10 janeiro 2013

Ritmo de aquecimento da Antártida é maior do que se imaginava, diz estudo

Matt McGrath
Repórter de Ciência da BBC

Uma nova análise histórica sobre as temperaturas no oeste da Antártida revelou que a região está sofrendo com aquecimento em um ritmo duas vezes mais acelerado do que se imaginava.
 
Imagem de satélite da Antártida (Nasa)
Imagem de satélite mostra região do oeste da Antártida que está se aquecendo (em amarelo)

Pesquisadores americanos disseram ter encontrado sinais de aquecimento durante o verão da placa de gelo da parte oeste da Antártida (WAIS, em inglês).

Eles temem que o derretimento do gelo, provocado pelas temperaturas maiores, possa contribuir para o aumento no nível do mar.

O estudo dos cientistas foi publicado na revista científica Nature Geoscience.

Os cientistas compilaram dados levantados pela estação Byrd, que foi estabelecida pelo governo americano na placa oeste da Antártida na década de 1950. 

Lacunas estatísticas

Estudos anteriores não conseguiram chegar a conclusões sobre os números levantados na estação Byrd ao longo dos anos, já que não havia dados suficientes.

A nova pesquisa feita pelos cientistas americanos usou modelos de computadores para preencher as lacunas estatísticas. Com base nesses modelos, os pesquisadores acreditam que a temperatura subiu 2,4 graus em média, entre 1958 e 2010.

"O que estamos vendo é um dos sinais mais fortes de aquecimento da Terra", afirma Andrew Monaghan, co-autor do estudo e cientista do US National Center for Atmospheric Research.

"Esta é a primeira vez que pudemos determinar que há aquecimento durante a temporada de verão."

É natural esperar que as temperaturas sejam mais elevadas durante o verão, em comparação com outras estações, mas a Antártida é uma região tão fria que o clima permanece razoavelmente parecido durante todo o ano.

Outro autor do estudo, o professor David Bromwich, da Ohio State University, acredita que o estudo revela que o planeta ultrapassou um limite crítico.

"O fato de que as temperaturas estão aumentando no verão significa que a WAIS vai se derreter não só a partir da parte de baixo, como já observamos hoje, mas também a partir da parte de cima."
Atividade humana ou mudança natural?

Estudos anteriores publicados na revista científica Nature indicavam que a temperatura da WAIS estava aumentando devido ao aquecimento do oceano, mas a nova pesquisa indica que a atmosfera também está desempenhando um papel importante.
 
Larsen B (SPL)
Grande segmento conhecido como Larsen B se desprendeu em 2002

Os cientistas dizem que as mudanças podem estar sendo provocadas por alterações nos padrões de ventos no Oceano Pacífico.

"Estamos observando um impacto mais dinâmico que ocorre devido às mudanças climáticas que acontecem em outros lugares do globo e aumentam o acúmulo de calor na WAIS", diz Monaghan.

A pesquisa não revela o grau de influência da atividade humana no aquecimento registrado na Antártida.

"Esta questão ainda está em aberto. Este estudo não foi feito. Minha opinião é que provavelmente existe [impacto da atividade humana no aquecimento da Antártida], mas não posso dizer isso com certeza."

Para o professor Bromwich, um estudo para determinar esta questão específica precisa ser feito agora.

Um dos temores dos cientistas é que aconteça desabamentos de grandes pedaços de geleiras, como ocorreu em 2002 com o segmento conhecido como Larsen B.

Em apenas um mês, o Larsen B se desprendeu da massa de gelo do continente.

"Essa é uma preocupação do derretimento constante do oeste da Antártida, se os padrões de temperatura continuarem assim no verão."
 

Onda de calor faz Austrália criar mais cores para escala de temperatura

Matt McGrath 
Repórter de Ciência da BBC News

O Serviço de Meteorologia da Austrália foi obrigado a adicionar novas cores na escala de temperatura para indicar quando os termômetros ficam acima de 50ºC.
 
Imagem: Bureau of Meteorology, Austrália
Novas cores indicam temperaturas acima de 50ºC (Imagem: Bureau of Meteorology, Austrália)

Os meteorologistas adicionaram as cores roxo escuro e magenta para representar as temperaturas entre 51ºC e 54ºC, que podem ser alcançadas na próxima semana.

O país está enfrentando uma forte onda de calor, que piora ainda mais os incêndios em florestas da região sudeste, comuns durante o verão.

Oito dos 20 dias de maior média de temperatura já registrada na Austrália ocorreram na primeira semana de 2013. E, apesar da chegada de uma frente fria, que trouxe um pouco de alívio, os meteorologistas preveem uma nova onda de calor para o fim de semana.

Segundo pesquisadores, curiosamente, uma das causas imediatas dos problemas com o clima australiano foi a chuva. O fenômeno climático La Niña durou mais tempo nos dois últimos anos, e isso parece ter causado mais chuvas nas regiões sul e sudeste da Austrália.

Árvores e outras plantas cresceram muito e rapidamente. O problema é que, quando a temperatura aumenta, esta vegetação se transforma em combustível para os incêndios.

O segundo semestre de 2012 foi extremamente seco na região, com as temperaturas 0,11ºC acima da média diária. Esse cenário criou condições perfeitas para os grandes incêndios. 

Aquecimento global?

Nessas circunstâncias, quando a interferência humana parece ser ineficaz, políticos rapidamente apontam para uma ideia vaga de aquecimento global.

