29 março 2014

Famílias atingidas pela cheia em Rondônia vivem em flutuantes no Rio Madeira

Quase 7 mil pessoas foram retiradas de São Carlos, distrito alagado pelo rio.
Rio Madeira subiu e alcançou a marca de 19,68 metros nesta sexta-feira, 27.


Ivanete Damasceno
Do G1 RO

Quase sete mil pessoas que viviam em São Carlos, distrito de Porto Velho localizado no Baixo Madeira, foram retiradas de suas casas pela maior enchente do Rio Madeira, em Rondônia. A maioria foi acomoda em distritos na parte mais alta da região, outras estão em abrigos em Porto Velho. Há quem decidiu ficar e resolveu fixar moradia em cima de flutuantes (espécie de casas aquáticas) para cuidar dos pertencentes que foram deixados em São Carlos, inclusive, a própria casa. Na sexta-feira (28), o nível do Rio Madeira atingiu a cota de 19,68 metros e já ultrapassa em mais de dois metros o recorde da maior cheia, há 17 anos. Mais de 4,6 mil famílias já deixaram suas casas por causa da enchente em Rondônia.

É o caso do barqueiro Zenaldi Oliveira dos Santos, 36 anos, que teve a casa invadida pela água em São Carlos. Ele já trabalhava há cerca de cinco anos na travessia dos moradores do distrito de uma margem para a outra do rio. Ao ter a casa invadida pela água, pegou a voadeira (pequena embarcação movida a motor) para continuar trabalhando na travessia de quem deseja descer o rio e para dormir, muitas vezes apenas arma uma rede e passa a noite ali mesmo. “Já dormi várias vezes aqui. Vejo essa água que continua aumentando, invadindo minha casa, quase nem acredito. A correnteza do rio está muito forte e, por isso, estou dormindo num barco de um amigo. É mais seguro para fugir de cobras”, afirma o barqueiro.

Zenaldi levou o comerciante Alzeri Bormann para verificar de perto a situação de São Carlos. Membro de um movimento que tem o objetivo de ajudar comunidades carentes, o comerciante conta que conhece bem a localidade porque costuma ir com a família e amigos pescar. “O local onde estacionava o carro para atravessar o rio, está coberto. Eu olho e vejo tudo debaixo d’água. Com a natureza não se pode brincar”, enfatiza Alzeri.

No ponto onde o afluente Rio Jamari deságua no Rio Madeira, um hotel flutuante abriga cerca de 20 pessoas. A proprietária do local, Marilene Montenegro, conta que os moradores não tinham para onde ir. A própria Defesa Civil, diz ela, pediu para quem tivesse condições, abrigar os atingidos pela cheia. “Aqui a gente tenta levar uma vida normal. Todos os dias, os homens saem, vão olhar a casa deles. Hoje, foram colher açaí. Tem dias que saem daqui para pescar mais em cima. Aqui já não podemos pescar, a água está contaminada. Todo dia aparece peixe morto”, ressalta Marilene.


RO Rio madeira Hotel flutuante onde Marilene abriga cerca de 20 pessoas (Foto: Ivanete Damasceno/G1)RO Rio madeira Hotel flutuante onde Marilene abriga cerca de 20 pessoas (Foto: Ivanete Damasceno/G1)


Já Cleusa Reis Silva mora há 25 anos em São Carlos. Ela fez do local de trabalho, um restaurante flutuante, a sua moradia. A cozinheira conta que quando a água começou subir, todos abandonaram o trabalho para tentar salvar as coisas. “Foram três dias de muito desespero. A cada hora você via que a água estava mais alta. A gente não conseguia nem ajudar outras pessoas”, lembra.

Cleusa diz ainda que a maior cheia que ela tinha passado tinha sido em 1997, quando o nível do Rio Madeira atingiu 17,52 metros. Mas, à época, o rio não alagou todo o distrito. “Conheço gente em São Carlos que perdeu tudo. Não deu tempo de salvar nada. Fiquei sabendo de uma mulher que construiu a casa dela, pintou, colocou cerâmica e antes de entrar, o rio tomou conta. Coitada. Perdeu tudo”, lamenta.

Os moradores dizem que não tem problemas de viver no flutuante. É preciso apenas ter cuidado com bichos peçonhentos, como cobras, que fazem constantes visitas aos moradores. "A vida aqui é simples, mas é boa. A gente passa aperto, mas não tem como largar tudo. Vai pra onde? Vamos esperar o rio baixar. É aqui a nossa vida", finaliza Marilene Montenegro.


28 março 2014

Brasil vive um conflito por água a cada quatro dias

Em 2013, número de disputas cresceu 17%; Foi o segundo ano consecutivo de aumento, segundo Comissão Pastoral da Terra.


BBC Brasil

As disputas por recursos hídricos no Brasil atingiram um novo recorde histórico em 2013, segundo dados preliminares do levantamento anual feito pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), obtidos com exclusividade pela BBC Brasil.

Foram identificados 93 conflitos por água em 19 Estados, o maior desde 2002, quando eles passaram a ser monitorados pelo órgão, que é ligado à Igreja Católica. Isso representa um conflito hídrico a cada quatro dias.

No ano passado, houve um aumento de 17% no número de disputas em relação a 2012. Foi o segundo ano seguido de intensificação dos conflitos. Em 2012, houve 79 conflitos, um aumento de 16% em relação a 2011.

Apropriação

No ano passado, a Bahia foi o Estado que mais teve disputas deste tipo, num total de 21. Em segundo lugar, ficou o Rio de Janeiro, com sete disputas.

