26 setembro 2016

Incêndio consome mata em área do Parque Indígena do Xingu em MT

Fogo em linha de mais de 30 km devastou 210 mil hectares da reserva.

Incêndio causa prejuízos aos agricultores da região


Vico Iasi e Luiz Patroni | G1


Parque Indígena do Xingu, MT - Um incêndio de grande porte consome o Parque Indígena do Xingu, em Mato Grosso. Esse é um drama para os agricultores, que são vítimas do fogo.

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O trabalho de quase uma década foi destruído em minutos. O agricultor Claudinei Klein e seu pai, Alceu Klein, investiram dinheiro e suor no seringal em Gaúcha do Norte. Eles plantaram cinco mil árvores com as próprias mãos e assistiram ao fogo destruir 60% do cultivo.

Os agricultores sabem que o incêndio que atingiu o seringal começou em um lixão improvisado, que fica próximo à propriedade. Mas, muitas vezes não é fácil saber a origem da queimada. Para desvendar esse tipo de mistério, o Ibama conta com peritos como Altair Gonçalves, que trabalha com as equipes de fiscalização. No caso da propriedade, o perito concluiu que o fogo serviu para a limpeza de uma área desmatada recentemente e com uso de correntão.

O incêndio atingiu 2,8 mil hectares da fazenda. Com base nos dados da perícia, o Ibama poderá embargar a área e multar o proprietário. Mas o fogo também pode surgir em parques e grandes áreas de conservação. São lugares que, em tese, deveriam ter a natureza bem preservada.

O Parque Indígena do Xingú ocupa um território de 26 mil quilômetros quadrados, o mesmo tamanho de um estado como Alagoas. O Xingu abriga 16 povos indígenas, que vivem da floresta e da agricultura em áreas pequenas.

Desde julho uma parte parque foi tomada por um incêndio gigantesco. O Ibama concentra as ações de combate ao fogo no Alto Xingu, área que ao sul do parque indígena. O incêndio no parque forma uma linha que tem mais 30 quilômetros de extensão. Com isso, mais de 210 mil hectares da reserva já foram devastados. Isso representa quase 8% do território total do parque.

Segundo o Ibama e lideranças indígenas, a causa mais provável do incêndio foi o uso de fogo para a limpeza de terreno nas áreas agrícolas dos índios.

O uso de fogo para limpar o terreno é uma prática antiga entre os indígenas. Mas de uns tempos pra cá esse costume começou a gerar problemas. A situação preocupa o coordenador da Funai em Canarana Kumaré Txicão, que nasceu e cresceu no Xingu.

“Nos era mata muito fechada ainda. Eles tocavam fogo no campo. Quando chegava no mato, ele apagava. Hoje, com a mudança climática, favorece a queimada com o vento forte. Então, eles não têm esse controle”, explica Txicão.

Diante das mudanças no clima e na floresta, A Funai e outras entidades iniciaram uma campanha entre os moradores do Xingu sobre os perigos do fogo. O incêndio que começou no Xingu também atingiu a fazenda em Gaúcha do Norte, que faz divisa com o parque. A área de reserva e o pasto onde ficam os animais foram afetados pelo incêndio.

Segundo o vice-presidente do Sindicato Rural do município, o avanço do incêndio tira o sono de muitas pessoas na região. “Fora o impacto ambiental, a gente tem o impacto financeiro muito alto”, diz Luiz Bier.

As queimadas também provocam prejuízos para pequenos produtores de Rondônia, que dependem da roça para sobreviver.

A agricultora Raimunda da Silva tem um lote de dez hectares no Assentamento Santa Rita, em Porto Velho. Filha e neta de agricultores, ela sempre viveu da terra. Mas, a vida da dona Raimunda passou por uma grande mudança em setembro de 2015. Na época, um incêndio, que começou em um lote vizinho, se espalhou e destruiu a principal fonte de renda da agricultora. O fogo acabou com os cinco hectares de mandioca que ela usava para fazer farinha.

Hoje, depois de um ano, o mato já tomou conta da área queimada. Os poucos pés de mandioca que resistiram não têm forças para produzir. A casa de farinha está parada. Viúva, sem dinheiro e sem produção, dona Raimunda conta apenas com uma aposentadoria para sustentar o sítio e os dois netos que vivem com ela.

Histórias como a da agricultora se repetem por toda a região. Só em 2015, as queimadas atingiram 281 mil quilômetros quadrados. São cerca de 5% da superfície Amazônia Legal.

O problema desafia a ciência; prejudica agricultores, pecuaristas e povos indígenas; e provoca perdas incalculáveis para a natureza da região.

Além de afetar duramente a região, as queimadas também provocam problemas em escala global. Por ser a maior floresta tropical do mundo, a Amazônia cumpre um papel essencial para o clima do planeta. Quando a floresta brasileira é destruída, de maneira direta ou indireta, o mundo inteiro sai perdendo.



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