14 agosto 2009

Grupo acha novas espécies de réptil em chapada baiana

Biólogo da USP já identificou dois lagartos e prepara descrição de outros três

Descobertas revelam fauna única dos campos rupestres, formação pouco conhecida e ameaçada por plantações de eucalipto e aquecimento

REINALDO JOSÉ LOPES
DA REPORTAGEM LOCAL – Folha de São Paulo

Duas novas espécies de lagartos são os frutos mais recentes de pesquisas sobre a biodiversidade dos campos rupestres da Chapada Diamantina, ambiente que se caracteriza pelo grande número de animais e plantas que só existem por lá. E um dos responsáveis pela descrição dos répteis avisa: ele já tem mais três potenciais novas espécies em identificação.

"Entre anfíbios e répteis, várias espécies foram descritas recentemente e outras tantas ainda estão por ser descritas", conta José Cassimiro, doutorando do Departamento de Zoologia da USP.

A diversidade desconhecida da região é tamanha que os dois novos bichos foram achados no mesmo município -Mucugê, na Bahia. Cassimiro e seus colegas da USP e da Universidade Estadual de Santa Cruz (BA) batizam os bichos, o Acratosaura spinosa e o Gymnodactylus vanzolinii, em dois artigos na revista científica "Zootaxa".

Ambos habitam elevações em torno de 1.000 m, nas áreas rochosas e de vegetação rasteira que caracterizam os campos rupestres. São criaturas de apenas 12 cm de comprimento, mas de aparência singular.

O A. spinosa ganhou o nome de "espinhoso" em latim por causa das escamas com quilhas, protuberâncias que dão ao bicho uma aparência áspera. Os machos possuem poros característicos nas coxas e nos genitais, pelos quais são produzidas substâncias que, acredita-se, possam atrair parceiras ou marcar território.

Já o G. vanzolinii, apesar de suas belas listras no dorso, é um primo relativamente próximo da lagartixa "doméstica". "A lagartixa que conhecemos é originária da África, possivelmente trazida em navios negreiros", conta Cassimiro.

No artigo em que descrevem o G. vanzolinii, o biólogo e seu orientador, Miguel Rodrigues, aproveitam para esclarecer um equívoco do zoólogo e compositor Paulo Vanzolini, que já estudou lagartos do gênero. Uma das espécies batizadas por ele, a G. carvalhoi, não seria válida.

"Até 2005, só havia uma subespécie de Gymnodactylus no cerrado, a G. g. amarali. Vanzolini, baseado em um exemplar jovem e com pele danificada do Maranhão, concluiu que ela só ocorria lá, elevou-a à condição de espécie e resolveu colocar todos os outros exemplares do cerrado numa nova espécie, a G. carvalhoi. Ao examinar esse animal, vi que ele não se diferencia dos do resto do cerrado", explica Cassimiro.

Parece um detalhe sem importância, mas um inventário preciso é essencial para entender uma fauna tão única -e ameaçada. "Em campo, a gente constata que esse tipo de ambiente vai pelo mesmo caminho que os nossos outros biomas", lamenta o pesquisador.

"Plantações de eucalipto já são comuns em algumas áreas", afirma. Além disso, áreas montanhosas podem ser especialmente vulneráveis a mudanças trazidas pelo aquecimento global. "Mas ainda é cedo para saber quais seriam os danos a esse ambiente."

Procurado pela Folha, Vanzolini não quis comentar o estudo. "Não se faz debate científico em meio [de comunicação] para leigo", declarou.

11 agosto 2009

Turismo sem cuidado ameaça Lençóis Maranhenses



Sem pontos de coleta de lixo, banheiros e estrutura para receber o turista, quem vem se diverte e deixa pra trás muita sujeira. Os quadriciclos viraram um perigo para os ninhos e os filhotes de aves.

Críticos cobram apoio do País ao REDD

Posição brasileira sobre o tema é ‘atrasadíssima’, diz professor da UnB

Herton Escobar, BONN, ALEMANHA – O Estado de São Paulo

A medida que a cúpula de Copenhague se aproxima, aumentam as pressões - doméstica e internacional - para que o Brasil mude sua posição sobre a inclusão do desmatamento evitado (via REDD) no mercado de carbono. Críticos ouvidos pela reportagem do Estado classificaram a atuação brasileira no tema como "retrógrada", "anti-científica", "maniqueísta" e contrária aos esforços de conservação das florestas tropicais.

