15 setembro 2008

Transposição já muda a face do Sertão



A transposição do São Francisco, principal obra do governo Lula, está, enfim, saindo do papel. Junto com a Transnordestina, segundo grande projeto para o Nordeste, o empreendimento já está mudando a face de pequenos municípios do interior. Hoje e amanhã, o JC mostra os reflexos positivos de duas das obras mais esperadas na região. Os textos são de Angela Fernanda Belfort e as fotos, de Renato Spencer.

Os tratores e escavadeiras estão arrancando uma parte da vegetação nativa do Semi-Árido de Pernambuco, no município de Cabrobó. São as primeiras obras da transposição das águas do Rio São Francisco, o maior projeto de infra-estrutura hídrica já iniciado no Nordeste e que custará cerca de R$ 6 bilhões, bancados pelo tesouro nacional. As obras começaram em novembro de 2007 e já trouxeram impacto para a economia de cidades da região. Em Cabrobó, existem duas frentes de trabalho. A primeira é do Exército, que faz o canal de aproximação e a Barragem de Tucutu, ambos com 34% de realização. O projeto prevê a construção de dois grandes canais o Eixo Norte e o Eixo Leste, que vão levar a água para 15 milhões de pessoas e possibilitar a implantação de projetos de irrigação.

O exército tem 348 homens trabalhando em Cabrobó, sendo 105 terceirizados. Já o Consórcio Águas do São Francisco contratou cerca de 800 homens, segundo informações da Prefeitura de Cabrobó. A empresa vai fazer os dois primeiros lotes do Eixo Norte. Natural de Cabrobó, o operário Cristiano Kenar Gomes Cavalcante está trabalhando nas obras da transposição. Ele estudou até o segundo grau e tinha um emprego numa loja de material de construção em Petrolina, a 200 quilômetros da sua cidade natal, mas ficou desempregado e voltou para Cabrobó. “Estou ganhando mais e a minha carteira está assinada”, disse Cavalcante, que ocupa o cargo de apontador há três meses.

O aumento na quantidade de pessoas em Cabrobó e Salgueiro alterou a rotina das duas cidades, que ficam a uma distância de 80 quilômetros. A principal fonte de renda dos dois municípios é o salário pago pelo poder público. As cidades fazem parte da região conhecida também como Polígono da Maconha, no Sertão de Pernambuco. “Calculamos que existem pelo menos 150 pessoas de Cabrobó trabalhando nas empresas privadas”, comentou o prefeito daquela cidade, Eudes Caldas (PTB), acrescentando que o desemprego diminuiu.

Uma demanda maior por trabalhadores provocou um ato inusitado em Salgueiro. No primeiro semestre deste ano, o Sine daquela cidade chegou a anunciar na rádio local, pelo menos três vezes, que estava procurando cargos mais raros, como por exemplo um motorista com 1º grau completo e com conhecimento de digitação. Esse tipo de anúncio ocorreu nos últimos seis meses em decorrência de pedidos feitos pelas empresas privadas. O Sine de Salgueiro já encaminhou pessoas para ocupar pelo menos 50 cargos que foram demandados pelas empresas que fazem as obras da transposição. O cadastro da entidade tem cerca de 10 mil pessoas inscritas, mas somente dois engenheiros. Um deles foi contratado por uma empresa que está fazendo outro serviço relacionado à transposição, a implantação do saneamento básico de Salgueiro, que custará R$ 25,9 milhões.

Não é só a demanda por gente que aumentou. “O Brasil virou um canteiro de obras e está difícil alugar alguns equipamentos. No Recife, as máquinas já estão alugadas e por isso trouxemos uma retroescavadeira de Brasília”, explicou o encarregado-administrativo da Construtora Augusto Velloso, Disney Jekson. A empresa tem 47 pessoas trabalhando em Salgueiro e se instalou lá depois de vencer uma licitação para fazer as obras de saneamento. Ele informou também que é difícil contratar pessoas para cargos mais especializados, como por exemplo, um cabo de fogo, que é o profissional que fica responsável pela detonação de explosivo em rochas.

