o mesmo que um automóvel — 1.600kg — e possui motores com a potência de uma pequena moto. “Nosso desafio está em acumular cada watt gerado pela energia solar e descobrir como economizá-la. Apenas as soluções mais avançadas, a maioria delas nunca antes aplicadas, permitirá isso. Acreditamos que podemos chegar a essas soluções combinando a experiência e somando o potencial de cada membro da equipe”, explica Borschberg.

Acúmulo de energia

Para tanto, as asas e estabilizadores horizontais são todas cobertas por mais de 11 mil células solares que captarão a energia solar, transformá-la em eletricidade e alimentar os quatro motores. O grande problema, no entanto, será a fase em que o HB-SIA voará à noite. Para isso, quatro baterias de lítio serão necessárias para armazenar eletricidade enquanto não houver captação da luz do Sol. O princípio consiste em acumular energia solar durante o dia, alimentando os motores e recarregando as baterias. À noite, as baterias que foram abastecidas durante o dia passarão a funcionar, mantendo o avião no ar. Nesse período, a aeronave perderá altitude gradativamente para economizar energia — a altitude máxima, quando houver Sol, será de 8.500m.

Como só é capaz de voar a 70km/h, o Solar Impulse levará cerca de 36 horas para dar a volta na Terra. O primeiro voo de teste deve ocorrer ainda este ano ou no começo do ano que vem, mas a equipe de Bertrand e Piccard não divulgou a data. A circunavegação pelo mundo deverá ser feita em 2012. Até lá, alguns detalhes poderão ser alterados. A equipe avalia a necessidade de construção de uma aeronave com dois lugares, para que a viagem possa ser feita sem escalas. O modelo atual do Solar Impulse tem espaço para apenas um piloto, o que exigiria uma viagem em cinco etapas.

Giovanni Bisignani, diretor-geral da Iata, acredita que o Solar Impulse poderá fornecer muitas respostas para uma indústria mais verde e viável. “A indústria da aviação nasceu do sonho de as pessoas poderem voar. Os resultados desse projeto nos leva à construção para um futuro livre de carbono. Ao trabalhar em conjunto com uma visão comum, pode-se obter grandes progressos na tecnologia de combustível feito a partir da biomassa.”

1 - Família de exploradores

Bertrand Piccard faz parte de uma família de exploradores e cientistas. Ele é neto de Auguste Piccard, primeiro homem a atingir a estratosfera em um balão em forma de gôndola, em 1931. O pai de Bertrand, Jacques Piccard, usou o batiscafo e bateu o recorde do mundial de descida no oceano, ao mergulhar até 10.916m. O próprio Bertrand, acompanhado pelo inglês Brian Jones, deu a volta ao mundo em um balão em 1999. A dupla percorreu 45.755km em 19 dias, 21 horas e 47 minutos. O voo começou na Suíça e acabou no Egito.