28 novembro 2015

Belo Monte começa a encher reservatórios no Xingu

Depois de anos de polêmica, usina recebe licença do Ibama para operar


Nádia Pontes | Deutsche Welle

O primeiro reservatório da usina de Belo Monte já começou a ser inundado pelas águas do rio Xingu, no sudoeste do Pará. Imediatamente após receber a licença de operação emitida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) na tarde desta terça-feira 24, a Norte Energia, empresa responsável pelo empreendimento, abriu as comportas e iniciou a operação de enchimento, informou à DW Brasil.


Índios protestam contra Belo Monte
Índios do Xingu fazem protesto durante coletiva da presidenta do Ibama, Marilene Ramos, sobre o enchimento do reservatório da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)

A empresa não sabe dizer exatamente quando os dois reservatórios do complexo estarão cheios, o que depende do regime de chuvas. Segundo o cronograma, a primeira turbina para a geração de eletricidade deve ser acionada em março de 2016, inaugurando a terceira maior hidrelétrica do mundo.

Em setembro deste ano, quando concluiu as obras dos reservatórios, a Norte Energia teve o primeiro pedido de licença de operação negado. Na ocasião, o Ibama apontou o descumprimento de 12 das 41 obrigações impostas à empresa ainda em 2011, quando ela recebeu a licença para começar as obras e concordou em cumprir as contrapartidas.

A lista de pendências incluía pontos como não realização de obras de infraestrutura viária e sanitária nas cidades atingidas e remanejamento inadequado das famílias que viviam nas áreas afetadas. Dois meses após a primeira negativa, a licença final saiu.

A advogada Biviany Rojas, do Instituto Socioambiental (Isa), critica a decisão do Ibama. "A licença de operação sai apenas dois meses depois de um parecer técnico listando 12 pendências impeditivas, que não tinham como ser resolvidas nesse tempo. Principalmente a questão humanitária, dos removidos por causa da usina."

Em agosto, o Conselho Nacional de Direitos Humanos, órgão ligado à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, havia pedido que o Ibama exigisse o cumprimento efetivo e integral das condicionantes antes de emitir a licença final. Em nota, o Ministério Público Federal (MPF) do Pará afirma que vários conselheiros constataram pessoalmente violações graves de direitos humanos e condicionantes "muito longe de serem cumpridas."

O MPF pediu a investigação efetiva das denúncias de desvio da madeira retirada na área dos canteiros de obra, a revisão de indenizações pagas às pessoas que não tiveram assistência jurídica, a compra de áreas para reassentamento coletivo de famílias que viviam em comunidade, entre outras exigências.

"Ninguém sabe exatamente onde as famílias retiradas foram parar. 70% foram indenizadas num processo muito questionável. As famílias ribeirinhas, que viviam e dependiam do rio Xingu para suas atividades econômicas, passaram a ser marginais de estrada", diz Rojas, que acompanha Belo Monte desde 2010, na sede do ISA em Altamira.

Quanto aos impactos da usina sobre populações indígenas da região, investigações da Procuradoria da República em Altamira apontaram que medidas importantes impostas à Norte Energia teriam sido descumpridas. Em setembro, a Funai pediu ao Ibama que não liberasse a licença final antes de a empresa cumprir pelo menos 14 condicionantes desrespeitadas até então.

Questionada se as recomendações foram atendidas a tempo da emissão da licença de operação, a Funai disse que assinou dois ajustes de conduta com a Norte Energia. O primeiro tem como objeto o cumprimento de ações destinadas à proteção territorial das terras indígenas do Médio Xingu. No segundo, a empresa se compromete a dar continuidade ao cumprimento de todas as medidas pendentes, segundo a Funai.

O Instituto Socioambiental aponta ainda outra problemática: a questão do saneamento básico de Altamira, que constava na condicionante, não poderia ser resolvida de setembro para novembro. Altamira é a cidade mais próxima ao empreendimento. Desde o início da construção de Belo Monte, estima-se que o número de habitantes tenha dobrado, chegando a 105 mil.

Segundo a lista com 41 condicionantes, como contrapartida, a Norte Energia teria que fornecer o serviço de esgotamento sanitário na cidade para operar a usina. Na licença final emitida pelo Ibama, a empresa tem até setembro de 2016 para realizar as ligações domiciliares à rede de esgoto.