O Nordeste foi a região mais conflitante, com 37 casos registrados, seguido pelo Norte do país, com 27 casos.

De acordo com a CPT, muitas destas disputas ocorrem para evitar a apropriação de recursos hídricos por empresas, como mineradoras e fazendas, ou para impedir a construção de barragens ou açudes.

'Além da investida na Amazônia, com a construção de duas grandes hidrelétricas, de Belo Monte e Tapajós, o cerrado e a Mata Atlântica também têm sofrido com mais conflitos por causa de disputas de territórios entre comunidades pobres e grandes empresas de mineração e agricultores', afirma Isolete Wichinieski, coordenadora nacional do CPT.




Preservação

Muitas das disputas também ocorrem por ações de resistência, em geral coletivas, para garantir a preservação da fonte de água.

'Hoje existe uma maior preocupação em preservar o meio ambiente, o que também gera mais embates', afirma Wichinieski.

O relatório completo sobre conflitos hídricos será divulgado pelo CPT no próximo mês.

Cantareira tem nova queda e chega a nível menor que 14% pela primeira vez

Volume acumulado chegou a 13,8% nesta sexta-feira (28).
Não chove desde segunda (24) na região dos reservatórios.


Do G1 São Paulo

Os reservatórios do Sistema Cantareira tiveram mais uma baixa em seus níveis e bateram mais um recorde após a medição desta sexta-feira (28). O índice chegou a 13,8% e, pela primeira vez na história, atingiu um volume acumulado menor do que 14%.

O nível é 0,2% menor do que o registrado nesta quinta-feira (27), que era de 14%. Cumprindo as expectativas dos meteorologistas, que previram pouca chuva para o Outono, já não chove desde segunda-feira (24).

“A tendência é de redução das chuvas. O que tinha que chover, não choveu no verão. Agora é uma estação de transição, ainda chove um pouco, mas a tendência é de redução”, disse Kleber Souza, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (InMet).

Recorde também no Alto Tietê

Atualmente com 37,6% da capacidade, o Sistema Alto Tietê tem o nível mais baixo dos últimos dez anos para o mês de março. Segundo a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), desde dezembro as represas da região abastecem parte da Zona Leste da capital, que normalmente é atendida pelo Sistema Cantareira. De lá para cá, o Sistema Alto Tietê viu seu volume de água cair 11,3%. A Sabesp informou que, com a mudança, 1,6 milhão de pessoas passaram a receber água do Sistema Alto Tietê e também do Guarapiranga.

O governo estadual tomou a medida de emergência em razão do nível crítico do Sistema Cantareira, mas a decisão só foi anunciada pelo governador Geraldo Alckmin no dia 6 de março. Contudo, a Sabesp afirma que a produção de água do sistema continua em 14,65 m³/s, mesmo após o plano de emergência. A Sabesp não informou se há um tempo limite para uso dos recursos do Alto Tietê.




Saiba como economizar

Para economizar água, a Sabesp recomenda que o consumidor adote algumas atitudes diárias. Veja abaixo:

- Tome banhos rápidos e feche a torneira ao se ensaboar;
- Lave a louça de uma vez e feche a torneira ao ensaboá-la;
- Não lave a calçada nem o quintal, use a vassoura;
- Ao lavar o carro, use um balde;
- Acumule roupas para lavar na máquina de uma vez só;
- Deixe a torneira fechada ao escovar os dentes e fazer a barba.

Outro fator que colabora para o desperdício de água são os vazamentos. A Sabesp oferece um curso gratuito que ensina práticas simples para identificar possíveis problemas em instalações hidráulicas. O programa é aberto ao público em geral e é ministrado nos períodos da manhã e da tarde.

Os participantes recebem uma cartilha explicativa ilustrada e um certificado de conclusão.

Quem se interessar deve procurar a regional da Sabesp mais próxima de sua residência. Visite o site da empresa para conferir os endereços.


26 março 2014

Surto de leptospirose é questão de dias, diz diretor de laboratório em RO

Laboratório público informa que as amostras estão chegando a toda hora.
Aumento de mais de 300% é registrado, comparando mesmo período de 2013.


Assem Neto
Do G1 RO

Nos primeiros 72 dias do ano, foram confirmados 50 casos com sorologia positiva para leptospirose em Rondônia, de acordo com dados do Laboratório Central de Rondônia (Lacen). Em 2013, foram registrados 15 casos, com um aumento de mais de 300% em comparação ao mesmo período. "Certamente teremos um surto da doença em no máximo 60 dias”, projetou o diretor-geral do Lacen, Luiz Tagliari. "São 34 casos confirmados com análise e reanálise, e outros 16 casos que, embora tenha sorologia positiva, podem ter entrado no sistema em duplicidade. Estamos investigando esta possibilidade", informou o chefe do Núcleo de Vigilância Ambiental da Vigilância Sanitária do estado, Cesarino Júnior Lima.

As notificações que geram dúvidas são enviadas ao Instituto Evandro Chagas, em Belém (PA). A Gevisa acionou as prefeituras das cidades com casos confirmados para detalhar o prontuário de cada paciente. "Só assim saberemos se esses pacientes tiveram contato direto com a água contaminada e se a duplicidade ocorreu, por conta do paciente realizar exame em mais de uma unidade de saúde, gerando dois resultados do mesmo paciente", diz Lima. "O que nos intriga são os 16 casos registrados em Machadinho do Oeste, cidade não afetada pelas cheias. Várias hipóteses são levantadas, inclusive a conduta da população sobre os cuidados pessoais de higiene", conclui.




