23 junho 2016

Gravação mostra dupla combinando depoimento em caso da Samarco

Áudio integra investigação da Polícia Federal sobre rompimento.

Barragem de Fundão "era doente", diz Polícia Federal após inquérito.


Rodrigo Rezende, Bruno Dalvi e Mário Bonella | G1 ES e da TV Gazeta


Um dos áudios que integram o inquérito sobre o rompimento da barragem da Samarco, em Mariana, Minas Gerais, mostra, segundo a Polícia Federal, dois funcionários da Vog BR, que foi contratada pela mineradora para avaliar a estrutura da barragem de Fundão, combinando como deveria ser o depoimento na investigação do acidente.




Depois, eles dizem como acham que a investigação vai terminar.

Otávio - a cara eu acho que não vai dar nada isso não.

Samuel - no máximo o que vai acontecer é que vocês vão ter que pagar uma multa bem cara para me tirar da cadeia

Otávio - a ta doido rapaz que cadeia o caralho....kkk

Para a PF, a direção da Samarco sabia das falhas na barragem de Fundão. É o que mostram as trocas de e-mails e ligações anexadas ao inquérito da polícia, que trazem conversas entre gestores da mineradora desde 2012. E o resultado das investigações foi apresentado em uma coletiva, nesta quarta-feira (22), no Espírito Santo.

De acordo com a polícia, as mensagens foram compartilhadas em e-mails e no sistema de comunicação interno da empresa. Nas conversas, diretores comentam sobre trincas na estrutura e que, se houvesse uma ruptura, a comunidade de Bento Rodrigues poderia ser atingida.

Samarco

 
A Samarco foi procurada pelo G1 e disse que "repudia qualquer alegação de conhecimento prévio de risco de ruptura na Barragem de Fundão. A empresa informa ainda que continuará prestando todos os esclarecimentos devidos nos autos do processo", diz a nota.

Desastre

 
A barragem de Fundão se rompeu no dia 5 de novembro de 2015, destruindo o distrito de Bento Rodrigues, em Mariana. Os rejeitos atingiram mais de 40 cidades na Região Leste de Minas Gerais e no Espírito Santo. A lama percorreu o Rio Doce até a foz e o desastre ambiental, que deixou 19 mortos, é considerado o maior do Brasil.

Pós-desastre

 
A Polícia Federal afirma que a barragem da Samarco que rompeu em Mariana, em Minas Gerais, era uma barragem "doente", porque sempre apresentou falhas. O inquérito da PF aponta que o “monitoramento de Fundão funcionava com equipamento defeituoso, que o plano de emergência não tinha eficácia e que houve deficiência no sistema de drenagem interno da barragem”, entre outras falhas.

A polícia continuou monitorando a comunicação de funcionários da Samarco, mesmo depois que a barragem rompeu. Tudo isso está no inquérito que já foi encaminhado para o Ministério Público.

De acordo com a Polícia Federal, esse monitoramento revela falhas na construção e na segurança da barragem.

Conversas

 
No dia 18 de novembro de 2015, um e-mail entre o diretor de operações Kleber Terra e o gerente geral de projetos Germano Lopes tem como assunto o piezômetro, equipamento usado para monitorar a estabilidade da barragem.

Está escrito na mensagem: "estavam offline no dia os piezômetros de Fundão, Sela, Tulipa e Selinha em função de problemas de comunicação".

A polícia também gravou conversas telefônicas de funcionários da empresa falando sobre o equipamento.

Piezômetro

 
Wanderson - você lembra de um equipamento, um piezômetro tá mais afastado? lá nesse patamar ali, tá mais afastado...nós instalamos mais um instrumento lá?

Léo - a gente colocou um instrumento lá Wanderson, porque não sei se você lembra, quando começou observações do dreno, a gente estava suspeitando deeee daquele piezômetro 7 que estava com índice ehhh um pouco elevado, a gente estava duvidando da consistência dele...

Wanderson - onde que está essas leituras? nós não analisamos ele hora nenhuma porque nem sabia que ele existia.

Nomes citados

 
Segundo o inquérito, Wanderson Silvério Silva é coordenador técnico de planejamento e monitoramento da empresa Samarco; Léo seria Leonardo Martins Agripino, engenheiro de processos responsável por estabelecer rotina de serviço para as barragens Santarém, Germano e Fundão; Otávio é, provavelmente, Othavio Afonso Marchi, sócio da empresa VogBR que prestou serviço para fazer a declaração de estabilidade da barragem fundão de 2013 a 2015.