"A empresa atendeu o que estava previsto no licenciamento ambiental, que era construir e disponibilizar a infraestrutura do sistema de esgotamento sanitário. O problema não está resolvido porque grande parte das casas não está ligada à rede", explicou à DW Brasil Thomaz Toledo, chefe de licenciamento ambiental do Ibama.

A Norte Energia afirma estar em dia com suas obrigações. "As obras condicionantes para a Licença de Operação foram integralmente cumpridas. Os complementos solicitados pelo Ibama serão executados dentro dos prazos estabelecidos pelo órgão licenciador e dizem respeito a ligações domiciliares ao Sistema de Saneamento da cidade de Altamira e conclusão do Plano de Proteção Territorial Indígena para os povos do Médio Xingu", afirma a empresa.

Além disso, a Norte Energia afirma que serão executadas ações que não estavam previstas no Projeto Básico Ambiental (PBA) do empreendimento, como o cadastro socioeconômico dos moradores do bairro Independente 2, em Altamira, os quais terão direito a compensações por habitação caso estejam contemplados nos critérios estabelecidos.

Histórico

A história de Belo Monte é cercada de polêmicas. Durante o processo de licenciamento da usina, que tramita no Ibama desde fevereiro de 2006, procuradores da República no Pará ajuizaram 23 ações contra o empreendimento, apontando irregularidades na obra. Consultada pela DW Brasil, a procuradoria disse que irá analisar com cautela a última licença antes de se pronunciar.

A Norte Energia, consórcio formado exclusivamente para construção da hidrelétrica, é formada por empresas do governo e privada. A construção também foi amplamente financiada pelo Banco de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Quando protestos organizados por populações indígenas do Xingu ameaçaram os trabalhos nos canteiros de obras, a Força Nacional de Segurança garantiu a continuidade.

Para Rojas, esse cenário gera dúvidas. "Qual é a garantia para a sociedade brasileira de que Belo Monte será feita dentro da regra, dentro do Estado de Direito?" Ela também questiona os órgãos fiscalizadores, como Ibama e Funai: "Confirmamos que, infelizmente, eles não têm autonomia técnica necessária para licenciar obras de empreendimentos de interesse do governo federal."

Toledo reconhece o conflito de interesses, mas rebate as críticas. "Não há como o Ibama ou a Funai não considerarem o componente político, diversas manifestações de interesse relacionadas ao projeto. Mas o licenciamento ambiental tem que ter uma base técnica para a sua condução", afirma o funcionário do Ibama.

"Pareceres são avaliados por técnicos, que têm responsabilidade pelos pareceres que assinam, e a responsabilidade dos gestores é considerar todas as preocupações técnicas apontadas. A gente considera as questões técnicas e as questões políticas para tomar a melhor decisão", conclui.



25 novembro 2015

Lama avança 30 km ao Norte do mar no ES, diz Instituto de Meio Ambiente

Ao leste, mar adentro, a extensão é de 20 km e para o Sul são 5 km.
Secretário de Meio Ambiente diz que dimensões mudam com o vento.


Do G1 ES

A lama oriunda do rompimento da barragem da Samarco, cujos donos donos são a Vale a anglo-australiana BHP Billiton, já adentrou cerca de 30 km para o Norte do mar do Espírito Santo, segundo informou o Instituto Estadual de Meio Ambiente (Iema), na tarde desta terça-feira (24). Ao leste, mar adentro, a extensão é de 20 km e para o Sul são 5 km.

Sobrevoo na foz do Rio Doce nesta terça-feira (24) (Foto: Fred Loureiro/ Secom-ES)Sobrevoo na foz do Rio Doce nesta terça-feira (24) (Foto: Fred Loureiro/ Secom-ES)

O deslocamento da lama varia de acordo com o com o comportamento das ondas e da direção do vento. Segundo o Iema, a situação era diferente pela manhã: 15 km ao Norte, 5 km a lesta e 7 km ao Sul. "Tudo pode mudar com a mudança dos ventos”, alertou o secretário de Meio Ambiente, Rodrigo Júdice.

Mas o secretário garantiu que a lama não vai avançar muito pelo mar a ponto de atingir outros estados ou a capital do Espírito Santo.

"A possibilidade de ela [a lama] chegar a Abrolhos e aos manguezais de Vitória é muito irrisória. O importante é o acompanhamento, é o monitoramento do deslocamento, para a gente saber exatamente o impacto dela nas áreas de preservação próximas ao estuário e à foz do Doce", disse o secretário.

