24 novembro 2011

Alerj propõe criação de centro de prevenção na Bacia de Campos

A proposta foi apresentada durante audiência pública.
Deputados do Rio querem instaurar uma CPI para apurar vazamento.

Rodrigo Vianna 

Do G1 RJ

Deputados do Rio de Janeiro querem a criação de um centro de prevenção, controle e monitoramento das atividades na Bacia de Campos, onde ocorreu o vazamento de óleo no Campo de Frade, na Bacia de Campos, na Região Norte Fluminense. A proposta foi apresentada nesta quinta-feira (24) durante audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), no Centro da cidade.

Na quarta (23), a Alerj anunciou a criação de uma CPI para apurar as causas do vazamento e os danos ao meio ambiente. Os trabalhos, segundo a Alerj, devem começar em dez dias.

De acordo com a deputada estadual Aspásia Camargo (PV), presidente da Comissão de Saneamento Ambiental e autora da proposta da CPI, o centro seria coordenado pela Petrobras, e as informações abertas às autoridades e à imprensa. A deputada defendeu, ainda, a autoridade do estado sobre as atividades na Bacia de Campos.

“O estado não pode pagar essa conta. Algo tem que ser feita e já. O que nós propomos é a criação de um centro de prevenção que tem que ser compartilhado com as empresas envolvidas na extração de petróleo da Bacia e com as autoridades. Deve ser um trabalho autônomo e de longo prazo”, disse a deputada no fim da audiência.

Além dos deputados, o secretário estadual do Ambiente, Carlos Minc, a presidente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), Marilene Ramos, prefeitos e autoridades de outros municípios do Rio, representantes do Ibama, do Ministério Público Federal (MPF) e da Chevron, empresa responsável pelo vazamento, participaram da audiência.

A presidente do Inea, Marilene Ramos, anunciou três medidas que, segundo ela, estão sendo discutidas com o Ibama e que serão tomadas pelo estado para evitar novos acidentes. Segundo ela, uma delas é um pedido de ação civil pública com relação aos danos causados pelo acidente. Marilene afirmou, ainda, que o órgão tem monitorado a área afetada desde o dia em que foi acionado.

“Estamos notificando a empresa para que ela, por um período de um ano, podendo ser estendido por quatro anos, faça um monitoramento da área afetada. Vamos notificar com relação a uma auditoria em todas as suas instalações com relação a capacidade de cumprir o plano de contingência e com relação a adequação de plano de emergência”, disse Marilene.

Marilene acredita que vazamento no Campo de Frade sirva para a aprovação de um plano nacional de contingência. Segundo ela, a proposta já está na Casa Civil.

'Para a Chevron, uma gota de óleo é inadmissível'

 
O supervisor do Meio Ambiente da Chevron, Luiz Pimenta, minimizou o incidente e afirmou que o vazamento já foi controlado. Segundo ele, o que há é apenas um óleo residual. Luiz Pimenta afirmou que cerca de 400 pessoas e 17 embarcações estão envolvidas no trabalho de contenção do óleo no Campo de Frade.

"No dia 13 (novembro) começamos a bombear lama pesada para isolar a fonte. Do dia 17 ao dia 22 a gente veio fazendo um monitoramento do poço, das fissuras, fazendo uma avaliação de decréscimo, está sendo visto este decréscimo do óleo, dando a entender claramente que essa fonte foi cessada e o que nós temos hoje na água é um óleo residual”, disse o supervisor.

O supervisor confirmou, ainda, que as imagens do vazamento divulgadas às autoridades foram editadas pela empresa: "As images foram editadas, mas por um bom motivo, já que havia alguns problemas de qualidade e interferência. Mas elas não foram alteradas. Não sabemos ainda como aquele óleo do fundo do mar foi parar na superfície. Para a Chevron, uma gota de óleo é considerada inadmissível", disse ele.

Ainda de acordo com Luiz Pimenta, a quantidade de óleo que vazou na Bacia de Campos corresponde a 2,4 mil barris. “Estamos fazendo investigações, não foi um evento planejado, não foi um evento previsto e assim que tivermos os resultados, vamos divulgar e trabalhar em cima deles para que este tipo de acidente nunca mais ocorra”, completou.

