24 novembro 2007

Rejeitos nucleares não preocupam nos próximos 500 anos, diz Eletronuclear


Por Alana Gandra


Rio de Janeiro - A questão dos rejeitos nucleares parece estar equacionada no Brasil, pelo menos nos próximos 500 anos, avaliou nessa quarta-feira (21) o presidente da Eletronuclear, Othon Luiz Pinheiro da Silva.


“Nós não estamos resolvendo o problema. Resolver o problema significaria a gente resolver para a eternidade. Mas nós estamos postergando para 500, mil anos, com muita responsabilidade”, afirmou. Ele encerrou o 1º Workshop sobre Geração Nuclear e a Matriz Energética Brasileira, promovido pela Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (Abdan), no Rio.


Silva disse que o volume de rejeito atômico produzido pelas usinas de Angra dos Reis. “Uma central com as usinas de Angra 1, 2 e 3 produz 28 metros cúbicos de rejeito de alta atividade. Cabe numa salinha pequena. A gente pode estocar por 100 anos tranqüilamente”, argumentou. Ele disse que quem vai escolher o local de depósito dos rejeitos nucleares será o próprio povo brasileiro.


“A idéia é fazer uma célula e demonstrar que é seguro. Depois, nós vamos fazer um leilão, por meio do qual aquele município do país que se voluntariar fica sendo o depósito e receberá um royalty [pagamento] por isso.”


A Eletronuclear, informou o presidente da estatal, vai colocar cada rejeito atômico ou elemento combustível numa ampola de aço inoxidável lacrada com solda, com vida útil superior a mil anos. “Ela fica isolada da sociedade”, afirmou o presidente da estatal, responsável pela operação das usinas nucleares no país. Para os críticos da energia nuclear, os rejeitos representam risco ambiental, além de a produção energética ser cara.


O presidente da Eletronuclear afirmou que os ambientalistas, e a sociedade em geral, não vão conviver nunca com rejeito nuclear, “que é produzido em pequena quantidade e pode ser encapsulado”. Segundo Othon Luiz Pinheiro da Silva, a questão que mais preocupa a humanidade nessa área são os rejeitos de alta radioatividade, chamados pela indústria de subprodutos. Esse tipo de rejeito é formado pelo elemento combustível já irradiado dentro do reator.


Silva lembrou que mesmo os críticos do programa nuclear brasileiro convivem diariamente com todos os tipos de rejeitos das usinas térmicas movidas a gás, carvão, biomassa e óleo, além de produtos como o desinfetante creolina, que “é um rejeito muito tóxico, cancerígeno”.


O rejeito de baixa radioatividade diz respeito ao material utilizado pelos técnicos da usina, como sapatos, macacões e luvas, e tem tratamento similar ao dos rejeitos hospitalares. O rejeito de média atividade são as resinas dos processos. Esses dois tipos de rejeitos têm como destino galpões de concreto construídos dentro de rochas, ao lado de cada usina.


O assessor da presidência da Eletronuclear Leonam dos Santos informou à Agência Brasil que a ação radioativa depende do tipo de rejeito. Os de baixa e média atividade, por exemplo, permanecem radioativos por até 100 anos, disse. Já nos de alta atividade, a duração do poder radioativo é muito variada. “Pode ir de mais de 100 anos, como o césio por exemplo, a 10 mil anos de meia-vida, caso do plutônio”, observou. Meia-vida é o tempo que o material leva para ter seu teor radioativo reduzido à metade.

Projeto de Lei Incentiva o Uso de Energia Solar no Rio de Janeiro



Assim como as capitais São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte, a cidade do Rio de Janeiro também pretende contribuir com a preservação ao meio ambiente. Para isso, a vereadora Aspásia Camargo (PV) apresentou um projeto de lei na Câmara Municipal que torna obrigatório o uso de energia solar em novas edificações.

De acordo com o projeto, a lei se estende para novas edificações de uso não residencial, públicas e privadas e para novos imóveis residenciais com área construída superior a cento e cinqüenta metros quadrados.


Para Aspásia os projetos semelhantes aprovados em algumas cidades brasileiras demonstram o “despertar do Brasil para a realidade sócio-ambiental”. Segundo ela, é um desperdício, tanto econômico como ambiental, não saber usar a energia solar, presente na maior parte do território brasileiro, inclusive no Rio de Janeiro, onde a incidência do sol é alta em boa parte do ano.