Um navio da Marinha vai ser enviado às praias de Linhares, nesta quarta-feira (25), para tentar conter os estragos causados pelos rejeitos de mineração da barragem da Samarco.

A respeito das análises da qualidade da água presente no Rio Doce, o secretário destacou que existem dois tipos diferentes, sendo um relativo à potabilidade e outro que diz respeito aos danos ambientais. O resultado que se obteve, até o momento, foi sobre as condições da água para consumo.

“As análises que já foram feitas apontam que não há metais pesados, como o mercúrio. Existe ferro, manganês, fósforo e isso é normal, porque toda água possui esses elementos. O que prejudica a potabilidade é a quantidade deles. Podemos dizer que turbidez da água já alcançou padrões muito maiores, inclusive, em chuvas torrenciais aqui no estado”, destacou Júdice.

Já o exame da água para efeitos ambientais foi solicitada pelo Iema e está em processo de execução. Segundo o secretário, ainda não foi finalizada, pois aguarda o fluxo dos sedimentos do rio para o mar. “Temos que confrontar análises de antes e as de depois, mas os sedimentos continuam chegando, entrando no mar, então temos que esperar”, falou.

Mesmo sem resultado, Júdice ressaltou que os efeitos danosos ao meio ambiente já são visíveis, dada a quantidade de peixes mortos já registrada.

“A turbidez permite que os elementos se sedimentem no fundo do rio e do mar e afete os organismos bentônicos, que são aqueles organismos primários da cadeia alimentar. Isso impede que a cadeia alimentar tenha seu fluxo normal. A turbidez impede que a luz chegue ao fundo do mar e os animais dependem dela. Tudo isso já pode ser percebido independente de amostra”, explicou.

Colatina interrompe captação

A captação de água no Rio Doce, em Colatina, na região Noroeste do Espírito Santo, voltou a ser interrompida, por volta das 22h desta segunda-feira (23). Uma última análise realizada por engenheiros do Serviço Colatinense de Meio Ambiente e Saneamento Ambiental (Sanear) encontrou uma maior turbidez da água após a chuva.

"Estamos realizando análises constantemente da água do Rio Doce. Devido à chuva, a turbidez ficou mais complexa, gerou uma instabilidade da turbidez. Nosso procedimento é o seguinte: a gente trata um pouco da água, faz o teste e analisa se é possível continuar o tratamento. Ontem, a água parou no processo da análise", explicou a assessoria de imprensa da Prefeitura de Colatina.

Ainda segundo a prefeitura, os engenheiros e técnicos do Sanear realizam análises constantes do material e apenas prosseguem com o abastecimento quando há certeza da qualidade da água. "Hoje nós vamos fazer outras análises para ver se é possível liberar, estamos esperando também algumas análises de laboratórios particulares", concluiu.

Ação na Justiça

O governo do estado tem 15 dias para entrar com uma ação na Justiça contra a mineradora Samarco. De acordo com o secretário de Meio Ambiente, Rodrigo Júdice, o prazo se deu a partir da propositura da ação cautelar, responsável pelas sanções já impostas à empresa, como o recolhimento de peixes e o plano de comunicação com as comunidades.

Empregos em Anchieta

Preocupado com o emprego de mais de 1 mil trabalhadores e as atividades de comércio e serviços locais, o prefeito de Anchieta, Marcus Assad, protocolou um documento pedindo para que a Samarco mantenha os empregos dos funcionários nos próximos 12 meses, no Espírito Santo.

A empresa foi procurada nesta terça-feira (24) e disse que usará o tempo de licença remunerada e férias coletivas para avaliar a situação e as decisões relativas ao tema serão comunicadas aos empregados.

MPT dá prazo para Samarco

O Ministério Público do Trabalho no Espírito Santo (MPT-ES) deu prazo até 2 de dezembro para que a empresa Samarco apresente um plano para manutenção dos empregos da unidade de Ubu, localizada no município de Anchieta e que tem funcionamento interligado às atividades de Mariana (MG).

A determinação ocorreu nesta segunda-feira (23) em audiência pública conduzida pelos procuradores do Trabalho Carolina de Prá Buarque e Bruno Borges, com a participação de representantes da mineradora, de sindicatos e prestadoras de serviço.