Também impressiona a quantidade de trator, escavadeira e caminhão que circula na área da construção do canal, que terá uma base de seis metros e também seis metros de altura. Só o exército tem 111 equipamentos em uso no local, dos quais apenas 12 são veículos leves. Os outros são veículos pesados. O canal de aproximação - que está sendo feito pelo exército e que terá quase dois quilômetros de extensão - é a primeira parte do Eixo Norte, que vai retirar a água do rio em Cabrobó. Nessa mesma área, já começou a ser levantado um paredão - que vai ter 22 metros de altura - para armazenar as 250 milhões de metros cúbicos de água que poderão ser guardados na Barragem de Tucutu, que inundará uma área de 360 hectares, equivalente a 360 campos de futebol. A barragem e o canal de aproximação devem ficar prontos em dezembro do próximo ano.

A Barragem de Tucutu é apenas a primeira. Está prevista a construção de 25 barragens nas proximidades dos canais, das quais 12 ficarão no Eixo Leste e 13 no Eixo Norte. As do Eixo Leste ficarão em Pernambuco. A expectativa do governo federal é concluir o Eixo Leste em 2010, quando acaba o mandato do presidente Lula, um dos maiores defensores do projeto. O Eixo Norte deve ser concluído em 2012.

Devastação ameaça chuvas amazônicas



Estudo apresentado em Belém pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), na semana passada, revela dados alarmantes sobre a devastação em dois Estados da Federação: o Pará e o Maranhão – que, somados, correspondem a 18% do território brasileiro e a 30% da Amazônia Legal. O resultado do levantamento aponta para uma elevação da temperatura e para a redução das chuvas em parte da Floresta Amazônica, o que poderia transformar, nas próximas décadas, a maior e mais importante reserva de biodiversidade mundial num imenso semi-árido.

O relatório – o primeiro de uma série de três, feito em parceria com a empresa Vale – estudou a variação do clima e da temperatura em três períodos: 2010 a 2040, 2041 a 2070 e 2071 a 2100. Em resumo, o documento mostra que o clima da região se tornará cada vez mais quente e seco, com reduções de chuva que podem ficar entre 2 e 4 milímetros por dia, no período de 2071-2100, quando comparado com o atual clima da região. A temperatura deve aumentar em toda a região leste do Pará até o Nordeste, chegando até 7 graus nas regiões do leste da Amazônia e no norte do Maranhão (levando-se em consideração um cenário mais pessimista, com alta concentração de gases do efeito estufa) ou até 4 graus acima do atual, em condições mais otimistas.

"O aquecimento é observado na média anual e nos meses de verão e inverno e tem algumas variações entre os modelos", ressalta o estudo, que traça uma análise detalhada para cada estação do ano. Os pesquisadores combinaram informações do Instituto Nacional de Meteorologia, da Agência Nacional de Águas e de 36 estações pluviométricas e climatológicas. Diante dos dados colhidos, os cientistas prevêem que entre 2010 e 2040 as chuvas diminuam até 10%. O documento explica que, nestas condições, o balanço hidrológico poderá sofrer alterações, com período de deficiência hídrica futura – em linguagem mais simples: pode faltar água no imenso manancial amazônico.

A mudança do regime de chuvas e o conseqüente aumento da temperatura provocaria alterações climáticas que podem mexer nos níveis dos rios e afetar a agricultura, a vegetação nativa e toda espécie de vida na Amazônia.

Uma verdade inconveniente, mas que precisa ser repetida à exaustão, é que o principal responsável pela reviravolta climática é o próprio homem. Indústrias, poluição, queimadas e desmatamento estão na linha de frente dos fatores do aquecimento global, pois liberam os gases responsáveis pelo efeito estufa e o aumento da temperatura da Terra. O consolo é que o homem também faz parte da solução do problema que criou, tão logo se conscientize dos danos que impinge ao planeta e busque alternativas mais ecológicas para seu desenvolvimento.

