06 junho 2007

O dilema da Amazônia

Bruno Peron Loureiro

A Amazônia continua sendo nossa enquanto não a destruírem inteiramente. E tudo leva a crer que ela corre o risco de chegar a este ponto.

A maior discussão que se trava é se ela deve ser internacionalizada, embora este processo carregue o estigma aparente de que seria, então, colonizada ou pertenceria a outros países.

Entretanto, isto ela já é, pois estrangeiros entram e saem facilmente por suas fronteiras porosas com Colômbia e Peru, entre outros, plantas e animais já são levados por cientistas visitantes a suas nações de origem para que realizem investigações de ponta. E depois nos vendem produtos patenteados, e caros, feitos com matéria-prima brasileira.

Esse território nao é só o “pulmão do mundo” ou “santuário ecológico” como dizem, mas guarda riquezas pelas quais, cedo ou tarde, as nações pelearão, como a água doce.

No entanto, a dificuldade reside em trabalhar o ouro por quem não é ourives, ou seja, como poderíamos imaginar que um governo que não consegue nem acabar com a fome e o desemprego massivo, males de um país subdesenvolvido, envie tropas para vigiar a enorme fronteira amazônica e puna os responsáveis pelo desmatamento ostensivo.

Nem os Estados Unidos, que possuem melhores aparatos de defesa, conseguem evitar a freqüente e arriscada passagem de imigrantes indocumentados vindos do território mexicano, embora a fronteira tenha mais de três mil quilômetros.

A devastação da flora e da fauna é tão grande em alguns países, que provoca o aumento de organismos não-governamentais e internacionais, como o Greenpeace, lutando pela causa ambiental e propondo soluções que transcendem o âmbito nacional.

Além da destruição ecológica que se vê no Brasil, como é possível identificar pela comparação de imagens em semanas diferentes no Google Earth (programa na internet que dispõe de imagens via satélite), outro fato chocante é a chacina de focas no Canadá, com milhares de mortes, e de 40% desses animais se extrai a pele enquanto ainda está vivo.

No Brasil, trata-se de reconhecer que diariamente se reduz uma gigantesca porção da floresta amazônica, como se constata também pelas imagens de satélite do Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE).

Em alguns estados como o Maranhão e o Pará, é tão forte o poder dessa máfia madeireira, que a polícia recebe ameaças de morte quando realiza fiscalizações, além de que mal possui estrutura para alcançar esses locais, que, em geral, são pouco acessíveis.

Por fim, a madeira é comercializada e o terreno, em alguns casos, aproveitado covardemente para o plantio de soja e a pecuária.

Estamos, portanto, diante de duas posições: uma é a de continuar tendo plena soberania sobre uma Amazônia que poderá não ser mais e, logo, pouco nos restará; e a outra é a de que nosso governo autorize maior intervenção de organismos internacionais responsáveis pela proteção do meio ambiente.

Não se trata de vender este território como apregoam alguns. Se fosse assim, então já nos teriam pago as primeiras parcelas. Trata-se de formular novas estratégias para preservar tamanho patrimônio. Se o Brasil optar pela plena soberania, então que, ao menos, cuide bem do que é seu!
Bruno Peron Loureiro é bacharel em Relações Internacionais.

Com ajuda governamental, o etanol poderia se tornar a próxima Internet?

Daniel Gross
The New York Times News Service


De Nova York a Washington, o governo parece ter realmente se engajado na tarefa de promover as energias alternativas. O prefeito de Nova York, Michael R. Bloomberg, anunciou na semana passasa que os táxis da cidade serão convertidos em híbridos até 2012. No seu discurso deste ano sobre o estado da União, o presidente Bush pediu que o país substitua 20% da gasolina consumida nos Estados Unidos pelo etanol dentro de dez anos.

E o discurso do governo tem sido acompanhado de ações e políticas. O governo federal oferece um crédito fiscal de 51 centavos de dólar por galão (ou 13,5 centavos de dólar por litro) aos produtores e mantém uma tarifa de 54 centavos de dólar por galão (14,3 centavos de dólar por galão) sobre o etanol importado do Brasil. Mais de 20 Estados contam com os chamados padrões renováveis, que exigem que as indústrias fornecedoras de serviços públicos obtenham uma porcentagem fixa da sua energia das fontes renováveis.

O setor privado está respondendo com euforia, acelerando a construção de instalações eólicas, painéis solares e usinas de produção de etanol. A Associação de Combustíveis Renováveis, uma associação comercial da indústria do etanol com sede em Washington, afirma que os 85 projetos relativos à produção de etanol que estão sendo agora construídos mais do que dobrarão a capacidade existente de seis bilhões de galões (22,7 bilhões de litros) por ano até o final de 2008. Muitos dos mesmos investidores que financiaram as promissoras empresas da Internet com sede na Califórnia na década passada estão agora financiando os promissores projetos californianos de energia alternativa.

"Existe um grande boom nos setores de energia alternativa renovável e novas tecnologias, e isso não estaria ocorrendo se não fosse pela mistura de incentivos, regulamentações, subsídios e outros ingredientes do gênero", explica Daniel Yergin, presidente da Cambridge Energy Research Associates.

É claro que os booms às vezes se transformam em bolhas, especialmente quando os investidores de risco entram em áreas economicamente aquecidas. Será que o governo está encorajando o surgimento de uma bolha econômica na área de energia alternativa? E, se este for de fato o caso, isto seria algo tão negativo assim?

Os subsídios e regulamentações dão a impressão de se constituírem em um caso nítido de distorção de mercado. E os argumentos econômicos contra isso são simples.

"Acreditamos que a confiança nas forças de mercado é a melhor forma de satisfazer quaisquer exigências de aumento de necessidade de combustível, e que qualquer política precisa proporcionar um campo de ação igualitário para todas as opções", afirma Rayola Dougher, analista econômico do American Petroleum Institute, em Washington, que acrescenta que muitos dos membros da associação comercial estão respondendo aos incentivos governamentais com investimentos em projetos para a utilização das energias eólica, solar e outras formas de energia alternativa. "Simplesmente não achamos que neste momento o governo devesse escolher vencedores e perdedores".

É claro que o governo, por meio de várias políticas industriais, há muito tempo encoraja o setor privado a investir em novas tecnologias. O Congresso aprovou a construção da primeira linha de telégrafo na década de 1840, concedeu às ferrovias milhões de hectares de terra pra a construção de redes ferroviárias e financiou as pesquisas que culminaram com a criação da Internet.

"Para mim o apoio governamental ao etanol é similar à eletrificação rural dos Estados Unidos e ao auxílio à construção das ferrovias transcontinentais, ambos projetos que contaram com o apoio governamental", diz Matt Hartwig, diretor de comunicação da Associação de Combustíveis Renováveis. "O governo ajudou a montar essa estrutura. E assim que tal estrutura se encontrou instalada, ela foi assumida pelo setor privado".

Alguns especialistas dizem acreditar que o governo deveria encorajar a energia alternativa porque o campo competitivo está longe de um equilíbrio. "O setor inteiro de energia alternativa ainda é uma indústria incipiente que compete com a consolidada e bem capitalizada indústria do petróleo", alerta John M. Urbanchuk, diretor da firma de consultoria LECG, com sede em Wayne, no Estado da Pensilvânia.

"Como as tecnologias de enegia solar e eólicas se constituem em grande parte em 'tecnologias de nichos', seria difícil para elas ingressar no mercado sem o auxílio de regulamentações específicas", afirma Michael Toman, economista da Rand Corporation, que elaborou um estudo sugerindo que os Estados Unidos poderiam obter 25% da sua energia a partir de fontes renováveis até 2025.

