16 maio 2008

Para agricultores, crise alimentar justifica produção na Amazônia



A crise mundial nos preços dos alimentos virou o mais novo argumento dos produtores que vieram para a Amazônia nos anos 70 e 80 contra a lei que os obriga a manter 80% de suas propriedades com floresta em pé.

Os chamados "pioneiros" se dizem "traídos" por terem se disposto a explorar uma região até então intocada em troca de incentivos e de terras baratas, quando o regime militar, receoso da presença estrangeira na fronteira amazônica, cunhou o bordão nacionalista "integrar para não entregar".

"A gente se sente traído porque a gente investiu em uma área que não tinha nada, e agora eles estão tirando um direito que nós adquirimos", diz o engenheiro florestal e produtor de grãos Edemar Kronbauer, de 48 anos, 21 deles na Amazônia.

A lei começou a mudar em 1996, por meio de medida provisória que vem sendo sucessivamente reeditada, sempre sob os protestos do setor produtivo. A gritaria aumentou com operações de fiscalização do Ibama e da Polícia Federal que têm resultado em multas, embargos e cortes de crédito ao produtor em desacordo com a legislação ambiental.

Mais recentemente, a crise mundial no preço dos alimentos tem servido como argumento poderoso aos que defendem a expansão da fronteira agrícola do Brasil.

"A gente pode oferecer comida mais barata para o mundo inteiro, mas falta logística", reclama o maior produtor de soja do mundo, Eraí Maggi (primo do governador Blairo Maggi), que tem mais de 200 mil hectares de área plantada.

Só o preço da soja já subiu 87% em relação a março do ano passado, embora todo produtor faça questão de lembrar que os preços estavam muito baixos antes de começarem a escalar nos últimos meses.

A sensação de oportunidade perdida não é exclusiva dos grandes produtores. "A gente fica ressentido. Você tem a terra, mas não pode trabalhar nela", diz Irineu Schneider, que tem 500 hectares de terra. "Se você tem que produzir em 20% da sua terra, tem que ter pelo menos 1000 hectares para viabilizar."

Ele, como outros produtores há muito tempo estabelecido em áreas de desmatamento, se mostra especialmente revoltado com a exigência de que eles replantem o que derrubaram no passado.

"A gente quer trabalhar, mas ninguém vai plantar mato. A gente pode morrer em cima dessa terra, mas não vamos plantar mato."

"Por que nós devemos comprar terra e manter floresta para o resto do mundo? Se as pessoas no resto do Brasil ou mesmo no exterior mantivessem 20% das suas florestas em pé, não teria problema no mundo. Mas isso é terra produtiva, as pessoas precisam comer, porque vai faltar alimento, é claro que vai".

Cumprir a lei - O gerente regional do Ibama em Sinop, Roberto Agra, diz que "o valor do pioneirismo não se contesta", mas que a condição de pioneiro "não isenta as pessoas de cumprirem a lei". Nesse caso, diz Agra, o direito coletivo prevalece sobre o direito individual coletivo.

"A legislação que determinou certa forma de ocupação da Amazônia não está mudando agora, vem mudando pelo menos desde 1996" diz o gerente regional do Ibama em Sinop (MT), Roberto Agra.

Para os produtores, se existe um interesse coletivo nas suas terras, eles devem ser recompensados por manter a floresta em pé. Não só os mecanismos que prevêem essa compensação ainda estão sendo desenvolvidos, como nem sempre eles fazem sentido para quem está acostumado a trabalhar na terra.

"Se eles quiserem preservar, é mais fácil eles comprarem a terra, porque se alguém invadir a terra, o problema é meu e eu tenho de ser forçado a cuidar da terra da maneira que eles acham que é certo", diz Irineu.

Outros, como Edemar, porém, se mostram receptivos à idéia desde que recebam valores semelhantes aos que ganhariam com a agropecuária.

Da forma como a ocupação se deu na Amazônia, "trabalhar" significou por muito tempo derrubar a floresta e preparar a área para o cultivo ou para o gado, o mesmo processo que, na visão do Ibama, compõe o ciclo do desmatamento.