“Esses fatores facilitam o funcionamento do sistema que é instalado nos telhados das casas, hotéis, pousadas, entre outros”, informa José Luiz Jesus gerente geral da Alpina Termoplásticos, uma das mais conceituadas empresas do ramo de aquecedor solar.


Questionado sobre as vantagens do aquecimento solar ALO Solar, José Luiz aponta os ótimos índices de eficiência energética alcançados pelos reservatórios térmicos (Thermotank e Isola) e as placas coletoras nos testes do Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro). Pelos resultados apresentados, os equipamentos receberam o Selo Procel concedido pela Eletrobrás aos produtos que reduzem o consumo de energia elétrica. Quanto à economia na conta de energia elétrica, ele afirma ser de aproximadamente 30% com o uso do aquecedor solar.

O Japão retoma a actividade de Pesca à Baleia no Pacífico



O Japão vai retomar as suas actividades criminosas e bárbaras de caça à baleia no Pacífico Sul, planeando a morte de mais de mil baleias. Supostamente, estas actividades de caça têm “objectivos científicos”, numa imensa hipocrisia que deveria envergonhar uma das civilizações mais antigas e admiráveis do mundo. A decisão de retomar a actividade baleeira é particularmente grave no caso das baleias corcundas que estavam cobertas por uma moratória já com 44 anos e das quais o Japão pretende agora caçar 50 baleias. De facto, as baleias corcundas estiveram quase extintas, e só esta moratória é que as salvou in extremis, sendo a sua população de vários milhares (segundo fontes japonesas) actualmente, razão pela dizem os japoneses que abater cinquenta baleias não terá impacto na sobrevivência da espécie. Mas a caça destes animais não servirá para estudar os seus “órgãos internos”, como afirmam as autoridades japonesas, mas para alimentar uma indústria alimentar que ainda que esteja em declínio (graças sobretudo a uma atitude mais ecológica por parte das gerações mais novas) ainda pagam 17 euros por meio quilograma e é a matéria-prima de vários pratos de cozinha tradicional e de luxo japoneses.

O Japão deixou de caçar baleias com fins comerciais em 1986, mas manteve algum tipo de actividade baleeira sempre sob pretextos “científicos” tendo agora uma frota de quatro navios baleeiros em actividade no Pacífico Sul, sendo esta seguida de perto pelo navio Esperanza da Greenpeace (o blog do navio pode ser acedido clicando AQUI). Se esta declaração o chocou tanto como a mim, envie um mail para a Embaixada Japonesa endereçada a Yuichi Miyagawa o responsável pela área de “Informação e Assuntos Culturais” (clicando AQUI) exprimindo de forma veemente, mas polida o seu estado de alma quanto a este regresso massivo do Japão a uma das actividades humanas mais cruéis jamais registadas contra uma das criaturas mais inteligentes da Natureza: a Baleia.

21 novembro 2007

Após mais de uma semana, baleia morre na Amazônia

Animal estava a cerca de mil quilômetros do oceano; causa ainda será apurada

Corpo de baleia passará por necropsia e depois será enterrado; ribeirinhos que a identificaram primeiro se revoltaram com morte


KÁTIA BRASIL

DA AGÊNCIA FOLHA, EM MANAUS

A baleia minke que encalhou em um rio da Amazônia, no Pará, apareceu morta ontem, antes do início da operação de resgate para salvá-la.

O animal marinho, de cinco metros de comprimento e cerca de sete toneladas, estava a cerca de mil quilômetros do oceano Atlântico há pelo menos uma semana.

A suspeita é a de que ela tenha se desviado de sua rota e entrado no rio Amazonas pela ilha de Marajó. No rio Tapajós, afluente do Amazonas, foi atração turística e alvo de agressão.

Uma necropsia seria feita ontem para tentar identificar a causa da morte da baleia e o motivo que a fez entrar em águas doces. Biólogos acreditam que uma doença pode tê-la feito deixar o Atlântico. Após os exames, a baleia será enterrada.

O veterinário Milton Marcondes, do Instituto Baleia Jubarte, que está na região a pedido do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), afirmou que a baleia estava estressada e ferida.

"Se ela fosse ficar aqui no rio ia acabar morrendo. O animal estava sob estresse, gente subindo em cima, barcos próximos, tudo isso pode ter comprometido seu quadro", disse.