O órgão diz que “o plano emergencial de manutenção de emprego deve prever a preservação da renda dos trabalhadores que desempenham atividades junto à unidade industrial de Ubu/Anchieta, sendo contratados diretos ou terceirizados”.

Água suja em Linhares

Alguns moradores de Linhares, no Norte do Espírito Santo, perceberam uma coloração diferente na água ao abrir a torneira de casa, nesta segunda-feira (23). O município não é abastecido pelo Rio Doce, mas há somente uma barreira que separa a água turva da água que corre no Rio Pequeno, responsável por abastecer Linhares. O Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) de Linhares garante que a água do Rio Pequeno não está contaminada pela lama.

Lama sepulta oásis de vida e devasta rios em Minas

Antes de chegar ao Rio Doce, onda de rejeitos da Samarco soterrou rios, animais e mata nativa em área semelhante à de três parques das Mangabeiras. Nos vales atingidos resta hoje um rastro estéril de barro e água lamacenta


Mateus Parreiras | Estado de Minas

Barra Longa, Mariana, Ouro Preto e Rio Doce – Uma área com 911 hectares (ha) onde viviam pacas, capivaras e gado completamente soterrada. Essa é a soma das extensões da calha, margens e matas ciliares dos rios do Carmo e Gualaxo do Norte devastadas pela avalanche de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro despejados depois da ruptura da Barragem do Fundão, da mineradora Samarco, em Mariana, na Região Central de Minas, no último dia 5. É como se quase três Parques das Mangabeiras (337ha) – a segunda maior unidade de conservação ambiental urbana do Brasil, localizada em Belo Horizonte – fossem sepultados embaixo da lama. Esse território devastado compreende a projeção da calha principal dos dois mananciais sobre o mapeamento florestal de satélites feitos pela organização não governamental Global Forest Watch. A ferramenta, que tem resultados aceitos entre ambientalistas e entes do poder público, como a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad), mostra como os estragos nos dois primeiros rios atingidos pela maior tragédia ambiental do país vão muito além dos peixes e são tão graves quanto os estragos que se abateram sobre o Rio Doce, mais conhecido e extenso.

Leandro Couri/EM/D.A Press
Turbilhão de 62 milhões de metros cúbicos de rejeito deixou impressas nas pedras e na mata ciliar as marcas de sua força, revelada também nos destroços de estação e em carros atolados pelo tsunami de lama (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)

Para se ter uma ideia dessa devastação, os satélites da ONG calculavam que no rastro da avalanche de detritos acumulados por mais de 30 anos estavam pelo menos 374,81ha de cobertura florestal ciliar, a maioria composta por espécies de mata atlântica, bioma que tem proteção federal por ser o ecossistema mais ameaçado do Brasil e um dos mais frágeis do mundo. Apenas em mata ciliar, é como se uma área maior que a do Parque das Mangabeiras tivesse sido arrancada de uma só vez, pelas raízes, deixando de fornecer estabilidade às margens dos rios, alimento aos peixes e abrigo a espécies da fauna nativa. Ambiente que era conservado, já que, nos últimos cinco anos, apenas 1,51ha havia sido derrubado na região.

O cenário mais devastador ocorreu no Rio Gualaxo do Norte, onde o tsunami de lama chegou depois de destruir Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana em que pelo menos duas pessoas morreram, três estão desaparecidas e 600, desabrigadas. Ao todo, até a noite de ontem, eram 11 pessoas procuradas, oito mortos identificados e quatro corpos sem identificação. Só no Gualaxo, a área total atingida foi de 381ha, o que corresponde a 77,4% de toda a extensão de calha e matas ciliares desde a nascente, em Ouro Preto, à foz, no Rio do Carmo, em Barra Longa. Mesmo com o acesso ao povoado restrito a bombeiros e policiais militares, devido à instabilidade de duas outras barragens (Santarém e Germano), a equipe do Estado de Minas retornou a Bento Rodrigues para mostrar a dimensão da catástrofe ambiental sobre mananciais e matas.

TURBILHÃO 

A onda de lama foi tão forte que, ao entrar no leito, chegou a subir rio acima, vencendo a correnteza por mais quatro quilômetros, derrubando a ponte que levava ao distrito de Camargos e abrindo um cânion dos dois lados da estrada. A energia e o volume dessa massa de rejeitos e água invadindo o rio ficaram impressos no trecho próximo à estação de bombeamento de água da Samarco, no fundo do vale do Gualaxo. O edifício de concreto e metal ficou completamente desfigurado e os postes de energia foram revirados com cabos e equipamentos.