Porto Velho tem 11 casos registrados, dez pacientes habitam nos bairros atingidos pelas enchentes, segundo o secretário de Saúde de Porto Velho, Domingos Sávio, que acrescenta que os números de casos serão atualizados na tarde desta sexta-feria (14).

O Ministro da Saúde, Arthur Chioro, telefonou para o diretor do Lacen preocupado com a quantidade de kit´s de sorologia. A última atualização, às 20h desta quarta, indicava que em todo o estado 50 pessoas teriam contraído leptospirose.

“As amostras chegam a todo instante, a maioria com pedido de urgência. Esses números mudarão praticamente todo dia”, diz o chefe do Núcleo de Biologia Médica do Laboratório Central, Marcelo Sartori. Cada kit realiza 90 testes. Há quatro deles à disposição do Lacen e o ministro enviou outros cinco. A cidade de Ariquemes tem 4 casos confirmados; Ouro Preto do Oeste, 3; Cacoal; 1; Colorado do Oeste,1 e Vale do Paraíso, 1.

As autoridades sanitárias intensificam o apelo para que a população não beba água de poços nos 12 bairros inundados em Porto Velho, nos distritos da capital e nas três cidades (Santa Luzia, Rolim de Moura e Guajará-Mirim) que enfrentam situação de emergência. O período de incubação da bactéria pode levar 30 dias, o tempo que, de acordo com os meteorologistas, pode ser registrada a estabilidade no nível do rio com diminuição das águas nas áreas afetadas. “Esses casos devem triplicar, ou até mesmo quadruplicar, com o primeiro sinal de vazante do rio”, profetizou o diretor do laboratório. As amostras são determinadas após o atendimento médico nas Unidades de Pronto-Atendimento (UPA´s) e demais unidades de saúde.


Grau de contaminação da água em RO é imensurável, diz professora da USP

Mais de 100 poços devem ser interditados em distrito de Porto Velho.
Em Porto Velho, dosagem de cloro é aumentada para descontaminação


Assem Neto
Do G1 RO

Mais de 100 poços amazonas, artesianos e semi-artesianos serão interditados em Velha Jacy, comunidade próximo a Jacy-Paraná, distrito de Porto Velho distante cerca de 90 quilômetros da capital. A decisão será tomada pela Sala de Gerenciamento de Crise, atendendo a recomendações da pesquisadora Irma Nelly Guttierrez Rivera, professora da Universidade de São Paulo (USP) e embaixadora do Brasil na Sociedade Americana de Microbiologia (ASM). "Neste momento é impossível mensurar quais doenças essas pessoas estão contraindo", afirma a pesquisadora.

Velha Jacy não possui rede urbana para água tratada, e uma população estimada em 4 mil pessoas depende, exclusivamente, de vertentes e poços. "Sem tratamento de esgoto, todo o dejeto produzido ali está indo direto para a água do rio, que afeta outros milhares de habitantes, elevando o risco de doenças diarreicas", avalia a professora. Nos primeiros meses de 2014, 45 casos de leptospirose foram confirmados, sendo 15 na capital, que enfrenta a cheia histórica do Rio Madeira.




Mais de 16,5 mil pessoas estão fora de suas casas, 12 bairros estão inundados, com contaminações imprevisíveis. "Os poços estão submersos. Somente quando as águas baixarem haverá uma avaliação na capital. Certamente, 100% dessas fontes estão infestadas de toda a sorte de micróbios, bactérias", concluiu o secretário de Saúde Domingos Sávio.

Como medida de prevenção, a Companhia Estadual de Esgoto (Caerd), aumentou a dosagem de produtos químicos na água enviada às áreas central e norte da cidade, as mais afetadas pela cheia. "Nossa rede está submersa. Estamos monitorando o sistema para a descontaminação bacteriológica, sem carregar na concentração de cloro", disse o diretor de Operações da companhia, Nelson Marques.

Para amenizar os problemas, a Caerd vai transferir o motor das bombas d’água para um flutuante no Rio Madeira, por conta da cheia histórica, que invadiu a casa de bombas da estação de abastecimento.

O secretário de Saúde de Porto Velho, Domingos Sávio, disse que a avaliação de risco apontou "comportamentos "muito sérios das famílias que não estão desabrigadas, mas foram atingidas e continuam utilizando essa água para beber e cozinhar". As autoridades e demais instituições aliadas aos órgãos de Defesa Civil do estado e do município, buscam soluções para garantir o consumo de água limpa após a interdição, que pode ocorrer nas próximas horas. "O envio de carros pipa é uma ideia em estudo", informou o secretário.

A pesquisadora sugere que o poder público adote, imediatamente, uma campanha de educação e saúde para mudar o hábito das famílias que dependem do Rio Madeira e seus afluentes transbordados. "Já passou da hora de verificarmos os agravos mais frequentes durante a enchente relacionados ao consumo de água", alerta Irma.

A professora alegou problemas de agenda, o que a impossibilitou de visitar outras cidades atingidas pela cheia histórica do Rio Madeira. Porém, ao retornar a São Paulo, ela levou amostras de água para mensurar quais doenças os rondonienses atingidos estão sujeitos durante e depois da cheia.

Cheia do Rio Mamoré já atinge mais de 500 famílias em Guajará-Mirim, RO

Cinco bairros do município já foram afetados.
Comércios montam barreiras para impedir o avanço da água.