O animal foi achado morto às 7h, pela comunidade de São José, no rio Arapiuns, afluente do Tapajós. O local fica a uma hora e meia de barco de Santarém (730 km de Belém).

Ontem, em Piquiatuba, onde a baleia foi identificada pela primeira vez, moradores se revoltaram pela morte da minke. "O Ibama demorou muito no resgate", disse o professor Jonathás Xavier dos Santos, da escola municipal Santa Terezinha. A equipe de biólogos que monitorava o animal tentava conseguir uma embarcação para transportá-lo de volta ao oceano, mas não conseguiu a tempo.

Técnica gera célula-tronco sem embrião

Grupos no Japão e nos EUA reprogramaram células adultas da pele humana para agirem como se fossem embrionárias

Estratégia desenvolvida por japonês pode eliminar o dilema ético em torno da clonagem terapêutica, que demanda destruir embriões


GIOVANA GIRARDI

COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Duas equipes independentes de cientistas deram um salto nas pesquisas com célula-tronco ao conseguirem fazer com que células humanas adultas da pele "voltassem no tempo" e passassem a agir como se fossem as versáteis células-tronco embrionárias, conseguindo posteriormente se diferenciar em outros tecidos do corpo.

A técnica surge com a promessa de que talvez, no futuro, possa substituir o uso das polêmicas células-tronco embrionárias. As CTEs são hoje as queridinhas dos pesquisadores por conta de seu potencial terapêutico. Como elas têm a capacidade de se transformar em qualquer outro tecido do organismo, podem, em tese, ser usadas para o tratamento de doenças degenerativas, como diabetes e mal de Parkinson.

O problema é que, para obtê-las, é necessário destruir embriões, fato que enfrenta a resistência de grupos religiosos. Com o novo trabalho, a Casa Branca parabenizou os cientistas por resolverem problemas médicos "sem comprometer os elevados objetivos da ciência e o sagrada da vida humana".

Cientistas do Japão e dos EUA pegaram células da pele humana (fibroblastos) e induziram nelas a tão desejada pluripotência (versatilidade) da CTEs. Após essa reprogramação, elas não só assumiram uma aparência de CTEs como também um funcionamento semelhante ao delas, chegando a se diferenciar em neurônios e células cardíacas.

"Estamos agora em posição de gerar células-tronco específicas para pacientes e doenças sem usar embriões", declarou Shinya Yamanaka, autor de um dos estudos, em comunicado. "Com essas células, poderemos compreender mecanismos de doenças, procurar por drogas eficientes e seguras e tratar pacientes com terapia celular."

O feito tinha sido obtido pela primeira vez em meados de 2006, com células de camundongo, pela equipe de Yamanaka, da Universidade de Kyoto. Desde então, cientistas de todo o mundo vinham tentando replicá-lo em humanos. Agora, os grupos do japonês e do americano James Thomson, da Universidade de Wisconsin em Madison, conseguiram. Os trabalhos foram publicados on-line nos periódicos "Cell" (www.cell.com) e "Science" (www.sciencexpress.org).

Regulação

As duas equipes trabalharam com a introdução nos fibroblastos de quatro genes ligados à manutenção da capacidade das células-tronco embrionárias. Quando um organismo está se formando, esses genes estão ativos nas CTEs e fazem com que elas se diferenciem nas demais células do corpo. No momento em que a célula atinge sua especialização, no entanto, eles são desativados.

O pesquisadores usaram retrovírus, parentes do vírus da Aids, para introduzir esses genes nos fibroblastos de modo que eles se reativassem e as células retomassem a versatilidade (veja quadro à direita). A diferença entre os dois estudos foram os genes usados. O grupo de Yamanaka trabalhou com Oct3/4, Sox2, Klf4 e c-Myc. O de Thomson trocou os últimos dois por Nanog e Lin28.

Fim da clonagem?

O achado pode jogar uma pá de cal nas busca da chamada clonagem terapêutica. Ainda na semana passada, um dos pioneiros dos estudos com clones, o escocês Ian Wilmut, "pai" da ovelha Dolly, se antecipou ao lançamento dos trabalhos ao dizer que desistia de tentar clonar um ser humano para obter células-tronco.

Ele disse na ocasião que sua decisão era baseada no sucesso que Yamanaka tivera anteriormente com camundongos. Ontem ele só complementou sua decisão: "Nós podemos agora visualizar um tempo em que uma simples técnica poderá ser usada para produzir células-tronco que serão capazes de formar qualquer tecido a partir de uma pequena amostra de qualquer um de nós."

