22 abril 2015

'Trinta segundos duraram eternidade', diz homem que filmou tornado em SC

Imagens mostram pânico em empresa durante passagem do fenômeno.
'Poste torceu como parafuso', relembra Ronaldo de Oliveira, de 34 anos.


Mariana Faraco
Do G1 SC

Passava das 15h da última segunda-feira (20) quando o gerente comercial Ronaldo de Oliveira, de 34 anos, se levantou da mesa de reunião para pegar um café. Foi quando olhou pela janela da empresa e viu um funil que repente escureceu o céu de Xanxerê, no Oeste catarinense. Era o tornado que se aproximava. "Foram 30 segundos que duraram uma eternidade", disse.



“Não tenho esse costume, mas comecei a filmar por curiosidade. Pensei que pudesse ser uma tempestade ou uma tromba d’água, aqui sempre tem ventos fortes”, conta o gerente comercial de uma fábrica de sacarias de ráfia.

"Meu Deus, minha casa!", diz uma voz. "A fábrica foi toda", narra Oliveira no vídeo, que na hora pensou no filho. "Meu piá!". É possível perceber pessoas com a voz embargada diante de toda a destruição.

'Poste torceu como parafuso'

“Primeiro vieram os galhos, depois árvores inteiras. Dava pra sentir o vento batendo na parede. A força era tanta que derrubou o ar-condicionado, arrastou carros. Um poste torceu como um parafuso”, lembra Oliveira.

Ele conta que o grupo de funcionários se protegeu em um corredor. “Foram 30 segundos no meio do tornado, mas pra mim pareceram 30 minutos, ou uma eternidade”, diz Oliveira, que mal teve tempo de rever as imagens impressionantes que registrou.

A empresa, que fica no bairro Colatto, foi parcialmente destruída. “Ainda estamos avaliando os prejuízos com as máquinas”, contou ao G1 por telefone, enquanto dava instruções a funcionários.

Foi só na volta para a casa, a pé, que Oliveira se deu conta do tamanho do estrago. Naquele dia, por acaso, ele havia deixado o carro com a esposa – "se estivesse no estacionamento da empresa, certamente o veículo teria sido destruído", diz.

“Fui caminhando e vendo imóvel no meio da rua, carros virados, casas de dois andares caídas pela metade. Imaginei que a cidade inteira tivesse acabado”.

Bastante impactado pelo cenário de destruição, ele também registrou o momento em um segundo vídeo. “Espero que isso nunca mais aconteça”, diz Oliveira.

Tornado causou destruição

O tornado que atingiu o Oeste catarinense na segunda-feira (20) deixou 2 mortos, 120 feridos e cerca de mil desabrigados. Ao menos 13 pessoas seguem internadas nesta quarta-feira (22) em hospitais da região, três delas na UTI. Entre as vítimas mais graves está um menino de 7 anos, filho de um homem que morreu em um desabamento em Xanxerê, após salvar a mulher e a outra filha do casal, de 3 meses.

A cidade de Xanxerê decretou estado de calamidade pública. Com isso, a cidade deve receber ajuda do estado e do governo federal.

O tornado, de acordo com o Inmet, foi classificado entre F2 e F3, numa escala que vai de F0 (mais fraco) a F5 (mais forte), com danos "de fortes a severos". De acordo com essa escala, os ventos podem ter variado de 100 km/h até 330 km/h.




Embaixadas também invadiram área de preservação do Lago Paranoá

Matheus Leitão | G1

As embaixadas da China, da Inglaterra e da Holanda também estão na lista de desocupações a serem realizadas em Brasília no processo em andamento na orla do Lago Paranoá, localização de bairros nobres da capital federal.




As chancelarias se juntam às residências oficiais dos presidentes da Câmara dos Deputados, do Senado e da Marinha que ocupam irregularmente as Áreas de Preservação Permanente (APP), que são aqueles 30 metros determinados pelo novo Código Florestal para preservar os rios ou qualquer curso d’água. As três embaixadas, assim como as residências oficiais, estão localizadas na beira do lago.

O governo do Distrito Federal acionou o Palácio do Itamaraty para contactar as embaixadas sobre as irregularidades e evitar qualquer problema diplomático caso os muros tenham que retroceder para se adequar à lei. O caso mais grave é o da embaixada da China, que invadiu quase 2 mil metros quadrados em um terreno antigo, entre APPs e áreas públicas.

A decisão pela desocupação veio de uma batalha jurídica que transitou em julgado em 2011, na Vara do Meio Ambiente do DF. Desde então, a Justiça vem cobrando do governo do Distrito Federal providências para a desocupação da área.

Um decreto editado durante a gestão do ex-governador Agnelo Queiroz (PT) tentou modificar a lei, alterando de 30 para 15 metros as APPs, o que provocou vários questionamentos judiciais e atrasou a desocupação.