"Apesar de não citarmos a mudança climática (como causa para) qualquer evento, sabemos que, com o passar do tempo e como um resultado da mudança climática, vamos ter mais eventos e condições de clima extremos", afirmou a primeira-ministra australiana, Julia Gillard.

Políticos australianos sugeriram que mais carbono será liberado pelos incêndios que estão consumindo as árvores neste começo de 2013 do que pelas usinas de carvão nas próximas décadas.

Cientistas, porém, têm mantido o silêncio a respeito.

Em um relatório publicado em 2012, especialistas australianos previram o aumento do risco de incêndio em algumas das áreas que agora sofrem com as chamas, incluindo a Tasmânia e o sul da Austrália. Mas o documento não identificou claramente a causa do problema.

"Apesar de as tendências serem consistentes com os impactos previstos da mudança climática, este estudo não pode separar a influência da mudança climática, se houver alguma, da (influência) da variação natural", afirmou o relatório.

E, apesar da suposição de que o aquecimento global esteja em uma espécie de pausa nas últimas duas décadas, novos dados dos Estados Unidos sugerem que 2012 foi o ano mais quente já registrado.

No Brasil, os reservatórios de todo o país estão operando abaixo da capacidade devido à seca dos últimos meses e o consumo de energia elétrica aumentou com a onda de calor registrada no final do ano.
Riscos ao corpo

Cientistas afirmam que parte deste aumento de temperatura pode ter sido causado por atividades humanas.

Mas, segundo o professor Roger Pielke Jr., da Universidade do Colorado, é perigoso afirmar que um evento - seja o clima nos Estados Unidos ou os incêndios na Austrália - consiste em prova clara de mudança climática induzida pela atividade humana.

"Estas alegações simplesmente geram a reação que vemos entre os céticos sobre a desaceleração nas temperaturas globais em longos períodos de tempo", disse o professor à BBC. "O sistema climático é complexo o bastante para fornecer frutos para ambos os lados colherem", acrescentou.

Ao mesmo tempo, o corpo humano também sente: com o aumento das temperaturas, aumentam os riscos de desidratação, exaustão e insolação, por exemplo.

Pesquisas indicam que há perigos para a saúde quando a temperatura chega a 35ºC em ambiente de muita umidade. Aos 40ºC, mesmo em baixa umidade os perigos são altos.

07 janeiro 2013

Poluição mata mais de 4.000 pessoas em Teerã em 9 meses

BBC Brasil

Ao menos nove cidades no Irã estão, há 10 dias, cobertas por uma espessa névoa marrom. E essa nuvem de poluição vem sendo culpada pela morte de centenas de pessoas no país.

Segundo o ministério da Saúde do país, cerca de 4.460 pessoas morreram em decorrência da poluição nos primeiros nove meses do ano passado, apenas na capital Teerã.

No auge da crise, as internações em hospitais aumentaram em pelo menos um terço e os corredores de clínicas estão lotados de pessoas com dificuldade para respirar, especialmente crianças e grávidas em busca de tratamento.

O escritório da BBC em Teerã, localizado em uma área mais elevada da capital, normalmente tem uma vista clara de toda a cidade. Mas nos últimos dias, é possível ver apenas o contorno dos prédios mais altos e uma visão turva da torre de comunicação Milad.

Caminhar pelas ruas de Teerã é impossível sem usar uma máscara cirúrgica cobrindo o nariz e a boca. Mas os olhos lacrimejam e a garganta arde por causa de uma mistura de poluentes, formada por partículas contendo chumbo, benzeno e dióxido de enxofre. 


Doenças respiratórias e câncer

Abarrotada de carros e cercada de fábricas e usinas, Teerã é conhecida por sua poluição, particularmente nos invernos secos, sem muito vento, como o atual. Mas a qualidade do ar vem piorando recentemente e está pior do que nunca.

Segundo estudos, Teerã tem menos de 100 dias saudáveis por ano. Segundo o ministério da Saúde, houve um aumento na incidência de doenças respiratórias e ligadas ao coração, assim como diversos tipos de câncer, relacionados à poluição.

Por ano, os 5,5 milhões de veículos na cidade despejam cerca de cinco milhões de toneladas de gás carbônico e outros gases na atmosfera.

Alguns especialistas acreditam que o combustível produzido no país é de baixa qualidade e isso teria agravado a poluição. O governo nega.

Órgãos públicos, escolas e bancos reabriram neste domingo, após o governo ter decretado o fechamento dessas instituições por cinco dias, para reduzir a poluição crônica. 


Rodízio

Enquanto isso, o governo impôs severas leis para restringir o trânsito em Teerã. O rodízio que vigora atualmente tira cerca de metade dos veículos das ruas todos os dias. Mas essas são medidas de curto prazo e não têm um impacto real a longo prazo.

Sem uma estratégia governamental efetiva para coibir a poluição, a população precisa esperar pela chuva e pelos ventos para levar a névoa embora.

No hospital Farmaniyeh, no nordeste da cidade, as crianças tossem na sala de espera.

"Ouça sua mãe, tente não sair de casa e beba água e leite o máximo que puder", diz o dr. Bahrami para um garoto de 10 anos que tosse ao respirar.

"Você pode misturar água quente e mel e dar para ele beber", diz o médico à mãe do garoto.

Com a população de 14 milhões de pessoas, Teerã precisa de um plano estratégico para lidar com a poluição. Mas quando os ventos retornarem e a poluição for reduzida, o problema será rapidamente esquecido - até a névoa marrom voltar a tomar a cidade. 


Brasil

Enquanto na capital do Irã, uma média de 495 pessoas morrem por mês, em São Paulo esse número é de cerca de 300 mortes.