13 novembro 2015

Incêndio atinge 11 mil hectares do Parque da Chapada dos Veadeiros

Fogo começou após raios atingirem o local, que está fechado para visitação.
Cerca de 50 homens trabalham no combate aos cinco focos de queimadas.


Vitor Santana | G1 GO

O incêndio que atinge o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros já destruiu 11 mil hectares de vegetação, localizados no município de Alto Paraíso de Goiás, no norte de Goiás. Cerca de 50 pessoas, entre bombeiros, brigadistas e voluntários, atuam no combate aos cinco focos de queimada.

Incêndio destrói 11 mil hectares da Chapada dos Veadeiros, em Alto Paraíso de Goiás (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)
Incêndio destrói 11 mil hectares do Parque da Chapada dos Veadeiros (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)

A administradora do parque, Carla Guaitanele, explicou que o incêndio começou no último sábado (7), após diversos raios caírem no local durante uma chuva. Como os locais são de difícil acesso, os bombeiros enfrentam dificuldade no combate ao fogo.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, militares de Minaçu e Porangatu também auxiliam no combate ao incêndio. Também serão usadas duas aeronaves durante o trabalho. A área de visitação do parque está fechada.

De acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pelo local, o incêndio estava atingindo somente a área de preservação. Porém, acabou se propagando de forma rápida e chegou à região aberta à visitação, o que motivou a interdição provisória.

Abrangendo vários municípios, como Colinas do Sul, Cavalcante e Alto Paraíso de Goiás, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros é um dos principais destinos turísticos de Goiás e possui 65,5 mil hectares.


11 novembro 2015

MP quer indenização para vítimas a partir de dezembro

Para o Ministério Público, a Samarco deve arcar com remunerações mensais, plano de indenizações e de reconstrução da comunidade


Valquiria Lopes e João Henrique do Vale | Estado de Minas

O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) quer que a Samarco comece a pagar uma renda básica mensal para os moradores atingidos pelo rompimento das duas barragens em Mariana, na Região Central de Minas Gerais, já no início de dezembro. 



As exigências fazem parte de uma série de recomendações feitas pelo promotor Guilherme de Sá Meneghin, da promotoria de Direitos Humanos da cidade, à empresa, que tem prazo até essa sexta-feira para responder ao órgão.

Nesta terça-feira, o promotor informou que a mineradora sinalizou positivamente em relação ao pagamento às famílias atingidas já no próximo mês.

Ao todo, 631 pessoas que foram desalojadas ou desabrigadas por causa da devastação provocada pela lama das barragens estão hospedadas em hotéis com custos pagos pela Samarco. A promotoria recomendou que a empresa garanta o direito à moradia dos desabrigados, elaborando um cronograma para que as vítimas do rompimento das barragens sejam retiradas dos hotéis e pousadas e levadas para casas e apartamentos. A empresa deve arcar ainda com remunerações mensais, plano de indenizações e um plano de reconstrução da comunidade.

Na segunda-feira, o promotor se reuniu com representantes da empresa que sinalizaram a favor do pagamento da renda básica mensal para os moradores ainda em dezembro. “Os representantes disseram que até sexta-feira vão apresentar um cronograma de realocação dessas pessoas nas casas e também um cronograma de pagamento de indenizações, mas não foi formalmente”, afirmou o promotor Guilherme Meneghin.

O valor estipulado pelo MP é de um salário-mínimo para o morador que estiver sozinho e uma remuneração maior para as famílias. “Tem que observar se a família tem vários filhos. Ela (a empresa) tem que considerar isso. Acreditamos que o salário-mínimo é para aquelas pessoas sozinhas, mas também tem que ser avaliado cada caso”, explicou o promotor.

Guilherme Meneghin estima que serão precisas de 100 a 200 casas provisórias para abrigar as famílias atingidas pela tragédia. Ele afirma que o MP vai lutar para que as famílias tenham a reparação integral. “Elas não podem ficar desamparadas. Têm o direito de serem ressarcidas de todos os prejuízos que tiveram. As pessoas perderam casas, perderam plantações, perderam sua fonte de renda, tiveram dano moral irreparável. Tiveram que sair das suas casas, perderam os seus vínculos comunitários, seus amigos, então, queremos que indenizem tudo isso”, disse.

