26 janeiro 2008

Infecção e morte em Goiânia

Secretaria de Saúde de Goiás confirma que vigilante da Universidade Federal do estado não resistiu à febre amarela. Foi o primeiro caso de contágio dentro da capital, onde a vítima, de 64 anos, morava e trabalhava

Renato Alves

Mais uma morte por febre amarela foi confirmada em Goiás ontem. É a nona registada no estado e no país este ano. Mas é o primeiro caso fatal dentro de Goiânia. A vítima morava e trabalhava na capital do estado. Trata-se de um vigilante da Universidade Federal de Goiás (UFG). Ele, que tinha 64 anos, cuidava dos prédios do câmpus dois da unidade de ensino público e residia na Vila Morais, zona leste de Goiânia. A identidade da vítima não foi divulgada a pedido da família.

Apesar de confirmar a ocorrência em Goiânia, a Secretaria de Saúde de Goiás trata o caso como febre amarela silvestre — quando a infecção ocorre na área rural e é feita pelo mosquito Haemagogus.

Normalmente, nesse tipo de infecção, o problema começa com o macaco, hospedeiro da doença. Até ontem, não havia sido encontrado nenhum símio morto por suspeita de febre amarela na UFG. Por isso, a universidade estava fora das áreas de risco. Mas o câmpus dois da universidade fica perto de uma mata, na saída norte de Goiânia.

O número de municípios goianos onde ocorreram epizootias — mortes de macacos — aumenta a cada dia. Conforme lista divulgada ontem pela Secretaria de Saúde do Estado, há 69 cidades em alerta.

Somente em Goiânia, desde o fim de novembro e até segunda-feira, foram localizados 40 animais mortos em 23 pontos. Exames feitos em dois deles confirmaram a febre amarela. Um estava em área de mata do Jardins Madri, condomínio residencial de luxo. O secretário de Saúde de Goiás, Cairo de Freitas, diz que o vigilante da UFG provavelmente foi infectado no local de trabalho. “Vamos monitorar os mosquitos para ver se o câmpus realmente é o foco da infecção”, disse o secretário. A investigação começa hoje.

O vigilante apresentou os primeiros sintomas da doença em 22 de dezembro. Chegou a se vacinar cinco dias depois. Mas, como já estava infectado, acabou morrendo no penúltimo dia de 2007. A doença foi confirmada pelo Instituto Evandro Chagas, que fica no Pará e é laboratório de referência do Ministério da Saúde. Há ainda sete casos de febre amarela em humanos sob investigação em Goiás.

Três pessoas morreram e quatro estão internadas.

Entre as mortes investigadas no estado está a do caseiro Francisco da Guia dos Santos, 32 anos. Ele, que trabalhava em Sobradinho, morreu com sintomas da febre amarela na última segundafeira, no Hospital Regional de Sobradinho (HRS), após ficar internado por 24 horas. Francisco deu entrada no HRS com febre alta, dores pelo corpo, diarréia, icterícia (coloração amarelada) e hemorragia.

Ele esteve no município goiano de Padre Bernardo — a 106km de Brasília — em 17 de janeiro, segundo os familiares. O laudo sobre a morte deve sair em quatro dias.

Os outros dois casos de morte sob suspeita em Goiás foram registrados em Rubiataba e

Cristianópolis. A Secretaria estadual de Saúde não informou os dados da primeira vítima. A segunda é Iraídes Batista Ribeiro, 42 anos. Ela morreu sexta-feira passada, em Goiânia, de falência renal e com sintomas da febre amarela. A vítima morava em Cristianópolis e não era vacinada.

Dengue

Com a confirmação da morte por febre amarela em área urbana de Goiânia, o governo do estado decidiu intensificar o combate ao mosquito Aedes aegypti. “A população está tão preocupada com a febre amarela, porém se esquece da dengue, que não tem vacina, já está na zona urbana e também pode ser letal”, alertou a superintendente executiva da Secretaria de Saúde de Goiás, Maria Lúcia Carnelosso.