Padrões governamentais para o uso da energia alternativa poderiam ajudar a criar um mercado ao obrigar as companhias fornecedoras de serviços públicos a firmar contratos de longo prazo para a compra de, por exemplo, energia elétrica gerada por usinas eólicas. "Se um grupo de investimentos conta com um contrato de 20 anos para o fornecimento de eletricidade gerada por usinas elétricas a uma prestadora de serviços, é muito mais fácil para esse grupo fazer o financiamento do projeto", diz William B. Marcus, economista da JBS Energy, uma empresa de consultoria com sede em West Sacramento, na Califórnia.

A principal crítica à energia alternativa é que, mesmo sem assistência governamental, ela ainda é mais cara do que muitas fontes tradicionais de energia. Mas os seus defensores argumentam que não se deve apenas comparar os custos de geração de eletricidade por meio da queima de carvão e da utilização de painéis solares.

O uso da energia implica em custos sociais - aquilo que os economistas denominam de "externalidades negativas" - que são difíceis de se quantificar. Por exemplo, o uso da gasolina, em vez do etanol, significa que os Estados Unidos exportam dólares para governos hostis, como o da Venezuela.

Ao mesmo tempo, um relatório recente do Barclays Capital sugere que o impulso para a adoção dos biocombustíveis está fazendo com que as companhias adiem a construção de novas unidades refinadoras de petróleo. A falta de capacidade extra de refinamento é um dos fatores responsáveis pelo aumento do preço da gasolina.

No entanto, os empresários e consumidores estão percebendo cada vez mais que as energias alternativas e as novas tecnologias eficientes em termos energéticos podem resultar em dividendos econômicos reais. Bloomberg diz que um taxista poderá economizar milhares de dólares ao dirigir um veículo híbrido. "Levando-se em conta a tendência de longo prazo de declínio da produção doméstica de petróleo e de demanda pela gasolina, a economia fica a cada dia mais favorável para a produção de combustíveis renováveis, mesmo que o apoio governamental diminua", afirma Fred Seamon, economista da Associação de Diretores Administrativos de Chicago.

É claro que a história nos ensina que as bolhas econômicas podem deixar atrás de si uma grande quantidade de infra-estruturas e inovações comerciais úteis. Companhias como a Global Crossing e a WorldCom podem ter fracassado terrivelmente, mas os cabos de fibras óticas instalados por elas ajudaram companhias como o Google. Várias usinas de etanol e fabricantes de painéis solares poderão fracassar como investimentos, mas as suas inovações poderão beneficiar a economia.

Uma outra coisa importante ocorre durante essas explosões de entusiasmo dos investidores. O dinheiro gasto em publicidade e promoção cria consciência pública e estimula a demanda do consumidor. Isso já está começando a ocorrer à medida que os clientes das companhias prestadoras de serviços se inscrevem para consumir energia verde e a Wal-Mart exibe nas suas prateleiras milhões de lâmpadas fluorescentes compactas.

Um número maior de pessoas cujas carreiras nada têm a ver com a enorme indústria de energia está pensando nas emissões de carbono.

"Eu estava no consultório do minha médica, em meio a uma consulta, e passamos a metade do tempo conversando sobre o novo automóvel híbrido que ela comprou", conta Yergin.

* Daniel Gross escreve a coluna "Moneybox" para o Slate.com

Tradução: UOL

Amazônia queimando

Indira A.R. Lakshmanan – The Boston Globe
da Fazenda Tanguro, Brasil


Em uma fazenda do tamanho de Cape Cod na Amazônia, um ecologista florestal de Massachusetts e sua equipe estão colocando fogo na floresta.

Depois de medir a umidade do ar e a densidade da floresta, os trabalhadores jogam querosene em trilhas bem demarcadas e queimam a vegetação rasteira. Os pesquisadores, com as testas pingando de suor, medem a altura e a largura das chamas e depois determinam quanto o fogo viajou para dentro da floresta. Um mês depois, a equipe conta as arvores que restaram para determinar quantas morreram.

A grande surpresa nas queimadas iniciais foi que "muitas das árvores grandes sobrevivem. Essa é a boa notícia: é uma floresta resistente", disse Daniel Nepstad, principal pesquisador do Centro de Pesquisa Woods Hole em Falmouth.

A má notícia é que as secas que geram incêndios tornaram-se cada vez mais comuns aqui, cobrando um preço terrível da floresta tropical - e eventualmente, do clima do resto do mundo, acreditam Nepstad e muitos outros cientistas.

Toda vez que uma árvore morre e apodrece, seu carbono é absorvido por micróbios e outros organismos no solo e eventualmente é liberado como dióxido de carbono, gás do efeito estufa. Durante a seca da Amazônia do ano passado, a pior em 40 anos, a falta de água e os incêndios acidentais mataram meio bilhão de toneladas de árvore no Brasil, de acordo com estimativas conservadoras - árvores que armazenavam o equivalente das emissões anuais dos Estados da Califórnia e Nova York combinados.

O Brasil é um dos 10 piores poluidores de carbono do mundo. Nos EUA, China e outros países, os combustíveis fósseis são a maior fonte de emissões, mas 70% dos gases de efeito estufa no Brasil vêm de incêndios florestais e desmatamentos, de acordo com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia.

Nepstad é um dos vários pesquisadores que dizem que um ciclo vicioso de seca e incêndios pode apressar a transformação de um terço do Amazônia em arbustos nas próximas décadas."As pessoas tendem a ver as geleiras e os pólos como primeiros locais com sinais de advertência de aquecimento global, mas as florestas tropicais também estão apresentando sinais. O processo está em curso e é alarmante", disse ele. "A perda de árvores na distante Amazônia afeta os moradores de New England, porque tem o potencial de apressar o aquecimento global no mundo todo."

No início do mês, nas negociações de mudança climática em Nairóbi, Quênia, as autoridades brasileiras propuseram a criação de um fundo para compensar as nações que abrigam florestas tropicais por manterem suas florestas intactas. Sob o Protocolo de Kyoto para reduzir as emissões de gás de efeito estufa, os países podem receber "créditos de carbono" por plantarem novas florestas, que levam anos para absorver quantidades significativas de carbono. No entanto, não há recompensa por proteger florestas antigas.

Enquanto isso, Nepstad, está tentando com cada vez mais urgência determinar se a floresta tem um "ponto de virada", depois do qual os incêndios e secas podem ter conseqüências irreversíveis. Registros históricos sugerem que grandes incêndios varreram a Amazônia no passado em intervalos de vários séculos; agora, ocorrem a cada duas décadas.

Em uma plantação de soja e borracha no Estado do Mato Grosso, no limite sudoeste da Amazônia, a equipe de Nepstad passou dois anos queimando a floresta para estudar sua capacidade de sobreviver e restaurar-se. Seus experimentos em um projeto de simulação de seca anterior mostraram que o terceiro ano de seca sucessiva gera uma perda significativa de árvores grandes. Uma das tendências que mais preocupam, disse ele, é a invasão de gramíneas altamente inflamáveis na floresta queimada, o que aumenta o risco de incêndios no futuro.

A Amazônia é um "ar-condicionado gigante" que evapora água e resfria a região, nas palavras de Nepstad. Mas quando as árvores morrem, essa função resfriadora desaparece.