RESPONSABILIDADE: O inquérito em que o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) investiga a tragédia deve ser concluído em 30 dias. Nessa segunda-feira, o promotor Carlos Eduardo Ferreira Pinto, Coordenador da Promotoria do Meio Ambiente, responsável pela investigação, informou que considera que a Samarco tenha sido 'negligente'.

Também para Meneghin, a empresa tem culpa pela queda das barragens. “Não tenho dúvida de que a responsabilidade da empresa é pelo risco integral, ou seja, ela responde por todos os danos causados a estas vítimas que sofreram diretamente por essa avalanche de terra e lama. O que temos que saber é a extensão desta responsabilidade. Não existe desculpa para não reparar os danos às vítimas, não importa se foi abalo sísmico, não importa a causa deste acidente. Ao se exercer uma atividade arriscada como é a mineração, devem-se assumir todos os riscos desta atividade, especialmente quando é afetada uma comunidade dessa forma”, disse.

10 novembro 2015

Bombeiros e voluntários já resgataram 120 animais em Bento Rodrigues

Cães, cavalos, galinhas e patos já foram recolhidos em meio a lama que cobre o distrito. EM acompanhou o resgate de um potro e sua mãe, que ficaram quase uma semana presos em um cubículo


Daniel Camargos e Cristiane Silva | Estado de Minas

Além da força-tarefa que procura vítimas da onda de lama que destruiu Bento Rodrigues, distrito de Mariana, na Região Central de Minas, dezenas de pessoas estão mobilizadas para atender os animais de estimação e criações que vêm sendo encontrados diariamente em meio ao que restou do povoado.



Desde a última quinta-feira, quando Bento Rodrigues foi atingida pelo desastre causado pelo rompimento de duas barragens da Samarco, 120 animais foram resgatados, segundo o presidente do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Codema) de Juatuba, Heleno Maia. Ele também está na cidade para ajudar nos trabalhos. Segundo ele, cães, cavalos, galinhas e patos já foram recolhidos.

Nesta terça-feira, a reportagem do em.com.br acompanhou o resgate de uma uma égua e seu filhote que estavam presos em um cubículo desde 5 de novembro. Apesar de estar sendo amamentado pela mãe, o potrinho estava bem fraco. Ele foi retirado primeiro e imediatamente atendido por veterinários voluntários de Belo Horizonte, que o examinaram e passaram remédio em pequenos ferimentos.

Um sargento do Corpo de Bombeiros também encontrou um porquinho-da-índia que se salvou do desastre em um lugar inusitado: ele foi achado no quintal de uma casa, dentro do corpo de um liquidificador. Depois dos primeiros atendimentos, eles são abrigados no curral municipal e no canil de Mariana.





'Quando a Manu se soltou do pai, ele só pediu que ela ficasse com Deus', diz tio

Clima de comoção marca enterro da menina Emanuelly em Mariana

A garota de 5 anos é uma das quatro vítimas confirmadas da tragédia na Região Central de Minas Gerais. 

Buscas são feitas por outras 22 pessoas


João Henrique do Vale e Flávia Ayer | Estado de Minas


O clima de comoção tomou conta do velório e do enterro da menina Emanuelly Vitória Fernandes, de 5 anos, na tarde desta terça-feira no Cemitério São Gonçalo, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais. O corpo da garota foi encontrado na Região da Ponte do Gama nessa segunda-feira e reconhecido por familiares na manhã de hoje. Durante a despedida, moradores de Bento Rodrigues que voltaram a se encontrar depois da tragédia e parentes e amigos da garota, se emocionaram. Já foram confirmadas quatro mortes e outras 22 pessoas seguem desaparecidas. Um corpo resgatado da lama segue no Instituto Médico Legal (IML) de Belo Horizonte onde passa por exames para a identificação.