Agentes do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Goiânia encontraram mosquitos Aedes aegypti, Sabetes e Haemagogus em bosques e parques do município. Os dois últimos mosquitos são vetores da febre amarela em área rural. Nesses pontos de Goiânia há três espécies de macacos, hospedeiros do vírus que pode ser levado ao homem por meio do mosquito.

Entre as casas infestadas de mosquitos e visitadas pelos agentes do CCZ está a do espanhol Salvador Perez de la Cal, 41 anos, um dos nove mortos por febre amarela desde 30 de dezembro. O estrangeiro passou 10 dias na residência, no Jardim Novo Mundo, bairro periférico de Goiânia, antes de ser internado no Hospital de Doenças Tropicais, onde morreu em 12 de janeiro. Mas a Secretaria de Saúde garante que ele foi infectado em Cristianópolis, onde esteve várias vezes para comprar uma fazenda.

Ano passado, 13.530 pessoas pegaram dengue em Goiás. Do total, 12 morreram, sete por dengue hemorrágica. O DF teve 1.872 casos e nenhuma morte em 2007. Goiás passou por uma epidemia em 2006, quando morreram 23 pessoas e houve 30.244 notificações.

O número

Sinal vermelho - Desde novembro, há 69 cidades goianas em alerta

Gado derruba a Amazônia, reconhece Stephanes


IURI DANTAS, em Brasília

O ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes, admitiu ontem que há derrubada de floresta amazônica para uso como pasto, reconheceu que o governo trata do tema somente "em tese", disse que está preocupado e torceu para que o rebanho que come a floresta não se destine ao aumento das exportações brasileiras. "Já tinha enviado uma equipe de técnicos do ministério para a região, tenho mais de 250 fotos que não vou divulgar.

O outro lado disso é que a abertura da região se deu há 30 anos. Ainda estão derrubando, mas é pouca coisa. A gente tenta segurar esse processo", afirmou o ministro. Stephanes só conheceu alguns detalhes do problema ao ler reportagem da Folha de domingo: terra barata e crédito de bancos oficiais estimulam o avanço cada vez maior da pecuária.

Hoje a Amazônia Legal responde por 36% do rebanho nacional e um terço das exportações, segundo relatório compilado pela ONG Amigos da Terra - Amazônia Brasileira. Virtualmente todo o crescimento do rebanho nacional entre 2003 e 2006 aconteceu naquela região.

Questão de fé

"Como ministro da Agricultura, quero crer que não precisamos disso [ataque à floresta] para exportar carne." O Brasil é alvo constante de questionamentos de países desenvolvidos sobre as origens de seus produtos agrícolas, envolvimento de trabalho degradante e outros problemas. A temática ambiental também sempre surge nessas discussões.

Segundo Stephanes, o governo precisa passar à prática para impedir o avanço do pasto sobre a floresta. "Esta questão está colocada em tese, em nível de decisão política. O governo tomou a decisão política, algo que também é extremamente importante, que é a seguinte: não se derruba mais árvore para a expansão da agricultura e da pecuária brasileira", disse.

Entre as ações teóricas, inclui-se a preocupação do governo com o fenômeno da pecuária na Amazônia. "Estamos muito preocupados com aquilo que foi demonstrado na reportagem", afirmou Stephanes. O ministro abordou o assunto ontem, ao divulgar os dados da balança comercial do agronegócio brasileiro.

O complexo de carnes foi destaque, com aumento de 12,8% nas vendas de carne bovina. Em 2007, o Brasil embarcou 1,62 milhão de toneladas de carne bovina em direção a 150 países, um número 6% superior ao ano anterior.

Em suas projeções, o Ministério da Agricultura espera um crescimento de 31,5% na produção bovina até 2017/2018. Segundo o ministro, há espaço para o aumento sem interferência em biomas protegidos, como a Amazônia e o Pantanal. O cerrado participa do cálculo como área para pastagem.

