20 julho 2007

Usina nuclear é fechada após vazamento

Jornal do Comércio

As autoridades do Japão confirmaram ontem o fechamento da central nuclear de Kashizawaki-Kariwa, a maior do mundo, cuja segurança está sendo questionada depois que o violento terremoto da segunda-feira passada provocou vazamentos radioativos.

"De acordo com a legislação contra incêndios, é difícil autorizar o funcionamento da central levando-se em conta a situação. Ordeno que parem de utilizá-la", declarou o prefeito ao diretor da companhia Tokyo Electric Power (Tepco), que explora o complexo nuclear.

O presidente da Tepco, Tsunehisa Katsumata, vestido com o quimono azul de trabalho dos empregados, se prostrou diante do prefeito e apresentou "desculpas profundas por ter provocado preocupação e problemas imensos".

Katsumata também visitou a central nuclear durante uma hora. Embora tenha destacado que os reatores não sofreram nenhum problema grave, o diretor afirmou que "sem dúvida, o choque foi maior do que o limite de resistência previsto na época da construção".

A central de Kashiwazaki-Kariwa localiza-se a apenas nove quilômetros do epicentro do primeiro tremor de terra, que atingiu 6,8 pontos na escala Richter, um dos mais violentos já ocorridos no Japão. Segundo o balanço oficial mais recente, este terremoto provocou nove mortos, mais de mil feridos e destruiu centenas de prédios.

A Tepco já encontrou ao menos 50 pontos de mal funcionamento na usina após os terremotos. Entre os problemas, cerca de cem recipientes contendo resíduos tóxicos foram derrubados pelos terremotos e vários apresentaram perda de líquido.

O primeiro tremor também causou incêndio na usina, seguido por um vazamento de água, no mar do Japão, contendo materiais radioativos. Além disso, a Tepco informou que houve emissão acidental de cobalto-60 e cromo-51 (radioativos) da usina para a atmosfera, mas não se sabe a razão.

Quatro dos sete reatores da usina estavam em funcionamento quando o primeiro terremoto atingiu o Japão e todos foram fechados automaticamente por um mecanismo de segurança antitremores.

Kensuke Takeuchi, porta-voz da Tepco, disse ontem que os defeitos são "problemas pequenos" que não apresentam danos ao ambiente externo ou à saúde pública.

19 julho 2007

Mapa das riquezas

IstoÉ

O governo vai retomar o projeto Radar da Amazônia (Radam). Serão gastos R$ 300 milhões no levantamento das reservas minerais, florestais e hídricas. O contrato vai para a Orbisat, empresa de um grupo do ITA, que fez radares para monitoramento de pessoas no Pan.

Brasil a um passo de produzir gás nuclear para suas centrais atômicas

BRASÍLIA, 4 Jul 2007 (AFP) - O Brasil, que domina a técnica do enriquecimento do urânio, está a um passo de produzir gás nuclear, com o qual controlaria a totalidade do ciclo desse combustível, informou o comandante da Marinha do Brasil, Almirante Moura Neto.

Atualmente, o urânio é inicialmente processado e concentrado (yellowcake ou urânia) e é enviado ao Canadá, onde é submetido ao processo de gaseificação anterior ao enriquecimento.

Mas a Marinha poderia romper essa "dependência", já em 2008, com a condição de receber um aporte de apenas 20 milhões de reais (menos de 10 milhões de dólares), para completar o projeto, disse Moura, na terça-feira à noite numa entrevista a correspondentes estrangeiros em Brasília.

"A transformação do "yellowcake" em gás, no que respeita à Marinha, é algo rápido: dependemos de 20 milhões de reais. Considero que o ciclo do combustível já está praticamente dominado e isto será um benefício muito grande para o país: não a dependência", afirmou.

O Brasil já domina o processo de enriquecimento, com centrifugadoras de fabricação própria, que poderiam iniciar a produção em escala comercial nos próximos dois ou três anos.

O objetivo é o de abastecer com combustível as duas centrais nucleares geradoras de eletricidade em funcionamento (Angra I e II) assim como a futura Angra III (todas no estado do Rio de Janeiro), à qual o governo acaba de aprovar o projeto.

O combustível brasileiro também deve servir para alimentar o reator de um submarino de propulsão nuclear, no caso de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva autorizar a sua construção.