Familiares da menina ficaram emocionados durante o velório. "Uma pessoa inocente e acontece uma morte dessa", afirmou a avó da menina, Gracíola Cristina Fernandes. A mãe, Pâmela Fernandes não quis falar com a imprensa e ficou durante todo o velório abraçada ao caixão da filha. Pâmela está grávida de 3 meses. O marido dela, Wesley Pinto Izabel, ficou ferido na tragédia e está internado no hospital do município de Santa Bárbara. Ele não pôde acompanhar o enterro de "Manu".

O avô da menina, Francisco Izabel, contou como a menina foi arrastada pela lama: "Quando cheguei lá, ela já estava a uns 30 metros de distância. Ela gritou, apareceu no barro, sumiu, apareceu de novo e foi embora”, disse. "Meu irmão disse que quando a Manu soltou dele, ele só pediu que ela ficasse com Deus", conta Wélidas.

Buscas

Os bombeiros continuam as buscas pelas 22 pessoas desaparecidas. Uma mulher que havia sido dado como desaparecida, Maria Aparecida Vieira, de 65 anos, foi encontrada em Santa Bárbara, em casa de parentes, e está bem. Oficialmente, com o reconhecimento do corpo da menina Emanuelly Vitória, são quatro corpos já identificados, e 22 pessoas desaparecidas, 11 funcionários da Samarco e 11 moradores de Bento Rodrigues. Um corpo no IML de BH esperam por identificação.

Na madrugada desta terça-feira, um pequeno tremor de terra foi registrado em Mariana. O tremor, com intensidade de 2,1 graus na Escala Richter, foi detectado pela Universidade de São Paulo (Usp) e não alterou o trabalho dos bombeiros nem causou qualquer problema à barragem de Germano, em Bento Rodrigues. Mesmo assim, foi emitido por rádio um alerta para que as equipes envolvidas nas buscas de desaparecidos não se afastem muito da rota de fuga caso haja algum problema.

Como medida de precaução, a mineradora Samarco decidiu instalar três sismógrafos no entorno da barragem de Germano e onde estava a barragem de Santarém, que se rompeu na quinta-feira. As informações foram divulgadas pelo Corpo de Bombeiros.

Contaminação do rio Doce ameaça vida marinha no Espírito Santo

Estudo do Comitê da Bacia do Rio Doce e biólogo da Estação Biologia Marinha mostram que o impacto ambiental causado pelo desastre é imensurável, e só será contido em 100 anos, pelo menos


Juliana Baeta | O Tempo

O impacto ambiental causado pelo rompimento de duas barragens em Bento Rodrigues, distrito de Mariana, na região Central de Minas, no último dia 5, ainda é pouco divulgado pelos órgãos oficiais. Mas para os ambientalistas já é tido como certo a impossibilidade de se recuperar o rio Doce.

CIDADES . MARIANA , MG

Barragem de dejetos da empresa Samarco rompe e inundou de lama varios distritos de Mariana , interior de Minas Gerais . Estima-se que a lama invadiu mais de 60km . Ha mortos e desabrigados .

O biólogo e ecólogo André Ruschi, que atua na Estação Biologia Marinha Augusto Ruschi em Aracruz, Santa Cruz, no Espírito Santo, acredita que os rejeitos só começarão a ser eliminados do mar em 100 anos, no mínimo.

“Já estamos acostumados a lidar com vários tipos de sonegação de informação, falsificação de resultados, etc. São empresas historicamente inadimplentes e sempre com problemas em cumprir as exigências dos órgãos ambientais nas suas licenças. O primeiro laudo já indicou a presença de mercúrio na água do Rio Doce", comenta.

Segundo ele, a substância poluente já é conhecida na região, porque está na praia de Cambuí, entre outros locais no Espírito Santo. "Assim como mercúrio, há também cromo, arsênio, e outras substâncias que são venenos poderosíssimos”, explica.

No entanto, o laudo da Serviço Autônomo de Água e Esgoto, de Governador Valadares, não confirmou a presença de mercúrio, porque, segundo o órgão, o laboratório não é equipado para fazer este tipo de análise.