Dayanne Saldanha
Do G1 RO

A cheia do Rio Mamoré continua a causar prejuízos à população de Guajará-Mirim (RO). Desde a última sexta-feira (21) o nível subiu mais de 30 centímetros. “Parece pouco, mas como já ultrapassou a margem, o rio agora enche em escala horizontal, atingindo uma área maior”, explica o Capitão da Marinha em Guajará-Mirim, tenente José Carlos Euzébio. Bairros como Cristo Rei, Triângulo, Tamandaré, São José e Santo Antônio somam mais de 550 famílias atingidas. A Defesa Civil mantém um abrigo com 17 famílias no Rotary Clube, mas até dia 26 essas famílias devem ser removidas para o ginásio de esportes Afonso Rodrigues.

Na segunda-feira (24), o município recebeu 50 barracas de lona enviadas pela Defesa Civil Estadual. “Vinte serão montadas no ginásio, uma parte seta enviada para Nova Mamoré e as demais serão usadas de acordo com a necessidade”, afirma Francisco Sanchez, coordenador da Defesa Divil em Guajará-Mirim.

No centro da cidade, várias ruas foram tomadas pela água e comerciantes tiveram que improvisar. Alguns fizeram um muro de arrimo, passarelas, e outros tiveram que se mudar. “Muito triste essa situação. Vamos ter que mudar de endereço provisoriamente”, diz Lourdes Moura, ao encaixotar a mercadoria e suspender os armários se sua loja, na Avenida Constituição.

Pelas ruas da cidade, o clima é de tristeza e tensão. Parte da população perdeu o emprego ou vivendo com dificuldade. Quem é comerciante, reclama que não tem mercadoria e nem cliente. Quem é consumidor, afirma que os produtos vendidos estão muito caros: “Me preocupo muito. Minha família teve a casa alagada no [Bairro] Triângulo, se mudou para outra casa, mas teve que pagar dois meses adiantados de aluguel, que está muito acima do preço de mercado”, afirma Talita Albuquerque, moradora da região.

Segundo Talita, falta, inclusive, leite nos supermercados da cidade. “Falta muita coisa aqui. Tenho uma filha de 4 meses e o leite dela acabou, não encontro em lugar algum”, relata ela, que também reclama do isolamento da cidade. “Só tem um avião que leva para Porto Velho as pessoas que precisam, mas precisa esperar ter vaga por mais de uma semana”, desabafa Talita.

Guajará-Mirim está em estado de emergência desde o dia 12 de fevereiro, quando a única rodovia de acesso foi alagada pela cheia do Rio Madeira e seus afluentes. O Rio Mamoré, que separa o município da Bolívia, também alcança níveis históricos, ultrapassando em 1,24 metro a marca mais alta, em 2008. Na segunda-feira (24), a régua que mede o rio aponta que seu nível chegou a 14,02 metros.


Rio Madeira ultrapassa 19,40 m, cota prevista para abril pela Defesa Civil

Nível do rio aumentou 31 centímetros em uma semana.
Neste sábado (22) nível registrado pela ANA foi de 19,46 metros.


Ivanete Damasceno
Do G1 RO

O Rio Madeira atingiu neste sábado (22) a cota de 19,46 metros, segundo a aferição da Agência Nacional de Águas (ANA). A Defesa Civil Estadual estimava, há uma semana, que o rio alcançaria a media de 19,40 metros somente no dia 2 de abril. Na ocasião, o Madeira tinha o nível em 19,15 metros. Em sete dias, houve um aumento de 31 centímetros. Já são mais de 2,5 mil famílias desabrigadas pela enchente em Rondônia.

O nível do Rio Madeira já bateu o recorde histórico de 17,52 metros - de 17 anos atrás – e, apesar de a Defesa Civil afirmar que havia uma tendência de estabilização, o nível continua subindo. O órgão não sabe dizer quando ou se as famílias desabrigadas poderão retornar às suas casas. Oficialmente nenhuma morte relacionada à cheia foi confirmada.

Por causa desse aumento no nível das águas, os caminhões que precisam fazer a travessia de Rondônia até o Acre serão transportados, num trecho de 20 quilômetros, por balsa. A BR-364, única via de acesso ao estado vizinho, tem mais de 1,40 metro de água sobre a pista, fazendo com que motoristas fiquem ilhados esperando por socorro.

Em Porto Velho, 23 ruas já foram interditadas pela Secretaria Municipal de Trânsito (Sentram). Muitas vias tiveram o sentido alterado. Entre elas, a Avenida Campos Sales que recebia grande fluxo de motoristas que saíam da Zona Sul em direção à região central da capital.

Na quinta-feira (20), o Ministério da Previdência Social autorizou o INSS a adiantar o pagamento do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) aos atingidos pela cheia histórica do Rio Madeira, em Porto Velho. O município decretou estado de calamidade pública no dia 27 de fevereiro, sendo reconhecido pelo governo federal na segunda-feira (17).

Seca prolongada no RN leva 95% municípios a situação de emergência

Governo do Estado publicou decreto no Diário Oficial desta terça-feira (25).
Número de cidades em emergência subiu de 150 para 159 com decreto.


Felipe Gibson
Do G1 RN

O Rio Grande do Norte tem 95% dos municípios em situação de emergência por causa da seca que atinge o estado. Em novo decreto publicado na edição desta terça-feira (25) do Diário Oficial do Estado (DOE), a governadora Rosalba Ciarlini aumentou para 159 o número de cidades que apresentam um quadro de gravidade no abastecimento de água. O último decreto, que colocou 150 municípios em situação de emergência, foi publicado no dia 19 de setembro do ano passado e expirou no último dia 20 de março.