Para Agra, do Ibama, o processo de desenvolvimento adotado nos anos 70 é "incompatível com as necessidades não só regionais e nacionais, mas mundiais que o Brasil tem em relação a preservação da Amazônia".

"Quem não se adequou precisa se adequar à legislação. A primeira coisa é buscar regularização, seja fundiária ou no licenciamento ambiental. Isso é pressuposto mínimo pra que a gente consiga avançar na discussão de prestação de serviços ambientais."

Mudança - "É claro que a lei não é viável. A terra foi adquirida há muito tempo e nós colocamos muito dinheiro nela. Quem veio para cá, veio para usar 50%, 80% da terra, não 20%", diz Kronbauer, hoje baseado em Querência.

O presidente do sindicato dos produtores rurais de Querência, Darci Heeman, não se conforma que a escritura que lhe conferia o direito de explorar 80% da terra - limite estabelecido na época para algumas áreas que foram consideradas cerrado - tenha pedido valor diante de uma lei que, na visão dos produtores, mudou as regras do jogo durante a partida.

"Existe uma interação de cadeias diferentes, que têm uma relação econômica e de viabilidade entre elas. O primeiro passo é ocupação legal ou ilegal de determinada área, com exploração de madeira, que gera o capital para a própria abertura de área para a conversão em pecuária ou agricultura", ele diz.

Em áreas de madeiras de alto valor comercial, ainda fartas no Estado do Pará, é justamente o ganho com a madeira que levanta o capital necessário para converter a área, e em casos de desmatamento ilegal é a comercialização da madeira "fria" que permite a continuidade do ciclo.

O madeireiro Adalberto Andrade, dono de uma serraria em Castelo dos Sonhos, no Pará, diz, porém, que tem sido difícil operar legalmente.

Segundo ele, a aprovação de um projeto de manejo florestal, que prevê a retirada seletiva e sustentável de madeiras, demora tanto para ser aprovado que as pessoas ficam sem opção a não ser operar sem ela. "É um jogo de empurra, o Ibama depende do Incra, o Incra, do Ibama".

Assim como Adalberto, muitos dizem que querem trabalhar legalmente, mas que estão sendo empurrados para a clandestinidade por uma lei que torna o seu próprio meio de produção inviável.

A metáfora do pai que abandonou o filho no nascimento e voltou cheio de imposições 18 anos depois já virou parte da retórica local. De fato, ainda hoje o Estado é praticamente invisível na região. Viaja-se horas pela BR-163, que liga Cuiabá a Santarém - principalmente no trecho paraense -, sem qualquer sinalização de serviço público estadual ou federal.

"Não tem como produzir alimentos sem desmatar", diz Carlos Alberto Guimarães, o Carlito. Ele é conhecido como um dos homens que mais desmataram a Amazônia - foram 100 mil hectares ao longo de 42 anos.

Hoje, com uma produção de 6 mil toneladas de carne e 15 mil toneladas de grãos por ano, ele está reflorestando e garante que tem mais prazer em plantar do que em cortar uma árvore.

"Reflorestar é muito melhor do que desmatar. Ninguém desmata porque quer. Desmatar é um mal necessário que a humanidade teve que conviver desde que o mundo é mundo", diz Carlito.

Estudo confirma ligação entre ação humana e efeito estufa



Mudanças climáticas causadas pelo homem fizeram com que plantas florescerem mais cedo, folhas caírem mais tarde no outono e alguns ursos polares se tornassem canibais, afirmou um vasto estudo global divulgado nesta quarta-feira (14).

Centenas de estudos anteriores notaram esse tipo de mudança específica e a maior parte deles sugeriu uma ligação entre a chamada mudança climática antropogênica, mas essa nova análise publicada na revista Nature correlacionou esses estudos anteriores com mudanças de temperatura, disse o autor principal do trabalho.

