16 julho 2014

Cobras viraram 'bichos de estimação', diz moradora afetada por cheia no AM

Moradores dizem estar acostumados com cheia do Rio Negro em Manaus.
No Bairro Glória, mulher construiu 'ponte' dentro da própria casa.


Camila Henriques
Do G1 AM

A cheia do Rio Negro em 2014 já é considerada a quinta maior da história de Manaus e, para algumas famílias, o fenômeno tem piorado a cada ano. Na capital amazonense, famílias que moram em bairros afetados pela subida do nível das águas tentam amenizar os efeitos enquanto aguardam ajuda da prefeitura. A presença de animais perigosos como cobras e o risco de contrair doenças, porém, já não assustam os moradores.

A dona de casa Sandra Pena, de 47 anos, chega a brincar com a situação: "Estamos acostumados. As cobras já viraram nossos 'bichos de estimação'!".

Crianças brincam em meio a 'marombas' e lixo da cheia (Foto: Camila Henriques/G1 AM)Crianças brincam perto da água e do lixo trazido pela cheia do Rio Negro (Foto: Camila Henriques/G1 AM)

Sandra conta que chegou a matar uma cobra na residência. Na geladeira da cozinha, guarda a gordura do animal. "Ela cura inflamações e feridas. É uma receita antiga, do tempo da minha avó. Funciona", afirma.

Em uma casa vizinha, um grupo de crianças também fala sobre episódios envolvendo cobras durante as cheias do rio. Dizem que, à noite, as luzes não podem ser desligadas por causa do medo da chegada dos animais. "Um dia, encontramos uma cobra no banheiro. Era uma sucuri muito grande, que pulou e fugiu. Dá medo de brincar aqui. Sempre vemos animais na água", diz um menino de 8 anos.

Outro local afetado pela cheia do Rio Negro é o bairro da Glória, na Zona Sul de Manaus. Lá, os moradores também buscam alternativas para não ter contato com a água e o lixo.

A desempregada Andressa Oliveira, de 33 anos, que aparece no vídeo no início desta reportagem, construiu "marombas" (pontes de madeira feitas no período das cheias) dentro da própria casa. "Vejo as pessoas ao meu redor sendo atendidas e até saindo daqui, mas, comigo e com a minha família, [não foi feito] nada até agora. Este ano, a prefeitura não nos deu nada. Tivemos que construir sozinhos, senão ficaríamos esperando", diz.

"Sempre vou atrás para pedir que nos tirem daqui, mas nunca tenho resposta. Por causa da cheia, perdi sofá, armário e outras coisas. Por sorte, a casa tem um segundo andar onde posso colocar as coisas", completa.

No beco Bragança, localizado no bairro São Jorge, na Zona Oeste da capital amazonense, alguns moradores afirmam já estar acostumados com a situação, que se repete todos os anos. "Está crítico. Esperamos pelo poder público, e ninguém dá resposta", diz um integrante da comunidade que não quis se identificar.

"O resultado é a dificuldade de locomoção, esse cheiro ruim e a possibilidade de aparecer doenças como leptospirose. Isso sem falar que é um perigo para as crianças. Elas saem correndo nessas marombas, podem cair na água e até morrer, como já aconteceu algumas vezes", conta o morador.

Todas as famílias visitadas pela equipe de reportagem relataram falta de auxílio do poder público. Procurada pelo G1, a Defesa Civil de Manaus informa que "todas as famílias afetadas pela cheia foram cadastradas e receberam kits oferecidos pela Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos [Semasdh], além do aluguel social".

Em comunicado, a Semasdh diz não há registro de famílias cadastradas que estejam sem receber o benefício. "Até o momento, desconhecemos essa denúncia sobre a existência de famílias em áreas atingidas pela cheia que não foram cadastradas pela prefeitura. Caso alguma família se encontre em situação de risco, pode contatar a Defesa Civil Municipal, pelo telefone 199", afirma o órgão.

A secretaria informa ainda que 3 mil famílias atingidas pela cheia do Rio Negro foram cadastradas em 19 áreas de Manaus, incluindo os bairros da Glória e de São Jorge. "Todas as moradias em risco devido à cheia tiveram um laudo técnico realizado pela Defesa Civil Municipal e um levantamento socioeconômico pelas equipes da Semasdh. Todas as famílias que comprovadamente estavam em situação de vulnerabilidade devido à enchente receberam o benefício do aluguel social, pago em duas parcelas de R$ 300".

Cheia

O último balanço da Defesa Civil do Amazonas aponta que 39 municípios foram atingidos pela cheia dos rios. Segundo o órgão, atualmente 37 municípios estão em situação de emergência e dois, em estado de calamidade, com mais de 317 mil pessoas afetadas. As cidades começaram a enfrentar o problema em abril.

Em maio, o Rio Negro ultrapassou a marca de 28,94 metros, considerada de emergência, e alcançou a faixa de alerta na capital. A previsão do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) é que o nível rio saia da faixa de alerta em agosto.

Cinco municípios entraram na lista de atingidos: Autazes, Itacoatiara, Anori, Careiro Castanho e Codajás. Além dessas cidades, a lista atualizada inclui as cidades de Borba, Apuí, Envira, Guajará, Ipixuna, Lábrea, Novo Aripuanã, Manicoré, Nova Olinda do Norte, Tapauá, Anamã, Barreirinha, Beruri, Boa Vista do Ramos, Caapiranga, Canutama, Careiro, Careiro da Várzea, Coari, Fonte Boa, Iranduba, Jutaí, Manacapuru, Manaquiri, Maraã, Maués, Nhamundá, Parintins, Pauini, Silves, Tefé, Itamarati, Urucará e Urucurituba.

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