Isso apesar de ser um bioma rico em biodiversidade e altamente ameaçado: estima-se que 40% dele já tenha sido alterado pela ação humana, e as pressões do agronegócio sobre a savana central brasileira só crescem.

"Estamos conscientes de que com a área que temos podemos ampliar a nossa produção agropecuária dentro das necessidades que teremos nos próximos dez anos sem precisar derrubar nenhuma árvore", disse. Entre as medidas citadas pelo ministro está o incentivo de áreas de pastagens degradadas.

O problema é justamente convencer pecuaristas a voltar a esses espaços, abandonados quando a quantidade de nutrientes no solo diminui consideravelmente. Para isso, seria preciso incentivos públicos financeiros para a compra de adubo e fertilizantes. "Temos de ter um uso mais intensivo, mais racional. Precisamos criar programas para uso de pastagem degradada, é uma proposta que precisa ser implementada", afirmou o ministro da Agricultura.

A recuperação de áreas degradadas era justamente uma das tarefas que cabiam àquela pasta dentro do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento, coordenado pela Casa Civil. A ação nunca chegou a ser implementada.

Lula divulga medidas para conter desmatamento em 36 municípios


RENATA GIRALDI, em Brasília

Em uma reunião de emergência no Palácio do Planalto nesta quinta-feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou divulgar uma lista com a relação dos 36 municípios campeões em desmatamento na Amazônia. Também decidiu que vai reunir os prefeitos dessas cidades e os governadores do Pará, de Rondônia, de Mato Grosso e do Amazonas para que juntos tomem providências e busquem reduzir a derrubada de árvores na região.

Segundo dados oficiais, 50% de 3.235 km2 desmatados na floresta na Amazônia, nos últimos cinco meses de 2007, estão localizados em 19 municípios do Mato Grosso, 12 do Pará, quatro de Rondônia e um do Amazonas.

Lula determinou que fossem intensificadas as decisões anunciadas em dezembro para conter o desmatamento. Na relação de providências que serão intensificadas estão o embargo de propriedades onde houve desmatamento; controle de agropecuária; criação de unidades de conservação; bloqueio de financiamentos para aqueles que tiverem atividades que geram a derrubada de árvores e a exigência de recadastramento de propriedades localizadas nas regiões desmatadas.

Outra orientação do presidente para os ministros que tratam diretamente do assunto é que todos deverão sobrevoar os municípios onde se registram os principais percentuais de derrubada de árvores. A idéia é que eles identifiquem os problemas e definam por ações conjuntas.

O ministro Tarso Genro (Justiça) disse que a partir do dia 21 de fevereiro serão reforçadas uma série de ações de fiscalização e policiamento ostensivo na região Amazônica. A idéia é enviar mais 780 policiais federais, que representariam 25% de acréscimo no contingente amazônico, para 11 postos-chave --um fluvial, outro aéreo e nove estratégicos espalhados nos Estados onde se localizam as áreas de desmatamento.

As medidas foram discutidas em encontro de cerca de duas horas com os ministros Marina Silva (Meio Ambiente), Reinhold Stephanes (Agricultura), Nelson Jobim (Defesa), Sérgio Rezende (Ciência e Tecnologia), Dilma Rousseff (Casa Civil), Tarso Genro (Justiça) e Guilherme Cassel (Desenvolvimento Agrário), além do diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Corrêa.

Marina Silva reiterou que desconfia que o aumento do desmatamento foi provocado pela pressão para elevar a produção de soja e carne -- uma vez que as commodities subiram --, além do período de eleições. Ao lado dela, Stephanes negou essa avaliação, optando por afirmar que não houve aumento de produção agrícola ou bovina em áreas desmatadas.

Tarso, Marina Silva e Stephanes negaram que as ações reiteradas hoje foram emergenciais. Segundo eles, eram medidas já previstas. "A questão ambiental é prioritária e [esse conjunto de medidas] já estava pronto", disse o ministro da Justiça.