Acima, um rastro marrom e linear marcou na área de densa mata atlântica o nível máximo que atingiu a inundação de lama e rejeitos minerais, chegando a 12 metros de altura pelas bordas do vale do Rio Gualaxo do Norte. Sob esse marco, até a margem do manancial, um tapete de troncos, galhos e raízes de madeiras de lei apodrece emaranhado na lama endurecida. No fundo dessa estrada de lama e destruição, em meio ao deserto ressecado, corre a água vermelha, de aspecto denso e estéril, que substituiu uma correnteza que costumava ser clara e repleta de peixes.

EXTINÇÃO EM MASSA 

Na região, ninguém mais vê traço dos lambaris, traíras, mandis, acarás e tilápias que antes eram fisgados pela comunidade. Para muitos pescadores, a lama extinguiu todos, já que não foram mais vistos espécimes na zona atingida, nem mortos nas margens. “Agora está tudo destruído, acabado. Pescaria aqui, de novo, quem sabe daqui a uns 15 anos, se é que ainda vou estar vivo para ver. Quem sabe meus netos”, lamenta o servente e pescador José Antônio de Paula, de 49 anos, morador do distrito vizinho, Santa Rita Durão.

A tristeza para ele é maior, porque, entre os barrancos para pescaria, tinha predileção pelos de Bento Rodrigues, para onde ia todos os sábados. Tinha até pontos preferidos nas margens do Gualaxo do Norte, onde sabia que os peixes “mordiam mais”. “Uma vez, um colega meu viu uma traíra grande, bitelona mesmo. Combinamos de ele armar o anzol em cima (no alto do rio) e eu mais embaixo. Na hora que senti a fisgada, vi só o olhão dela pulando. Uma alegria, rapaz, pegar aquela bitela de 1,2 quilo.” Emoções e locais que agora existem apenas na memória do pescador, que nem consegue mais reconhecer os antigos pesqueiros, sepultados debaixo de tanta lama.

23 novembro 2015

Barreira de 9 km não impede chegada de lama ao mar no ES

Segundo Comitê da Bacia do Rio Doce, resultado já era esperado.
Já Samarco disse que eficiência das barreiras chegou a ser de até 80%.


Victoria Varejão | G1 ES

A barreira de 9 km montada na Foz do Rio Doce, em Regência, Linhares, Norte do Espírito Santo, não foi suficiente para impedir a lama de se espalhar pelo mar na região. Segundo o vice-presidente do Comitê da Bacia do Rio Doce, Carlos Sangalia, o resultado já era esperado, já que o material não é apropriado para segurar água.

Lama chega ao mar no litoral do ES (Foto: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo)
Lama chega ao mar no litoral do ES (Foto: Gabriela Biló/Estadão Conteúdo)

Já a Samarco informou que a eficiência das barreiras instaladas nas áreas protegidas chegou a ser de até 80% se comparada a cor da água no estuário, que é o local de encontro do rio com o mar, com o canal principal do rio.

A lama de rejeitos de minério que vazou da barragem da Samarco - cujos donos são a Vale a anglo-australiana BHP Billiton - em Mariana (MG) chegou ao mar neste domingo (22), após passar pelo trecho do Rio Doce no distrito de Regência, em Linhares, no Norte do Espírito Santo, segundo o Serviço Geológico do Brasil.

De acordo com Carlos Sangalia, o material de que são feitas as boias não é apropriado para conter água ou barro. “Tentou-se adequar, mas esse material não segura a água, não tem como. É mais para impedir algum material suspenso, que vem por cima da água, algo mais grosso, para que seja direcionado para a foz do rio”, destacou.

Apesar disso, para a Samarco, mesmo deixando água suja passar, as boias tiveram a eficiência esperada. “Existe um parâmetro que a gente está medindo chamado turbidez, que avalia o quanto a água está turva ou não. Lá no canal principal, as medidas foram de 2,5 mil. Aqui na região (foz em Regência), tivemos resultados de até 500. Então, é 20% do material que está lá no canal principal”, afirmou o representante da mineradora Alexandre Souto.