A Fundação Ezequiel Dias (Funed) que ficou, então, a cargo desta análise, informou que ainda não recebeu as amostras com a água contaminada pela lama de rejeitos.

Impacto para o ser humano

Ainda de acordo com o biólogo André Ruschi, substâncias como o mercúrio não são eliminadas pelo organismo, uma vez que já foram absorvidas. “Elas vão se acumulando cada vez mais, pouquinho a pouquinho, até atingir uma concentração que causa ou uma doença ou mata o indivíduo”, diz.

“Isso pode durar anos, mas vai acontecer. E tudo vai terminar na cadeia alimentar, esses elementos vão ser absorvidos pelo homem. São elementos químicos puros, e não simplesmente uma molécula que vai se desfazer e vai virar outra coisa. Vai sempre ser uma substância venenosa se acumulando na cadeia alimentar”, analisa.

Além disso, o rio passa por 230 municípios que dependem dele para subsistência e trabalho. Atividades como extração de ouro e outros minerais, materiais de construção, agropecuária e pesca, também podem ser prejudicadas.

Rastro de destruição

Ainda conforme Ruschi, o rio é o eixo dos nutrientes. “Essa lama vai poluindo tudo e deixando resíduos em toda a cadeia, todo o leito do rio. E como o PH já é muito alto no rio, em 10, e é extremamente cáustico, essa lama vai estar matando completamente qualquer coisa do rio, inclusive, espécies exóticas do Rio Doce que estão extintas a partir de hoje”, determina.

E a previsão do especialista já está confirmando. Moradores de Governador Valadares, na região do Rio Doce, já relatam que peixes estão pulando para a fora do rio, possivelmente sufocados pelos rejeitos.

A bacia do rio Doce tem uma área de drenagem de cerca de 86.715 quilômetros quadrados, dos quais 86% pertencem a Minas Gerais e restante ao Espírito Santo. No total, o rio abrange 230 municípios que utilizam o seu leito para trabalhar e sobreviver.

As nascentes do rio ficam nas serras da Mantiqueira e do Espinhaço, em Minas Gerais, sendo que suas águas percorrem cerca de 850 km, até atingir o oceano Atlântico, junto ao povoado de Regência, no Espírito Santo. A bacia está inserida em 98% de sua área dentro da Mata Atlântica e 2% no Cerrado.

Mineradoras já destruíam o rio

O mais grave é que a água de rejeitos vai atingir o Corredor Central da Mata Atlântica, uma área prioritária para a conservação de várias espécies e que engloba os estados da Bahia, Espírito Santo e uma pequena parte de Minas Gerais.

“O Corredor Central da Mata Atlântica é reconhecido como uma importante área de endemismo (vertebrados terrestre, borboletas florestais e plantas) e abriga muitas espécies de distribuição restrita, e alguns grupos de espécies ameaçadas”, descreve o Plano Integrado de Recursos Hídricos da Bacia do Rio Doce realizado em 2010.

O mesmo documento feito pelo Comitê da Bacia do Rio Doce, há cinco anos, já alertava sobre os impactos ambientais causados ao rio por causa da ação de mineradoras: “Outro grande problema ambiental evidenciado na bacia é ocorrência de inundações. O desmatamento indiscriminado e o manejo inadequado do solo criaram condições favoráveis à formação de processos erosivos, que somado aos despejos inadequados advindos da mineração e de resíduos industriais e domésticos, deram origem ao contínuo processo de assoreamento dos leitos dos rios da bacia”.

Espécies possivelmente extintas

Na parte do rio chamada de “Alto Rio Doce” existem cerca de 70 espécies de peixes, das quais 19 (aproximadamente ¼ das espécies) são exóticas. O número de espécies nativas desta parte do rio é alto, e a maior parte delas são de pequeno a médio parte (até 30 centímetros).

Muitas espécies de peixinhos ornamentais, por exemplo, destes, de aquário, são advindas do rio Doce, que é habitado também por espécies de maior porte como o dourado e o surubim-do-rio-Doce, espécie tão específica no leito, que leva até o nome, e está em risco de extinção. Depois do desastre, possivelmente estará extinta.

