10 outubro 2013

Quando encontramos comida no lixo é motivo de festa, relata sertanejo que sofre com a seca

Padre sertanejo usa redes sociais para produzir série 'Nos Caminhos da Sede', onde narra drama vivido por família que sofre com a falta de água no Cariri e no Sertão da Paraíba

Por Naira Di Lorenzo - Portal Correio

“Quando encontramos comida no lixo é motivo de festa”. O relato, segundo o padre Djacy – conhecido ativista que denuncia nas redes sociais as consequências da prolongada estiagem no estado da Paraíba – é do chefe de uma família da comunidade na cidade de Boa Ventura, no Sertão da Paraíba, a 422 quilômetros da capital João Pessoa. A família migrou da zona rural para as periferias da cidade, mas não encontra emprego e sobrevive catando lixo.

O padre, que há quase dois meses está fazendo peregrinação solitária por várias cidades do Vale do Piancó paraibano, conta que já presenciou essas e outras situações dramáticas vivenciadas pela população por conta da falta de água para consumo humano. Segundo os sertanejos, além do sofrimento com a falta de água para beber, eles também não têm o que comer.

De acordo com a Agência Executiva de Gestão de Águas do Estado da Paraíba (Aesa), em 121 reservatórios monitorados, apenas três estão transbordando. São 22 reservatórios em situação crítica (com menos de 5% do seu volume total) e 33 em observação (com menos de 20% de sua capacidade). Outros 65 estão com capacidade armazenada superior a 20% do seu volume total.

Padre Djacy narra que o caso mais chocante foi da família de Boa Ventura que trabalha catando lixo. “Estive em uma comunidade urbana de uma cidade que as pessoas só comem o que encontram no lixão. Eles me disseram que não têm do que se alimentar. Então, quando encontram resto de comida levam para casa”, disse.

Nas redes sociais, o padre posta fotos e relatos para a série que ele intitulou 'Nos Caminhos da Sede'. Na peregrinação, visita diversas comunidades e conversa com as pessoas sobre os problemas que elas estão enfrentando.

O padre afirmou que se deparou também com a miséria na qual famílias rurais estão vivendo. Segundo ele, muitos moradores das cidades de Pedra Branca, Igaracy, Piancó, Boa Ventura, Diamante e Santana de Mangueira (municípios da região do Vale do Piancó) , vivem da agricultura de subsistência, mas com a falta de chuvas, todo o plantio feito pelo produtores, foi completamente perdido.

“Toda semana eu vou às comunidades rurais do Vale do Piancó e a cada dia que passa aumenta o drama do povo no que diz respeito à falta de água. Além da ausência do líquido, há falta de alimento para as famílias. Muitas pessoas me falam que a situação é crítica na alimentação. Nesses locais, a agricultura é de subsistência, com a plantação, por exemplo, de arroz e milho, mas esse semestre a colheita foi zero. Eu vi a colheita morrendo”, relatou.

Segundo o padre Djacy, o auxílio do programa federal Bolsa Família não é suficiente para resolver os problemas que as famílias estão sofrendo. “O programa ameniza um pouco, mas no Sertão, as casas têm até dez pessoas, então 200 ou 300 reais não atende a todos. Além do Bolsa Família, é preciso que o governo envie cestas básicas para essas localidades”, sugere.

Para o padre, a única esperança dos sertanejos é a transposição das Águas do Rio São Francisco. “Eu entro nas casas, converso, fotografo e escuto os clamores deles. O que eu vejo é muita pobreza, muito sofrimento. Eu sou uma testemunha ocular. É preciso agilidade na transposição para resolver o problema da seca no Nordeste”.

Esta semana, diretores e técnicos da Aesa estão percorrendo seis municípios do Vale do Piancó para explicar a situação dos açudes e as alternativas para a manutenção do abastecimento durante esse período.

Na cidade de Curral Velho o açude Bruscas, que comporta 38 milhões de metros cúbicos de água, está com 43% da capacidade total. Em Itaporanga, o açude Cachoeira dos Alves, pode armazenar 10 milhões de metros cúbicos, mas hoje tem apenas 30% desse valor.