O programa nuclear brasileiro foi lançado em 1975, com dois objetivos: dominar o ciclo de enriquecimento de urânio e fabricar um reator nuclear.

Reator nuclear de submarino brasileiro poderá também gerar energia para pequenas cidades

BRASÍLIA, 4 Jul 2007 (AFP) - O submarino de propulsão nuclear projetado pela Marinha Brasileira terá um reator que poderá servir também para gerar eletricidade para pequenas cidades, afirmou o almirante Moura Neto, comandante da Marinha do Brasil.

Trata-se de um "projeto dual", com um reator "que poderá ser instalado em uma pequena cidade, ainda não-alcançada pela energia hidroelétrica", revelou Moura numa entrevista a correspondentes estrangeiros na terça-feira à noite.

A construção de um submarino a propulsão nuclear forma parte do programa da Marinha Brasileira, desde 1979, mas avança aos trancos pela falta de recursos orçamentários.

Sem dúvida, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou no mês passado esta necessidade: "a conclusão desse reator nos permitirá ingressar no seleto grupo de países com capacidade de desenvolver submarinos a propulsão nuclear", afirmou.

Os oficiais esperam que Lula faça o anúncio oficial durante uma visita que fará na próxima semana ao centro de pesquisas nucleares da Marinha localizado, em Aramar (estado de São Paulo).

Para concluir o reator, de fabricação exclusivamente brasileira, estaria faltando cerca de R$ 1 bilhão (mais de 500 milhões de dólares), num prazo de sete ou oito anos.

Os equipamentos e a eletrônica do submarino necessitariam de uma cooperação estrangeira. Há interesse de grupos alemães e franceses e estes últimos estão melhor posicionados por já produzirem submarinos desse tipo. "Parece mais lógico que os franceses possam nos ajudar", comentou Moura.

O "programa dual" deve ser um argumento que favoreça o projeto do reator, já que o Brasil, atualmente em fase de crescimento econômico confronta-se com o espectro de escassez energética.

"Estamos falando ao governo que se quisermos, também poderemos produzir energia elétrica" para localidades de até 10.000 habitantes, ressaltou o almirante Moura Neto.

O Brasil dispõe atualmente de cinco submarinos convencionais, para vigiar uma vasta extensão marítima de 3,6 milhões de km2, ao que a Marinha do Brasil denomina de "Amazônia Azul", e solicitou à ONU para estender a jurisdição sobre outros 900.000 km2 da plataforma continental.

O almirante Moura Neto considera que os meios ao seu alcance são escassos dada à importância do mar para o Brasil, que extrai 80% de seu petróleo de plataformas off-shore e pelo qual transitam 95% de suas exportações e importações.

"Com os meios de que dispomos atualmente, não me sinto confortável", afirmou Moura Neto, ao defender a construção do submarino com propulsão nuclear.

O governo elaborou um Programa de Reequipamento da Marinha para o período 2006-2025, que já está atrasado. O Programa previa nos primeiros sete anos um aporte de 2,6 Bilhões de dólares.

Entre as "prioridades absolutas" desse programa estão a construção de um novo submarino convencional e a modernização dos cinco existentes, no Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro (AMRJ). Também é prevista a construção de nove navios de patrulha oceânica.

Moura afirmou que não há nada a temer das negociações com a Venezuela para adquirir cinco submarinos russos de propulsão diesel, e que se o Brasil cumprir com seu Programa de Reequipamento, não haverá desequilíbrio militar regional.

"A Venezuela tem um programa de reequipamento, tal como nós temos no Brasil", afirmou.

"Não me parece que seja um risco" a compra destes submarinos. "A Venezuela tem relações diplomáticas cordiais com o Brasil e suas Marinhas têm muitas boas relações", ressaltou.

DNA mais velho do mundo revela florestas no Ártico

Amostras extraídas da Groenlândia têm até 900 mil anos, diz estudo internacional

Pesquisa sugere que calota polar da região é estável e contradiz teoria de que a ilha passou por degelo total 125 mil anos atrás

DO "INDEPENDENT"


As amostras de DNA mais velhas do mundo, obtidas em uma capa de gelo de 2 quilômetros de espessura, revelaram um "mundo perdido" de florestas e animais que um dia prosperaram na Groenlândia, antes que a ilha virasse um deserto frio.