Ao longo dos anos, os reservatórios de usinas hidrelétricas já contribuíram para dizimar algumas espécies. Nestas áreas já estão ausentes alguns migradores de maior porte como o piauvermelho, o piau-branco e a crumatã, além de várias espécies reofílicas, com destaque para o cascudo-laje, o timburé e diversas cambevas.

Já no leito do rio chamado de “Médio Rio Doce”, e que engloba as drenagens do rio Doce no trecho compreendido entre a área de jusante da foz do rio Matipó até a divisa dos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, também foram registradas 70 espécies, sendo a maioria delas, exóticas.

Uma espécie possivelmente desaparecida após o desastre, é o Genidens genidens, um bagre de origem marinha cuja distribuição se estende ao baixo rio Doce. A ocorrência desta espécie, no entanto, foi feita somente no rio Manhuaçu durante estudos ambientais em 1997.

O “Baixo Rio Doce”, trecho mais alto do leito e também o menos estudado, é lar de no mínimo 70 espécies diferentes, sem contar as espécies que ainda não foram registradas, estudadas ou as espécies marinhas que também habitam o baixo curso do rio devido a localização do trecho nas proximidades da foz até a divisa de Minas Gerais e Espírito Santo.

Além disso, rios derivados do rio Doce, também abrigam uma grande gama de espécies, como o Rio Piracicaba, que tem 32, ou o Santo Antônio, que tem 71. A variedade da fauna do rio é tão extensa, que não há nenhum tipo de contagem oficial dos registros das espécies, segundo o Comitê do Rio Doce. Por isso, é tão difícil mensurar o impacto ambiental causado pelo desastre, já que ele é, provavelmente, imensurável.

“Já era. Não tem como salvar o que já está morto. Nem um mutirão de um milhão de pessoas conseguiria salvar alguma coisa neste momento. O que fizeram com esse rio, que está entre os 100 maiores do mundo, é um crime contra a humanidade. Ele agora é um rio morto que joga seus nutrientes e tudo o mais o que é carregado pelo rio e que não fica na margem, no mar", condena o especialista André Ruschi.

"O medo que algum dia o mar também vire sertão"

"Aqui no Espírito Santo, nós temos a cordilheira submarina Vitória-Trindade que não permite que a corrente marinha atravesse a cordilheira. Então a corrente gira e forma um rodomoinho de 70 quilômetros de diâmetro e que traz tudo quanto é nutriente que está a até quatro mil metros de profundidade para o alto, adubando essa parte superficial do mar. Pense no estrago que isso vai gerar”, explica o biólogo André Ruschi.

Ainda conforme Ruschi, esse giro abriga o maior criadouro marinho do Oceano Atlântico, e por isso foi criada a reserva de Santa Cruz em 2010: para proteger as espécies que ali existem.

“Esse criadouro vai receber essa carga de elementos químicos, que vão ser trazidos ano a ano pelas enchentes da época de chuva, e que vai estar contaminando o mar por tempo indeterminado. A cada ano, com a época de chuvas, uma carga deste material vai descer e vai chegar ao mar. E a situação só vai piorando por todos estes anos. Vão ser precisos de 100 a 150 anos para que a água comece a se limpar deste rejeito”.

Segundo ele, o criadouro abriga espécies como tubarões, tartarugas marinhas, badejos, corais, e outros grandes peixes do oceano Atlântico. “Pra você ter uma ideia, no planeta inteiro, só existem 20 cordilheiras como esta, e o único banco de corais e algas calcárias comparáveis a esta no Espírito Santo, é a Costa dos Corais na Austrália”.


Órgão empenhou 16,6% de verba de fiscalização de barragens até outubro

Departamento Nacional de Produção Mineral tem 200 fiscais no país.
Barragens rompidas em Mariana tinham 'dano potencial alto', diz diretor.


