05 fevereiro 2008

Cérebro de porco é suspeito de provocar doença misteriosa em abatedouros dos EUA



Denise Grady
Em Austin, Minnesota


Se você passou a padecer de uma estranha doença, a resposta para a enfermidade pode estar nesta cidade de 23 mil habitantes nas pradarias do sudeste de Minnesota. A Clínica Mayo, famosa por diagnosticar doenças exóticas, é a proprietária do centro médico local e compartilha alguns dos seus profissionais com ele. A própria Mayo fica apenas 64 quilômetros a leste, em Rochester. E, quando se trata de investigar misteriosos surtos patológicos, Minnesota conta com um dos mais fortes departamentos de saúde e com os laboratórios mais bem equipados do país.

E a doença com a qual os médicos do Centro Médico de Austin se depararam no outono passado era de fato estranha. Três pacientes apresentavam o mesmo conjunto incomum de sintomas: fadiga, dor, fraqueza, dormência e formigamento nas pernas e nos pés.

Os pacientes tinham algo mais em comum: todos trabalhavam na Quality Pork Processors, uma indústria local de processamento de carnes.

A desordem parecia envolver danos aos nervos, mas os médicos não tinham nenhuma idéia sobre o que a causava.

Na fábrica, enfermeiras no departamento médico também começaram a notar o mesmo padrão sinistro. Os três trabalhadores reclamaram junto a elas sentirem "as pernas pesadas", e as enfermeiras os orientaram a procurar médicos. Elas também descobriram um quarto caso, e temeram que mais trabalhadores adoecessem, e que uma doença séria pudesse estar disseminando-se pela fábrica.

"Pensamos em conjunto e achamos que algo andava errado", conta Carole Bower, a chefe do departamento.

A maior empregadora de Austin é a Hormel Foods, fabricante do apresuntado Spam, e produtora de bacon e de outras carnes processadas (Austin possui até um museu do apresuntado Spam).

A Quality Pork Processors, que é adjacente à área da Hormel, abate e esquarteja 19 mil porcos por dia, e remete a maior parte dos animais abatidos para a Hormel. O complexo, que emite nuvens de fumaça e um odor característico, é fácil de ser localizado a partir de qualquer parte da cidade.

A Quality Pork é a segunda maior empregadora da cidade, com 1.300 funcionários. A maioria destes trabalha em turnos de oito horas junto a uma esteira transportadora - basicamente, uma "unidade de desmontagem" -, retalhando uma parte específica de cada carcaça. O salário inicial desses trabalhadores é de US$ 11 a US$ 12 por hora. O trabalho é duro e cansativo, mas a fábrica é excepcionalmente limpa e os benefícios são bons, afirma Richard Morgan, presidente do sindicato local. Muitos dos trabalhadores são imigrantes latinos. A proprietária da Quality Pork não permite que jornalistas entrem na fábrica.

Um homem a quem os médicos chamam de "caso original" - o primeiro paciente que eles descobriram - adoeceu em dezembro de 2006, e ficou hospitalizado na Clínica Mayo durante cerca de duas semanas. O seu trabalho na Quality Pork consistia em extrair os cérebros das cabeças dos suínos.

"Ele estava bastante enfermo e altamente afetado neurologicamente, apresentando fraqueza significativa nas pernas e perda das funções na parte inferior do corpo", diz Daniel H. Lachance, um neurologista da Clínica Mayo.

Exames revelaram que a medula espinhal do homem estava bastante inflamada. A causa parecia ser uma reação autoimune: o seu sistema imunológico estava atacando equivocadamente os seus próprios nervos, como se estes fossem corpos estranhos ou germes. Os médicos não foram capazes de descobrir por que isso aconteceu, mas o tratamento padrão para a inflamação - uma droga esteróide - pareceu ajudar (o paciente não quis conceder entrevistas).

Lachance afirma que as doenças neurológicas às vezes desafiam a compreensão, e este parece ser um caso de tal tipo. À época, não ocorreu a ninguém que o problema pudesse estar relacionado à ocupação do paciente.

Por volta da primavera, o funcionário retornou ao trabalho. Mas, dentro de semanas, adoeceu novamente. Mais uma vez, ele recuperou-se após alguns meses e voltou ao trabalho - apenas para adoecer de novo.

Àquela altura, novembro de 2007, começaram a surgir outros casos. No final, havia 12 - seis homens e seis mulheres, distribuídos por uma faixa etária de 21 a 51 anos. Os médicos e o proprietário da indústria, percebendo que estavam lidando com um surto patológico, já haviam feito contato com o Departamento de Saúde de Minnesota, que, por sua vez, buscou ajuda federal junto ao Centro para Controle e Prevenção de Doenças.