Apesar de o Ibama e Agência Nacional do Petróleo (ANP) informarem que o óleo na Bacia de Campos não deve chegar às praias do litoral do estado, alguns municípios da Região dos Lagos se preparam para uma possível contaminação. Em Arraial do Cabo foram colocadas barreiras de contenção na orla.

Vazamento continua

 
Na quarta (23), o presidente da Chevron, George Buck, afirmou durante depoimento na Comissão de Meio Ambiente da Câmara, que o vazamento de óleo no Campo do Frade, na Bacia de Campos, continua. Ele ressaltou, contudo, que o volume é pequeno e que, na superfície do oceano, resta apenas uma quantidade de óleo equivalente a três barris de petróleo.

“Se ainda há vazamento? Sim, o vazamento ainda está em curso. Foi mostrado um vídeo que mostra o pior ponto da mancha no fundo do mar, e há menos de três barris na superfície do oceano”, afirmou. Pouco antes, durante a audiência, Buck havia dito que o vazamento foi contido e que haveria apenas “óleo residual” - declaração que foi contestada pelo coordenador de segurança operacional da ANP, Raphael Moura.

“A ANP identificou vazamento pequeno, mas fluindo”, disse Moura. Após ser questionado por um deputado sobre o assunto, Buck admitiu que o vazamento continua e disse que a Chevron está “se esforçando” para zerar o escape de óleo.

Ele afirmou que enviou ao Ibama e à Agência Nacional do Petróleo um plano para capturar a substância que permanece na superfície do mar. “Providenciamos um plano para o Ibama e a ANP para capturar esse óleo, que foi aprovado imediatamente. Estamos trabalhando em conjunto com a ANP para esclarecer as perguntas que a ANP ainda tem. Se existe esforço de interromper o vazamento por parte da empresa? Acredito que sim.”

Trabalhadores ilegais

 
Na audiência, Buck também foi questionado sobre as suspeitas da Polícia Federal de que a Chevron contaria com trabalhadores ilegais no Campo do Frade. “Coletamos cópias de todos os vistos e não encontramos qualquer irregularidade”, disse o presidente da petrolífera. De acordo com a Polícia Federal, há indícios de que funcionários estariam trabalhando na Chevron sem a documentação exigida pela legislação brasileira. “Eles não poderiam estar lá (no Campo do Frade). Esses trabalhadores ilegais receberiam os salários fora do Brasil, o que configura crime de sonegação fiscal e evasão de divisas”, disse na segunda (21) o delegado Fábio Scliar, da Delegacia do Meio Ambiente e Patrimônio Histórico da Polícia Federal.

20 novembro 2011

Altamira pede suspensão de Belo Monte

Cidade do Pará defendeu hidrelétrica, mas, em meio a problemas de infraestrutura, solicitou a Dilma interrupção da obra

Município reclama da falta de condições para suportar a migração de populações atrás dos empregos na usina 


AGNALDO BRITO
ENVIADO ESPECIAL A ALTAMIRA (PA) - FOLHA DE SP

A cidade de Altamira (PA), palco da maior obra do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), pediu à presidente Dilma Rousseff, ao Ibama e ao MPF (Ministério Público Federal) a suspensão das obras da hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu.

O maior município em extensão territorial do Brasil já começou a sentir os efeitos da migração em massa após o início da construção, há mais de quatro meses.

Segundo a Secretaria de Planejamento de Altamira, apenas 30% das obras prometidas pela Norte Energia, responsável pelo projeto, foram atendidas. São construções e ampliações de salas de aula e posto de saúde, além de um novo hospital.

As obras de saneamento, promessa feita quando da autorização para o início da obra, estão atrasadas.

"O que me tranquiliza é que a Licença de Instalação [que autorizou o início da obra] não é definitiva. Sou favorável, sim, se não atenderem [as exigências], que a licença seja suspensa", disse a prefeita, Odileia Sampaio (PSDB). A prefeitura estima que mais de 7.000 pessoas tenham chegado a Altamira.

A eventual paralisação de Belo Monte pode comprometer ainda mais os prazos de construção da usina. Relatório da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) já indica atraso.