25 janeiro 2008

Mais quatro casos

Ministério da Saúde confirma que duas pessoas morreram de febre amarela e outras duas permanecem internadas. Entre os casos fatais estão um morador de Taguatinga e um de Luziânia (GO)

Gizella Rodrigues, Guilherme Goulart e Pablo Rebello

Os dois mais novos casos de morte por febre amarela no Brasil são de pessoas que perderam a vida em hospitais da capital do país. Balanço divulgado ontem à noite pelo Ministério da Saúde revelou que o caseiro José da Silva, 31 anos, e o pastor Antônio Rates dos Santos, 44, morreram depois de picados pelo mosquito Haemagogus. Assim, o número de mortes aumentou de cinco para sete, sendo que todas as vítimas passaram por Goiás antes de apresentar os sintomas. São agora 29 casos notificados: 10 confirmados (três pacientes estão em recuperação), sete descartados e 12 em investigação.

A Secretaria de Saúde do DF só confirmou os casos após a divulgação das mortes pelo Ministério da Saúde. Até então, o subsecretário de Vigilância em Saúde, Joaquim Barros Neto, garantia que os exames não estavam prontos. “A confirmação só viria amanhã (hoje) ou depois (sexta). Mas os exames ficaram prontos depois de 18h e o Laboratório Central (Lacen) notificou o ministério imediatamente, pois a Secretaria de Goiás precisava saber para tomar as providências. Mas para nós do DF não muda nada porque são casos importados”, explicou.

A primeira morte da semana ocorreu na noite de segunda-feira. O caseiro José lutou pela vida por 17 dias. O morador do distrito de Alagados, zona rural distante 25km do centro de Luziânia (GO), apresentou sintomas da doença em 28 de dezembro. Deu entrada no hospital público local com dor de cabeça intensa, febre, olhos amarelados e vomitando. Acabou transferido para o Hospital Regional do Gama (HRG) e logo em seguida ao Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Ele não tinha tomado a vacina contra a febre amarela, ao contrário da mulher e dos quatro filhos.

Na terça-feira, foi a vez do pastor Antônio dos Santos não resistir ao vírus da doença. Morreu no fim da noite depois de três paradas cardiorrespiratórias sofridas na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta, em Taguatinga. Estava internado havia oito dias com insuficiências renal e hepática. O pastor passou mal depois de comemorar o réveillon em uma chácara em Abadiânia (GO), a 118km de Brasília.

Recuperação

Além das mortes, o Ministério da Saúde divulgou que três pacientes infectados por febre amarela estão em recuperação no país. Um deles é irmão do caseiro José da Silva. Cícero Geraldo da Silva, 27, permanece internado no HRG e, segundo o boletim médico, não corre risco de morrer. Ele também mora numa casa em Alagados, a poucos metros da família de José. O segundo caso é o de um homem internado em São Caetano do Sul (SP). Ele também esteve em Goiás, mas o ministério não revelou o nome do município.

A terceira paciente em recuperação é uma paulista, que recebeu alta na manhã de ontem. Ela ficou internada durante nove dias no Hospital São Luiz, no bairro do Morumbi, Zona Sul da cidade de São Paulo. O hospital também não divulgou o nome da paciente — o boletim médico dizia apenas que a saúde dela evoluiu de forma satisfatória e por isso recebeu alta. A mulher esteve no Paraná e em Mato Grosso do Sul entre 27 de dezembro e 3 de janeiro deste ano e ainda não se sabe em qual dos estados ocorreu a infecção.

O Ministério da Saúde envia, hoje, mais 650 mil doses de vacina contra febre amarela para Minas Gerais, Goiás, Tocantins, São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul. Goiás receberá 200 mil doses.

Cerca de 50 mil serão enviadas para Mato Grosso do Sul e os demais estados receberão 100 mil cada.