Eles encontraram uma forte relação entre as mudanças climáticas observadas entre 1970 e 2004 e mudanças em plantas, animais e em outros aspectos físicos do planeta, como o rápido derretimento das camadas de gelo e o nível de água nos lagos desérticos, encontrou o estudo.

"Quando você olha para todas as geleiras, para todos os pássaros botando ovos mais cedo, para todas as plantas florescendo mais cedo, então você consegue detectar os sinais antropogênicos", disse Cynthia Rosenzweig, do Instituto Goddard para Estudos Espaciais da Nasa.

Eles trabalharam para excluir observações que pudessem ter sido causadas por outros fatores que não as mudanças climáticas devido a ações do homem.

Rosenzweig e os co-autores do estudo juntaram cerca de 30 mil trabalhos sobre mudanças biológicas e físicas em todo o mundo, e então cruzaram essas informações com um banco de dados detalhado sobre mudanças de temperatura.

Pingüins, Usos polares e pólen - "Nós sobrepusemos dois bancos de dados globais e então fizemos uma análise em busca de padrões que pudessem ser observados globalmente, procurando por localizações que apresentassem, ao mesmo tempo, padrões de mudanças significativas de temperatura e mudanças consistentes com o aquecimento", disse a autora principal. "Nós encontramos que ambos estão firmemente co-alocados."

Em uma escala global, a correlação é de mais de 99% entre os dois fatores (aumento de temperaturas e mudanças biológicas e físicas); em uma escala continental, ela disse, a correlação fica entre 90 e 99%.

Indo de continente a continente, aqui estão algumas mudanças observadas no mundo natural e que podem ser atribuídas às mudanças climáticas, de acordo com o estudo:

- América do Norte: Florescimento precoce de plantas de 89 espécies; predação intra-específica; canibalismo e população declinante entre ursos polares; reprodução antecipada de alguns pássaros.

Ursos polares foram listados nesta quarta-feira como espécie ameaçada pelo U.S. Endangered Species Act devido aos danos ambientais observados em seu habitat, anunciou o secretário do interior, Dirk Kempthorne.

- Europa: Derretimento de geleiras nos Alpes; mudanças em 19 países do padrão de folhas e florescimento de algumas plantas; liberação antecipada de pólen na Holanda; mudanças de longo prazo nos cardumes do rio Reno.

- Ásia: crescimento exacerbado dos pinheiros siberianos na Mongólia; degelo antecipado dos lagos na Mongólia; mudança na profundidade do gelo eterno na Rússia; florescimento precoce do ginko no Japão.

- América do Sul: Perda de geleiras no Peru; derretimento do gelo na Patagônia e conseqüente aumento do nível do mar.

- África: Decréscimo no ecossistema aquático do lago Tanganyika.

- Austrália: Chegada antecipada de pássaros migratórios; declínio do nível de água do lago Victoria.

- Antártica: Declínio de 50% na população de pingüins imperadores na península; retração das geleira.

14 maio 2008

Taxa de gás do efeito estufa bate recorde na atmosfera


O nível de concentração na atmosfera de dióxido de carbono, o principal gás do efeito estufa, bateu novo recorde. De acordo com o observatório de Mauna Loa, no Havaí, o índice em 2007 chegou a 387 partes por milhão (ppm) - cerca de 40% a mais do que havia antes da Revolução Industrial, no começo do século 19. Essa é também a mais alta concentração nos últimos 650 mil anos, de acordo com dados paleoclimáticos. Os dados ainda são preliminares e foram publicados no site da Noaa, a agência americana de atmosfera e oceanos.

O observatório é o centro mais tradicional de medição de dióxido de carbono no mundo, realizando análises ininterruptas desde 1959. Partiu dali o primeiro alerta de que a quantidade de gás cresce anualmente, confirmado depois por outras fontes. Eles mostram também que, além da concentração recorde, a taxa de crescimento entre 2006 e 2007 foi alta, de 2,14 ppm. Em 2006, ela foi de 1,72 ppm. Nos últimos dez anos, essa é a 5ª taxa mais elevada, depois de 1998 (3 ppm), 2002 (2,55), 2005 (2,53) e 2003 (2,31). Entre 1970 e 2000, a concentração cresceu cerca de 1,5 ppm por ano.

