27 fevereiro 2014

Acre decreta estado de emergência por causa de isolamento

Rio Madeira alcançou 18,57 metros, interditando rodovia que dá acesso ao Estado


Itaan Arruda - Especial para O Estado de SP

RIO BRANCO - O governador do Acre, Tião Viana (PT-AC), decretou estado de emergência em função do isolamento causado pelas cheias do Rio Madeira, em Rondônia. Em declaração divulgada pela assessoria de governo, Viana usa o termo "isolamento pleno" para expor a gravidade da situação.

"Hoje o Rio Madeira já alcança a cota de 18,57 metros, um índice já impressionante, considerado por alguns o maior desastre ambiental que a Amazônia já viveu e nós temos uma situação de quase isolamento pleno, por via rodoviária, na BR-364 no lado de Rondônia", afirmou o governador. "O governo tem adotado todas as medidas com segurança, se antecipando às dificuldades que possam decorrer dessa provável obstrução da BR para a população".

De acordo com Viana, a decretação da situação de emergência "vai nos permitir medidas administrativas ágeis que possam colaborar mais ainda para a prevenção de agravos em qualquer ameaça que nós possamos ter de atendimento regular e justo para a população do Acre".

Da tribuna do Senado, o irmão e senador Jorge Viana (PT-AC) alertou para a necessidade de o governo federal intensificar o debate em relação às alternativas ao transporte rodoviário e também em relação às obras das usinas de Jirau e Santo Antônio. Sobre esses temas, o senador foi direto. "Alguém errou e errou feio", afirmou.

A BR-364 é a única ligação rodoviária que o Acre tem com as demais regiões do País. Todo o abastecimento relacionado à alimentação, combustível e insumos para a incipiente agricultura e indústria ocorre pela rodovia federal.

Cheia. A cheia histórica do Rio Madeira cobriu a estrada em vários pontos. Em alguns deles, a água está 80 centímetros acima do asfalto. Em Porto Velho, já passa de 1,8 mil o número de famílias desabrigadas. O estado de calamidade pública só não foi decretado por uma determinação da Defesa Civil Nacional que entende ser necessárias mortes ou epidemias para justificar a medida de exceção.

No Acre, o abastecimento de gás de cozinha e gasolina está sendo feito pela cidade de Cruzeiro do Sul (extremo oeste do Estado). A maior empresa responsável pelo envasamento do GLP está sediada em Porto Velho e está inativa com linha de produção completamente submersa.

Uma alternativa já planejada pelo governo do Acre é realizar comércio de produtos básicos com o Peru. Reuniões com representantes da Associação Comercial e Industrial do Acre e Federação do Comércio já foram feitas. "A intenção é nos antecipar aos problemas", disse o presidente da Associação Comercial do Acre, Jurilande Aragão. O estoque de segurança em cimento, calculado em 20 mil sacas na semana passada, já acabou em Rio Branco.

26 fevereiro 2014

Monitoramento brasileiro de florestas inspira plataforma internacional

O sistema de vigilância Global Forest Watch une tecnologia de satélite e dados abertos para o acompanhamento da gestão de áreas verdes em todo o globo. Projeto pioneiro do Brasil inspirou criação da ferramenta.


Deutsch Welle

O sistema de monitoramento de devastação da Amazônia inspirou um projeto internacional desenvolvido pelo Google, Programa das Nações das Nações Unidas para Meio Ambiente (Pnuma) e Word Resources Institute (WRI). No ar desde a semana passada, a plataforma Global Forest Watch oferece um mapa interativo, mostra os pontos de ganho e perda de áreas verdes e oferece um quadro geral sobre o desmatamento no mundo.

"O Brasil foi o único país do mundo que criou um sistema de alertas sobre o desmatamento de áreas verdes. A perda de cobertura florestal foi reduzida na Amazônia em parte por causa desse mecanismo", explica Nigel Sizer, diretor da Iniciativa Global de Florestas do WRI.

A iniciativa internacional foi baseada no projeto do instituto de pesquisas Imazon, com sede em Belém, no Pará, fundado em 1990. A organização sem fins lucrativos mapeia a devastação no bioma por meio Sistema de Alerta de Desmatamento, ou Sad. O Sistema de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal, mantido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), também serviu como base para a criação do Global Forest Watch.

Vigilância e denúncias

Com a atualização dos dados de satélites da Nasa, a agência espacial norte-americana, a ferramenta colaborativa é atualizada em tempo real. Além de obter informações sobre a gestão das florestas em todo o globo, os usuários têm a oportunidade de contribuir, publicar histórias e fotos sobre a situação do desmatamento na região onde vivem. Instituições, ONGs, empresas e poder público também podem lançar alertas sobre a má conservação das florestas.