Embora o surto parecesse ser pequeno, a investigação adquiriu um caráter de urgência porque a doença era séria, e as autoridades de saúde temiam que isso pudesse indicar um novo risco para outros funcionários da indústria de processamento de carnes.

"É importante identificar o que é isso, já que parece ser uma nova síndrome, e não sabemos de fato quantas pessoas podem ter sido afetadas nos Estados Unidos ou mesmo no mundo", diz Jennifer McQuiston, uma veterinária do centro.

No início de novembro, Aaron DeVries, médico epidemiologista do departamento de saúde, visitou a fábrica e vasculhou os seus registros médicos. A doença não tinha semelhança com o mal da vaca louca ou com a triquinose, a famosa infecção causada por um parasita devido à ingestão de carne de porco crua ou mal cozida. E ela tampouco era transmitida de uma pessoa a outra - os familiares dos trabalhadores doentes não foram afetados -, nem representava qualquer ameaça para as pessoas que comiam carne de porco.

Uma pesquisa com os trabalhadores confirmou aquilo de que as enfermeiras da fábrica haviam suspeitado: aqueles que adoeceram trabalhavam na "mesa das cabeças", onde os trabalhadores cortam a carne de cabeças de porcos - ou próximo daquela unidade.

Em 28 de novembro, a chefe de DeVries, Ruth Lynfield, a diretora de epidemiologia do Estado, visitou a fábrica. Ela e a proprietária, Kelly Wadding, examinaram com atenção especial a mesa das cabeças. Lynfield ficou especialmente assustada com um procedimento chamado "explosão de cérebros".

Quando cada cabeça chegava ao final da mesa, um funcionário inseria uma mangueira de metal no forâmen magnum, a abertura do crânio através da qual passa a medula espinhal. A seguir, explosões de ar submetido a intensa compressão transformavam o cérebro em uma pasta que era ejetada pelo mesmo orifício no crânio, freqüentemente fazendo com que fragmentos de tecido cerebral se espalhassem por todos os lados e respingassem no operador da mangueira.

Essa pasta de cérebros era aglutinada, acondicionada em recipientes de 4,5 kg e vendida como alimento - em sua maior parte para a China e a Coréia, onde os cozinheiros a fritam segundo a moda oriental conhecida como "stir frying", e também para certas partes da América Latina nas quais as pessoas gostam de comer os cérebros com ovos mexidos.

A pessoa responsável pela explosão dos cérebros ficava separada dos outros trabalhadores por um escudo de plexiglass que tinha espaço suficiente na parte inferior para permitir que as cabeças entrassem trazidas pela esteira de transporte. Tal espaço era também suficiente para que tecido cerebral atingisse funcionários que trabalham por perto.

"Foi possível ver a transformação de tecido cerebral em aerossol", diz Lynfield.

Os trabalhadores usavam capacetes, luvas, jalecos de laboratório e óculos de proteção, mas muitos tinham os braços expostos, e nenhum usava máscaras ou protetores faciais para impedir a ingestão ou a inalação do aerossol de tecido cerebral.

Lynfield perguntou a Wadding: "Kelly, o que você acha que está acontecendo?"

A dona da fábrica observou o quadro por algum tempo e disse: "Vamos parar de coletar cérebros".

Naquele dia a Quality Pork interrompeu aquela operação e ordenou que todos os trabalhadores da mesa das cabeças usassem protetores faciais.

Epidemiologistas contataram 25 abatedouros de porcos nos Estados Unidos, e descobriram que apenas dois outros usavam ar comprimido para a extração de cérebros. Um deles, uma fábrica da Hormel em Nebraska, não registrou nenhum caso. Mas o outro, o Indiana Packers, em Delphi, Indiana, relatou vários possíveis casos que estão sendo investigados. Essas duas outras fábricas, assim como a Quality Pork, deixaram de usar ar comprimido para explodir cérebros.

Mas por que a exposição a cérebros de suínos provocou a doença? E por que isso ocorreu só agora, se o sistema de ar comprimido é usado em Minnesota desde 1998?

No início as autoridades de saúde acharam que talvez os porcos tivessem alguma nova infecção que fosse transmitida às pessoas através do tecido cerebral. Às vezes infecções podem desencadear uma resposta imunológica descontrolada em humanos, como a doença que atingiu os trabalhadores. Mas, até o momento, inúmeros exames para a detecção de vírus, bactérias e parasitas não detectaram sinais de infecção.