Para decretar situação de emergência, o Estado se baseou ainda em relatórios da Secretaria de Estado da Agricultura, da Pecuária e da Pesca (Sape) e Companhia de Águas e Esgotos (Caern), além da previsão de chuvas da Empresa de Pesquisa Agropecuária (Emparn) e um parecer técnico da Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil. Os oito municípios que não estão em estado de emergência são Natal, Parnamirim, São Gonçalo do Amarante, Extremoz, Macau, Goianinha, Maxaranguape e Rio do Fogo. (A lista das cidades em emergência pode ser vista no fim do texto).

De acordo com o decreto, os principais reservatórios localizados no estado se encontram com armazenamento em torno de 25% a 30% de sua capacidade máxima. A previsão da Emparn é de chuvas com variação entre normal ou abaixo da normalidade para os meses de março, abril e maio deste ano. O órgão informa que das precipitações previstas 45% devem ocorrer dentro da normalidade, 30% abaixo da normalidade e 25% acima da normalidade.

A publicação acrescenta que a zona rural dos municípios permanece afetada com a falta de água para a produção agrícola e pecuária, bem como para o consumo humano e animal. As chuvas, de acordo com o Estado, foram insuficientes para a formação de estoques de água potável nos reservatórios usados pela população.

Veja lista de cidades em estado de emergência

Acari, Arez, Assu, Afonso Bezerra, Água Nova, Alexandria, Almino Afonso, Alto dos Rodrigues, Angicos, Antônio Martins, Apodi, Areia Branca, Baraúna, Baia Formosa, Barcelona, Bento Fernandes, Bodó, Brejinho, Boa Saúde, Bom Jesus, Caiçara do Norte, Canguaretama, Caiçara do Rio do Vento, Caicó, Campo Redondo, Caraúbas, Carnaúba dos Dantas, Carnaubais, Cerro-Corá, Ceará Mirim, Coronel Ezequiel, Campo Grande, Coronel João Pessoa, Cruzeta, Currais Novos, Doutor Severiano, Encanto, Equador, Espírito Santo, Felipe Guerra, Fernando Pedroza, Florânia, Francisco Dantas, Frutuoso Gomes, Galinhos, Governador Dix-Sept Rosado, Grossos, Guamaré, Ielmo Marinho, Ipanguaçu, Ipueira, Itajá, Itaú, Jaçanã, Jandaíra, Janduís, Japi, Jardim de Angicos, Jardim de Piranhas, Jardim do Seridó, João Câmara, João Dias, José da Penha, Jucurutu, Jundiá, Lagoa Nova, Lagoa Salgada, Lagoa D'Anta, Lagoa de Pedras, Lagoa de Velhos, Lajes Pintadas, Lajes, Lucrécia, Luís Gomes, Macaíba, Major Sales, Marcelino Vieira, Martins, Messias Targino, Monte das Gameleiras, Monte Alegre, Montanhas, Mossoró, Nova Cruz, Nísia Floresta, Olho D’Água do Borges, Ouro Branco, Passagem, Paraná, Paraú, Parazinho, Parelhas, Passa e Fica, Patu, Pau dos Ferros, Pedra Grande, Pedra Preta, Pedro Avelino, Pedro Velho, Pendências, Pilões, Poço Branco, Portalegre, Porto do Mangue, Pureza, Serra Caiada, Rafael Fernandes, Rafael Godeiro, Riacho da Cruz, Riacho de Santana, Riachuelo, Rodolfo Fernandes, Ruy Barbosa, Santa Cruz, Santa Maria, Santana do Matos, Santana do Seridó, Santo Antônio, São Bento do Norte, São Bento do Trairi, São Fernando, São Francisco do Oeste, São João do Sabugi, São José do Campestre, São José do Seridó, São Miguel do Gostoso, São Miguel, São Paulo do Potengi, São José do Mipibu, São Pedro, São Rafael, São Tomé, São Vicente, Senador Elói de Souza, Senador Georgino Avelino, Serra Negra do Norte, Serra de São Bento, Serra do Mel, Serrinha dos Pintos, Serrinha, Severiano Melo, Sítio Novo, Taboleiro Grande, Taipu, Tangará, Tenente Ananias, Tenente Laurentino Cruz, Tibau, Timbaúba dos Batistas, Tibau do Sul, Touros, Triunfo Potiguar, Umarizal, Upanema, Várzea, Venha Ver, Vila Flor, Viçosa e Vera Cruz.

Suécia move cidade inteira ameaçada por mina de ferro

Megaprojeto prevê relocação de cerca de 20 mil moradores a nova cidade 'erguida do zero' em área próxima.


BBC

A Suécia deve dar início, nesta primavera, aos trabalhos de relocação de uma cidade que está sendo "engolida" por uma mina.

Kiruna, a cidade situada mais ao norte do país, será deslocada para um novo local, a pouco mais de três quilômetros de distância.


Mina vem provocando erosão no solo e rachaduras em edifícios, tornando a remoção inevitável (Foto: Mia Stalnacke)Mina vem provocando erosão no solo e rachaduras em edifícios, tornando a remoção inevitável (Foto: Mia Stalnacke)

A remoção gradual se dará ao longo dos próximos 20 anos e um total de 20 mil moradores serão transferidos para novas residências, construídas em volta de um novo centro municipal.

A mudança é um trabalho enorme e complexo.

''Quando as pessoas ouvem dizer que estamos projetando, criando e construindo uma cidade inteira do zero, eles pensam que se trata de um experimento utópico'', afirma o arquiteto Mikael Stenqvist.

Mas ele acrescenta que há demasiadas coisas em jogo para encarar o projeto como um mero experimento. ''Se esse projeto der errado, a sobrevivência de Kiruna, de seus habitantes e de sua economia estarão ameaçados. Isso nos preocupa muito. É diferente de qualquer projeto que já tenhamos realizado.''