Robert Lanza, da companhia Advanced Cell Technology, que vinha tentando clonar embriões, comparou: "Este trabalho representa um tremendo marco científico, o equivalente biológico do primeiro avião dos irmãos Wright", disse. "É um pouco como aprender como transformar chumbo em ouro."

Em entrevista coletiva, ontem, a equipe de Thomson também se manifestou nesse sentido. Quando questionada sobre se ainda fazia sentido falar em clonagem terapêutica, Jennifer Frane, também de Wisconsin, respondeu: "Bem, eu diria que não". Ao que foi amparada por Thomson: "A transferência de núcleo celular é um bom experimento, mas nós ainda somos ineficientes, ele é caro, é difícil de fazer e é provável que nunca aproveitemos as aplicações. Então não imagino que ele dure por muito tempo".

Mas, apesar de a nova técnica ser "eticamente descomplicada", como definiu Douglas Melton, co-diretor do Instituto de Células-Tronco da Universidade Harvard, ela ainda não deve substituir os estudos com as células-tronco embrionárias.

"Ainda temos muito a aprender com as células-tronco embrionárias. E só pesquisando seu funcionamento podemos fazer com que uma célula adulta imite seu comportamento", ressaltou a pesquisadora Lygia da Veiga Pereira, da USP. "Veja que os próprios autores só chegaram a esses resultados graças às CTEs e precisarão delas para várias outras análises, inclusive para eliminar o vírus como tecnologia para a reprogramação, o que impede que isso seja usado para a terapia com seres humanos", complementou Stevens Rehen, da UFRJ.

Com agências internacionais

18 novembro 2007

Após R$ 1,5 bi, Guanabara está até mais poluída

Banco japonês e BID investiram valor em programa de despoluição da baía

Dinheiro estrangeiro acabou e, em alguns pontos, baía é hoje mais suja do que há 13 anos, quando projeto foi lançado pelo Estado


SERGIO TORRES
DA SUCURSAL DO RIO

Acabou o dinheiro de fora investido no programa de despoluição, os sucessivos governos do Estado do Rio não fizeram o que acordaram em contratos e a baía de Guanabara hoje é tão, e em alguns pontos até mais, suja do que era quando o projeto foi lançado, há 13 anos.

As última parcelas de dinheiro estrangeiro (do Banco Japonês de Cooperação Internacional e do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID) chegaram ao PDBG (Programa de Despoluição da Baía de Guanabara) no ano passado.

Ao todo, o BID investiu exatos US$ 349.365.253,40. O Banco Japonês, US$ 287,9 milhões. Em moeda nacional, as organizações financeiras do exterior contribuíram, em valores atuais, com quase R$ 1,5 bilhão. Agora, a fonte secou.

Com o financiamento externo, foram construídas ou ampliadas oito estações de tratamento de esgoto ao redor da baía de 380 km2, cujas águas margeiam os municípios do Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Magé, Guapimirim, Itaboraí, São Gonçalo e Niterói. Outras nove cidades integram a bacia hidrográfica da baía. Algo em torno de 13 milhões de pessoas cujos dejetos vão, na maioria das vezes, sem tratamento para o mar.

O problema principal é que as estações ou não funcionam ou funcionam precariamente, porque os governantes não se preocuparam em instalar os troncos coletores, aonde chegariam as tubulações receptoras dos esgotos residenciais.

Essa era a tarefa contratual dos governos fluminenses, conforme rezam os três contratos firmados em 1994 com os dois bancos estrangeiros. Ou seja, sem os canos, a sujeira não tem como chegar às estações de tratamento prontas.

A contrapartida brasileira aos investimentos externos seria de US$ 531,4 milhões, ou cerca de R$ 955,8 milhões, em valores de hoje. Mas, até 2005, segundo dados do TCE (Tribunal de Contas do Estado), o governo fluminense só aplicara US$ 351.287,647,86 (R$ 632,3 milhões), o que representa 66% do que deveria ter gasto. Neste ano, o governo diz que investirá R$ 60 milhões.

Por causa da falta de investimento pelo Estado, a primeira fase do programa, justamente a que previa a despoluição da baía, não terminou. Está atrasada sete anos. A segunda fase, de recuperação ambiental, que duraria seis anos a partir do fim da primeira, sequer começou.