"Empresas podem utilizar o sistema, por exemplo, para monitorar a indústria extrativa e saber se, nesses locais, as florestas estão sendo devastada", explica Sizer. "Um pequeno grupo local também pode usar o site para identificar pontos de desmatamento na sua comunidade e mobilizar ações para mudar esse cenário."

Sistema de alertas

No portal, estão disponíveis informações sobre as dimensões da cobertura verde, a legislação florestal e as convenções ratificadas por cada país do mundo.

No tópico “Mudança Florestal“, por exemplo, o usuário pode filtrar a observação do mapa por diferentes tipos de alerta. A Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, oferece um quadro geral sobre ganhos e perdas de cobertura vegetal a cada ano, enquanto que o alerta FORMA (sigla para Forest Monitoring for Action) apresenta dados sobre o desmatamento nos trópicos, mês a mês.

Em "Nasa Incêndios Ativos", dados de satélite conseguem identificar onde estão ocorrendo queimadas, e essas informações são atualizadas diariamente.

No ano passado, o governo da Indonésia utilizou os serviços da WRI para identificar quais empresas estavam provocando incêndios florestais. "O governo agiu contra isso e as indústrias foram punidas. Esperamos que o mesmo aconteça com o uso do Global Forest Watch", afirma Sizer.

Ao lado da Rússia, Canadá, Estados Unidos e Indonésia, o Brasil é um dos países com os maiores índices de desmatamento. De acordo com levantamento da Universidade de Maryland e do Google, o mundo perdeu 2,3 milhões de quilômetros quadrados de florestas entre 2000 e 2012. É como perder uma área florestal equivalente a 50 campos de futebol a cada minuto.

A plataforma também está disponível em português no endereço www.globalforestwatch.org.


24 fevereiro 2014

Cheia do Madeira aumenta pontos de alagamento em rodovias federais

Na BR-364, próximo a Jacy-Paraná (RO), lâmina d'água cobre a pista.

Só podem passar 20 caminhões a cada uma hora para nova avaliação.


Ivanete Damasceno
Do G1 RO

O Rio Madeira permanece superando marcas históricas do nível registrado e desabrigando mais famílias. No começo da tarde deste domingo (23), cota já havia aumentado de 18,30 metros para 18,35 metros. Por conta disso, uma equipe do Corpo de Bombeiros está na BR-364, próximo a Jacy-Paraná, distrito de Porto Velho, distante cerca de 100 quilômetros da capital, para sinalizar os novos trechos onde a lâmina d'água já está em cerca de 25 centímetros, segundo a Sala de Gerenciamento de Crise. A cheia recorde do Rio Madeira já tirou mais de 1,6 mil famílias de casa. Nos distritos do Baixo e Médio Madeira, cerca de 530 famílias (a metade da população da região) estão sendo retiradas de casas atingidas pela cheia e levadas para abrigos e até para a capital, Porto Velho.

"A informação que nós temos é que a cada uma hora passam 20 caminhões pela rodovia. Depois a pista é avaliada para permitir a passagem novamente de veículos", informa o bombeiro Marcelo Almeida. Ele diz ainda que a lâmina d'água que cobre a pista não permite que os motoristas passem com segurança, mas alguns veículos de passeio ainda se arriscam. A BR-364 é a única via de acesso terrestre ao estado de Acre, e apresenta outros pontos de alagamento, sendo o maior deles na região de Velha Mutum, impedindo que motoristas cheguem até a balsa para a travessia do rio.

Já a BR-319, via de acesso terrestre ao Sul do Amazonas, também apresenta pontos de alagamento novos, segundo Almeida, que já deixou algumas vilas isoladas. "Não sei precisar quais são essas vilas, mas a Polícia Rodoviária Federal [PRF] nos passou que o fluxo de veículos está complicado", diz o bombeiro. O G1 entrou em contato com a PRF, mas não recebeu retorno.

Em Porto Velho

A maior cheia já registrada pelo Rio Madeira também está interditando ruas e avenidas de Porto Velho. Na região central da cidade, o Igarapé Santa Barbára, diretamente atingido pela cheia do Madeira, aumentou o nível e já interdidou a parte mais baixa das ruas 13 de Setembro, Campos Sales, chegando até a Tenreiro Aranha, na área central da cidade. Mais de 1,6 famílias já foram atingidas pela cheia histórica do Rio Madeira, na capital e em 14 distritos localizados no Baixo e Médio Madeira.

O coronel Gilvander Gregório, do Corpo de Bombeiros, explica que com a elevação do nível do rio, estas ruas mais baixas estão sendo atingidas e os motoristas precisam procurar uma rota alternativa, para não se arriscarem a cruzar as vias alagadas. "São pontos de alagamento que não temos como evitar", diz o coronel.