Como resultado, Lynfield diz que os investigadores começaram a se inclinar para uma teoria aparentemente bizarra: a de que a exposição ao cérebro suíno em si poderia ter desencadeado uma intensa reação do sistema imunológico, algo semelhante a uma gigantesca e descontrolada reação alérgica. Algumas pessoas podem ser mais susceptíveis do que outras, talvez devido a características genéticas ou a exposições a tecido animal ocorridas no passado. O tecido cerebral transformado em aerossol pode ter sido inalado ou ingerido, ou ainda pode ter penetrado no organismo pelas membranas mucosas do nariz ou da boca ou através de fissuras na pele.

"Isso é algo que ninguém antecipou, e sobre o qual ninguém pensou", diz Michael Osterholm, um médico epidemiologista que está trabalhando como consultor para a Hormel e a Quality Pork. Osterholm, professor de saúde pública da Universidade de Minnesota e ex-diretor de epidemiologia do Estado, diz que o governo nunca criou diretrizes relativas a esse tipo de exposição no local de trabalho.

Mas isso ainda não explicaria por que o problema surgiu repentinamente agora. Os investigadores estão tentando descobrir se algo mudou recentemente - o nível de pressão de ar das mangueiras, por exemplo - e também se no passado ocorreram outros casos que simplesmente não foram detectados.

"Não há dúvida que as respostas ainda não apareceram", afirma Osterholm. "Mas faz sentido, sob o ponto de vista biológico, que o que ocorria aqui era uma inalação de material cerebral dos porcos, provocando uma reação imunológica". Segundo ele, o que pode estar ocorrendo é uma "imitação imunológica", o que significa que o sistema imunológico cria anticorpos para combater uma substância estranha - algo presente nos cérebros de porcos -, mas os anticorpos também atacam o tecido nervoso do indivíduo porque este tecido é bastante similar a certas moléculas dos cérebros suínos.

"Essa é a bela e a fera do sistema imunológico", diz Osterholm. "Ele é muito eficiente em combater objetos estranhos, mas sempre que há uma semelhança acentuada com os nossos tecidos ele também se volta contra nós".

Anatomicamente, os porcos parecem-se muito com os humanos. Mas não se sabe até que ponto existe uma equivalência bioquímica entre o cérebro do porco e o tecido nervoso humano.

Para descobrir isso, o departamento de saúde de Minnesota pediu a ajuda do médico Ian Lipkin, da Universidade Columbia, um especialista no papel do sistema imunológico nas doenças neurológicas. Lipkin começou a testar plasma sangüíneo dos pacientes de Minnesota para buscar sinais de uma reação imunológica a componentes do cérebro do porco. E ele também deseja estudar o gene do porco para a mielina, para determinar até que ponto ele é similar ao gene da mielina humana.

"É um problema interessante", diz Lipkin. "Creio que podemos resolvê-lo".

Susan Kruse, que mora em Austin, ficou chocada com as notícias sobre o surto no início de dezembro passado. Kruse, 37, trabalhou na Quality Pork durante 15 anos. Mas no ano passado ela ficou muito doente para trabalhar. Ela não fazia idéia de que outras pessoas da fábrica também pudessem estar doentes. E ela também não sabe se a sua doença está de fato relacionada ao emprego.

O seu último trabalho na fábrica foi raspar a carne localizada entre as vértebras dos porcos. Três pessoas por turno faziam essa tarefa, e juntas elas processavam 9.500 cabeças em oito ou nove horas. Kruse ficava perto da pessoa que usava o ar comprimido para a explosão dos cérebros. Em várias ocasiões os respingos de massa cerebral a atingiram, especialmente quando estagiários estavam aprendendo a usar a mangueira.

"Eu sempre tinha pedaços de cérebro nos braços", conta ela.

Ela nunca teve problemas de saúde até novembro de 2006, quando começou a sentir dores nas pernas. Em fevereiro de 2007, Kruse não conseguia mais ficar de pé pelo tempo exigido para o desempenho daquela função. Ela necessitou de um andador para se locomover e foi tratada na Clínica Mayo. "Eu não tinha forças para nada que costumava fazer", conta Kruse. "Sentia que minhas energias estavam sendo drenadas".

O seu sistema imunológico saiu de controle e atacou os seus nervos, especialmente em duas partes: nos pontos nos quais os nervos emergem da medula espinhal e nas extremidades. A mesma coisa, em graus de intensidade diversos, estava acontecendo com os outros pacientes. Kruse e o primeiro paciente - o homem que extraía os cérebros - provavelmente apresentaram os problemas mais sérios, de acordo com Lachance.