Assim, mesmo com o mais de R$1 bilhão investido no programa de limpeza, a baía continua imunda. Para reparar a intensidade da poluição, basta fazer o contorno dela por terra. Com exceção da praia de Icaraí (Niterói), onde já não ocorre despejo de esgoto, as demais (cerca de 90) são impróprias para banho, poluídas pelas cargas orgânica ou industrial e lixo.

O que já era muito poluído há 13 anos, está hoje em situação terminal. São os casos das vizinhanças do porto de Niterói; da orla de São Gonçalo; da região nos fundos da baía junto à Refinaria Duque de Caxias, à foz do rio Sarapuí e à praia de Mauá; do canal entre a ilha do Governador e o continente; e, principalmente, do canal do Fundão, o trecho visualmente mais assustador. Ali, quando a maré baixa, surge um lamaçal negro, malcheiroso, sem vida. Não há peixes no canal.

Mas a poluição da baía não pode ser creditada apenas à população pobre que habita as favelas da orla da baía e áreas afastadas dos espaços turísticos. Ainda existe despejo de esgoto sem tratamento no centro, na marina da Glória e na praia do Flamengo, áreas nobres da cidade.

Nordeste desperdiça estrutura de irrigação

Equipamentos instalados são suficientes para atender 60 mil hectares, mas metade dessa área está sem plantio nenhum

Neste ano, de seca, Ceará perdeu mais de 50% de sua produção agrícola, e 127 mil pessoas não têm o que comer, segundo o governo


KAMILA FERNANDES
DA AGÊNCIA FOLHA, EM LIMOEIRO DO NORTE (CE)

No Nordeste setentrional, onde as chuvas são esparsas e o clima predominante é o semi-árido, existem instalados, hoje, equipamentos e infra-estrutura pública para irrigação em 60 mil hectares. Mas pouco mais da metade dessa terra, 30.880 hectares, está parada, sem plantio algum, segundo o próprio órgão que a gerencia, o Dnocs (Departamento Nacional de Obras contra as Secas).

Sem irrigação, pequenos produtores só podem esperar a chuva, que nem sempre é suficiente, para o plantio de subsistência de feijão, milho e mandioca. Neste ano, de seca, a perda da produção foi de mais de 50% no Ceará, onde 152 dos 184 municípios do Estado decretaram situação de emergência pela estiagem. Pelos cálculos do governo, 127 mil pessoas não têm o que comer no Estado pela perda da safra.

As explicações para a ineficiência do uso das áreas já prontas para irrigar são várias. Para o diretor-geral do Dnocs, Elias Fernandes, em alguns casos há falta d'água e em outros há falta de interesse de agricultores ou empresários em investir, dificuldades para conseguir crédito ou mesmo problemas de gestão.

Além disso tudo, segundo agricultores ouvidos pela Folha, há também indícios de especulação imobiliária, principalmente em áreas que serão beneficiadas pelo projeto de transposição do rio São Francisco e que terão seu potencial hídrico triplicado quando a obra estiver pronta.

Ao visitar um desses perímetros do Dnocs, o Jaguaribe-Apodi, em Limoeiro do Norte (200 km de Fortaleza), a reportagem encontrou um grande contraste: largas áreas de caatinga, bem ao lado de canais cheios d'água, usados para irrigar apenas 2.800 hectares cultivados por empresas. A área total do projeto é de 5.400 hectares e há outros 9.800 para serem implementados.

Não é barato instalar uma infra-estrutura de irrigação, de acordo com relatório do Banco Mundial de 2004, intitulado "Impactos e Externalidades Sociais da Irrigação no Semi-Árido Brasileiro".

O custo médio desses empreendimentos é de US$ 10 mil por hectare, segundo o banco, mas há casos em que os custos são bem maiores, como o do Jaguaribe-Apodi, que chegou a custar US$ 15 mil por hectare e é tido como um insucesso por este estudo. Em 30 anos, o país investiu cerca de US$ 2 bilhões (R$ 3,48 bilhões) em obras de irrigação, segundo o banco.

A construção de um perímetro irrigado inclui a instalação de canais para levar a água de um reservatório às terras irrigáveis, máquinas para o seu bombeamento, estações elevatórias, equipamentos para a distribuição da água, como os pivôs (grandes máquinas que fazem a água jorrar do alto), os microaspersores e as mangueiras para gotejamento (que permitem um menor desperdício de água), além de galpões para a estocagem da produção.