Ministra

Acompanhada pelo governador Paulo Hartung, na tarde desta segunda-feira (23), às 15 horas, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, visita o município de Linhares, localizado na região norte do Estado, para acompanhar as ações emergenciais que estão sendo realizadas por conta dos rejeitos de lama que castigam o Rio Doce desde o rompimento da barragem de minério, em Mariana (MG).

Segundo o governo do estado, a vinda da ministra ao Estado foi combinada na última quarta-feira (18), no Palácio do Planalto, em Brasília, durante reunião de trabalho de Hartung com a presidente Dilma Rousseff, o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel e ministros. O encontro foi a primeira reunião do Comitê de Gestão e Avaliação de Respostas ao desastre no Rio Doce.

Abrolhos

Nesta sexta-feira (20), Izabella Teixeira garantiu que não há risco da lama das barragens de Mariana chegar ao Arquipélago de Abrolhos. As ilhas estão localizadas no Oceano Atlântico, no litoral da Bahia. “Não há expectativa de que vá chegar a Abrolhos e os dados preliminares desse modelo dá uma pluma de dispersão de lama de seis quilômetros ao norte, ou seja, Abrolhos está a 250 quilômetros”, diz a ministra.

Ação conjunta

Os governos do Espírito Santo e Minas Gerais, juntamente com o Governo Federal se articulam para entrar com ação conjunta na Justiça contra a mineradora Samarco, empresa responsável pelos danos causados ao ecossistema do Rio Doce após rompimento da barragem Fundão, em Mariana (MG). Uma reunião com a Advocacia-Geral da União (AGU) foi marcada para esta terça-feira (24), em Brasília.

O governador Paulo Hartung explica que desastres ambientais no mundo já mostraram que a saída em casos assim é a ação conjunta. "O modelo que está sendo levado em consideração é o que foi adotado por Estados, cidades e o governo americano, que unificaram procedimentos jurídicos contra a British Oil, por causa do derramamento de petróleo no Golfo do México, em 2010", exemplifica.

Neste episódio, a empresa foi condenada a pagar US$ 20,7 bilhões de indenização ao governo dos Estados Unidos e a cinco Estados - Louisiana, Mississippi, Alabama, Texas e Flórida - pelo desastre ambiental que deixou 11 mortos. “Vamos ampliar a coordenação entre os governos e nossas procuradorias, para que haja maior convergência no campo jurídico”, adianta Hartung.

O desastre ambiental em Mariana, considerado o maior já ocorrido no Brasil, deixou, até agora, sete mortos. Quatro corpos ainda não foram identificados e 12 pessoas, entre moradores e empregados da Samarco, estão desaparecidas. A lama que vazou com a queda da barragem, depois de destruir Bento Rodrigues, atingiu o Rio Doce via afluentes, chegado ao Espírito Santo. No caminho, os rejeitos de minério de ferro arrasaram fauna, flora e deixaram moradores de cidades ribeirinhas sem água. Hidrelétricas tiveram o funcionamento suspenso.

Desastres meteorológicos causaram 606 mil mortes em 20 anos, diz ONU

Relatório global de defesa civil pede acordo forte para frear mudança do clima.Tempestades foram eventos mais mortais no período, estima levantamento.


Do G1, em São Paulo

Os desastres meteorológicos naturais aumentaram em frequência ao longo dos 20 últimos anos e foram responsáveis por 606 mil mortes, afirma um novo relatório do Escritório da ONU para a Redução dos Riscos de Desastres, o UNISDR.

Mapa mostra distribuição de desastres meteorológicos no planeta (Foto: UNISDR)
Mapa mostra distribuição de desastres meteorológicos dos últimos 20 anos no planeta (Foto: UNISDR)

Como a frequência e intensidade desse tipo de evento tende a aumentar com a mudança climática, o órgão destacou a importância de a COP21, a cúpula do clima de Paris, alcançar um acordo para corte de gases do efeito estufa.

Desde 1995, "as catástrofes meteorológicas levaram 606 mil vidas, uma média de 30 mil ao ano, com 4,1 bilhões de pessoas feridas, que perderam suas casas ou ficaram em necessidade de ajuda urgente", afirma o documento.

O clima foi responsável por 90% dos grandes desastres naturais no período. Foram registradas 6.457 inundações, tempestades, ondas de calor, secas e outros eventos meteorológicos.

As tempestades foram o tipo mais mortal de evento climático no período, provocando 242 mil das 606 mil mortes, 89% delas em países em desenvolvimento. As inundações mataram 157 mil, sobretudo na Ásia.