Após o decreto ser considerado inconstitucional, a Justiça do DF finalmente homologou um acordo para o cumprimento das obrigações determinadas. No entanto, uma decisão liminar (provisória) do Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) suspendeu até o julgamento do mérito toda desocupação prevista.

Procurada pelo Blog, a embaixada da Holanda informou que está ciente de que outros moradores foram informados pela Agência de Fiscalização do Distrito Federal (Agefis).

“O governo holandês, como proprietário do lote, não recebeu comunicado nenhum através do caminho oficial. Para comunicação com o governo holandês, a embaixada deveria ser formalmente notificada pelo Itamaraty”, disse a embaixada por meio de nota.

Indagada sobre se iria se adequar em caso de notificação, a embaixada da Holanda informou que, “usufruindo a hospitalidade brasileira, o governo holandês, de toda a maneira, sempre cumprirá e respeitará a lei brasileira dentro da interpretação do Tratado de Viena”.

Procuradas, as embaixadas da Inglaterra e da China não responderam até a última atualização deste post.


20 abril 2015

Brasil foi o país com maior número de ambientalistas assassinados em 2014

ONG Global Witness registrou 116 mortes, das quais 29 foram no Brasil.
Mortes estão relacionadas a conflitos na agricultura, mineração e energia.


Do G1, em São Paulo

Um relatório da ONG britânica Global Witness divulgado nesta segunda-feira (20) afirma que o Brasil foi o país com o maior número de ambientalistas assassinados em 2014. Foram registradas 29 mortes no país.

Site da organização Global Witness publicou relatório 'How man more?', sobre violência contra ambientalistas (Foto: Reprodução)Site da organização Global Witness publicou relatório 'How man more?' em seu site nesta segunda-feira; documento fala sobre violência contra ambientalistas (Foto: Reprodução)

Ao todo, foram documentadas 116 mortes de ambientalistas em 17 países. No ranking de violência contra os ativistas, o Brasil é seguido por Colômbia, com 25 mortes, Filipinas, com 15 mortes e Honduras, com 12 mortes.

Globalmente, mortes de ativistas ambientais alcançaram uma média de mais de duas por semana em 2014, crescimento de 20% frente ao ano anterior, segundo o relatório.

De acordo com o relatório "How many more?" ("Quantos mais?", em português) Honduras foi considerado o país mais perigoso para ativistas ambientais nos últimos cinco anos, com o maior número de mortes per capita. Foram 101 assassinatos entre 2010 e 2014.

A maioria das mortes, segundo a organização, está relacionada a conflitos na agricultura, na mineração e no estabelecimento de usinas hidrelétricas. Cerca de 40% das vítimas eram indígenas.

“Historicamente, tem havido uma distribuição de terra desigual na América Latina, o que tem causado conflitos entre companhias locais e estrangeiras e comunidades”, disse Billy Kyte, da Global Witness, à Thomson Reuters Foundation.

“Governos na América Latina não estão tratando esse problema com seriedade. Níveis de impunidade são muito altos e os perpetradores ficam livres”, disse.


19 abril 2015

Instituto inicia projeto para proteger nascentes do Vale do Rio Doce

Plano para recuperar região que vai de Minas ao Espírito Santo custará R$ 2,5 bilhões ao longo de 30 anos


Míriam Leitão | O Globo

Aimorés (MG) e Colatina (ES) - Adonai Lacruz, administrador do Instituto Terra, começa a falar com naturalidade como se não fosse espantosa cada frase do que está dizendo:

— O primeiro sonho já está realizado. O instituto plantou uma floresta. Foram dois milhões de mudas plantadas que cresceram e hoje são árvores. Os 700 hectares da fazenda estão cobertos. O viveiro produziu, ao todo, quatro milhões de mudas, em 16 anos, para nós e outros projetos. Agora estamos começando outro sonho: proteger todas as nascentes do Vale do Rio Doce. Vai levar 30 anos.



O Rio Doce nasce em Ressaquinha, na Mantiqueira, em Minas, percorre 853 quilômetros até encontrar o Oceano Atlântico em Regência, Espírito Santo
Foto: Márcia Foletto
O Rio Doce nasce em Ressaquinha, na Mantiqueira, em Minas, percorre 853 quilômetros até encontrar o Oceano Atlântico em Regência, Espírito Santo - Márcia Foletto

Transformar uma terra seca numa floresta que hoje enche os olhos de verde é muito, mas fazer um programa para todo o vale parece loucura. É um território do tamanho de um país, equivale a um Portugal. Mas no instituto a gente começa a achar que o impossível acontece. O Rio Doce e todos os seus afluentes estão incluídos no novo sonho, que é o de cercar cada um dos 375 mil olhos-d’água. O rio que nasce em Ressaquinha, na Mantiqueira, em Minas, percorre 853 quilômetros até encontrar o Oceano Atlântico em Regência, Espírito Santo.