Mais de 3 mil casas e edifícios, diversos hotéis e 2,2 mil metros quadrados de escritórios, escolas e hospitais serão esvaziados ao longo das próximas duas décadas - enquanto construções alternativas são erguidas no novo local.

''Nós queremos manter o máximo possível da velha cidade, mas os custos e as dinâmicas do mercado nos impedem de transferir tudo'', afirma Stenqvist.

Projeto

A decisão foi determinada por uma mina de ferro local - um dos mais valiosos depósitos de minério de ferro de toda a Suécia e o principal empregador de Kiruna.

O projeto teve início em 2004, quando a companhia estatal de mineração Luossavaara-Kiirunavaara AB (LKAB) enviou uma carta ao governo local explicando a necessidade de promover uma escavação mais profunda em um morro situado perto da cidade, o que poderia fazer com que o solo abaixo de milhares de apartamentos e edifícios públicos sofresse rachaduras ou mesmo cedesse.

Mas como, uma década depois, gigantescas rachaduras vêm aparecendo nas construções da cidade, não resta mais dúvidas de que não se trata de uma mera precaução.

'Todo mundo que vive em Kiruna sabe que a cidade vai eventualmente ser relocada, todo mundo consegue ver que a mina está devorando a cidade. A questão sempre foi dizer quando isso aconteceria', afirma Viktoria Walldin, uma das antropólogas contratadas para trabalhar na relocação.'

De acordo com a antropóloga, os moradores de Kiruna estão vivendo em um estado de 'suspensão' por quase 15 anos, o que os impede de tomar decisões importantes, como comprar uma casa, redecorar a residência, ter um filho ou abrir um negócio.

'Agora finalmente chegou a hora que um monte de gente que está vivendo em estado de suspensão há anos finalmente poderá se libertar e pensar: 'finalmente está acontecendo, serei capaz de fazer investimentos e de planos pelo resto da minha vida'.

O número de pessoas envolvidas em um projeto de tal magnitude excede os milhares e inclui planejadores urbanos, paisagistas, biólogos, engenheiros civis, homens de demolição e peritos em construção e empreiteiras.

O escritório de arquitetura baseado em Estocolmo White Arkitekter AB, que venceu o contrato para desenhar a nova Kiruna, planeja um projeto com um centro da cidade mais denso, com um foco maior em sustentabilidade, acessibilidade para pedestres e ênfase em transporte público.

A localização da nova cidade, a 145 quilômetros do Círculo Ártico, significa que o sol nunca se põe entre maio e agosto e que é sempre noite entre dezembro e fim de janeiro. As temperaturas permanecem baixas, na faixa de -15 graus, durante boa parte do ano, com neve ao longo do ano todo.

Espera-se também que a cidade renovada poderá propiciar a visita de mais turistas, auxiliando os negócios locais. O famoso Hotel de Gelo, de Jukkasjarvi, nas imediações, atrai mais de 100 mil pessoas por ano à área, mas os turistas dificilmente se dão ao trabalho de fazer uma viagem de 15 minutos a Kiruna.

Arquitetos por trás do projeto da nova cidade vislumbram uma cidade com maior ênfase em sustentabilidade (Foto: White Arkitekter)Arquitetos por trás do projeto da nova cidade vislumbram uma cidade com maior ênfase em sustentabilidade (Foto: White Arkitekter)

Poluição custa US$ 300 bilhões anuais em saúde à China

Relatório do Banco Mundial defende um novo modelo de urbanização.
Segundo pequisa, a poluição provoca 500 mil mortes por ano no país.


France Presse

As mortes prematuras e os problemas de saúde causados pela poluição atmosférica custam até US$ 300 bilhões anuais à China, segundo um relatório do Banco Mundial, que defende um novo modelo de urbanização na segunda economia mundial.

"Agora que a China se prepara para uma nova onda de urbanização, será cada vez mais crucial levar em conta os problemas de meio ambiente, já que grande parte da poluição chinesa se concentra nas cidades do país", adverte o Banco Mundial no relatório com um centro de pesquisa vinculado ao governo da China.

O elevado índice de mortalidade e os problemas de saúde nas metrópoles custam ao país entre US$ 100 bilhões e US$ 300 bilhões por anos, segundo o relatório.

O ex-ministro da Saúde Chen Zhu citou em dezembro, na revista médica The Lancet, estudos segundo os quais a poluição provoca 500 mil mortes por ano no país.

E os efeitos também são sentidos em longo prazo, já que os bebês e as crianças são gravemente afetados pelas partículas tóxicas, com riscos crescentes, além da má-formação das futuras crianças ainda não nascida, alerta o relatório.

Os autores do estudo aconselham que a China adote um novo modelo de urbanização e uma gestão de terras que beneficie mais os moradores rurais.

O relatório também pede que Pequim reforce a legislação sobre a poluição.

23 março 2014

Plano para abastecer São Paulo já deflagra disputas por água com Rio, Minas e Paraná

Para atender à demanda da macrometrópole, governo projeta transposições em 'zonas de conflito'


Fabio Leite - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - A recém-deflagrada disputa com o Rio para transpor água da Represa Jaguari, no Vale do Paraíba, para o Sistema Cantareira é apenas uma das brigas políticas que São Paulo terá de comprar para suprir a crescente demanda por abastecimento nos próximos 20 anos. O plano paulista com novas alternativas de captações necessárias até 2035 lista outras quatro obras em "zonas de conflito", onde há represas e rios que também abastecem outros Estados ou são fontes para gerar energia elétrica.