Na África, as secas foram um problema particularmente grave, apesar de mal dimensionado em razão da falta de dados, diz o relatório. Em países ricos, o maior impacto foi o das ondas de calor, que mataram 148 mil pessoas nos últimos 20 anos.

Perdas financeiras

Os desastres climáticos deixaram perdas financeiras avaliadas em US$ 1,9 trilhões de dólares, um número conservador, diz o UNISDR, porque só em 35% dos desastres foram feitos levantamentos precisos de perdas materiais.

"No longo prazo, um acordo na COP21 em Paris para redução dos gases de efeito estufa serão uma contribuição significativa para reduzir o risco e as perdas com desastres que são parcialmente alimentados por um planeta em aquecimento e pelo aumento do nível do mar", afirmou a diretora do UNISDR, Margareta Wahlstrom, em comunicado à imprensa.

"Por ora, há a necessidade de reduzir os níveis de risco existentes e evitar criar novos riscos garantindo que investimentos públicos e privados se informem dos riscos", disse. "Não podemos aumentar agora a exposição de pessoas e bens econômicos a desastres naturais em planícies alagadas, áreas costeiras vulneráveis e outros lugares inadequados para ocupação humana."


Lama que vazou de barragem em MG chega ao mar

GloboNews

A lama mudou a cor do Rio Doce na praia de Regência, onde o rio deságua no mar. Uma barreira foi montada para conter os rejeitos de minério e proteger a fauna e a flora da região.


Clique na imagem abaixo para assistir a reportagem:




Prefeitura de Linhares poderá acionar a Samarco

Prefeito aguarda avaliação sobre impacto da lama na fauna e flora


Dandara Tinoco | O Globo

LINHARES (ES) e RIO - A onda de rejeitos de minério exibiu ontem seus primeiros estragos na fauna da foz do Rio Doce, no vilarejo de Regência, em Linhares (ES). Peixes mortos, das espécies bagre-mandi e caçari, podiam ser vistos boiando na barra norte, atualmente o ponto único de ligação do rio com o oceano. À tarde, a maré alta vencia a mancha laranja lançada pelo rompimento da barragem em Mariana (MG), freando o seu avanço ao Atlântico. Ao norte, contudo, era possível ver ondas cor de barro quebrando na praia de Povoação, distrito localizado na outra margem do rio. Ali também foram encontrados exemplares de bagre-pintado sem vida na areia. Na região, considerada pelo governo federal área prioritária de conservação ambiental, vivem espécies sob ameaça, como a toninha e a tartaruga-de-couro.


Lama do rompimento da barragem em Mariana (MG) chega ao mar pela foz em Regência (ES) e alcança as praia de Povoação - O GLOBO / Marcelo Carnaval

Prefeito de Linhares, Nozinho Correia (PP) afirmou que o município acionará a Samarco judicialmente caso se comprove que a fauna e a flora locais foram destruídas:

— A Samarco tem de estar consciente de que vai ser responsabilizada por tudo o que acontecer. Até agora temos a informação de que, por onde essa água passa, ela mata tudo. Caso existam falhas, vamos entrar na Justiça.

Moradores e ambientalistas acompanhavam a mudança da paisagem. Anteontem, dois manifestantes vestidos de morte arrancaram aplausos ao transitar de barco. Um deles carregava uma foice em que estava escrito o nome da Samarco, empresa controlada pela Vale e pela BHP Billiton, responsável pela barragem que se rompeu no dia 5 deste mês, devastando o distrito de Bento Rodrigues.

— Tive coragem de vir aqui só umas quatro horas depois de acordar. O rio já estava assolado há tempos; agora vai acabar de morrer — lamentou a servidora pública Joselita dos Anjos, de 49 anos, moradora de Regência.

TURBIDEZ DA ÁGUA QUATRO VEZES MAIOR

Condições naturais dificultavam a saída da lama para o mar. A barra sul está fechada desde junho, em razão da seca. Há duas semanas máquinas trabalham no local na tentativa de reabri-la. A força do oceano, porém, vem frustrando a ação.

— Nosso interesse é que o fluxo (para o mar) ocorra o quanto antes e seja o maior possível. Quanto mais esse material fica aqui, mais tempo ele tem para se decantar, o que é nocivo para o meio ambiente — avaliou Luciano Cabral, biólogo da prefeitura de Linhares.