Quando as pessoas que trabalham no instituto fundado por Lélia e Sebastião Salgado falam que estão começando um trabalho, é porque andaram bastante. Nos últimos quatro anos, o projeto foi elaborado e teve definidos seu custo e sua viabilidade. Já está encerrado o piloto, no qual foram protegidas quase mil nascentes do Rio Doce ou nos seus afluentes.

O projeto é procurar cada um dos pontos onde mina água — ou onde há chance de que a água aflore —, cercar 0,8 hectare em volta desses pontos e plantar algumas árvores para proteger. Além disso, o produtor que aderir ao projeto receberá dois presentes preciosos: o Cadastro Ambiental Rural (CAR) e o esgotamento sanitário instalado na propriedade. E de sobra ganhará como cartão de visitas uma placa de que aquela propriedade está no Projeto Olhos D’Água.

— Nós trabalhamos muito para transformar o projeto em unidades, para saber o preço de cada pedaço. O kit é este: duas nascentes protegidas, a regularização ambiental através do CAR e o tratamento do esgoto. O custo é de R$ 6 mil por unidade — diz Lacruz.

O projeto completo tem um custo que assusta à primeira vista. São R$ 2,5 bilhões, mas para serem investidos ao longo de 30 anos. A certeza que se tem por lá é que ou se faz assim, anulando cada traço deixado por anos de degradação da terra e agressões aos rios, ou não haverá água para as futuras gerações. A equipe do jornal passou dois dias visitando produtores rurais, vendo de perto as nascentes cercadas, conversando com técnicos agrícolas, gerentes do projeto e o prefeito de Colatina, que é o presidente do Comitê da Bacia do Rio Doce. Dias depois, nova viagem ao Espírito Santo para conversar com Lélia e Sebastião Salgado.

O instituto dá o material para fazer a cerca, mas quem a faz é o dono da terra. O CAR, que é visto como difícil de ser cumprido pelas várias exigências burocráticas do novo Código Florestal, é feito pelos técnicos do projeto. O esgoto é totalmente instalado pelo instituto, usando tecnologia da Embrapa, simples e eficiente. Três caixas de fibra de vidro processam e destilam os resíduos do banheiro com bactérias de esterco de boi. No final do processo, sai uma água com adubo orgânico, rico em nitrogênio.

Mário Cesar de Lacerda morou em Sorocaba, e depois em Vitória, onde enfrentou várias vezes a violência urbana. Decidiu realizar seu sonho de voltar para a área rural. Ele se define como uma pessoa que tem “a cabeça voltada para a roça”. Comprou uma propriedade de 150 hectares em um distrito de Aimorés chamado Conceição do Capim. Numa das casas do pequeno lugarejo, nasceu o fotógrafo Sebastião Salgado. Mário Cesar já protegeu seis nascentes:

— Nesse tempo de seca, não secou nenhuma. No meu vizinho, secou.

BENEFÍCIOS PARA GRANDES PROPRIEDADES

Esse mesmo contraste entre o verde molhado da propriedade e a seca do vizinho pode se ver também na casa de Adão Alves da Silva e de sua mulher, Eliana, em Expedicionário Alício, em Minas. Ele cria gado e seus pastos estão visivelmente mais verdes do que os da propriedade vizinha.

— Nós não tivemos as águas este ano, mas aqui não faltou, pelo contrário. Tenho água para a irrigação e está sobrando capim para as minhas vacas de leite — diz Adão.

Até as grandes propriedades, como a Fazenda Santa Isabel, de 1.500 hectares, com 1.300 cabeças de gado, têm sido beneficiadas pelo programa. Já protegeram 20 nascentes e querem cercar todas as outras.

— Eu conto com o instituto, porque temos enfrentado muitos períodos de seca por aqui — diz o supervisor administrativo da fazenda, José Geraldo Teixeira.

Ao dividir um programa ambicioso em unidades de R$ 6 mil, o Instituto Terra viabiliza apoios. A Fundação Anne Fontaine, por exemplo, está no terceiro ano de incentivo ao programa. Tem doado US$ 40 mil por ano. A EDP de Portugal é parceira, a Vale também. A ArcelorMittal acabou de fechar um convênio para fornecer R$ 7 milhões em material para cercar as nascentes. Tudo isso dá só para o começo. O BNDES não aprovou ainda o apoio ao projeto. Os governos de Minas e Espírito Santo assinaram parceria.

O Rio Doce ainda é belo em muitos trechos. Parece forte. Em outros, se vê os bancos de areia, o assoreamento, o resultado dos despejos de esgoto. Será preciso um trabalho demorado para protegê-lo. Quem vai ao Instituto Terra e anda por Minas e Espírito Santo, olhando as nascentes brotando do chão, em plena seca, volta acreditando que loucura é não sonhar em salvar o Rio Doce.