Renato Ramos da Silva, meteorologista da Universidade Federal do Pará, diz que quando a cobertura da floresta é removida, as formações de nuvens mudam, diminuindo a quantidade de chuva e levando a padrões de clima mais severos, com granizos e raios que provocam incêndios. A fumaça dos incêndios, por sua vez, inibe a precipitação.

A perda total da floresta amazônica poderia reduzir a precipitação em regiões tão distantes quanto o centro agrícola dos EUA, de acordo com modelo de clima de Roni Avissar, especialista em clima da Universidade de Duke. Os pesquisadores calculam que um quarto das emissões de carbono que contribuem para aumentar as temperaturas globais não vem de carros e fábricas, mas de desmatamento e incêndios.

Com uma estimativa de 430 bilhões de toneladas métricas de carbono armazenadas em florestas tropicais - o equivalente a 50 anos das emissões de carbono de hoje - proteger as florestas tropicais pode ser de grande valia no cumprimento das metas de redução de carbono do mundo, dizem os cientistas envolvidos nos estudos de longo prazo na Amazônia.

Por outro lado, se os atuais índices de desmatamento da Amazônia continuarem, cerca de 33 bilhões de toneladas métricas de carbono serão lançadas na atmosfera por árvores mortas até 2050.

Papua Nova Guiné e Costa Rica estão liderando uma coalizão de nações com florestas tropicais que defende um mercado de carbono dentro do Protocolo de Kyoto. O acordo daria créditos a nações que provassem que estão impedindo o desmatamento. Se o Brasil reduzisse o desmatamento anual em apenas 10%, poderia ganhar US$ 2,5 bilhões (cerca de R$ 5,5 bilhões) em créditos de carbono em cinco anos nesse esquema, diz Paulo Moutinho, cientista brasileiro que presta assessoria ao governo.

Proteger a Amazônia pode ser relativamente fácil e barato, sem prejudicar os interesses dos fazendeiros brasileiros, disse Frank Merry, economista do Centro de Pesquisa Woods Hole.

O governo brasileiro pode oferecer alívios fiscais, subsídios e outros incentivos para estimular um melhor gerenciamento da terra e a exploração de madeira de baixo impacto. Parques protegidos e reservas desestimulam de forma notável a abertura de clareiras e incêndios para fins agrícolas. E com um quarto da Amazônia brasileira em mãos privadas, os fazendeiros devem receber incentivos para deixar suas terras improdutivas como floresta, disse Merry.

Grupos de consumidores e negociadores de commodities já estão começando a procurar madeira, produtos de soja e carne produzidos de formas ecologicamente conscientes. Depois de uma campanha do grupo ambiental Greenpeace contra lojas do MacDonald's européias por usarem soja amazônica para engordar frango, a grande aliança de empresas que compra soja amazônica declarou moratória neste ano para a produção que viesse de terras recentemente desmatadas.

Os produtores brasileiros também estão compreendendo que podem exigir preços mais altos por madeira e commodities produzidos sob padrões ambientais estritos. Renato da Rosa, 36, um criador de gado que tem 2.000 hectares no Estado do Mato Grosso, disse que instalou barreiras contra o fogo e parou de botar fogo para limpar a terra para pastagem. "Essa tendência ambiental e a discussão sobre mudança climática estão afetando a indústria", admitiu. "Os consumidores não querem comer carne da Amazônia quando pensam que está destruindo a floresta."

Tradução: Deborah Weinberg

Aquecimento global provocará aumento das inundações costeiras nos Estados Unidos

John Donnelly – The Boston Globe
Em Washington

As
comunidades costeiras da Nova Inglaterra e das outras regiões dos Estados Unidos serão "cada vez mais pressionadas" pelo aquecimento global nas próximas décadas e ficarão especialmente vulneráveis a enchentes generalizadas provocadas por tempestades, segundo a minuta de um relatório divulgada na segunda-feira (16/4) por um grupo de cientistas internacionais.

Autores de um capítulo de um relatório feito para o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, mais de 20 cientistas se concentraram no potencial impacto das alterações climáticas na América do Norte, prevendo um número cada vez maior de "extremos meteorológicos" na região, incluindo furacões, inundações, secas, ondas de calor e incêndios florestais.

"A lista de possíveis impactos soa como um rol de pragas bíblicas: calor, seca, doenças, insetos e elevação do nível dos mares", afirma Angela Anderson, vice-presidente dos programas climáticos do Fundo Nacional do Meio-Ambiente, um grupo ecológico e educacional.

Os cientistas disseram estar preocupados não apenas com a elevação do nível do mar ao longo da Costa Leste dos Estados Unidos, mas também com tempestades mais intensas, que se fazem acompanhar de enchentes nas regiões costeiras. "Esta é a vulnerabilidade número um", afirma Cynthia Rosenzweig, diretora do Grupo de Pesquisas sobre Impactos Climáticos do Instituto Goddard de Estudos Espaciais.

Embora os especialistas não sejam capazes de afirmar que a rara tempestade de primavera que atingiu o nordeste dos Estados Unidos na segunda-feira esteja especificamente vinculada ao aquecimento global, Michael Oppenheimer, professor de geociências e de questões internacionais da Universidade Princeton, disse que a alteração climática fará com que no futuro cresça o número dessas tempestades.

"Este é o tipo de coisa que podemos esperar nos próximos anos", disse Oppenheimer, referindo-se à tempestade que atingiu a Costa Leste no domingo e na segunda-feira, provocando alagamentos. "Essas tempestades se tornarão mais intensas e ocorrerão com maior freqüência".

Oppenheimer disse aos jornalistas que o painel de cientistas tem certeza de que o nível do mar subirá de 18 a 60 centímetros no decorrer deste século. "Isso provocará muitos problemas ao longo da costa", afirmou, referindo-se ao desaparecimento de terras e de habitats de animais e plantas.

Mas ele observou que o derretimento da Groenlândia e das camadas de gelo do oeste da Antártica representam um perigo ainda maior. Segundo ele, bastaria o derretimento da camada de gelo da Groenlândia para fazer com que os oceanos sofressem uma elevação total de cerca de 6,7 metros, embora seja difícil prever uma catástrofe de tais proporções, que poderia ocorrer daqui a centenas ou milhares de anos.

Neste ano, o painel intergovernamental sobre aquecimento organizado pelas Nações Unidas vem apresentando partes da sua quarta atualização da avaliação do estágio em que se encontra o conhecimento sobre a mudança climática. No início deste ano, o painel anunciou que há mais de 90% de certeza de que os humanos estão contribuindo para o aquecimento global.

Ainda que vários cientistas tenham afirmado que o aquecimento global afetaria mais os países em desenvolvimento, já que estes carecem dos meios para se adaptarem rapidamente, vários pesquisadores disseram na segunda-feira que as nações ricas também enfrentarão problemas significativos.

"Ninguém escapará dos impactos da mudança climática", afirma Patricia Romero Lankao, uma das autoras do relatório e cientista que trabalha no Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas, um grupo sem fins lucrativos com sede em Boulder, no Colorado.

A avaliação recém-divulgada também prevê que a elevação das temperaturas nos Estados Unidos reduzirá os acúmulos de neve e intensificará a evaporação, ameaçando rios, lagos e outras fontes de água. Nos Grandes Lagos e nos principais sistemas fluviais dos Estados Unidos os níveis mais baixos poderão ter um impacto sobre a qualidade da água, a geração de energia hidroelétrica e as relações com o Canadá. Além disso, a elevação da temperatura poderá provocar o aumento das doenças respiratórias, acelerar a disseminação de doenças infecciosas como a Doença de Lyme e o vírus do Nilo Ocidental e causar períodos de calor diurno mais extensos, o que, segundo o relatório poderia fazer com que dobrasse o potencial para o aumento das ondas de mortalidade causadas pelo calor nas áreas urbanas.