Gabriel Luiz | G1 DF

O Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) empenhou até o dia 19 de outubro 16,62% do orçamento previsto para a fiscalização de atividades minerárias – que inclui vistoria em barragens de rejeitos, como as que se romperam nesta quinta-feira em Mariana (MG). O dado faz parte do relatório de acompanhamento orçamentário do DNPM, disponível na página do órgão na internet.

Distrito foi tomado pela lama após rompimento de barragens em Minas. (Foto: Reprodução/Globocop)
Distrito foi tomado pela lama após rompimento de barragens em Minas (Foto: Reprodução/Globocop)

O orçamento para fiscalização aumentou em relação ao ano passado. Neste ano, estão previstos R$ 10 milhões para fiscalização. Em 2014, o orçamento inicial era de R$ 7,3 milhões, mas, depois de um corte de R$ 1,4 milhão, o órgão teve R$ 5,8 milhões para vistoriar minas e barragens pelo país. Do total previsto do orçamento de 2014 para fiscalização, o DNPM utilizou 61,42% dos recursos.

Segundo o órgão, que é ligado ao Ministério de Minas e Energia, existem 200 funcionários para realizar todas as atividades de fiscalização no país, número considerado insuficiente para atender a demanda, disse ao G1 o diretor de Fiscalização, Walter Arcoverde. “Nós só podemos trabalhar dentro dos limites de recursos humanos e financeiros de que dispomos”, afirmou.

Arcoverde disse que o baixo número de funcionários deve ser agravado com a possibilidade de aposentadoria de parte dos servidores. “O último concurso foi em 2010 e 40% do nosso quadro deve se aposentar nos próximos dois anos.”

No acidente em Mariana (MG), o rompimento das barragens nesta quinta-feira (5) destruiu o vilarejo. O Corpo de Bombeiros de Ouro Preto, que tem equipes no local, confirmou uma morte e 15 desaparecidos no dia do acidente.

O diretor do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria de Extração de Ferro e Metais Básicos de Mariana (Metabase), Valério Vieira dos Santos, afirma que entre 15 e 16 pessoas teriam morrido e 45 estão desaparecidas, mas ainda não há números oficiais de vítimas.

Fiscalização

As barragens que se romperam em Mariana eram monitoradas pelo departamento por apresentarem “dano potencial alto” em caso de problemas, segundo o órgão. Ainda assim, o DNPM informou não ter feito nenhuma vistoria nas barragens. Mas documento enviado pela mineradora Samarco, que explora ferro na região e é responsável pelas barragens, atestava a segurança das instalações.

De acordo com portarias do DNPM, as mineradoras devem enviar relatórios anuais sobre as condições das barragens e com um eventual plano de emergência. Empresas que cumprem as normas têm barragens consideradas de “baixo risco”. Por isso, as fiscalizações são voltadas de preferência para as empresas que não entregam os relatórios, informou Walter Arcoverde.

“A empresa [Samarco] cumpriu todos os procedimentos”, afirmou. Ele reconheceu, no entanto, que a forma de fiscalização pode mudar após acidente em Mariana. “Vamos reavaliar conceitos. O que precisamos é criar uma estrutura de fiscalização das barragens mais forte do que existe hoje.”

Uma das possibilidades, adiantou, seria contratar auditores independentes que chequem presencialmente as informações prestadas pelas empresas, em todo o país. As medidas, discutidas desde o ano passado, dependem de apoio de outras instâncias federais, segundo Arcoverde. Procurado, o Ministério de Minas e Energia não se manifestou.

Em Mariana, o departamento disse ter destacado quatro funcionários (geólogos e engenheiros) para confirmar todas as informações relatadas pela Samarco referentes às barragens. Nesta quinta, a empresa disse “mobilizar todos os esforços para priorizar o atendimento às pessoas e a mitigação de danos ao meio ambiente”.

Barragem em mineradora

Barragens como as de Mariana são estruturas construídas para armazenar resíduos de mineração. Existem 602 em todo o país, mas só 402 são monitoradas pelo Departamento Nacional de Produção Mineral por serem consideradas de maior porte. Em 2014, foram vistoriadas 141 instalações.