Em Mato Grosso, os estoques estão zerados e a Secretaria Estadual de Saúde pediu reforço duas vezes ao Ministério da Saúde. O último pedido foi feito sexta-feira, mas ainda não houve resposta.

Militares

Começa hoje o treinamento dos 100 militares do Exército Brasileiro que ajudarão no combate ao mosquito Aedes aegypti no Distrito Federal. Durante dois dias, os soldados aprenderão técnicas para impedir a reprodução do transmissor da dengue e da febre amarela e, na próxima segunda-feira, serão enviados para 11 regiões administrativas. Eles atuarão junto com os profissionais da Vigilância à Saúde por 30 dias, com possibilidade do prazo ser estendido caso haja necessidade.

O Exército dará prioridade para as cidades de São Sebastião, Samambaia, Estrutural e Planaltina, pontos onde a proliferação do mosquito é considerada maior. Os militares também atuarão no Varjão, Lago Sul, Núcleo Bandeirante, Sobradinho, Brazlândia, Paranoá e Ceilândia. A Secretaria de Saúde garante que o reforço no combate ao inseto não foi motivado pelos casos de febre amarela no país. Segundo a secretaria, a inclusão do Exército nas ações preventivas de combate ao mosquito faz parte de uma rotina e ocorre todo ano.

22 janeiro 2008

Febre amarela em 49 municípios


Quarenta e nove municípios goianos registraram mortes de macacos por suspeita de febre amarela até quarta-feira, segundo registros da Secretaria de Saúde do Estado. Os casos estão sendo investigados e não há previsão de quando os laudos ficarão prontos. O Estado tem 246 municípios. A morte de animais por febre amarela é considerada um fato importante pelas autoridades de saúde, pois indica que há presença do vírus no meio ambiente.

A possível existência da doença, que pode matar em até dois dias, dependendo da quantidade de vírus injetada no corpo humano pelo mosquito transmissor, levou milhares de pessoas a lotar os postos de saúde das cidades goianas nos últimos dias. Em Pirenópolis, por exemplo, onde pode ter ocorrido a transmissão da doença a Graco Abubakik, de 38 anos, que morreu na terça-feira, em Brasília, chegou a faltar doses da vacina para a população.

O mesmo ocorreu na Cidade Ocidental, no entorno do Distrito Federal, onde apenas um dos três postos de saúde dispunha de vacinas. Por isso, o tempo de espera para atendimento chegava a duas horas.

A Secretaria de Saúde de Goiás confirmou a falta de vacinas em algumas cidades onde a procura está maior. De acordo com informações do órgão, isso ocorre porque os centros de saúde não estão suportando a grande demanda dos últimos dias. Esses postos são de pequeno porte e não conseguem armazenar grandes quantidades do medicamento, que necessita de condições especiais de estocagem, como temperatura de 2ºC a 5ºC.

No entanto, a Secretaria de Saúde goiana destaca que mais 250 mil doses da vacina foram liberadas pelo Ministério da Saúde às 15 regionais, que são estruturas localizadas em diversas regiões do Estado responsáveis pela distribuição do material.

Paraná preocupado com a doença

A Secretaria de Saúde do Paraná está alertando as pessoas com viagem marcada para outros estados que se vacinem contra a febre amarela, principalmente os viajantes para áreas endêmicas (regiões Centro-Oeste e Norte, Maranhão e Minas Gerais) e região de transição (oeste do Paraná, Santa Catarina, Piauí e São Paulo), assim como para países latinos.

Em nota oficial, a secretaria informa que todos os postos de saúde do Paraná têm doses da vacina à disposição. O Estado não registra nenhum caso da doença desde 1942, mas segundo a coordenadora do Programa de Combate à Dengue do Paraná, Márcia Gil, na região oeste do Estado, área considerada de transição, há circulação de macacos que podem ser hospedeiros da doença.