Tradução:
UOL

04 junho 2007

Análise: a batalha dos biocombustíveis

Após serem saudados como uma solução a inúmeros problemas (petróleo, efeito-estufa), os novos combustíveis ganham novos adversários que apontam os desequilíbrios ambientais que estes começaram a gerar

De Gaëlle Dupont – Le Monde

Até uma data recente, os promotores dos biocombustíveis haviam enfrentado um único obstáculo verdadeiro apenas: a oposição dos grupos petroleiros, pouco interessados em ver o seu monopólio energético ser questionado. Alguns observadores haviam chamado a atenção para a ocorrência de possíveis perturbações econômicas e ecológicas que resultariam da produção maciça de combustíveis oriundos da cana-de-açúcar, do milho ou da beterraba (destinados à fabricação do etanol) e da palmeira de óleo, da soja, da colza, ou do girassol (para o biodiesel). Mas esses avisos eram isolados e pouco audíveis, em meio aos aplausos que saudavam o surgimento de substitutos "limpos" para o petróleo.

Esta discussão já é coisa do passado. Vindas de muitos lugares, inúmeras advertências contra os novos combustíveis têm sido proferidas nas últimas semanas. O mais célebre representante desta frente é Fidel Castro. Desde a assinatura, no final de março, de um acordo de cooperação e de promoção dos biocombustíveis entre os Estados Unidos e o Brasil, o dirigente cubano não se cansa de tomar posição contra "a idéia sinistra de converter os alimentos em combustíveis", o que, segundo ele, poderia conduzir à "morte prematura de bilhões de pessoas", por causa da fome.

No mesmo momento, George Monbiot, um editorialista do diário inglês "The Guardian", faz campanha por uma proibição durante cinco anos do desenvolvimento dos processos de fabricação e de consumo dos biocombustíveis, alegando um "desastre ecológico e humanitário" que estaria por vir. Também foi criada recentemente uma coalizão européia batizada de "biofuelwatch" ("de olho nos biocombustíveis"), que exige o abandono dos objetivos fixados pela União Européia (10% de combustíveis de origem vegetal nos tanques de todos os veículos daqui até 2020).

"Este objetivo vai favorecer a cultura de variedades com rendimentos energéticos reduzidos, dar início a um processo de desmatamento intensivo, provocar danos no plano da biodiversidade e exacerbar os conflitos locais relacionados ao uso do solo", escrevem os ecologistas, que, daqui para frente, preferem falar em agros combustíveis".

Como é grande o contraste com o entusiasmo que prevalecia até então! Ao se referirem aos biocombustíveis, os especialistas até agora enxergavam apenas as suas vantagens: a redução das emissões de gases causadores do efeito-estufa, o fim da dependência energética, e, sobretudo, o advento de um novo campo de atuação para os agricultores em busca de uma imagem mais ecologista. Na França, a Fnsea, uma federação sindical agrícola majoritária, tem sido a mais ardorosa promotora dos biocombustíveis. Isso explica a predisposição favorável do governo, que determinou objetivos mais arrojados que os da UE. O presidente eleito Nicolas Sarkozy prometeu dar continuidade a esta política.

De fato, os biocombustíveis constituem um pretexto para os eleitos dos países ricos que lhes permite evitar abordar de frente uma questão perigosa: o aumento vertiginoso das emissões de gases de efeito-estufa relacionadas aos transportes e à eficiência dos deslocamentos das pessoas e das mercadorias. Um apoio político irrestrito arraigou nas mentes a idéia segundo a qual esses novos combustíveis tomariam o lugar da gasolina e do diesel sem que isso provoque quaisquer problemas.

Ora, esta maneira de ver se revela profundamente equivocada. Em primeiro lugar, o seu rendimento energético é desigual. As únicas plantas que oferecem um desempenho realmente satisfatório crescem nas regiões dos trópicos: a cana-de-açúcar para o etanol, a palmeira de óleo para o biodiesel. O rendimento da cana é duas vezes superior ao do milho.

Os métodos de cultura são contestados. "Seria economicamente absurdo dedicar grandes quantidades de energia, por meio do uso intensivo de adubos, para produzir energia", sublinha Michel Griffon, um responsável do departamento da agricultura e do desenvolvimento sustentável da Agência nacional da pesquisa científica. "De fato, os adubos azotados provêm em sua maior parte do gás natural, cujos preços vão aumentar. Os fosfatos são rochas fósseis e a sua utilização intensiva pelos centros de produção agrícolas representa um custo importante de transporte".

Os engenheiros agrônomos temem que sejam criadas as condições para uma corrida desenfreada da terra, motivada pelos "quatro F" - Food (alimentação humana), Feed (alimentação animal), Fiber (têxteis) e Fuel (combustíveis).

Embora os biocombustíveis representem menos de 1% da energia produzida em todo o mundo, a sua influência sobre as cotações das matérias-primas agrícolas já se faz sentir. Ora, muitos são os países que definiram objetivos de desenvolvimento ambiciosos para os próximos anos. "Nós precisaríamos de dois planetas para encher os estômagos, abastecer os tanques e preservar o futuro da biodiversidade", resume Michel Griffon.

"Política maluca"

As florestas tropicais e as zonas úmidas, que são os principais reservatórios de biodiversidade, estão na linha de frente neste processo. A expansão da cultura da cana-de-açúcar no centro-oeste do Brasil teria assim por efeito de deslocar as culturas de soja e os pastos, as quais penetrariam cada vez mais nas terras ocupadas pela floresta amazônica.

Mas este raciocínio é rejeitado por Marcos Jank, o presidente do Instituto Brasileiro dos Estudos Comerciais e das Negociações Internacionais. "O espaço disponível no Brasil é considerável, e a produção ainda permanece pouco intensiva", afirma Jank. "Estamos abandonando aos poucos sistemas de cultura dominados pela criação de gado e a soja, em proveito de sistemas diversificados, nos quais a cana é incluída nos sistemas de rotatividade".

"O desmatamento está mais vinculado aos cortes ilegais de madeira e ao regime de propriedade da terra", acrescenta Marcos Jank. O governo brasileiro também contesta essas críticas.

O processo de danificação da floresta do Sudeste asiático já começou. As florestas primárias da Indonésia e da Malásia estão partindo em fumaça para dar lugar a plantações de palmeira de óleo. Ora, as cotações foram dopadas pela demanda européia relacionada ao desenvolvimento dos biocombustíveis extraídos da colza, da qual o óleo de palma é um substituto. A perda de biodiversidade é imensa. Além disso, preciosos poços de carbono foram suprimidos.

O meio-ambiente dos países ricos também poderia ser prejudicado. "Nos Estados Unidos, as culturas de milho destinado à produção do etanol vão aumentando rumo ao oeste, por meio da utilização de uma água retirada de um lençol aqüífero fóssil", comenta Ronald Steenblik, um diretor de pesquisas do instituto americano Global Subsidie Initiative. "A utilização de adubos, de pesticidas, e a erosão vêm aumentando junto com essas culturas. Trata-se de uma política maluca, cara e nociva para o meio-ambiente".