Além das áreas do Dnocs, há, no Nordeste meridional, ao longo do rio São Francisco, outros 25 projetos de irrigação instalados pelo governo federal, mas pela Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba).

Dos 100 mil hectares instalados, 81.200 hectares estão sendo cultivados. Entre os motivos para não haver cultivo no restante das terras, de 18.800 hectares, segundo o diretor da área de gestão dos empreendimentos de irrigação do órgão, Raimundo Deusdará Filho, estão a troca de culturas agrícolas, questões de mercado e problemas de gestão. "Quando não é feito o uso devido da terra, acionamos o dono juridicamente."

Amazônia está sufocando, diz secretário da ONU

Secretário da ONU cobra resposta de governos a dados científicos sobre clima

Coreano lançou ontem síntese de relatório do IPCC sobre o clima e disse que Amazônia "está sufocando" e pode virar uma savana


DA REDAÇÃO

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, classificou ontem o aquecimento global como "o desafio que definirá nossa era" e cobrou de governos de países ricos e pobres ação imediata para minimizar suas conseqüências.

Ban lançou ontem em Valencia, Espanha, a síntese do AR4, o Quarto Relatório de Avaliação do IPCC, o painel do clima da ONU. O documento, de 23 páginas, resume o estado-da-arte do conhecimento humano sobre o efeito estufa.

Destinado a líderes políticos, ele deve guiar as negociações a serem iniciadas no mês que vem em Bali, Indonésia, sobre o acordo para reduzir emissões que substituirá o Protocolo de Kyoto, que vence em 2012.

Embora não traga muitas novidades científicas em relação aos três sumários executivos que o IPCC lançou ao longo deste ano, o relatório-síntese pode ser considerado um alerta mais duro. Ele admite, por exemplo, que o aquecimento acelerado traz o risco de "singularidades de grande escala".

A principal delas é o aumento do nível do mar muito além dos 59 cm esperados para 2100 em decorrência do degelo polar. "Processos dinâmicos do gelo vistos em observações recentes mas não incluídos totalmente no AR4 poderiam aumentar a taxa de perda", diz a síntese.

"Os cientistas determinaram, em uníssono, que a mudança climática é inequívoca. Agora eu preciso de respostas políticas dos líderes políticos", declarou Ban à imprensa.

Testemunha ocular

Antes, em discurso a delegados de cerca de 130 países, o coreano afirmou que pôde testemunhar nos últimos dias os efeitos da mudança climática, como o rompimento de plataformas de gelo na Antártida.

"A Amazônia, o pulmão da Terra [sic], está sufocando", afirmou. (A floresta consome quase todo o oxigênio que produz, portanto, a imagem de "pulmão" não é adequada.)

Declarou em seguida que Brasil tem se esforçado para reduzir o desmatamento e promover o manejo sustentável da floresta, mas que o governo teme que o aquecimento global já esteja minando esses esforços.

"Se as projeções mais graves se concretizarem, boa parte da Amazônia se transformará em uma savana."

"Essas cenas são tão assustadoras quanto um filme de ficção científica. Mas são ainda mais terríveis por serem reais."

Ban destacou, no entanto, que o relatório do IPCC mostra que há meios reais e economicamente viáveis de enfrentar a mudança climática, e que uma ação coordenada pode evitar o desastre.

"Nós estamos abordando a ciência de uma maneira muito objetiva. Se isso não der base para a ação política, eu não posso pensar em nada melhor", afirmou o presidente do IPCC, o indiano Rajendra Pachauri.

O relatório acrescenta impulso técnico e político à conferência de Bali, que começa daqui a duas semanas e tem o objetivo de definir o calendário de negociações do futuro regime de redução de emissões, a ser adotado em 2009.

Ban voltou a enfatizar que "não podemos nos permitir não obter um avanço real em Bali" e que "não se alcançará um acordo" se os países em desenvolvimento não se comprometerem a reduzir suas emissões.

Pelo acordo de Kyoto, somente os países industrializados, agrupados no chamado Anexo 1, têm metas obrigatórias de redução a cumprir. Acontece que nações do Terceiro Mundo, como a China, têm tido um crescimento enorme de suas emissões. O sucesso da conferência de Bali depende do papel que China e Estados Unidos desempenharão.


Com agências internacionais