A morte de um empresário, nesta semana, em Maringá, por uma síndrome hemorrágica aguda (quadro clínico presente em doenças como hantavirose, febre amarela, dengue e leptospirose), está sendo investigada pela Secretaria de Saúde. No entanto, de acordo com a nota, a hipótese mais provável é de que o caso se trata de leptospirose.

A suspeita de febre amarela surgiu pelo fato de o paciente ter estado em área de risco, na cidade de Caldas Novas (GO), no final do ano.

Ministro vai à TV negar epidemia de febre amarela

Durante pronunciamento em cadeia nacional, Temporão pediu calma à população

Ele também garantiu que o ministério tomou todas as medidas preventivas, montando uma barreira sanitária nas áreas de risco

MARIA CLARA CABRAL
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

ANA PAULA RIBEIRO
DA FOLHA ONLINE EM BRASÍLIA

No dia em que o número de notificações de casos suspeitos de febre amarela subiu de 15 para 24, o ministro José Gomes Temporão (Saúde) foi à TV fazer um pronunciamento em cadeia nacional para dizer que "não existe risco de epidemia".

O ministério confirmou que, dos 24 casos suspeitos notificados pelas secretarias estaduais de saúde, 5 foram descartados e outros 2, confirmados.

O ministro ressaltou que as suspeitas estão localizadas e restritas a áreas de matas e florestas. "Estou aqui para tranqüilizar a população brasileira sobre um assunto que está preocupando os brasileiros nos últimos dias. O temor de que esteja ocorrendo uma epidemia de febre amarela no país. Não existe risco de epidemia."

Na TV, Temporão disse que desde 2003 a ocorrência de febre amarela silvestre "vem caindo gradativamente". "Os casos suspeitos estão localizados e restritos a áreas onde algumas pessoas não vacinadas entraram em florestas e matas nas últimas semanas."

Ele garantiu que o ministério tomou todas as medidas preventivas para evitar que casos da doença aparecessem, montando uma barreira sanitária nas áreas de risco e protegendo Estados e municípios contra a febre amarela. "E, de imediato, convocamos as pessoas que vão viajar ou moram em áreas de mata para tomar a vacina."

"Se você não mora ou não viaja para essas regiões, não precisa se vacinar. Quem já se vacinou pode ficar tranqüilo: o efeito da vacina protege as pessoas durante dez anos. Portanto, só procure os postos de saúde se morar ou for visitar as áreas de risco e nunca se vacinou ou foi vacinado antes de 1999", disse.

O Ministério da Saúde recomenda que sejam vacinadas todas as pessoas que irão viajar para matas ou áreas rurais das regiões consideradas "endêmicas", de "transição" ou "risco potencial" de febre amarela. Se a visita ficar restrita às áreas urbanas, não há necessidade da vacina.

No pronunciamento, o ministro afirmou que todos os postos de saúde estão abastecidos e que as autoridades sanitárias estão preparadas.

O Ministério da Saúde reforçou o envio de vacinas para os postos de saúde de todo o país. Em janeiro foram distribuídas 3.238.500 doses de vacina. A média mensal de envio em 2007 era de 961 mil doses por mês (11,5 milhões no ano).

O pronunciamento para TV e rádio foi gravado, em Brasília, na última sexta-feira. A decisão de divulgá-lo foi tomada ontem. Segundo a assessoria de imprensa, a iniciativa de ir a público foi do próprio ministro e não houve um pedido da Presidência da República para que essa providência fosse tomada.

Os dois casos confirmados de febre amarela foram o de Graco Carvalho Abubakir, 38, que morreu no último dia 8, e uma mulher de 42, que contraiu a doença em Mato Grosso do Sul e está internada em São Paulo.

O ministério aguarda resultados dos exames do espanhol Salvador Perez, 41, que morreu no sábado em Goiânia (GO) com suspeita da doença.

Dos casos suspeitos ou confirmados, 15 passaram por matas na região de Goiás. Nos demais, as pessoas estiveram em Mato Grosso do Sul, Pará, Minas Gerais ou Rondônia.
Em 2007, o Brasil registrou seis casos de febre amarela, sendo que cinco morreram.