Os esteróides em nada ajudaram Kruse, de forma que os médicos passaram a tratá-la a cada duas semanas com IVIG, imunoglobina intravenosa, um produto do sangue que contém anticorpos. "É como golpear a doença na cabeça com uma marreta", explica Lachance. "A substância subjuga o sistema imunológico e neutraliza o que quer que esteja provocando o problema".

De acordo com Kruse, os tratamentos parecem ajudar. Ela sente-se mais forte após cada aplicação, mas os efeitos são desgastantes. Os médicos acreditam que ela necessitará da terapia pelo menos até setembro.

A maioria dos trabalhadores está se recuperando, e alguns retornaram ao emprego, mas outros, inclusive o primeiro a ficar doente, ainda estão incapacitados para o trabalho. Até o momento, não foram registrados novos casos.

""Não posso afirmar que alguém tenha voltado completamente ao normal", diz Lachance. "Acredito que demorará vários meses para que possamos entender de verdade o ciclo dessa doença".

Lynfield espera descobrir a causa. Mas ela diz: "Não sei se teremos uma resposta definitiva. Suspeito que seremos capazes de descartar algumas hipóteses, e que poderemos determinar se é provável que a doença seja causada por uma resposta autoimune. Creio que aprendemos muito, mas pode levar algum tempo até a conclusão desse processo de aprendizado. Trata-se de uma grande história de detetive".

Tradução: UOL

04 fevereiro 2008

Brasil precisa de satélite de US$ 1,5 bi


Júlio Ottoboni

São José dos Campos (SP), 29 de Janeiro de 2008 - O Brasil estuda desenvolver e lançar até 2012 o primeiro de uma família de satélites geoestacionários de sensoriamento remoto para vistoriar a AMAZÔNIA. Essa é uma reivindicação dos cientistas que trabalham com o imageamento da floresta na busca por desmatamento e queimadas. Somente o emprego desta tecnologia conseguiria abastecer diariamente e em tempo real os institutos com imagens precisas da cobertura vegetal amazônica. Atualmente, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) opera com imagens de satélites de órbita polar, que fornecem imagens periódicas. Ou seja, a cada passagem sobre a floresta um trecho dela é registrado e enviado a uma estação terrena. E assim a imagem vai sendo composta.

O grande diferencial dos satélites atuais para o geoestacionário, em termos práticos, está no tempo de obtenção da imagem e em seu altíssimo grau de confiabilidade. Os geoestacionários voltados ao sensoriamento remoto foram fartamente usados durante a Guerra Fria em espionagem militar. Sua resolução pode até chegar a questão de centímetros. Entre as dificuldades até o momento para a Agência Espacial Brasileira (AEB) transformar isto em realidade está no investimento, estimado em US$ 1,5 bilhão. O Brasil busca possíveis parceiros para minimizar os custos.

Superaquecimento da usina nuclear de Angra I


Ricardo Boechat

Rio - O aquecimento de parte do conjunto turbo-gerador, "sem vazamento de radioatividade", segundo técnicos da usina, determinou o desligamento de Angra I. A unidade deixou de funcionar às 0h36m desta segunda-feira. Equipes da Eletronuclear estão inspecionando as instalações, mas ainda não desvendaram a causa do problema. Em conseqüência, não há previsão para reinício das atividades da usina. Angra 1 gera 657 megawatts por dia, energia suficiente para suprir 11% da demanda do Estado do Rio. Nenhuma operação de emergência foi montada pelo Operador Nacional do Sistema (NOS), sob alegação de que outras fontes de abastecimento estão aptas a cobrir a ausência de Angra I.

Desmatamento: o que fez Marina Silva?


Pedro do Couto

No decorrer do ano passado, levantamentos preliminares do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais que enfim vieram a público apontaram um desmatamento ilegal na Amazônia da ordem de 7 mil quilômetros quadrados, dos quais 3,2 mil no período agosto-dezembro. Um absurdo. Como pode acontecer um desastre ecológico continuado desses, sem que a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, tivesse conhecimento?

Difícil explicar o fenômeno, o próprio silêncio, já que, segundo reportagem de Bernardo Mello Franco, "O Globo" de 24/01, o processo crítico envolveu seis estados: Acre, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins. Os dados contidos na matéria publicada são bastante precisos e falam por si. Metade da derrubada de árvores ocorreu em Mato Grosso. Onde estavam os governadores? Onde estavam os prefeitos, já que o corte efetuou-se em nada menos que 36 municípios.

