06 setembro 2015

Como um país pode despoluir suas águas

Gero Rueter | Deutsch Welle

Melhorar a qualidade da água e do tratamento de esgoto na Alemanha exigiu que as autoridades se desdobrassem em busca de soluções. "O estado dos rios melhorou significativamente e o problema de descarte tóxico por parte da indústria está praticamente resolvido", diz Gehard Wallmeyer, membro fundador do Greenpeace no país.


© Fornecido por Deutsche Welle

Nos anos 1980, os ambientalistas da ONG usaram um navio laboratório para analisar o que a indústria despejava nos rios. "As autoridades permitiam o descarte de resíduos como as empresas desejavam. Praticamente não havia restrições e tudo ocorria em segredo. Com a nossa pesquisa e análise, a prática tornou-se pública – o que gerou muito tumulto político", conta Wallmeyer.

Catástrofes ambientais também chamaram a atenção da população e de políticos para o assunto. Em maio de 1986, a usina nuclear de Chernobil, na antiga União Soviética, explodiu e contaminou boa parte da Europa com radioatividade. Meio ano depois, após um grande incêndio na empresa química Sandoz, pesticidas e mercúrio altamente tóxicos foram despejados no Rio Reno, na altura da cidade de Basileia – na fronteira franco-suíça – matando peixes e pequenos organismos ao longo de mais de 400 quilômetros. A água potável também foi contaminada em diversos lugares.

Como reação, o então chanceler federal alemão Helmut Kohl criou, em 1986, o Ministério do Meio Ambiente. "Todos esses acontecimentos tiveram como consequência a introdução de medidas drásticas: leis foram estabelecidas, as autoridades reagiram, e as empresas procuraram alternativas mais ecológicas", explica Wallmeyer.

Política ambiental

Nas décadas seguintes, a qualidade da água nos rios melhorou visivelmente. A indústria buscou processos de produção que respeitassem a natureza, e por toda parte foram construídas estações de tratamento de águas residuais, onde o esgoto é tratado principalmente com a ajuda de bactérias.

O tratamento de efluentes é financiado proporcionalmente: quem suja menos, gasta menos, quem suja mais – e descarta água muito contaminada – paga mais caro.

Os fosfatos, que até a década de 1980 podiam ser usados nos detergentes alemães, representavam outro problema sério. Descartado de forma irregular, o elemento promove a proliferação de algas, que diminuem os níveis de oxigênio na água e contribuem para a mortandade dos peixes.

Com a proibição de fosfatos nos detergentes e a extensão da restrição a outros produtos de limpeza, "a qualidade da água ficou muito melhor", diz Stephan Köster, do Instituto de Gestão de Águas Residuais e Proteção da Água da Universidade de Hamburg-Harburg. "A redução de fosfatos nos detergentes e o desenvolvimento do tratamento da água residual foram os marcos importantes."

A tecnologia para o tratamento de esgoto está tão avançada "que as águas residuais podem virar água para consumo de alta pureza", diz Köster. Até onde irá o tratamento do esgoto, porém, depende de empenho político. "Na Alemanha, podemos fazer ainda mais. O tratamento baseia-se exatamente no que a lei exige."

Hormônio na água

Os remédios são um grande problema para as águas. O tratamento de esgoto não retém os medicamentos, que acabam sendo levados para os rios. "Hormônios deixam caracóis e anfíbios com características femininas, reduzindo a população de machos e interrompendo a reprodução", explica Wallmeyer.

A Agência Federal do Meio Ambiente (UBA, na sigla em alemão) busca medidas para conter o problema. "Algo precisa ser feito a respeito. Os medicamentos não podem ser jogados no vaso sanitário, e as estações de águas residuais precisam de uma etapa adicional de purificação", recomenda Jörg Reichenberg, da UBA.

A Suíça é pioneira no assunto, porque tem leis a respeito sendo postas em prática. Segundo a UBA, os gastos de um tratamento adicional de águas residuais são aceitáveis. "Por ano e por pessoa, os custos adicionais seriam de 16 euros por ano", diz Reichenberg.

Adubo demais

Já a agricultura ameaça a água potável. Durante décadas, os agricultores fertilizaram o solo com esterco das fábricas de ração animal. O estrume – com o fosfato e o nitrato nele contido – se infiltra através do solo e contamina águas subterrâneas, rios e lagos.

Os danos são imensos. A concentração de nitratos cancerígenos nas águas subterrâneas aumenta cada vez mais e, com ela, o custo do tratamento da água, que deve ser pago pelos consumidores.

Até agora, pouco mudou na Alemanha a esse respeito. A Comissão Europeia ameaça abrir processo por infração devido a níveis elevados de nitratos na água potável.

O governo alemão quer enfrentar o problema. Prevê-se que, futuramente, os agricultores precisarão documentar exatamente o manejo do estrume. Se eles tiverem muito animais – e muito esterco – deverão exportá-lo. Fertilizar o campo como tem sido feito até agora deve render multa.

Céticos e otimistas

A aposta é que essas medidas vão melhorar bastante a qualidade da água. Mas também há quem duvide de uma mudança significativa enquanto a agricultura for industrializada.

Para melhorar a qualidade da água, na avaliação de Reichenberg, "é preciso promover a agricultura orgânica." Seu colega Dietrich Schulz, especialista em pecuária na Agência Federal do Meio Ambiente, concorda, mas é mais cético. "A economia agrícola vai, infelizmente, na direção oposta."



Postar um comentário