21 janeiro 2008

Ministro descarta risco de febre amarela em cidades

Temporão diz que casos atuais são isolados e se referem à forma silvestre da doença

Ele afasta possibilidade de falta de vacina e diz que quem mora no Plano Piloto em Brasília, e não pretende viajar, não precisa se imunizar

JOHANNA NUBLAT
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Após as mortes por suspeita de febre amarela, o ministro José Gomes Temporão (Saúde) descartou ontem a possibilidade de o Brasil voltar a registrar febre amarela urbana, erradicada em 1942. Ele disse que os oito casos em investigação, em três Estados (GO, MG e MT) e no Distrito Federal, são ocorrências isoladas e se referem à forma silvestre. No final da tarde, surgiu um novo caso no Paraná, totalizando nove suspeitas.

Quatro pessoas morreram, mas em um dos casos, no DF, embora a investigação do ministério continue, a doença está praticamente descartada. Os demais ocorreram em Goiânia, Brasília e Maringá (PR).

"A situação está absolutamente sob controle, não existe nenhum risco de epidemia. Desde 1942 não temos um caso de febre amarela urbana no Brasil e continuamos não tendo. Os casos que aconteceram foram isolados e muito menos que em anos anteriores", disse.

O maior número de registros no Brasil ocorreu em 2000, quando 85 pessoas foram infectadas; em 2003, também houve contágio elevado, com 64 casos. Em 2006, foram dois e, no ano passado, seis.

As mortes dos últimos dias levaram milhares de pessoas aos postos de vacinação no DF e em Goiás. Em muitos locais, acabaram as vacinas. O ministro explicou que a falta se deveu à elevada procura, mas garantiu que o ministério conseguirá atender à demanda pelos postos. Ontem, a Fiocruz liberou mais 2 milhões de doses.

Ele disse que, ainda que sua pasta recomende a vacinação para quem viaja ao DF, o morador do Plano Piloto não tem que se preocupar. "Só [precisa se vacinar] se for para região de mata. [Para] a pessoa que mora no Plano Piloto e não pretende sair dele, não vai viajar para lugar nenhum, não tem sentido."

Pirenópolis ou DF

Temporão descartou a possibilidade de Graco Abubakir, 38, - que morreu na terça-feira, em Brasília, com sintomas da doença e é um dos casos em investigação - ter sido contagiado no Distrito Federal.

"Com certeza, se laboratorialmente for confirmado que foi febre amarela, ele contraiu essa doença ao entrar na mata de Pirenópolis [cidade em Goiás onde ele passou o fim do ano]", disse. A sorologia, que pode confirmar a infecção, deve sair amanhã.

Um dos irmãos de Graco, Tarso Abubakir, afirmou que não é possível dizer onde ele pode ter sido contagiado.

"Estão cometendo uma injustiça muito grande com Pirenópolis, porque ninguém pode precisar com certeza onde foi o contágio. Isso é uma irresponsabilidade muito grande. Ele pode ter contraído, se for mesmo febre amarela, aqui", disse, durante o velório.

Segundo Tarso, o irmão morava numa região do Lago Norte onde há mata e macacos. Também afirmou que, quando Graco chegou à cidade goiana, no dia 29, ele já se apresentava "cansado", o que pode indicar que já estaria doente.

Graco ficou em Pirenópolis até 1º de janeiro e começou a sentir dores de cabeça no dia 2. Como o tempo de incubação da doença é de três a seis dias, não é possível dizer se ele teria sido picado em Goiás ou no DF.

Outro fato que, para a família, reduz a chance de ele ter contraído a doença em Goiás é que Graco viajou com 20 amigos, alguns vacinados e outros não, e apenas ele teve sintomas.

Bastante emocionado, o irmão disse que a família está "baqueada". "O fato de ele ter ido embora vai fazer com que as pessoas que têm que se mexer se mexam e providenciem a vacina para todo mundo", disse.