No caso específico do Brasil, o desmatamento e as queimadas respondem por cerca de 70% do total das emissões de gases de efeito estufa. Portanto, é fundamental que as autoridades federais continuem firmes na guerra contra a devastação (a favor do cidadão brasileiro e da humanidade). Se no plano interno conseguir reverter o cenário dramático antecipado pelos relatórios, alcançar um relativo grau de crescimento sustentável e mantiver a política de incentivo aos biocombustíveis (sem que isso cause impacto na produção de alimentos), o país terá um enorme handicap na hora de cobrar das nações mais ricas – historicamente as maiores responsáveis pela poluição global, mas também as mais reticentes quanto à aceitação de metas de redução de gases poluentes – o uso racional dos recursos naturais.

PAÍS TERÁ MAIS 60 USINAS EM 50 ANOS, DIZ LOBÃO



Rio de Janeiro - O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, afirmou sexta-feira durante visita a Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, que o Brasil já definiu como prioritária a retomada do programa nuclear brasileiro e que deverá construir cerca de 50 a 60 usinas nucleares nos próximos 50 anos. Cada uma das unidades, de acordo com o ministro, terá capacidade de geração de cerca de mil megawatts.

As declarações do ministro foram dadas durante visita ao terreno onde será construída a Usina Angra 3, que deverá estar em operação, de acordo com a expectativa de Lobão, em um prazo de cinco anos.

A unidade Angra 3 terá capacidade de gerar 1.405 megawatts de energia em sua potência plena. Para isto, ainda este mês, terá início a preparação do terreno onde será construído o canteiro de obras e o terreno onde será erguida a nova térmica.

"O problema surgido na Bolívia é mais uma prova de que nós teremos que dar continuidade ao nosso programa nuclear. O presidente (Luiz Inácio Lula da Silva) entende que a política nuclear é prioritária para o Brasil e Angra 3 é uma decisão pessoal do presidente, a partir de parecer do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética)", afirma.

Lobão lembrou que já estão definidas a construção de quatro novas unidades nucleares (duas no Sudeste e outras duas no Nordeste), com capacidade de geração de cerca de mil megawatts cada uma.

"No Nordeste, vários estados já manifestaram interesse em receber as usinas, entre eles Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia", diz o ministro. "Todos querem as usinas. No Sudeste ainda não houve manifestação neste sentido. Mas há, sim, um programa em andamento a ser submetido ao CNPE para a construção de outras unidades totalizando 60 mil megawatts", acrescentou.

Depois de lembrar que o País tem 100 mil megawatts de potência instalada, o ministro afirmou que não haverá qualquer problema para a obtenção do licenciamento prévio para o início das obras de construção da usina de Angra 3. "Não há dúvidas de que as licenças não serão obstáculo e a usina será construída em cinco anos. Ao longo deste tempo todos os procedimentos legais necessários serão cumpridos. As exigências feitas pelo Ministério do Meio Ambiente chegam a 60 e todas, volto a repetir, estão sendo cumpridas ou serão ao longo da obra", afirmou. "Não há nenhuma possibilidade de a usina não ser construída em função dessas exigências", enfatizou.

Lobão voltou a afirmar que o Brasil armazena de forma adequada o lixo nuclear. A respeito da exigência de que o País tenha um local definitivo para esses rejeitos, o ministro afirmou que nenhum país possui esse espaço. "Nós estamos armazenando os nossos rejeitos de forma adequada e não há, em nenhum país do mundo, uma definição sobre um local definitivo para este armazenamento", afirma. "Uma delegação da França esteve recentemente visitando nossas instalações e aprovou os nossos procedimentos. E eles possuem uma vasta experiência no assunto. Mas vamos melhorar ainda mais", destacou o ministro.