Combustível

Caminhões que fazem o embarque de combustíveis em Porto Velho não conseguem chegar às bases das distribuidoras, em razão do alagamento que atinge a Estrada do Belmont, Bairro Nacional. Por isso, postos de gasolina afirmam que já falta combustível na cidade. No entanto, segundo o Sindicato do Comércio Varejista de Derivados do Petróleo (Sindpetro), a capital não corre o risco de desabastecimento, pois o combustível está sendo comprado do Mato Grosso, o que encarece o produto.

Gás de cozinha

Em uma distribuidora de gás de cozinhas, centenas de botijões boiam sobre a água em virtude da cheia do Rio Madeira, que invadiu a distribuidora, em Porto Velho, na margem da BR-319. Na terça (18), a distribuidora afirmou que, caso o nível do rio continue subindo, o abastecimento em Rondônia e Acre pode ficar comprometido.

Em Guajará-Mirim, a população vive períodos de desabastecimento na cidade desde quando a principal via de acesso ao município, a BR-425, que também dá acesso para a Bolívia, foi fechada para o tráfego de veículos. Falta combustível, alimento e água, segundo a população. Pontes e estradas estão debaixo d'água.

Defesa Civil de Rondônia deve remover mais 2 mil famílias; cheia histórica avança

Nível do rio sobe para 18,43 metros e atinge 12 distritos de Porto Velho.

Corpo de Bombeiros classifica situação como caótica.


Assem Neto
Do G1 RO

A Defesa Civil de Porto Velho identificou outras 2 mil famílias que precisam ser retiradas de suas casas em 12 distritos de Porto Velho. Na região, conhecida como Médio e Baixo Madeira, já há reservados 21 abrigos públicos e a situação é considerada “caótica”, informou o diretor de Comunicação do Corpo de Bombeiros de Rondônia, coronel Gilvander Gregório. A cota do Rio Madeira aferida nesta segunda-feira (24) é de 18,43 metros e não há previsão de estabilidade ou redução, pelo menos nas próximas semanas, segundo o Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam). O número de famílias retiradas de suas casas passa de 1,8 mil, informou a Defesa Civil.

Ao G1, o coordenador da Defesa Civil de Porto Velho, José Pimentel, afirmou que as famílias desabrigadas somam 502, já as desalojadas que deixaram suas casas e buscaram apoio em casas de parentes ou amigos, são 1.306. Isso representa cerca de 18 mil pessoas atingidas pela maior cheia do Madeira, em Porto Velho e distritos, conforme cálculos das autoridades, que relacionam cinco membros para cada família.

Seis escolas públicas mantidas pelo estado são ocupadas na capital - cada uma com cerca de 500 alunos matriculados, que estão sem estudar. Os prédios começaram a ser cedidos uma semana após o início do ano letivo. O secretário de Educação de Rondônia, Emerson Castro, pôs à disposição da Defesa Civil outras oito instituições de ensino, somente em Porto Velho, que estão de sobreaviso. Já não há mais vagas nas cinco paróquias também cedidas pela Arquidiocese de Porto Velho para acolher desabrigados.

Na rede municipal de ensino, além das escolas Maria Isaura e São Pedro, que já estavam ocupadas por famílias atingidas pela cheia, outras três unidades já devem começar a receber desabrigados nesta segunda-feira e estão sem aulas. Dezessete escolas estão de sobreaviso, caso seja necessário montar novos abrigos.

A força das águas atrapalha a ação dos mais de 200 voluntários e dos 30 bombeiros da Força Nacional, que chegaram na sexta-feira (21), para trabalhar até mesmo durante a madrugada na remoção de homens, mulheres, crianças e idosos. Praticamente 100% das lavouras nos distritos (agricultura utilizada para subsistência das famílias) está perdida. As plantações de mandioca, arroz, milho, banana e hortifrutigrangeiros às margens do Rio Madeira entram no relatório da Sala de Gerenciamento de Crise como alvo de uma 'restruturação pós desastre', quando a água baixar.

José Pimentel afirmou que Porto Velho tem condições de abrigar tanta gente. “Os abrigos públicos subiram de 14 para 25 desde a última sexta-feira [21]. Temos espaço para todos”, disse ele. “A população está comovida e ajuda de todas as formas”, disse o diretor de comunicação do Corpo de Bombeiros. “É importante que concentrem a entrega de donativos num ou dois pontos específicos, para facilitar o trabalho dos voluntários”, disse Gilvander Gregório. Os desabrigados necessitam, sobretudo, de água potável, roupas, cobertores e alimentos.