Essa migração afetou a rotina da cidade e já demanda vagas em escolas e atendimento médico. Altamira tem um hospital regional, que atende todos os municípios da Transamazônica.

O custo de vida para quem mora em Altamira disparou. "Um quartinho que custava R$ 250 agora custa R$ 500. Como uma pessoa que recebe salário mínimo pode pagar?", questiona Odileia.

Nas frentes de obra, já trabalham mais de 4.500 trabalhadores. Até dezembro, o número pode chegar a 5.000 e a previsão é que só a obra exija 20 mil pessoas.

Altamira teme repetir a história de Porto Velho, capital de Rondônia. Apesar dos recursos repassados ao Estado, as obras das hidrelétricas de Jirau e de Santo Antônio não conseguiram alterar a precária situação dos sistemas de saúde, da educação e do saneamento da cidade.

NOVOS PRAZOS

Após o pedido de paralisação de Belo Monte, a prefeitura diz que conseguiu voltar a negociar com a Norte Energia um novo cronograma para o cumprimento das obras emergenciais.

"A Norte Energia não estava preparada para resolver os problemas. Parece que agora começa a se mexer", diz o secretário de Planejamento de Altamira, Antônio Bortoli.

Procurada, a Norte Energia não confirmou essa renegociação de prazos, mas disse que respondeu a todos os pontos da carta.

Antes, o diretor de relações institucionais, João Pimentel, reconheceu que as obras de Belo Monte estão mais aceleradas do que aquelas previstas para readequar a infraestrutura da cidade.

"Isso é verdade, mas cada coisa tem seu ritmo. Belo Monte está sendo tocada por dez empreiteiras de altíssimo porte. Aqui, atrasa um pouco, tem dificuldade para a liberação de um terreno, tem invasão, tem a contratação da empreiteira local", disse.

Chevron omitiu problema no poço que vazava petróleo

CIRILO JUNIOR
PEDRO SOARES
 

FOLHA DE SP - DO RIO

A Chevron já havia detectado no dia 9 um vazamento de óleo no fundo do poço do campo de Frade, mas só mencionou o problema cinco dias mais tarde. Até então, a empresa afirmava apenas que o óleo escorria por "falhas [fissuras] no fundo do mar" e chegava à superfície da água.

Só na segunda (14), uma semana após o início do vazamento, a petroleira admitiu a possibilidade de que problema no poço que estava sendo perfurado era ligado ao óleo que poluía o mar.

Os primeiros sinais do vazamento foram notados por técnicos de uma plataforma da Petrobras no dia 8 a 4,6 km do local da perfuração. Foi avistada uma mancha de óleo e comunicada à Chevron.

No dia anterior, 7, a Chevron identificara problema no fundo do poço em processo de perfuração, a 2.279 metros de profundidade. A lama usada no processo não tinha peso suficiente para conter a pressão do óleo no reservatório e permitiu que ele subisse pelo canal já perfurado.

O problema é considerado, segundo a empresa, um "incidente" e foi informado à ANP no dia seguinte, no prazo legal. Mas a falha não é necessariamente capaz de gerar vazamento, diz a Chevron.

O óleo, que subiu e se alojou na parte superior do canal, escorreu para a formação rochosa submarina ao lado porque houve ruptura do revestimento do poço, a uma profundidade de 560 metros, acima da área do vazamento. Porosa, a camada de rochas absorveu o óleo e permitiu que fluísse por fissuras localizadas no subsolo marinho.

Essas informações, porém, só foram reveladas na sexta, pelo presidente da companhia no país, George Buck. Segundo o executivo, sua "primeira prioridade" foi a segurança dos empregados e terceirizados envolvidos na operação.

A segunda, disse, era conter o vazamento no fundo do poço - controlado no dia 13, segundo a empresa. O terceiro alvo, afirma, vinha a ser retirar o óleo da superfície.

George Buck disse que não vai fazer "especulações" e só prestará informações já apuradas. Por isso, a empresa não revelou ainda o volume total de óleo vazado, o motivo do erro de avaliação da pressão no fundo do poço e as causas da ruptura do revestimento.