"A posição do Brasil é atrasadíssima", diz o sociólogo Eduardo Viola, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília. Segundo ele, o País está "prisioneiro de um erro histórico" que cometeu em 1997, quando se opôs à inclusão do desmatamento evitado no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) do Protocolo de Kyoto - apesar de todos os outros países florestais serem a favor. "Foi um tiro no pé", diz Viola. "O Brasil está isolado."

Muitas dessas políticas, diz ele, estão enraizadas numa "paranóia histórica" que envolve a soberania nacional e o domínio da Amazônia. "Essa proteção da soberania acaba sendo uma proteção das forças que desmatam", diz a antropóloga cultural Myanna Lahsen, do Inpe, autora de um estudo sobre as relações de poder que moldaram esse debate no Brasil.

Ela aponta que , mesmo diante do acúmulo de evidências científicas mostrando que a Amazônia não funciona apenas como um reservatório, mas também como um sumidouro de carbono (absorvendo CO2 da atmosfera), a agenda brasileira manteve-se contrária à inclusão das florestas nativas no mercado de carbono. "Precisamos ser mais flexíveis", diz.

Para o ecólogo Antonio Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, a diplomacia brasileira sobre carbono florestal é comandada por um "grupo ideológico e secretivo", que fecha os olhos para a ciência e continua a insistir na mesma "política falida de Kyoto". Ele teme que as incertezas levantadas sobre o papel do desmatamento nas emissões globais de carbono sejam usadas para sabotar um acordo favorável ao REDD em Copenhague.

"Vão tentar remover as florestas das negociações, como já fizeram em Kyoto, e veja onde isso nos levou. As emissões globais de carbono só aumentam e nossas florestas continuam sendo devastadas", aponta Nobre, ressaltando que os ecossistemas florestais prestam muitos outro serviços ambientais além do ciclo de carbono. "O maniqueísmo em torno de uma incerteza numérica ignora totalmente esses outros valores. Mas os negociadores, com a participação ativa do grupelho ideológico que manipula nossa agenda nesta área, se refestelam com o reducionismo no debate."

No cenário político nacional, o REDD conta com o apoio de todos os governadores da Amazônia, que pressionam o governo federal no sentido de mudar a posição do Brasil para Copenhague.

"Precisamos adotar uma linha de negociação mais pragmática e menos punitiva", diz o diretor da Fundação Amazonas Sustentável, Virgílio Viana.

Ele coordena uma "força tarefa" montada a pedido do Fórum de Governadores da Amazônia para discutir o REDD, com a participação de vários representantes das esferas estaduais e federais. A primeira reunião ocorreu na semana passada, no Rio, e deixou Viana otimista.

"Aqueles que chegaram com uma posição radicalmente contra saíram abalados. Aqueles que chegaram indecisos, saíram convencidos", garante Viana. Segundo ele, todas as questões técnicas levantadas contra o REDD já têm solução.

O repórter Herton Escobar viajou a convite da Andi

Desmate da Amazônia gera 2,5% das emissões globais de carbono

Cálculo preliminar feito por cientistas do Inpe reduz a contribuição da devastação para o aquecimento global

Herton Escobar, BONN (ALEMANHA) – O Estado de São Paulo

O desmatamento da Amazônia brasileira contribui com aproximadamente 2,5% das emissões globais de gases do efeito estufa (GEEs), responsáveis pelo aquecimento global, segundo um cálculo preliminar feito por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O volume de carbono emitido é enorme. Porém, proporcionalmente menor do que se imaginava, segundo o diretor do Inpe, Gilberto Câmara. A estimativa inicial, diz ele, era de que o desmatamento na Amazônia brasileira respondia por 5% das emissões globais de GEEs (principalmente dióxido de carbono, ou CO2). O novo cálculo foi feito numa reunião com cientistas do instituto na sexta-feira, após uma consulta feita pela reportagem do Estado.

Câmara enfatiza que é uma estimativa preliminar, que ainda precisa ser refinada - mas que não deve desviar muito dessa ordem de grandeza. A conta foi feita com base na taxa de desmatamento de 2008, que foi de aproximadamente 13 mil km².