Na Europa, a Agência Européia para o Meio-Ambiente (cuja sigla em francês é AEE) elaborou uma lista de precauções indispensáveis a serem tomadas para conciliar as culturas energéticas com a proteção do meio-ambiente (manutenção de zonas de terra em repouso, conversão de 30% das terras em agricultura biológica). A Comissão Européia deu início, em 30 de abril, a uma consulta pública sobre os meios de garantir a "viabilidade ambiental" dos biocombustíveis, de modo a preparar uma proposta de diretriz-quadro sobre as energias renováveis. Mas ela tomou a iniciativa dessa consulta somente após ter definido um objetivo em números muito difícil de ser atingido.

O advento de biocombustíveis de segunda geração, simultaneamente mais produtivos e respeitosos do meio-ambiente, tem sido utilizado cada vez mais como um argumento em resposta a essas preocupações. Mas estes só se tornarão uma realidade dentro de uma ou duas décadas. Nesse meio-tempo, os danos à biodiversidade poderiam ser importantes, e eles não serão reparáveis.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

O oceano Austral absorve cada vez menos o CO2 atmosférico

Com isso, mais de 8 milhões de toneladas de gases de efeito-estufa se acumularam anualmente na atmosfera entre 1981 e 2004, em vez de serem dissolvidas

Stéphane Foucart – Le Monde

Esta questão já se transformou numa das principais dúvidas dos climatólogos. De que maneira o aquecimento vai interferir na capacidade da biosfera e dos oceanos de absorverem o dióxido de carbono (CO2) atmosférico? Em artigo publicado nesta sexta-feira, 18 de maio, na revista "Science", uma equipe internacional de pesquisadores apresenta elementos de resposta bastante preocupantes a esta pergunta.

Segundo os dados experimentais que foram publicados por esta equipe - os quais são os primeiros desse tipo a serem apurados -, o oceano Austral (que cerca o continente antártico), conhecido por ser a principal "esponja para emanações de gás carbônico" do planeta, sofreu uma redução drástica da sua capacidade de absorção ao longo dos últimos trinta anos.

Em vez de aumentar nas mesmas proporções que a concentração atmosférica em CO2 - tal como era esperado -, a sua capacidade de absorver o principal responsável do efeito-estufa permaneceu estagnada. Assim, entre 1981 e 2004, mais de 8 milhões de toneladas de carbono foram se acumulando anualmente na atmosfera, em vez de serem dissolvidas, e acabaram sendo armazenadas de maneira duradoura nesta região oceânica.

Atualmente, cerca da metade das emissões humanas são absorvidas pelos oceanos e a biosfera. "E o oceano Austral representa por si só cerca de 15% de todos os poços de carbono naturais existentes no planeta", explica Corinne Le Quere, pesquisadora francesa do Instituto Max Planck de bioquímica e geoquímica, professora na Universidade de Anglia do Leste e a principal autora do estudo.

Para efeito de comparação, vale notar que o oceano Austral absorve anualmente o equivalente à metade das emissões de CO2 da União Européia.

Regime dos ventos modificado

As causas desta saturação em CO2 devem ser procuradas não só na acumulação de gases de efeito-estufa na atmosfera, como também na rarefação do ozônio estratosférico. De fato, estes dois fenômenos, que são conseqüências das atividades humanas, vêm modificando o regime dos ventos que predominava até então sobre o oceano Austral: nesta região, os ventos passaram a assoprar com maior violência e a misturar de modo mais eficaz as águas de superfície com as águas profundas. Ora, estas últimas são mais densas e o CO2 nelas se dissolve com menos facilidade.

"É difícil prever qual será a evolução do poço de carbono que é constituído pelo oceano Austral, mas é muito provável que a sua eficácia não consiga se recuperar ao longo dos próximos 25 anos", diz Corinne Le Quéré.

Os pesquisadores estimam que os poços de carbono naturais tendem globalmente a se reduzir por efeito do aquecimento. Por isso, a tarefa de medir e prever a sua evolução tem uma importância decisiva. "A maneira como eles irão reagir ao aquecimento é tão importante para as previsões da evolução do clima até o final deste século quanto os diferentes cenários de desenvolvimento econômico da humanidade", precisa Michel Ramonet, um pesquisador do Laboratório das ciências do clima e do meio-ambiente, co-autor desses estudos.

"O outro principal poço oceânico de carbono é o Atlântico Norte", acrescenta Michel Ramonet, "mas nós não dispomos de dados suficientes para determinar qual será a sua evolução".

Em outros lugares, no oceano Tropical, por exemplo, o aumento das temperaturas de superfície reduz a atividade do fito plâncton (algas microscópicas que povoam as camadas superficiais da água, até 80 m). Este último absorve, portanto, menos carbono atmosférico pelo processo de fotossíntese. Aqui, mais uma vez, este processo tende a reduzir a capacidade dos oceanos de absorver as emissões humanas de gases de efeito-estufa.
Tradução: Jean-Yves de Neufville

A Nova Caledônia doente da poeira de amianto

Neste território francês na Oceania, a incidência de tumor maligno causado pelo amianto é trinta vezes superior à média mundial

Claudine Wéry – Le Monde
Correspondente em Nouméa

Níquel
, cromo, cobalto... Calhau, como é chamada familiarmente a região da Nova Caledônia, é um verdadeiro eldorado mineiro. Mas, sendo este o reverso da medalha, ele também contém amianto. Onde? Em qual proporção? De qual tipo?

Já faz dois anos, uma vasta perícia vem sendo conduzida, encomendada e financiada pelo governo local, com o objetivo de identificar as zonas potencialmente perigosas. A meta principal, conforme recomendou em fevereiro de 2006 a missão de informação sobre os riscos e as conseqüências da exposição ao amianto, enviada pela Assembléia Nacional, é "de pôr fim às incertezas em relação à situação na Nova Caledônia", as quais são inúmeras.

"Estamos investigando; temos progredido um pouco às cegas, mas nós já sabemos que vai ser difícil determinar um quadro de risco zero, tendo em vista a história geológica do país", reconhece Caroline Fuentes, encarregada das questões de saúde e do meio-ambiente na Diretoria dos assuntos sanitários e sociais.

No início de maio, uma missão de especialistas enviados pela metrópole, na qual estavam associados o BRGM (Bureau de pesquisas geológicas e mineiras), o LEPI (Laboratório de estudos das partículas inaladas) e o Inserm (Instituto francês da saúde e de pesquisas médicas), compareceu na região para validar os primeiros estudos das equipes locais e ajudar na definição de protocolos para minimizar os riscos.

"Trata-se de um assunto bastante difícil, pois este tipo de configuração geológica é relativamente raro na França, exceto na Córsega", reconhece Bernard Robineau, do serviço de geologia.

Mas os números falam mais alto. Na Nova Caledônia, com os seus 240.000 habitantes, a incidência do mesotelioma, um tumor maligno da pleura causado pelo amianto, é trinta vezes superior à média mundial, enquanto os cânceres pulmonares são anormalmente elevados. Neste território francês, onde, além do mais, o Fundo de indenização das vítimas do amianto (Fiva), ativo na metrópole, até hoje não foi tornado aplicável, o amianto, segundo as fontes, causa entre 16 e 30 mortes anualmente.

O risco é 16 vezes mais elevado entre os melanesianos do que entre os europeus. E não é por menos. A primeiríssima vez em que foram identificados os riscos do amianto na Nova Caledônia data de 1994, quando o Inserm recomendou a utilização de um ocre esbranquiçado para untar as cabanas das tribos canaques, o "Pó", confeccionado a partir de uma rocha friável: a tremolita.