Embora a mancha laranja tenha ultrapassado as boias instaladas pela Samarco, Alexandre Souto, gerente-geral de Estratégia, Gestão e Informação da empresa, disse que testes indicaram resultados positivos do trabalho de mitigação de impactos no meio ambiente:

— A água que está passando pelo canal norte, o que está aberto, tem 2.500 NTUs de turbidez. Aqui nas áreas protegidas, temos até 80% menos turbidez. Apesar de visualmente termos dificuldade de acompanhar isso, os testes estão apontando que estamos tendo até 80% de eficiência.

Nove quilômetros de boias, normalmente usadas na contenção de derramamento de óleo, foram instalados em áreas sensíveis do rio. De acordo com o Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Linhares, a turbidez constatada anteontem na região central da cidade, a 50 quilômetros da foz, foi de quatro mil NTUs. O limite para tratamento de água é de mil NTUs.

A importância da Conferência do Clima não está em discussão, mas para o coordenador de campanhas do Greenpeace Brasil, Nilo D’Ávila, a maior tragédia ambiental do país deveria ser a prioridade do governo neste momento. Ele lamentou a desarticulação da resposta ao desastre e a falta de envolvimento de ministros na assistência às vítimas:

— O que assusta é ver o quão pouco o governo federal está fazendo. Parece que foi em outro país. Se eu fosse ministro do Meio Ambiente, não iria à conferência de Paris. Esse desastre é uma tragédia nacional, uma emergência muito mais importante para o Brasil, e não tem sido tratado com a devida relevância. Não vemos uma participação maior da ministra do Meio Ambiente, e o ministro das Minas e Energia sequer se pronunciou. Deveria haver um gabinete de crise — lamentou D'Ávila. (Ana Lúcia Azevedo)



Morte de rinoceronte-branco do norte deixa espécie à beira da extinção

Nola vivia no zoológico de San Diego, nos EUA. Agora, restam apenas três espécimes no mundo


O Globo

RIO — Um dos últimos quatro rinocerontes-brancos do norte morreu neste domingo, em um zoológico em San Diego, nos EUA. Nola, uma fêmea de 41 anos, foi sacrificada pelos veterinários devido à deterioração do estado de saúde do animal após uma cirurgia. Os três espécimes restantes, todos em idade avançada, vivem vigiados em uma reserva ambiental em Ol Pejeta, no Quênia. Eles são a última esperança de reprodução natural da espécie, mas pesquisadores também trabalham em programas de inseminação artificial, que não foram bem sucedidas até então.


Nola era uma fêmea de 41 anos, e foi sacrificada após não se recuperar de uma cirurgia - Ken Bohn/DIVULGAÇÃO

Em comunicado, o zoológico de San Diego anunciou, “com pesar, a morte de Nola”. “É uma perda muito difícil para a equipe de tratamento que trabalhava com ela, nossas voluntários, visitantes e para a espécie em todo o mundo. (...) O legado de Nola vai viver para sempre e sua morte deixa apenas três rinocerontes brancos do norte no planeta”.

No último dia 13, Nola passou por uma cirurgia para drenar um abcesso no quadril, e não conseguiu se recuperar. Ao longo da semana passada, sua situação piorou muito, chegando ao estágio crítico durante o fim de semana, a ponto de os veterinários decidirem pela eutanásia.

Em dezembro do ano passado, Angalifu, um macho que vivia com Nola, morreu de câncer. Em julho deste ano, Nabiré, uma fêmea de 31 anos que estava no zoológico de Dvůr Králové , na República Tcheca, também morreu. Em liberdade, os rinocerontes-brancos do norte foram caçados até a extinção, em 2008, por causa do alto valor do seu chifre em mercados da península arábica e do leste asiático.

Para tentar salvar a espécie, o zoológico de San Diego adquiriu recentemente seis rinocerontes-brancos do sul, que que podem ser usados em futuras tentativas de inseminação artificial com embriões de rinocerontes brancos do norte. No momento, estão sendo realizados estudos para avaliar a compatibilidade genética entre as duas espécies.

Os três rinocerontes-brancos do norte restantes são o macho Sudan e duas fêmeas, Nájin e Fatu. Desde 2009, o grupo vive em uma reserva protegida, vigiados de perto, 24 horas por dia, por seguranças armados.