09 outubro 2013

Seis operários de Fukushima são expostos a radiação

Trabalhador retirou por engano tubo do sistema de tratamento de água radioativa

O Globo
(com agências internacionais)

TÓQUIO - Seis trabalhadores da central nuclear de Fukushima, no Japão, foram expostos a um vazamento de toneladas de água radioativa depois que um deles retirou por engano um tubo do sistema de tratamento do líquido que se acumula nos tanques de armazenamento, informou nesta quarta-feira a Tokyo Electric Power Co (Tepco), que administra a usina.

- Várias toneladas de água vazaram na unidade de tratamento, mas foram contidas dentro do local - disse um porta-voz da Tepco.

Apesar da empresa garantir que o líquido foi contido, um cálculo da agência Reuters - com base nos últimos dados divulgados pela Tepco - afirma que ao menos sete toneladas de água altamente radioativa podem ter vazado na instalação.

A Tepco tem lutado para conter a água radioativa na usina, que sofreu colapsos e explosões de hidrogênio em março 2011, durante o terremoto seguido por tsunami que atingiu Fukushima.

A empresa tem sido criticada pela agência nuclear reguladora do Japão pela forma como tem lidado com problemas técnicos. Na segunda, a Tepco disse que um operário acidentalmente desligou as bombas que injetam água para resfriar os reatores danificados. Um sistema de backup foi acionado imediatamente, mas o incidente mostra o estado ainda precário da usina.

Na semana passada, 430 litros de água contaminada vazaram de um tanque de armazenamento de Fukushima e, provavelmente, correram para o oceano.


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07 outubro 2013

"Relatório do painel do clima não é alarmista, é estúpido", diz climatologista do MIT

RAFAEL GARCIA
DE SÃO PAULO - FOLHA DE SP

O climatologista Richard Lindzen não acredita que as emissões de combustíveis fósseis sejam a principal causa do aquecimento global. Conseguiu, porém, algo raro para alguém de sua opinião: teve seus estudos analisados pelo IPCC, o painel da ONU que avalia as evidências da mudança climática.

As menções a Lindzen no quinto relatório de avaliação do IPCC, porém, não são elogiosas. Seus estudos sobre mecanismos de feedback -- que cancelam ou amplificam o efeito estufa -- foram citados e, logo em seguida, contestados. Falharam tentativas de reproduzir seu trabalho sobre "sensibilidade" do clima (medir quanto a Terra aquece se o nível de CO2 dobrar).

A teoria mais conhecida de Lindzen, o efeito íris, afirma que a mudança climática faria as nuvens aprisionarem menos radiação infravermelha, um feedback que cancelaria o aquecimento global.

Mas a análise de outros estudos fez o IPCC concluir que o efeito-íris não tem esse poder. Um trabalho de Lindzen sobre o assunto foi considerado "não confiável", por ter "amostragem limitada".

Em entrevista à Folha, Lindzen admite o erro, mas explica por que ainda contraria o IPCC. Alegando ser vítima de perseguição acadêmica, reconhece já ter recebido verba da indústria do petróleo, mas nega ter vínculo fixo com o setor. "Isso é tática diversionista", diz.

O sr. acredita que o último relatório do IPCC seja particularmente alarmista?


Na verdade, não. Ele é apenas estúpido. Qual o significado de um cientista esperar para ouvir o que os políticos acham que ele deve dizer?

Agora há uma demanda dos políticos para que, em cada relatório que é feito, os cientistas soem como se tivessem cada vez mais certeza. Isso foi predeterminado.

O que nós temos é uma situação na qual os modelos climáticos [ferramentas matemáticas para projetar o clima futuro] discordam das observações cada vez mais, mas o IPCC tem de concluir que eles são confiáveis, o que é simplesmente insano.