Sedimentos tirados do fundo de uma coluna de gelo forneceram a primeira evidência direta de que a Groenlândia foi coberta por uma floresta boreal densa há 1 milhão de anos.


Cientistas liderados por Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague (Dinamarca), extraíram dos sedimentos fragmentos de DNA com 450 mil a 900 mil anos de idade. As seqüências genéticas, mostrou a equipe, vinham de vários organismos que um dia habitaram aquelas florestas, como besouros, borboletas e mariposas.


O trabalho, publicado na revista "Science", descreve o DNA mais antigo já extraído de uma amostra de material biológico autenticado. É um triunfo dos cientistas forenses em sua tentativa de reconstruir habitats antigos alterados pela mudança climática.


"Nós mostramos pela primeira vez que o sul da Groenlândia já foi muito diferente da Groenlândia que conhecemos hoje", afirmou Willerslev.


"O material genético apresenta um ambiente biológico completamente diferente. Achamos grãos, coníferas, teixos e amieiros [plantas do hemisfério Norte]. Isso corresponde a paisagens que vemos hoje no leste do Canadá e na Suécia", continuou.


A presença do teixo, uma planta de clima temperado, revela que as temperaturas no inverno na região no passado não poderiam ser menores que 17C negativos; a de outras plantas indica que no verão elas eram de ao menos 10C.


O estudo sugere que a calota de gelo da Groenlândia existe há muito mais tempo do que se imaginava, já que os últimos organismos que viveram ali são muito antigos.


Segundo Martin Sharp, glaciologista da Universidade de Alberta, no Canadá, o DNA preservado nos sedimentos vem de organismos que viveram naquele local onde hoje está o manto de gelo -não tendo sido transportado até ali pelo vento.


Isso aparentemente desafia a teoria de que a Groenlândia derreteu completamente há 125 mil anos, quando a temperatura global estava cerca de 5C mais alta. Essa hipótese foi incorporada pelo IPCC, o painel do clima da ONU.


O novo estudo indica que os últimos animais viveram ali há 450 mil anos, então o manto de gelo deve ter pelo menos essa idade. Se houvesse acontecido um degelo, haveria DNA de organismos mais recentes, que teriam recolonizado o local após 125 mil anos atrás.

16 julho 2007

Brasil registra elevação no nível do mar

Estudo mostra ação do aquecimento global no litoral brasileiro.

Em Macaé (RJ), avanço é muito acima do esperado; cidade pode estar afundando.

Marília Juste

Do G1, em São Paulo

O nível do mar está avançando no Brasil, de acordo com o que os cientistas esperavam do aquecimento global, revela um estudo do IBGE divulgado nesta terça-feira (26), feito a partir de observações nas estações de monitoramento localizadas em Imbituba (SC) e Macaé (RJ).

Em Ibituba, a elevação registrada foi de 1 cm entre dezembro de 2001 e dezembro de 2006, o que corresponde ao que seria esperado como conseqüência do aquecimento planetário, segundo Cláudia Lellis, gerente da Rede Maregráfica Permanente para Geodésia (RMPG), um projeto do IBGE, que monitora o nível dos mares brasileiros. Anualmente, a tendência de elevação anual no litoral catarinense, segundo o estudo, é de 2,5 mm -- um valor baixo, mas que, ao longo das décadas, causa estragos. Um estudo em andamento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro mostra algumas conseqüências do aquecimento para 2100 na cidade do Rio.

A elevação em Macaé, no entanto, é preocupante e alta demais para ser explicada somente pelo aumento das temperaturas. No mesmo período observado, o avanço na cidade fluminense foi de 15 cm, muito acima do esperado. De acordo com o estudo, mesmo eliminando todos os efeitos climáticos, a elevação do mar está exagerada.

“Não sabemos porque isso aconteceu. Alguma influência local está causando isso e precisamos investigar mais para saber exatamente o que é”, afirmou Lellis ao G1. Segundo ela, o mais provável é que esteja ocorrendo um rebaixamento das camadas geológicas no local onde está a cidade. Ou seja, Macaé pode estar afundando –- e não o mar subindo.

“Essa é a hipótese mais provável, mas neste momento não é possível apontar que esse realmente seja o caso”, afirmou a pesquisadora. Entre as outras possibilidades estão a ação do vento, mais forte na região, que “empilharia” as águas costeiras, e alterações na hidrografia local causada pela ação humana.