O diretor do Inpe aproveita para questionar outra estimativa que vem sendo citada amplamente nos debates internacionais, de que o desmatamento acumulado no mundo produz 20% das emissões globais de GEEs. Esse número, segundo ele, é baseado em dados superestimados da Fundação das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que adota como média para o Brasil um desmatamento anual de 30 mil km² - muito acima do real.

Nos últimos 20 anos, segundo os dados do próprio Inpe, a média anual de desmate na Amazônia brasileira foi de aproximadamente 18 mil km².

"Não há base científica confiável para esses 20%", disse Câmara ao Estado. Ele acredita que uma estimativa mais realista seja em torno de 10%, conforme um trabalho publicado pelo World Resources Institute.

O cálculo dos 20% é citado nos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e tem servido de base para as negociações internacionais a respeito da contribuição do desmatamento (e dos países em desenvolvimento) para o aquecimento global.

"O IPCC chancelou esse dado porque ninguém dos países em desenvolvimento se deu ao trabalho de ir atrás do número real", afirma Câmara - acrescentando que o Inpe está empenhado em fazer esse cálculo. "Foi um dado que ninguém se interessou em contestar."

Os novos números, segundo Câmara, não diminuem em nada a necessidade de estancar o desmatamento. Mas diminuem, sim, o efeito que essa redução pode ter sobre as mudanças climáticas na escala global.

As implicações são grandes para a negociação do novo acordo climático que deverá ser fechado em dezembro, em Copenhague, na próxima Conferência das Partes (COP) da Convenção do Clima das Nações Unidas. "É muito conveniente para os países desenvolvidos que as emissões por desmatamento nos países em desenvolvimento sejam altas", avalia Câmara. "Quanto maior a nossa contribuição (para o aquecimento global), menor a deles."

Três reuniões preparatórias ainda serão realizadas antes de Copenhague. A primeira começa hoje em Bonn, na Alemanha.

DESMATAMENTO EVITADO

Os novos cálculos apresentados por Câmara alteram também o cenário das discussões sobre Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação florestal (REDD), que é um dos temas críticos na agenda do Brasil para Copenhague. O REDD é um mecanismo proposto que permitiria aos países desenvolvidos receber créditos de carbono pelo financiamento de projetos de conservação que reduzam o desmatamento nos países em desenvolvimento.

O governo brasileiro aceita negociar o REDD como um mecanismo auxiliar de financiamento, mas não como um mecanismo compensatório. Ou seja: os países desenvolvidos poderiam financiar projetos de conservação e até obter créditos de carbono, mas não usar esses créditos para compensar suas próprias emissões.

Na visão do Itamaraty e de representantes do Ministério da Ciência e Tecnologia que participam das negociações, isso daria uma saída fácil para os países desenvolvidos cumprirem suas metas sem precisar reduzir substancialmente suas emissões por queima de combustíveis fósseis - que é o maior problema global.

"Não adianta querer salvar o clima com florestas; não adianta mesmo", diz a diretora de Relações Internacionais do Inpe, Thelma Krug, uma das principais representantes do Brasil na Convenção do Clima.

"A floresta preserva estoques de carbono, mas não reduz emissões", diz o diplomata André Odenbreit, do Itamaraty. "Se dermos créditos de carbono para conservação aqui, alguém vai emitira mais em outro lugar. A conta simplesmente não fecha." Além disso, diz ele, se o Brasil exigir compensações para não desmatar suas florestas, outros países poderão exigir o mesmo para não explorar suas reservas de petróleo.

Amazonas confirma mais cinco casos de gripe suína

Amanda Mota Repórter da Agência Brasil

Manaus - Com mais cinco casos confirmados, subiu para 11 o número de ocorrências de influenza A (H1N1) – gripe suína -– no Amazonas. A Fundação de Vigilância em Saúde (FVS) confirmou a doença em três marinheiros do Rio de Janeiro, que vieram a Manaus por motivos de trabalho, e em uma adolescente de 13 anos e um bebê de três meses, que estavam em Curitiba.

Segundo o diretor da FVS no Amazonas, Evandro Melo, destes, apenas dois marinheiros continuam em observação. Todos os outros pacientes foram tratados e liberados, porque não havia mais risco de  transmitirem a doença. “O bebê até já retornou a Curitiba. Ele veio a Manaus para ficar sob os cuidados da avó, porque a mãe dele contraiu a gripe A, mas ele já chegou à cidade infectado”, informou Melo, em entrevista à Agência Brasil.