Isso tem relação com a desaceleração do aquecimento global nos últimos 15 anos. Mas o relatório afirma que essa escala de tempo não é relevante para os modelos, e que a tendência no longo prazo continua mostrando subida.
Não existe uma escala de tempo mais relevante. O que existe é que, a cada ano, a previsão se sai mal. Quando os ouvimos dizer que essa é a escala de tempo errada, estão errando o alvo, porque o fenômeno é contínuo.

Não é preocupante que as três últimas décadas tenham sido as mais quentes de todo o registro histórico?


Não. Estamos falando sobre números, certo? E eles estão tentando fazer você pensar que o planeta está esquentando. Dizem a você para não pensar em números porque números indicam que estamos falando de uma mudança pequena. Se pergunto qual tem de ser a sensibilidade do sistema para ser consistente com isso, a resposta seria, mais ou menos 1°C, para o dobro do nível de CO2.

Mas obviamente ninguém acredita que todo o aquecimento dos últimos 150 anos se deva só ao homem, então o número seria um pouco menor. Quase todo economista estudando isso chega à conclusão de que um aquecimento de 1°C ou 2°C, que significaria quadruplicar o CO2, provavelmente traria benefícios líquidos.

Se o novo relatório diz que a estimativa mínima para sensibilidade climática é menor do que costumava ser no anterior, de 2°C, ele não estaria sendo menos alarmista.

Não importa se você começa com o modelo de 1,5°C ou um modelo de 5°C, todos estão exagerando.

Por que o sr. acha que no IPCC, um painel com tantos cientistas independentes uns dos outros, todos estão errando?

Quantas pessoas estão errando? O IPCC diz a você que abriga milhares dos melhores cientistas do mundo. De onde vêm esses milhares? Só existe um punhado de pessoas estudando sensibilidade. O trabalho de tentar convencer o público de que "milhares de cientistas estão de acordo, como diabos alguém pode discordar?" é uma pista de que algo está errado.

Algumas das menções no relatório a seus estudos não são particularmente favoráveis a seu ponto de vista, sobretudo em relação a seu estudo de 2009.

O estudo de 2009 tinha um erro. É verdade. Mas há um estudo de 2011 no qual ele foi corrigido. E a resposta não se alterou. O erro não era um grande problema. O problema é que se você comete um erro que o põe contra o fluxo, eles fazem parecer que foi algo gravíssimo. Ninguém se importa em verificar se aquilo resulta em alguma diferença.

O IPCC diz que o saldo final causado por nuvens é provavelmente positivo [aquece mais o mundo, em vez de resfriar]. Isso derruba sua teoria sobre o efeito-íris?

Bem, até agora o efeito-íris já foi confirmado por quatro estudos independentes, então não estou propenso a me render e dizer que é uma idéia ruim. Há um estudo de Brian Soden e Ákos Horváth no qual eles confirmam nossa principal conclusão.

Para conseguirem publicá-lo, porém, tiveram de incluir um parágrafo dizendo o estudo parece confirmar o que eu, Ming-Da Chou e Arthur Hou [coautores] encontramos, mas é algo geralmente considerado errado. Além deles há Kevin Trenberth e John Fasullo dizendo que o que descobriram é consistente com nosso estudo, mas é claro que eles dão as referências para aquele que estava errado.

O IPCC menciona o estudo de Trenberth e colegas como não favorável aos seus resultados.

Eles tiveram um estudo que foi uma crítica, mas publicaram outro ao mesmo tempo, confirmando nosso resultado sobre o infravermelho.

Uma reclamação de cientistas como o sr. é de que as publicações científicas estão boicotando-os, mas o sr. tem publicado vários estudos...

Você está brincando? É claro que eles estão dizendo a verdade. O prática padrão com qualquer com críticas é fazer a revisão levar um ano e meio. Quando eu publiquei dois estudos no boletim da Sociedade Meteorológica Americana, ambos foram aceitos após longas revisões, mas o editor foi imediatamente demitido depois.