O IBGE possui ainda duas outras estações para monitorar o avanço do mar, uma em Salvador (BA) e outra em Santana (AP), mas elas funcionam há muito pouco tempo para seus dados serem confiáveis. Uma quinta estação, em Fortaleza, será instalada ainda neste ano.

Conselho aprova retomada da construção de Angra 3

Só falta o aval de Lula, que já disse ser a favor da nova usina nuclear do país

Governo diz que poderá rever contratos já existentes para a construção da usina e que decidirá pelo processo que for menos custoso

HUMBERTO MEDINA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA – FOLHA DE SÃO PAULO

A construção da usina nuclear de Angra 3 será retomada pelo governo. O CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) aprovou ontem a continuação das obras, paradas desde 1986. A usina, no entanto, ainda não tem licenciamento ambiental prévio, precondição para começar a ser construída. O processo está sendo feito pelo Ibama desde outubro.

O CNPE é um órgão de aconselhamento da Presidência da República e sua decisão precisa ser validada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já anunciou publicamente que pretende construir Angra 3.

A votação no CNPE revelou ampla maioria a favor da usina - 9 a 1. O voto contrário foi do Ministério do Meio Ambiente. Votaram a favor os ministérios da Casa Civil, de Minas e Energia, da Ciência e Tecnologia, da Fazenda, do Planejamento, do Desenvolvimento, da Agricultura e da Integração Nacional, além do representante dos Estados (cadeira ocupada atualmente pela Secretaria de Energia de São Paulo).

Segundo o ministério de Minas e Energia, o Meio Ambiente queria uma discussão mais ampla sobre a retomada do programa nuclear.

A estimativa do governo é que as obras comecem ainda neste ano e durem cerca de cinco anos e meio. Nesse cenário, Angra 3 começaria a gerar energia em 2013. O gasto projetado com a obra é de R$ 7,2 bilhões e a usina teria capacidade de 1.350 MW (megawatts). A tarifa está estimada em R$ 140 por MWh (megawatt hora), mas o Ministério de Minas e Energia fará um novo estudo e espera uma redução, por conta da melhora de cenário de risco-país e da redução dos juros.

"Hoje a usina nuclear de Angra 3 é a alternativa de menor custo e de melhores condições inclusive ambientais, uma vez que uma usina nuclear não tem emissão de gás carbônico", disse Nelson Hubner, ministro interino de Minas e Energia.

A decisão do CNPE foi criticada pelo Greenpeace como um retrocesso: "A decisão final é do presidente da República. Se for pela construção, será um retrocesso. O mundo está abandonando a energia nuclear", disse Guilherme Leonardi.

O Ministério de Minas e Energia afirmou que serão feitos novos estudos para determinar exatamente o custo de construção da usina, a tarifa da energia que será gerada e a forma como ela será comercializada no mercado.

Será feito outro estudo sobre os contratos que existem hoje para a construção da usina. O governo ainda não sabe se dará continuidade a contratos antigos ou se fará nova licitação. "Será feito o que for menos custoso", disse Hubner.

A Abdib (Associação Brasileira da Infra-estrutura e Indústrias de Base) informou que considera "extremamente positiva" a decisão do CNPE sobre a usina de Angra 3. De acordo com Paulo Godoy, presidente da Abdib, além da segurança para o abastecimento elétrico, a construção da usina, com potência de 1.350 MW (megawatts) de energia firme, injetará mais de R$ 3 bilhões de encomendas entre os fornecedores de bens e serviços.

Pingüim gigante de 1,5 metro já habitou o litoral do Peru

STEVE CONNOR
DO "INDEPENDENT"

Os pingüins gigantes já marcharam para a América do Sul equatorial num tempo em que o clima da Terra era muito mais quente do que hoje, dizem cientistas.

Fósseis de duas espécies dessas aves foram descobertos no atual Peru. O mais antigo tinha 42 milhões de anos e o mais recente viveu há 36 milhões de anos.

O primeiro exemplar media 75 cm. A segunda espécie era ainda maior. Os representantes desse outro grupo tinham 1,5 m de altura, 30 cm a mais que os atuais pingüins-imperadores.