A área desmatada compreende seis vezes a capital de São Paulo, a maior cidade do País. Uma vergonha nacional.

E os sintomas indicam que tal devastação não ocorreu de repente. Nem poderia. Uma devastação de 7 mil quilômetros quadrados exige uma logística complexa. São necessárias motosserras em grande número, trabalhadores, caminhões, compradores de madeira, portanto, vendedores do que não lhes pertenciam, depósitos bancários e, além de tudo, o atentado inclui a inevitável sonegação fiscal.

Claro. Pois se o desmatamento é ilegal e do que é ilegal - princípio básico de direito - não pode resultar efeito legítimo, as transações não incluem faturas e recibos. O produto das vendas nunca esteve exposto nem ao ICMS, tampouco ao Imposto de Renda. Portanto está tudo errado. Uma seqüência absurda de crimes. Com a divulgação do problema de grandes dimensões, o presidente Lula convocou reunião ministerial.

Nela, a ministra Marina Silva responsabilizou o titular da Agricultura, Reinhold Stephanes, que teria concedido licenças para a realização de transações agropecuárias na região. O ministro nega.

Marina Silva referiu-se às exportações de soja e de carne. Mas, francamente, o que tem isso a ver com a questão? O problema essencial é o desmatamento.

Se ela tomou conhecimento do que acontecia, deveria imediatamente ter se dirigido ao presidente da República para informá-lo com precisão e a ele pedir providências. Mas não o fez. Culpou, além do Ministério da Agricultura, a estiagem prolongada no último ano e a subida dos preços das commodities, exportações vinculadas ao esquema do agronegócio. E daí?

Todas as coisas a que se referiu podem até ser verdadeiras, porém não explicam a omissão de um ministério que é ou deveria ser do meio ambiente. Assim, se o meio ambiente foi atacado, a pasta encarregada de defendê-lo deveria ter reagido prontamente. Não reagiu. Só se posicionou depois do fato consumado. O ano de 2007 não pode ter sido um exemplo isolado no desmatamento. Este processo, inclusive, já fora alvo de reportagens publicadas na imprensa. Dentro e fora do País. O sistema de fiscalização é precário? Certamente é.

Mas a titular da pasta tinha obrigação de alertar o governo. Há corrupção no aparelho fiscal?

Outra razão para denúncia. Neste ponto, sobretudo, é que a visão do administrador público difere do comportamento dos empresários privados. O objetivo da administração estatal não é o lucro financeiro.

Não poderia ser, acrescente-se. Os compromissos do governo são com a população e a defesa do patrimônio coletivo.

O Palácio do Planalto anunciou diversas medidas punitivas e restritivas contra os empresários envolvidos. Multa, impedimento de crédito, e por aí vai. Não funciona. A punição sozinha não resolve. O que resolve é a prevenção. Esta não se realizou. Inclusive vale acentuar que não há punição capaz de reparar as perdas causadas. Elas atingiram o patrimônio nacional. Já que empresa alguma reclamou da devastação.

Logo as árvores mortas, retalhadas, são estatais. Caso contrário, a confusão teria sido mil vezes maior. Afinal de contas, alguém já disse em tom de humor que o bolso talvez seja o órgão mais sensível do corpo humano. Se não for do corpo, será seguramente o ponto mais sensível do comportamento humano. Mas quando se trata de patrimônio público, de bens do estado, a nitidez desaparece do horizonte próximo. O que sucedeu na Amazônia é sem dúvida impressionante. Vem ocorrendo há vários anos.

Agora, a ministra Marina Silva fala em recorrer ao Sivam, Sistema de Vigilância da Amazônia, além do Inpe. Devia ter recorrido há mais tempo. Onde estava o serviço de informação do Ministério do Meio Ambiente? Onde estava o Ibama? Afinal, um processo de devastação atinge em cheio a ecologia como um todo. Atinge o próprio ecossistema. Atinge a floresta, reduz o oxigênio, aumenta o roubo. Punir os responsáveis, apenas, não basta. É fundamental que do episódio surja uma rede de proteção para impedir que os atentados se repitam em série, já que assim se verificaram.

O desastre ecológico continuado - é evidente - exige providências concretas. Culpar os autores não resolve o que aconteceu e não soluciona o desafio administrativo. É indispensável evitar a repetição dos assaltos às florestas. É indispensável acabar com a omissão, que tem origem no distanciamento da realidade