Entre elas está um segundo projeto de transposição envolvendo o Rio Paraíba do Sul, responsável pelo abastecimento de 11 milhões de fluminenses. A proposta é captar água na região de Guararema e levá-la até Biritiba-Mirim para aumentar em até 4,7 mil litros por segundo a oferta na Bacia do Alto Tietê, que abastece 17,2% da Grande São Paulo. A obra custaria cerca de R$ 760 milhões e precisaria do aval da Agência Nacional de Águas (ANA) porque envolve captação em rio federal.

Isso torna o projeto ainda mais polêmico que a transposição proposta na semana passada pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB). Mesmo envolvendo a ligação de uma represa paulista (Jaguari), que é apenas afluente do Rio Paraíba, a obra foi contestada pelo governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB).

Autoridades fluminenses temem que ela comprometa o abastecimento do Estado e cobram estudos de impacto. Nesse caso, porém, São Paulo não precisa de aval federal para fazer a ligação, orçada em R$ 500 milhões e prevista para 2015.

O presidente do Comitê da Bacia do Rio Paraíba do Sul, Danilo Vieira Júnior, critica a obra. "O projeto de São Paulo traz diagnóstico e potencial de impacto diferentes do nosso. Eles alegam que o rio tem uma qualidade melhor do que apuramos e uma quantidade de vazão para atender à demanda paulista divergente da disponibilidade hídrica", afirmou Vieira Júnior.

Os dois projetos estão no Plano Diretor de Recursos Hídricos que projeta a demanda por água nos próximos 20 anos em 180 cidades das Regiões Metropolitanas de São Paulo, Campinas, Baixada Santista, Vale do Paraíba e entorno. Será preciso aumentar a oferta em 60 mil litros por segundo, o equivalente a quase dois sistemas Cantareira, conforme o Estado antecipou em fevereiro. A região tem 74% da população paulista - 30 milhões de pessoas.

Ousadia. Para suprir a demanda, o plano prevê a transposição de água da Represa Jurumirim, em Avaré, até a Estação de Tratamento de Cotia, na Grande São Paulo. O ambicioso projeto aumentaria em até 15 mil litros por segundo a oferta de água.

Além do custo, estimado em R$ 9 bilhões, a obra pode impactar na produção de energia da usina hidroelétrica que leva o nome do reservatório, a principal da região. Para compensar a reversão, rios que abastecem cidades do Paraná poderiam ter suas vazões reduzidas.

"Nós temos uma disponibilidade hídrica muito grande, mas é um assunto delicado e precisará de estudos aprofundados. Ainda é cedo para avaliar o impacto", disse David Franco Ayub, secretário executivo da Bacia do Alto Paranapanema.

Na bacia vizinha, no Vale do Ribeira, a preocupação envolve os projetos de captação de água nas Represas Juquiá e Cachoeira de França para abastecer a Grande São Paulo. Na semana passada, as companhias de saneamento paulista (Sabesp) e paranaense (Sanepar) discutiram os impactos do Sistema São Lourenço, que levará 4,7 mil litros por segundo a mais até Cotia. "Nesse caso, não há mais conflito", garantiu a gerente da Bacia do Alto Ribeira, Olga Polatti, no Paraná.

Outra disputa envolve Minas, que quer uma cota maior da água que deixa o Estado para abastecer o Sistema Cantareira, em São Paulo - hoje perto do colapso. "Também precisamos de água para o desenvolvimento industrial. Uma alternativa é São Paulo pagar pelos serviços ambientais que prestamos, que conservam a mata e aumentam a disponibilidade hídrica", disse Marília Melo, diretora do Instituto Mineiro de Gestão de Águas (Igam).

As principais ameaças à qualidade da água no Brasil

Estudo aponta que tratamento de esgoto deficiente e poluição oriunda da indústria e da agricultura são os maiores problemas. Em sete estados brasileiros, apenas 11% dos rios e mananciais foram classificados como bons.


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A falta de tratamento de esgoto e a poluição oriunda da indústria e agricultura são as principais ameaças à qualidade da água no Brasil. Segundo levantamento da ONG SOS Mata Atlântica, a água é ruim ou péssima em 40% dos 96 rios, córregos e lagos avaliados em sete estados brasileiros. A pesquisa, divulgada por ocasião do Dia Mundial da Água (22/03), mostra que a situação é preocupante no bioma da Mata Atlântica, principalmente em áreas urbanizadas.

Apenas 11% dos rios e mananciais foram classificados como bons – todos localizados em áreas de proteção ambiental e de mata ciliar preservada. Em 49% dos rios, a água é regular. A pesquisa foi realizada em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Paraná, Santa Cantarina e Rio Grande do Sul.

Segundo dados da Agência Nacional de Águas (ANA), 76% dos corpos d'água apresentam qualidade boa; 6% foram classificados como ruim e apenas 1% como péssimo. Em áreas urbanas, a parcela considerada boa cai para 24%. As águas de qualidade ruim e péssima sobem para 32% e 12%, respectivamente.

Apesar de serem os principais centros de poluição, as cidades grandes possuem maior infraestrutura de saneamento básico, ressalta o professor de Engenharia Sanitária e Ambiental da UFMG Marcos von Sperling.

“A cobertura de saneamento das cidades pequenas é normalmente bem inferior às cidades grandes. No Brasil, um quarto dos municípios tem até cinco mil habitantes e são muito frágeis em termos de administração. E é até inviável do ponto de vista financeiro fazer o tratamento e cobrar por ele. São populações com renda familiar muito baixa”, afirma.

Informação

A ANA alerta para a falta de informação sobre a qualidade dos recursos hídricos no Brasil. A agência realiza o diagnóstico a partir de dados das redes estaduais, mas apenas 17 das 27 unidades da federação fazem o monitoramento da água. Outra dificuldade é que não há uma padronização no trabalho de coleta de dados.