"As evidências indicam que os pingüins chegaram às regiões de baixa latitude (mais próximas do Equador) mais de 30 milhões de anos antes do que as estimativas mostravam até agora", explica Julia Clarke.

A paleontóloga da Universidade do Estado da Carolina do Norte (EUA) é co-autora do estudo, publicado na revista "PNAS". "O fato de os pingüins já terem vivido nos trópicos no passado não significa que eles estejam adaptados ao aquecimento global", avisa Clarke.

Usina pode ganhar com gás emitido em represas

Metano exalado por hidrelétricas pode ser queimado para gerar mais energia

Técnica ajuda a combater efeito estufa, permite lucrar com créditos de carbono e pode ampliar produção de usinas na Amazônia em 60%

RAFAEL GARCIA
DA REPORTAGEM LOCAL – FOLHA DE SÃO PAULO

A emissão de gases-estufa pelos reservatórios de hidrelétricas na Amazônia pode deixar de ser um problema para se tornar solução. Dois grupos de pesquisa - um no Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e outro no Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia)- já elaboraram maneiras de capturar o gás metano (CH4) liberado pela água que passa nas turbinas e queimá-lo para gerar mais energia.

A idéia é impedir que o metano concentrado no fundo dos lagos chegue até as turbinas e seja liberado na atmosfera no momento em que a água perde pressão, da mesma maneira que uma garrafa de refrigerante ou de champanhe borbulha logo depois de ser aberta.

Os dois métodos elaborados para captura e queima de metano já estão patenteados e, segundo os cientistas, podem ampliar em mais de 50% a capacidade de produção das hidrelétricas amazônicas localizadas em zona tropical úmida, dependendo da usina. Para duas delas - Balbina, no norte do Amazonas, e Tucuruí, no leste do Pará - já há estimativas de quanto a estratégia pode vir a render.

"Em Ballbina passam cerca de 65 mil toneladas de metano por ano, conforme medimos em 2005", diz Alexandre Kemenes, responsável pelo projeto no Inpa. "Se esse mecanismo [de captura e queima de metano] fosse usado para aumentar o potencial da usina, poderia acrescentar a ela cerca 80 megawatts, cerca de 60% mais."

Em Tucuruí, que teve o potencial analisado pelo grupo de Fernando Manuel Ramos, do Inpe, a taxa de aproveitamento é menor, pois a usina solta menos metano por megawatt gerado. O total das emissões lá, porém, se equipara em escala, já que a represa paraense é bem maior. "A estimativa é que a gente poderia aumentar em até 35% a produção de energia em Tucuruí só queimando metano que ela emite hoje através das turbinas e nos reservatórios", diz o pesquisador. "E isso com investimentos relativamente modestos, considerando o tamanho de Tucuruí."

Ainda não está claro quanto pode ser o potencial da técnica para usinas de outras regiões. Hidrelétricas em áreas de cerrado, por exemplo, tendem a emitir menos, mas para as duas centrais mencionadas e para outras três da Amazônia - Samuel, em Rondônia, Curuá-Una, no leste do Pará e Petit Saut, na Guiana Francesa - o caso deve ser outro.

"Se todo o metano que passa pelas turbinas dessas cinco hidrelétricas fosse aproveitado, a gente teria um aumento de 1.640 megawatts no potencial hidrelétrico instalado", diz Kemenes. As represas amazônicas tendem a produzir mais metano, em geral, porque a massa de plantas afogadas que apodrecem e soltam carbono ao se decompor é muito maior que a de outros biomas.

Além do aporte na geração há a possibilidade de captar receita com créditos de carbono, que entram na forma de investimento estrangeiro de países ricos que querem compensar suas emissões de gases estufa. "Os números são enormes, da ordem de grandeza da própria usina hidrelétrica", diz Ramos.

Kemenes já se arriscou a fazer um estimativa. "Todo esse processo diminuiria a contribuição de metano em 65%; convertendo isso para crédito de carbono, só Balbina arrecadaria cerca de US$ 20 milhões por ano", afirma.

Aspirador de piscina

Segundo o grupo do Inpe, que trabalha com a idéia há mais tempo, a tecnologia para reter o metano e usá-lo é relativamente simples (veja ilustração acima, à direita). A idéia consiste em barrar a entrada de águas profundas nas turbinas da usina e depois bombeá-la para a superfície, onde o gás é retirado para a queima.