É a administração colonial que, na origem, havia recomendado aos canaques "embranquecer" as suas habitações, de modo a conferir um aspecto mais limpo às tribos. Da família dos anfibólios, a tremolita, cujas fibras são particularmente compridas, é a forma de amianto a mais perigosa. Na época, análises haviam revelado, durante as atividades domésticas, a existência de concentrações que chegavam a ser superiores a 7.000 fibras por litro de ar, enquanto o valor limite tolerável nas construções é de cinco fibras.

Mas, apesar desta grande faxina, as dúvidas persistiram. O presidente da Adeva-NC (Associação de defesa das vítimas do amianto), André Fabre, afirma que os grupos de estudos "se polarizaram inicialmente na tremolita para não prejudicar a indústria do níquel", que é o principal pilar da economia local.

Geologicamente indissociável do níquel, o amianto está de fato presente sob forma de crisotila, um silicato de magnésio fibroso menos perigoso do que a tremolita, na base dos maciços montanhosos. Entretanto, medidas preventivas têm sido aplicadas já faz alguns anos pelas indústrias. Segundo o Serviço das Minas, que reconhece ainda assim que "a colocação de uma cobertura de betume sobre as pistas seria a melhor solução", os levantamentos que foram efetuados nas minas em fase de exploração apontaram teores "amplamente aquém" das normas regulamentares.

Segundo os primeiros resultados obtidos a partir do mapeamento em fase de realização, é a tremolita que permanece o principal perigo. Isso porque, enquanto as cabanas untadas com Pó foram praticamente erradicadas, os afloramentos, por sua vez, seguem presentes efetivamente na natureza. Uma geógrafa da saúde, Marianne Houchot trabalhou no vale da Hienghène (nordeste), onde estão instaladas pequenas tribos canaques. Ali, crianças brincam sobre solos tremolíticos, e habitações estão totalmente empoeiradas, enquanto obras foram realizadas sem precaução alguma.

Sobre plaquetas de "teste", não menos de 3.000 fibras por cm2 foram encontradas no interior de uma casa, depois de um mês de exposição. Além disso, este número alcança 50.000 no material colhido numa pista que conduz até a tribo de Tiendanite.

Numa primeira etapa, as autoridades vão recomendar às populações expostas que medidas de precaução sejam tomadas no sentido de limitar a dispersão das fibras (rega, vegetalização, isolamento...), enquanto o parecer de um geólogo será tornado obrigatório antes do início de toda obra financiada por fundos públicos. No que diz respeito aos cerca de 5.000 km de pistas cobertas por rochas perigosas, aquelas que atravessam zonas habitadas deverão ser recobertas. Um mal menor.

Léxico


Amianto: designa rochas metamórficas naturalmente fibrosas cujas propriedades físico-químicas são utilizadas para fins de isolação, e na fabricação das juntas e das guarnições de fricção.

Crisotila ou "amianto branco": do grupo das serpentinas, ela é supostamente o tipo de amianto o menos perigoso. Mas ela foi classificada como cancerígena, na França, desde 1977, e proibida a partir de 1997.

Anfibólios: eles também proibidos. Esta categoria de minérios inclui rochas contêm amiantos tais como o amianto azul ou crocidolita, o amianto pardo ou amosita, a tremolita, a actinolita e a antofilita.

Mesotelioma: forma rara e virulenta de câncer que atinge os pulmões, a cavidade abdominal ou o envelope do coração, causado especificamente pela exposição ao amianto. Ele pode aparecer de 20 a 50 anos depois da inalação das fibras. O amianto pode também engendrar o câncer do pulmão, a asbestose (fibrose pulmonar), assim como placas, espessamentos e efusões pleurais. Cerca de 125 milhões de pessoas estão expostas ao amianto profissionalmente, e 90.000 morrem anualmente em decorrência da sua inalação.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

O aquecimento climático ameaça as geleiras do Himalaia

Se nada for feito para deter o efeito-estufa, elas poderiam desaparecer entre 2050 e 2070, gerando enormes catástrofes

Julien Bouissou – Le Monde
Correspondente em Nova Déli, Índia


O aquecimento climático está acelerando o derretimento das geleiras do Himalaia. Quarenta e nove postos de observação do clima, espalhados pela cadeia montanhosa, registraram desde meados dos anos 1970 um aumento da temperatura média de 1,2 ºC, ou seja, o dobro do aumento que havia sido registrado anteriormente, ao longo de um período equivalente, nesta latitude.

As geleiras que encobrem o Himalaia, numa superfície de 32.000 quilômetros quadrados, são as vítimas principais do aquecimento. Todas elas estão no processo de desaparecer, cada uma seguindo o seu próprio ritmo. A geleira Gangotri, um local de peregrinação hindu, cuja extensão é de 26 quilômetros, e que alimenta o Ganges, está diminuindo de 23 metros por ano. Aquela de Bara Shigri, uma das geleiras as mais importantes da Índia, está recuando de 36 metros por ano.

Os cientistas encontraram evidências deste fenômeno utilizando fotografias feitas por satélites. Efetuadas pela organização indiana de pesquisa espacial, essas fotos mostram uma diminuição das geleiras numa proporção de 21% nas bacias de Chenab, de Parbati e de Baspa, ao norte do Himachal Pradesh. "As geleiras de menos de 1 quilômetro quadrado, que sofreram até agora uma diminuição média de 38%, são as mais vulneráveis, enquanto as grandes geleiras estão se fragmentando em diferentes pedaços", explica Anil Kulkarni, um especialista encarregado do projeto na organização indiana de pesquisa espacial.

O aquecimento das temperaturas não se limita apenas a provocar o derretimento das geleiras. Ele encurta os períodos durante os quais estas últimas se formam. "Por causa da ocorrência cada vez mais tardia do inverno, os flocos de neve não mais dispõem do tempo necessário para se transformarem em gelo", explica Syed Iqbal Hasnain, um especialista indiano em gelologia. "Além disso, durante as monções, as precipitações que nós registramos não são mais de neve, e sim de chuva, numa determinada altitude", prossegue.

"No decorrer de uma primeira etapa, o derretimento vai aumentar a vazão dos rios", explica Rajesh Kumar, do Instituto tecnológico Birla, em Jaipur. Este cientista indiano estudou, em parceria com uma equipe britânica do Centro de ecologia e da hidrologia, as repercussões do derretimento das geleiras sobre os rios Ganges, Brahmaputra e Indus. As vazões desses rios alcançarão um pico entre 2050 e 2070, provocando enchentes que devastarão as culturas e as habitações nas suas ribanceiras. O relevo dos vales baixos do Himalaia também será atingido, por causa de grandes desmoronamentos de terreno.

Uma vez que as geleiras tiverem derretido, o Ganges, o Brahmaputra e o Indus não serão mais alimentados. Ora, 80% dos recursos em água do Ganges, por exemplo, provêm do derretimento das geleiras. Num relatório que foi publicado em 6 de abril, o Grupo Internacional de Especialistas para o Estudo do Clima (Giec) emitiu a hipótese segundo a qual os rios indianos poderiam ficar cheios apenas durante uma determinada temporada do ano. Secos durante o inverno, eles seriam tomados pelas águas somente durante as monções, no verão.

A queda do nível das águas dos rios poderia ter conseqüências desastrosas para os habitantes das planícies do norte da Índia. A irrigação, a produção de energia hidrelétrica e os recursos de água potável seriam duramente atingidos. O WWF (sigla em inglês para Fundo Mundial para a Natureza) já está se preparando para uma tal eventualidade.