Goiano morre com suspeita de febre amarela no Paraná


Ele passou o fim de ano em Caldas Novas (GO); em outro caso, paulistano fez exames em TO com sintomas da doença

Centro de Vigilância Epidemiológica de SP divulgou lista em que coloca 268 cidades em estado de alerta contra febre amarela

JOSÉ MASCHIO
DA AGÊNCIA FOLHA, EM LONDRINA

AFONSO BENITES
DA AGÊNCIA FOLHA

JORGE SOUFEN JR
DA FOLHA RIBEIRÃO

O bancário aposentado Almir Rodrigues da Cunha, 46, morreu na madrugada de ontem em Maringá (noroeste do Paraná) com suspeita de febre amarela.

Internado desde o dia 6 no hospital Santa Rita, Cunha havia passado o final do ano em Caldas Novas (GO). Sua morte fez com que a Secretaria Municipal da Saúde de Maringá intensificasse a vacinação contra a doença na cidade.

Cunha era natural de Caldas Novas e morava havia nove anos em Maringá. Ele viajou para Goiás em 22 de dezembro, retornando no dia 1º.

Após a morte de Cunha, houve uma corrida a postos de vacinação de Maringá. Segundo Edlene Loureiro Aceti Goes, coordenadora de Vacinação de Maringá, só no posto central foram vacinadas na tarde de ontem 400 pessoas. "Estamos preparados para vacinar quem procurar os postos de vacinação, mas nossa orientação é priorizar quem viaja nos próximos dias para regiões onde a febre amarela silvestre ainda é preocupante."

Paulistano

Outro caso de suspeita de febre amarela é o do engenheiro paulistano Caio Panella Adaines, 34. Ele passou ontem pelo Hospital Geral de Palmas (TO) com sintomas da doença.

De acordo com o hospital, o paciente realizou exames sorológicos e, dizendo estar se sentindo bem, retornou para o hotel onde estava hospedado.

Antes de ir para Palmas, o engenheiro, acompanhado da mulher, esteve na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e no Jalapão, no Tocantins.

De acordo com o gerente técnico da área de febre amarela da secretaria, Whisllay Maciel Bastos, ele não corre risco de morte. O resultado do exame para constatar se ele contraiu febre amarela deve ficar pronto em até dez dias.

Para a Secretaria da Saúde do Tocantins, o engenheiro pode ter contraído o vírus na viagem que fez por Goiás. A gerente de Vigilância Epidemiológica do governo de Goiás, Magna Maria de Carvalho, não descartou essa hipótese. "Só analisando a ficha do paciente é que saberemos onde ele pegou a doença, caso ela seja confirmada. Pode ser que tenha sido em Goiás ou em qualquer outra região considerada endêmica do país."

Em entrevista a uma emissora de TV e a um jornal de Tocantins, o engenheiro disse que não percebeu que seu cartão de vacinação estava vencido. A vacina de febre amarela é válida por dez anos.

A Folha não conseguiu contatar o engenheiro ontem.

Estado de alerta

O CVE (Centro de Vigilância Epidemiológica) de São Paulo divulgou lista em que coloca 268 municípios em estado de alerta contra a febre amarela.

As cidades estão na área de risco de transição, em que há registro esporádico de presença do vírus da febre amarela na natureza ou em humanos. Elas estão na região de Presidente Prudente, Araçatuba, São José do Rio Preto, Barretos, Ribeirão Preto, Franca e Marília.

Tanto quem mora como quem vai viajar para essas áreas é aconselhado a tomar a vacina caso não esteja imunizado -ou seja, não tenha tomado a vacina nos últimos dez anos. O indivíduo fica protegido dez dias após tomar a vacina, que é gratuita.

As áreas de transição ou de risco potencial, além das de São Paulo, estão em Minas Gerais, sul e oeste da Bahia, sul do Piauí e norte do Espírito Santo, além do oeste do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.