Isso não é apenas reflexo do consenso? Pesquisas recentes mostram que o papel humano no aquecimento global é reconhecido por algo em torno de 95% dos cientistas da área.

Sim, eu sei. E hahaha: eu estou entre os 95%, porque eles não estão fazendo a pergunta certa nessas pesquisas.

Um estudo perguntou se eles acreditavam que a atividade humana era uma causa significativa do aquecimento global, e só 5% discordaram. Temos algum impacto, mas não significativo.

Então, nessa pesquisa o sr. estaria no lado dos 5%.

Não! A maioria das pessoas entrevistadas nessas pesquisas dizem apenas que há "alguma" [influência humana].

O sr. se aborreceu quando a Harper's publicou uma reportagem acusando-o de receber dinheiro do petróleo?

Sim, eu cobrei um cachê de palestra de US$ 5.000 uma vez, e escreveram que eu estava recebendo isso todo dia. Eu havia dito ao autor desse texto, Ross Gelbspan, que eu havia comparecido a um encontro patrocinado por uma associação energética no Canadá, e que o cachê era de US$ 5.000. O ambientalista Stephen Schneider também recebeu a mesma coisa. Havia gente de todos os lados lá.

O petróleo também bancou o Centro de Annapolis para Políticas Públicas Baseadas em Ciência, onde o sr. é membro de um conselho?

Calma lá! Já faz mais de 15 anos que isso não existe. E foi muito pouco. Até onde eu sei, não teve influência nenhuma. Não conheço nenhum cientista em atividade que se oponha ao alarmismo e seja apoiado pela indústria do petróleo ou carvão. Então, isso é uma tática diversionista. O petróleo hoje está financiando mais os alarmistas.


06 outubro 2013

Amazônia pode perder 70% da área

É a projeção do IPCC para um cenário de aumento na estação seca na região até 2100

O Estado de SP


A Floresta Amazônica poderá sofrer uma redução de 70% da extensão da sua área ao fim do século, se houver um aumento da estação seca. A projeção consta do relatório completo do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que foi divulgado ontem na sequência do sumário para formuladores de políticas, anunciado na sexta passada.

O material, com mais de mil páginas, traz com mais detalhes as bases físicas da ciência do clima e uma abordagem regional com projeções sobre como cada parte do planeta poderá ser afetada no futuro. O relatório lembra que no clima atual o crescimento intenso da floresta ocorre justamente durante a estação seca, quando a insolação é maior e há bastante água do período chuvoso armazena; da nos aquíferos subterrâneos.

Ha muitas incertezas ainda sobre como a mudança climática vai afetar a seca na região, mas simulações que consideram um cenário de aumento do período sem chuva observam essa redução dramática na vegetação. O painel de cientistas alerta que o cenário poderá ficar ainda pior diante de um quadro de aumento do desmatamento, que tende a prolongar a estação seca. "Condições assim aumentam a probabilidade de incêndios naturais que, combinados com queimadas provocadas por atividades humanas, pode minar a resiliência da florestas às mudanças climáticas", escrevem os autores.

O relatório afirma que é muito provável (mais de 90% de chance) que a temperatura suba em toda a América do Sul, com o maior aquecimento projetado para o sul da Amazônia. A projeção é de um aumento da temperatura média de 0,5 °C (centro-sul) a 1,5°C (Norte, Nordeste e Centro-Oeste) no País até o fim do século no cenário mais otimista; e de 3°C (Sul e litoral do Nordeste) a 7°C (Amazônia) no pior cenário.

Chuva. Em relação às chuvas, porém, há incertezas, com diferentes estudos mostrando diferentes tendências para algumas regiões, explica a pesquisadora Iracema Cavalcanti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), uma das autoras do capítulo que mostra as projeções regionais futuras. "Mas temos grande confiabilidade para algumas. Os resultados são muito robustos de que na Região Sul do País e na bacia do Prata as chuvas vão aumentar. E no inverno, há mais confiança de que haverá excesso de chuvas no oeste da Amazônia e menos no leste e no sul", diz.



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