"Em breve, nós iremos experimentar programas em duas aldeias situadas à beira do Ganges, com o objetivo de ajudar os camponeses a adaptarem os seus métodos de cultura, em caso de enchente seguida por uma queda abrupta do nível da água do rio", explica Prakash Rao, um pesquisador encarregado do programa de luta contra o aquecimento climático. A queda de nível do rio Ganges poderia vitimar cerca de 40 milhões de pessoas que vivem nos seus arredores até Nova Déli, isso porque este rio sagrado alimenta a capital indiana através de canais.

Para substituir as geleiras naturais que se encontram em processo de desaparecimento, um engenheiro começou a construir geleiras artificiais nos planaltos os mais elevados do Ladakh, desviando as águas dos rios. A água desviada é armazenada em reservatórios construídos no flanco da montanha, a mais de 4.000 metros de altitude.

"Mas, será que o trabalho do homem pode mesmo substituir o da natureza?", se pergunta Syed Iqbal Hasnain, com certo ceticismo. "Se não houver uma redução sensível das emissões de gases geradores do efeito-estufa, nós estaremos caminhando de modo irresistível rumo à catástrofe", prossegue, "e vale acrescentar que o subcontinente indiano é diretamente responsável por esta situação, pois sabemos que as geleiras do Himalaia são particularmente sensíveis aos gases geradores do efeito-estufa emitidos na região".

Em 16 de maio, vários ministros do governo indiano se reuniram para elaborar uma estratégia de luta contra o aquecimento climático. "Aquela foi mais uma reunião, não mais, já que não houve decisão alguma e que nós seguimos sem nenhuma medida no curto ou médio prazo", conclui, com amargura, Syed Iqbal Hasnain.

Os três grandes rios indianos

O Ganges: com 2.510 quilômetros de comprimento, ele tem a sua fonte situada na geleira de Gangotri, a 7.756 metros de altitude, no Himalaia, e desemboca na baia do Bengala, no Bangladesh. Ele permite a subsistência de mais de 400 milhões de habitantes, dos quais a maioria vive em função da agricultura.

O Brahmaputra: com 2.900 quilômetros de comprimento, ele tem a sua fonte nos maciços himalaianos do Tibet, e então atravessa a Índia para desembocar no delta do Ganges, no Bangladesh.

O Indus: com extensão de 3.200 quilômetros, ele tem a sua fonte no Tibet, atravessa a Índia e desemboca no mar de Arábia, em Karachi, no Paquistão. Fonte principal de água potável no Paquistão, ele irriga as planícies agrícolas do Pendjab, ao norte da Índia.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

Os riscos de um planeta urbano

Desastres naturais afetam 270 milhões de pessoas por ano, 50% a mais que na década de 1980

Antonio Cerrillo – La Vanguardia
Em
Barcelona


O crescimento demográfico, o desenvolvimento urbano desequilibrado, a degradação ambiental e a mudança climática fizeram que "o número de pessoas afetadas pelas catástrofes naturais aumentasse de maneira notável nos últimos 20 anos". No final da década de 1980, cerca de 177 milhões de pessoas (população equivalente à da Indonésia) eram afetadas por catástrofes naturais todos os anos. Mas desde 2001 essa média se situou em 270 milhões, o que representa um aumento de 50%. É o que indica o relatório "A situação do mundo 2007: Nosso futuro urbano" sobre a saúde do planeta, elaborado anualmente pelo Instituto Worldwatch de Washington.

Mais população urbana que rural

Muitas catástrofes têm origem na urbanização descontrolada. Há um século, a maior parte do planeta vivia em áreas rurais, enquanto no próximo ano as zonas urbanas já terão mais população que as rurais. As cidades passaram de 732 milhões em 1950 para 3,2 bilhões no ano 2006. Ásia e África (com 40% e 38% de população urbana) duplicarão suas populações urbanas e chegarão a 3,4 bilhões em 2030.

O drama é que 60 milhões de pessoas se incorporam todo ano a cidades que crescem depressa demais e a seus bairros periféricos, sobretudo em assentamentos pobres em países em desenvolvimento. E isso acontece quando 1 bilhão de pessoas vivem em subúrbios sem serviços básicos: água potável, saneamento ou moradia. Pobreza econômica, governos deficientes, mau planejamento urbano e edificação inadequada são o caldo de cultivo para muitas catástrofes. Não são, portanto, casualidades sinistras, mas a conseqüência da falta de políticas para evitar os riscos existentes.

Zonas sísmicas sob o vulcão

A localização costuma ser chave. Oito das dez cidades mais populosas do mundo foram construídas sobre falhas sísmicas ou perto de alguma delas, enquanto seis em cada dez são vulneráveis a ondas gigantescas. Há cidades grandes situadas perto de vulcões, ou acompanhando litorais "que ficarão expostos ao aumento do nível do mar devido à mudança climática". A arquitetura de muitas periferias reúne diversos materiais inflamáveis e é freqüente que as grandes cidades nos países em desenvolvimento enfrentem ligações elétricas perigosas, despejo de águas residuais e vertedouros de resíduos tóxicos. O homem agrava os efeitos de viver sob o vulcão.

O corte dos manguezais em Sri Lanka agravou a força das ondas do tsunâmi no oceano Índico em 2004. O efeito da bolha de calor em Nova York no verão faz disparar a demanda de ar-condicionado e provoca mais produção elétrica e mais poluição (com o corolário de mortes e doenças causadas pelos choques de calor). Menos de 3% das famílias dos países de baixa e média renda têm seguro contra essas catástrofes naturais.

Exemplos para estabilizar o clima

As cidades cobrem somente 0,4% da terra, mas produzem a maior parte dos gases do efeito estufa, indica o relatório, que repassa algumas soluções (planejamento, sistemas de alerta, gestão de catástrofes) e alguns dos melhores exemplos de desenvolvimento urbano racional. Malmö, na Suécia, por exemplo, projetou um novo bairro pensando em obter 100% da energia de fontes renováveis; e em seu principal edifício, o Turning Torso (de Santiago Calatrava), os apartamentos têm aparelhos para triturar o lixo orgânico que é recolhido para produzir o biogás usado em fogões e veículos.

Em Rizhao, uma cidade costeira no norte da China, 99% das residências dos bairros centrais usam captadores solares térmicos para ter água quente, enquanto a iluminação das ruas e parques funciona com células solares. Assim se reduziu o consumo de carvão e se melhorou o entorno da cidade. Não é pouco, pois a China tem 16 das 20 cidades mais poluídas do planeta. Enquanto isso, Curitiba (Brasil) continua sendo um exemplo de fomento do transporte público, com seus ônibus cruzando as pistas centrais das grandes artérias e suas grandes áreas verdes. E nos EUA 150 cidades assinaram um acordo para a proteção do clima. São exemplos de como se pode evitar a catástrofe.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Tartarugas raras encontradas no Camboja

Santuário que floresceu durante a guerra é ameaçado pela paz

Seth Mydans – Herald Tribune
Em Sambor, Camboja

Com a autoconfiança de dezenas de milhões de anos de instinto, 12 minúsculas tartarugas correram pela margem lamacenta do rio Mekong, na semana passada, mergulharam na água e desapareceram com um ziguezague sob a areia. Foi um momento de alívio para aquele que as soltou, David Emmett, do Conservation International, que as manteve em casa em pequenas banheiras de plástico desde que saíram dos ovos, duas semanas antes. "Não teria sido bom ter um monte de tartarugas ameaçadas de extinção morrendo no meu banheiro", disse ele.