Não é muito difícil explicar como se faz para transportar a água rica em metano para uma câmara na superfície. "Você já viu um daqueles aspiradores de piscina?", pergunta Ramos, procurando um exemplo. "Não existe nenhum item de tecnologia para fazer isso que já não tenha sido desenvolvido, que não seja de gaveta."

Após capturar o gás, a queima seria feita nos moldes de uma termelétrica comum, mas aproveitaria boa parte da infra-estrutura já construída para a hidrelétrica. "A gente geraria energia onde já existem os linhões para distribuí-la ou, quando muito, ampliar esses linhões", diz o cientista do Inpe. "Isso é mais barato e dispensa a obtenção das licenças ambientais para fazer novos linhões, o que é bem complicado."

Chimpanzés são capazes de ato generoso, diz estudo

Grupo da Alemanha demonstrou altruísmo sem nepotismo entre esses macacos

Cientistas compararam ações altruístas de bebês humanos de um ano e meio e de macacos; desempenho dos dois grupos foi parecido

CLAUDIO ANGELO

DA REDAÇÃO – FOLHA DE SÃO PAULO

Houve um período em que os antropólogos e estudiosos da evolução humana achavam que a capacidade de altruísmo desinteressado (ou, como diriam nossas avós, de "fazer o bem sem olhar a quem") fosse atributo exclusivo de uma espécie, o Homo sapiens. Essa crença acaba de cair por terra.

Cientistas do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, apresentam em um estudo publicado ontem a evidência mais forte até agora de que os chimpanzés, primos-irmãos dos humanos, são capazes de ajudar os outros sem ganhar nada em troca.

O estudo, que comparou a generosidade de crianças alemãs de 18 meses e a de chimpanzés semi-cativos de Uganda, sai na edição de julho do periódico científico "PLoS Biology" (www.plosbiology.org).

Desde Charles Darwin os estudiosos da evolução se batem em torno do altruísmo. Afinal, se a seleção natural beneficia o mais apto a sobreviver, não deveria haver motivo para a generosidade (que muitas vezes implica em custo ou risco de vida para quem a pratica) na natureza. Darwin chegou a confessar que o altruísmo era um mistério para ele.

Nos anos 1970, a ciência achou que tinha resolvido a questão: o altruísmo demonstrado pelos animais, inclusive os macacos, sempre beneficiava parentes (portanto, mesmo que houvesse prejuízo para o indivíduo, os genes da família se beneficiariam) ou tinha uma expectativa de retorno imediato ("uma mão lava a outra"). O altruísmo genuíno permanecia um bastião da humanidade.

Nos últimos anos, primatologistas têm observado aqui e ali evidências de altruísmo genuíno também entre os chimpanzés. Para tirar a teima, o grupo do Max Planck, liderado por Felix Warneken, bolou três experimentos bem criativos.

No primeiro, 36 chimpanzés e 36 bebês viam um humano desconhecido ter um objeto roubado por outro humano e colocado atrás de uma grade, ao alcance do altruísta em potencial. Mesmo sem ganhar nenhuma recompensa, bebês e macacos pareciam se apiedar do estranho ao vê-lo tentando pegar o bibelô e, na maioria das vezes, alcançavam-no para ele.

No segundo experimento, barreiras eram colocadas para dificultar o acesso ao objeto, criando, assim, um "custo" para o ato generoso. Mesmo assim, a boa ação era praticada.

Mas o terceiro experimento, feito só com chimpanzés, foi a prova dos noves: um macaco precisava abrir uma porta para que outro, sem nenhum parentesco, pudesse entrar numa jaula em busca de comida.

Mesmo sabendo que não iam ganhar nada, 80% dos animais ajudavam. "O resultado do experimento três surpreendeu até a mim, o maior crente em empatia e altruísmo entre os primatas", escreveu Frans De Waal, da Universidade Emory (EUA), famoso por seus estudos com chimpanzés.

Conclusão de Warneken e colegas: "As raízes do altruísmo humano podem ser mais profundas do que se imaginava, chegando até o ancestral comum entre humanos e chimpanzés". E mais: "Os grupos culturais humanos podem ter criado mecanismos sociais únicos para preservar e fomentar o altruísmo. Mas eles cultivaram essa propensão em vez de tê-la implantado na psique".