Hoje (10), representantes da FVS e da Marinha vão se reunir em Manaus para que os militares recebam orientação sobre os cuidados necessários, sobretudo para os profissionais que neste período estão com viagens de trabalho marcadas. O objetivo é reforçar as instruções quanto ao assunto. "Já fizemos isso com o Exército e agora vamos fazer com a Marinha e a Aeronáutica. Trata-se de de definir um protocolo de procedimentos e também para acompanhamento dos profissionais caso haja contaminação entre eles”, acrescentou Melo.

O secretário de Saúde de Manaus, Francisco Deodato, garantiu que nenhum dos casos da nova gripe confirmados no Amazonas originaram-se dentro do estado. “Todos os casos vieram de fora. O contágio local pode ocorrer a qualquer momento. O importante agora é garantir o atendimento às pessoas evitar a morte dos casos confirmados”, disse Deodato.

Ele ressaltou que nos portos, aeroportos, escolas e órgãos públicos, estão sendo realizadas diversas ações de educação em saúde, com orientações principalmente sobre a gripe suína. “Manaus foi uma das primeiras cidades do país a iniciar um trabalho nos portos e aeroportos, resultado da parceria entre prefeitura, governo estadual e Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária]. Nas últimas semanas, esse trabalho foi reforçado nos portos, devido ao grande númerode barcos, sobretudo vindos do Pará, que tem o maior número de casos na Região Norte”, concluiu.

Brasil já é o 3º em mortes pela gripe

Brasil já tem mais mortes por gripe suína que o México

Marcelo Gigliotti, Jornal do Brasil

Rio de Janeiro - Desde o dia 28 de junho, quando foi registrada a primeira morte por causa da gripe suína no Brasil, o número de óbitos vem crescendo a grande velocidade. A ponto de o Brasil já figurar como o terceiro país com o maior número de mortes, tendo ultrapassado do próprio México, onde surgiu o primeiro surto da doença. São cerca de 200 mortes no Brasil, segundo dados informados pelos estados até o início da noite desta segunda-feira, contra 146 no México, total que consta no último boletim do Ministério da Saúde.

Para especialistas em epidemiologia, o fato de o Brasil ter superado o México pode ter como causa principal a questão do clima.

– No México, o surto apareceu no fim do inverno. No Brasil, os casos, especialmente as mortes, começaram a surgir no começo do inverno – diz o presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Juvêncio Furtado.

A questão do clima é unanimidade entre quatro infectologistas ouvidos pelo JB.

– O vírus tem mais dificuldade de se disseminar no calor. Tanto pelo fato de as pessoas ficarem mais ao ar livre no verão, como por outros fatores que ainda estão sendo estudados pela ciência. A incidência solar mata o vírus com mais facilidade. E ele também suporta menos altas temperaturas – diz o infectologista Alex Botsaris.

Ele acredita que a partir de 15 de agosto, o número de casos e de óbitos entre numa curva descendente.

– E possivelmente em meados de setembro, a epidemia deve acabar no Brasil – deduz.

O epidemiologista da UFRJ, Edimilson Migowski, acredita que a dificuldade inicial no acesso ao antiviral, demoras na realização de exames e erros de diagnóstico possam ter contribuído para um número tão elevado de mortes.

– Agora, a distribuição do medicamento melhorou muito. Mas outros fatores podem ter relevância. Cada população tem uma característica demográfica diferente. Pode ser que o Brasil tenha mais pessoas nos chamados grupos de risco do que o México. Certamente tem menos gestantes do que em países europeus, onde o número de mortes é baixo – diz Migowski.

Segundo Edimilson, o número de casos da doença no Brasil pode ser bem maior do que a estatística oficial, que soma 2.959 registros.

Ele se baseia no índice médio de letalidade da doença., que é de 0,5%, segundo a Organização Mundial de Saúde.

– Então, se os quase 200 óbitos representam 0,5% dos casos, o total de infectados no país pode estar na casa de 40 mil pessoas – estima.

Outro infectologista, Roberto Medronho, da UFRJ, lembra que estudos apontam que 1/3 da população de um país ou região pode ser contaminado por gripes.

– Talvez isso não venha a ocorrer em todo o território nacional, mas em algumas regiões mais afetadas, boa parte da população pode ser atingida – diz Medronho.