Agora elas estão por conta própria, carregando as esperanças de cientistas que tentam preservar um dos últimos trechos prístinos do rio Mekong. Conhecidas como tartarugas cara de perereca, por seus olhares estranhamente vazios, os filhotes são membros da espécie ameaçada das tartarugas gigantes de Cantor, de casco mole, que recentemente foi redescoberta aqui no nordeste remoto do Camboja.

O encolhimento de seu habitat para este pequeno refúgio, como os números decrescentes do bagre gigante do Mekong e dos golfinhos Irrawaddy, é um sinal que a ecologia complexa do rio está se desgastando rapidamente. "A área em que estamos trabalhando é a melhor de todo o rio, todo ele, da China até o fim", disse J.F. Maxwell, que fiscalizou o Mekong inferior. "A China está toda destruída."

Até recentemente, uma guerra protegia as tartarugas, e a paz as ameaça agora. Por décadas, esse trecho de 50 km de rio era um refúgio de guerrilheiros armados do Khmer Vermelho, o que restou do regime que custou a vida de 1,7 milhões de pessoas de 1975 a 1979.

Como terra de ninguém, oferecia um porto seguro para plantas e animais raros, que foram vítimas do desenvolvimento em locais mais seguros da região. "É uma emergência preservar este lugar porque, se for destruído, não haverá nada para substituí-lo", disse Maxwell, curador do Chiang Mai Herbarium, em Chiang Mai, Tailândia.

"Eles tiveram sua guerra, mataram seu povo, e a segunda geração está vindo agora", disse dos cambojanos. "Os barcos a motor estão subindo o rio, as pessoas estão entrando, e ninguém está controlando isso."

No curso natural das coisas, dois ou três dos filhotes de tartarugas liberados sobreviverão, tornar-se-ão gigantes do tamanho de um sofá e viverão por até um século, quase sempre enterrados na areia, disse Emmett. Ou morrerão vítimas da pesca abusiva, da poluição e da degradação ambiental, levando a espécie para mais perto do fim. "Essas coisas sobreviveram a eventos de extinção que apagaram os dinossauros, e agora nós vamos acabar com elas", disse Emmett, biólogo de vida selvagem com base no Camboja. "Veja, não podemos deixá-las se extinguirem agora."

A maior e menos estudada tartaruga de água doce do mundo, a tartaruga Cantor (Pelochelys cantorii), parece já ter desaparecido dos vizinhos Vietnã, Tailândia e Laos. Foi vista pela última vez no Camboja em 2003, e ninguém sabia até agora se haviam sobrevivido.

Em março, uma equipe que incluiu o Conservation International, o governo cambojano e o World Wide Fund for Nature (WWF) fez a primeira pesquisa na área desde que se tornou segura, no final dos anos 90, e encontrou a farta diversidade de um ecossistema completo. "A existência de uma área tão grande de habitat natural em torno do Mekong é quase impensável", escreveu R.J. Timmons, especialista em pássaros e mamíferos, em um relatório da WWF.

Ele pediu a criação de um santuário nesse trecho do rio, e a WWF disse que pescadores locais seriam contratados como monitores e receberiam compensação regular pela redução da pesca.

Para a surpresa de todos, jovens pesquisadores, a Equipe Cambojana de Conservação da Tartaruga, usando uma armadilha inventada por eles mesmos, imediatamente capturaram e liberaram uma tartaruga de 11 kg, em março.

Pouco depois, capturaram uma fêmea de 3 kg que Emmett estudou por um mês em sua casa em Phnom Penh, antes de liberá-la na semana passada com a dúzia de filhotes. Os pesquisadores também deram a ele os ovos que ele manteve em seu banheiro.

O que ele observou foi uma tartaruga muito peculiar.

Sem o casco para protegê-la, a tartaruga passa mais de 95% de sua vida quase sem se mexer, debaixo da areia, saindo duas vezes por dia para tomar uma longa e única inspiração. Ela emerge uma vez por ano para colocar seus ovos pequenos e redondos nas margens do rio.

Como uma das espécies mais antigas do mundo, o segredo da longevidade que oferece é sentar-se em um lugar, preferivelmente sob uma camada de areia, e não fazer nada. "É um estilo de vida muito monótono, realmente", disse Emmett. Mas quando se move, tem a velocidade de um raio em vez da calma das outras tartarugas.

Quando seus olhos minúsculos, que protraem do topo de sua cabeça entre os grãos de areia, vêem um camarão, um peixe ou caranguejo, a tartaruga lança seu pescoço como um camaleão lança sua língua. "Ela ataca mais rápido do que uma cobra", disse Emmett. "Vi cobras dando o bote, e facilmente tem a mesma velocidade. E tem a mordida mais dura de qualquer animal conhecido do homem."

Sua longevidade mostra o sucesso da adaptação da tartaruga ao seu ambiente, disse Emmett. Mas o ambiente hoje, cheio de predadores humanos, apresenta um desafio de uma nova sorte.

Enquanto Emmett soltava suas tartarugas nas margens do rio marrom, um pescador vagava puxando sua rede ali perto, observando.

A história moderna do rio Mekong, com seus pescadores e fábricas, poluentes e represas, não oferece muita esperança aos conservacionistas, disse Maxwell. "Quando nós nos reunimos, é a mesma história", disse sobre os especialistas em ecologia. "Falo das plantas, outros falam de peixes, outros de aves e anfíbios. É a mesma história. As coisas estão descendo pelo ralo. Tudo está indo."

Tradução: Deborah Weinberg

Acumulam-se as tensões relativas às discussões do G8 sobre o aquecimento global

Hugh Williamson, em Berlim
e Edward Luce, em Washington

Financial Times

As tensões políticas entre os Estados Unidos e a Alemanha devido à questão do aquecimento global pioraram bastante. Washington ameaça não mais "agir suavemente" nas negociações sobre o aquecimento global marcadas para a reunião de cúpula do Grupo dos Oito (G8, o grupo das nações mais industrializadas do mundo: Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia), marcada para o mês que vem.

Os Estados Unidos enviaram à Alemanha uma declaração - obtida pelo "Financial Times" - recheada de palavras ásperas, acusando o governo alemão de ignorar as "preocupações sérias e fundamentais" de Washington em relação à minuta do documento sobre a alteração climática que Berlim levará ao encontro na costa do Mar Báltico.

"Nós tentamos 'agir suavemente', mas há um limite para até onde podemos ir, considerando a nossa oposição fundamental à postura alemã", dizem os norte-americanos na declaração, escrita em tinta vermelha.

A Alemanha quer que os membros do G8 concordem em estabelecer limites para a emissão de carbono, mas os Estados Unidos afirmam que a mudança climática deve ser enfrentada com soluções embasadas na tecnologia e não em metas obrigatórias para emissão. Washington também acusa Berlim de ignorar solenemente a posição norte-americana.

O governo norte-americano reclama no seu documento: "A última versão do comunicado é chamada de 'final', mas jamais concordamos com a linguagem apresentada no documento. A maioria dos nossos comentários sobre a minuta anterior foi ignorada e surgiram outros trechos novos e problemáticos".

A declaração de Washington diz ainda: "A proposta alemã cruza múltiplas 'linhas vermelhas' no que diz respeito a coisas com as quais nós simplesmente não podemos concordar".

As autoridades alemãs envolvidas com a preparação do encontro de cúpula se recusaram a comentar. A Casa Branca também se recusa a comentar os desacordos "sobre a linguagem específica" da minuta e diz que o importante é julgar o comunicado final emitido após o encontro.

Tradução: UOL