Segundo a agência, apenas 658 pontos de análise tiveram uma série histórica longa o suficiente para realização do estudo. Nestes casos, 8% apresentaram tendência de melhoria na qualidade da água e 5%, de piora.

Para diminuir a falta de informação, a agência lançou na quinta-feira (20/03) a Rede Nacional de Monitoramento de Qualidade das Águas, que deve padronizar os dados e procedimentos de coleta. O objetivo é subsidiar a definição de políticas públicas e a gestão dos recursos hídricos.

“A qualidade da água hoje é insuficientemente monitorada. Não temos um retrato do país. São várias as entidades de gestão da água, públicas e privadas, em âmbito federal, estadual e municipal. Estamos nos adaptando a essa imensa fragmentação do sistema brasileiro”, defende Maurrem Vieira, especialista em recursos hídricos da ANA.

Os especialistas são unânimes em afirmar que o maior problema da qualidade da água no país é a falta de tratamento de esgoto. Mesmo com poucos dados disponíveis, a especialista em recursos hídricos da ANA Renata Bley diz que as tendências de melhora identificadas são “resultado, principalmente, de investimentos em coleta e tratamento de esgoto nas regiões metropolitanas”.

Apenas 37,5% do esgoto gerado no Brasil é tratado, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento. A coleta é realizada para 48,1% da população. Para Maurrem Vieira, é preciso investir mais no tratamento de esgoto: “Expandimos o serviço e, paralelamente, a população cresce. É como se fosse uma corrida, que por enquanto estamos ganhando.”

Um estudo do Instituto Trata Brasil e do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável, lançado na quarta-feira (19/03), indica que o país é o 112° no mundo em termos de evolução e cobertura de saneamento.

“A expansão de 4,1% ao ano perdeu velocidade nesta década de 2010 – na anterior, era de 4,6% ao ano – o que nos distancia ainda mais da já longínqua meta do governo federal de universalizar os serviços em 2030”, afirma o instituto em nota.

Problemas ambientais

Um dos principais problemas ambientais causados pelo esgoto não tratado é a falta de oxigênio nos rios. Os dejetos contêm matéria orgânica, que serve de alimento para bactérias. No processo, elas consomem oxigênio, baixando o nível do gás na água. Em regiões urbanas, é comum encontrar rios praticamente sem oxigênio, onde o odor é forte e a fauna aquática não consegue sobreviver.

Outra dificuldade recorrente é o crescimento exacerbado de algas em lagoas e represas, causado pela presença de nitrogênio e fósforo, que são nutrientes para esses organismos. “As algas mudam a coloração do corpo d'água e prejudicam bastante a qualidade”, afirma Marcos Von Sperling.

As principais causas de poluição, além do esgoto, são os lançamentos da industria e da agricultura, que geram rejeitos químicos nocivos, como os agrotóxicos, por exemplo. Por fim, há a poluição difusa, cuja origem é difícil de verificar e pode incluir qualquer dejeto. “Vai desde o sofá velho ao cachorro morto, tudo vai parar nos córregos”, diz Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da SOS Mata Atlântica.

A falta de tratamento de esgoto tem consequências graves para a saúde pública do país. “Nos dejetos há diversos organismos patogênicos, como bactérias, vírus, protozoários e vermes, que causam uma série de doenças”, explica o professor Marcos Von Sperling.

Ainda que o tratamento da água seja realizado corretamente, há outros usos dos recursos hídricos que podem disseminar doenças. “Se a pessoa nadar em um rio sujo, comer alimentos lavados ou irrigados com água contaminada, ela pode ser infectada”, lembra.

Segundo o estudo do Instituto Trata Brasil, foram notificadas 340 mil internações por infecções gastrointestinais no Brasil em 2013. Mais de 170 mil foram de crianças de até 14 anos de idade. A pesquisa aponta que a universalização do saneamento traria uma economia anual de 27,3 milhões de reais para os cofres públicos apenas com as internações.

Água em casa

A poluição dos rios e represas com esgoto e rejeitos químicos nocivos também pode afetar a qualidade da água que chega às casas. “O risco é sempre maior quando tratamos uma água bruta muito poluída”, defende Von Sperling.

“As estações de tratamento de água não estão preparadas para o esgoto. São processos diferentes. Por isso, se o material é jogado sem tratamento em uma área de captação de água, pode sim haver problemas”, argumenta Pedro Mancuso, professor do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Além do risco para a saúde, a poluição encarece o tratamento de água, afirma Von Sperling. “Os processos convencionais se tornam insuficientes e é preciso empregar métodos mais caros”, diz.

Ainda que a qualidade da água varie muito no Brasil, inclusive dentro de uma mesma cidade, os especialistas consideram que ela é satisfatória. “Temos o primo pobre, que é o tratamento de esgoto, e o primo rico, que é o tratamento da água”, assegura Malu Ribeiro, da SOS Mata Atlântica.

Os estudiosos concordam que as caixas d'água são um ponto fraco do sistema, que não está presente em outros países, onde o abastecimento é feito direto da estação para as residências. Segundo eles, a água tratada é de qualidade, mas pode se deteriorar nos encanamentos e reservatórios das casas e edifícios.

Eles também elogiam a legislação, considerada moderna. “A portaria é boa, mas ela é difícil de ser cumprida em regiões afastadas e sem estrutura. Onde ela é seguida o tratamento é eficiente, como costuma acontecer nas companhias estaduais”, diz Pedro Mancuso.