A estimativa de crescimento anual de Mauna Loa pode ser diferente da média global. Contudo, os cientistas do observatório estimam que a diferença é pequena, de cerca de 0,26 ppm. A concentração de dióxido de carbono e de outros gases, como o metano, emitidos especialmente por atividades humanas, é a causa do efeito estufa exacerbado e do aquecimento global que ocorrem hoje, segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

Atualmente, o único acordo global que visa reduzir a concentração de dióxido de carbono é o Protocolo de Kyoto, em vigor desde fevereiro de 2005. Ele, contudo, está distante do necessário: é voltado apenas para os países desenvolvidos, que devem cortar suas emissões em 5,2%, em média, até 2012.

Pólo Norte pode ficar sem gelo em 2008, diz cientista



O pólo Norte pode ficar sem gelo neste verão. E, se a previsão de pesquisadores se concretizar, o prazo dado pelo IPCC (Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), que projetava a situação para o final deste século, será antecipado em várias décadas.

Para o Centro Nacional de Gelo e Neve dos EUA, a hipótese de o pólo Norte ter todo o seu gelo marinho derretido neste ano é "perfeitamente possível". Segundo o pesquisador Mark Serreze, tudo depende do padrão de clima. "Um padrão quente, como o que tivemos no verão passado, irá aumentar as chances. Um padrão mais frio irá ajudar a manter a cobertura de gelo no pólo Norte", disse.

Cientistas do Japão também alertam que o gelo do Ártico está derretendo rapidamente. A Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial afirma que a área coberta por placas de gelo no oceano pode encolher neste verão e se tornar a menor desde 1978, quando a observação por satélites começou.

Parte do gelo marinho derrete todo meio de ano (no verão setentrional), para recongelar depois. No entanto, sob a influência do aquecimento global, a porção que derrete é cada vez maior, e a que recongela, cada vez menor.

Em setembro do ano passado, a capa de gelo marinho do Ártico quebrou todos os recordes e encolheu mais de 1 milhão de km² (ou quatro vezes a área do Piauí) em relação ao valor mínimo registrado anteriormente. Com isso, foi aberta pela primeira vez a Passagem Noroeste, almejada rota marítima entre Europa e Ásia por onde até então não era possível passar. Para Serreze, essa abertura pode ocorrer novamente, "mas ninguém realmente sabe".

"É uma aposta certa, entretanto, que com o passar das décadas ficará cada vez mais aberta."

Segundo o estudo dos EUA, a média de extensão de gelo em abril de 2008, período da primavera, não foi a mais baixa dos últimos tempos, mas está abaixo da média para este mês entre os anos de 1979 e 2000.

A situação atual é preocupante porque, embora haja mais gelo do que em 2007, o declínio tem sido muito rápido - a taxa de redução de gelo no mês passado foi de 6.000 km² (equivale à perda do território do Distrito Federal) ao dia.

Parte da explicação, segundo o centro americano, é o calor que marcou abril no oceano Ártico e adjacências. Em algumas áreas, as temperaturas ficaram 5ºC acima da média.

Outro problema é que a cobertura de gelo nesta primavera tem uma proporção elevada de gelo fino, com um ano de idade. Cerca de 30% do gelo com um ano sobrevive ao verão, contra 75% do gelo mais velho. Para evitar bater o recorde de 2007, mais de 50% do gelo com apenas um ano teria de sobreviver. Isso, porém, só ocorreu uma vez nos últimos 25 anos, em 1996.

As projeções do Centro Nacional de Gelo e Neve não são animadoras. Em setembro passado, havia 4,28 milhões de km² de gelo. Ao aplicar as taxas médias para as condições atuais, no final deste verão haverá 3,59 milhões de km². Se as taxas forem como as de 2007, restarão 2,22 milhões de km².