13 janeiro 2010

Alienígenas perigosos invadem praias do Brasil

Estudo identifica espécies estrangeiras que causam prejuízos e diminuem a biodiversidade

Renato Grandelle - O Globo

 

Elas invadiram as nossas praias. Literalmente. Nove espécies estrangeiras que se instalaram no litoral brasileiro, entre algas, corais e moluscos, limitam a transparência da água, reduzem a biodiversidade e prejudicam atividades econômicas, além de transmitir doenças.

O inventário dos invasores nocivos da costa foi concluído pela USP e pela UFRJ, em parceria com a Marinha, o Ministério do Meio Ambiente e a ONU.


Trata-se da mais ampla análise de espécies invasoras Marinhas já realizada no país.
 

A presença dessas espécies provoca danos comparáveis à ocupação desordenada dos ecossistemas e à poluição. Com um agravante: não há infra-estrutura disponível para impedir que as espécies invasoras cheguem aos portos. Removê-las é um trabalho considerado impossível pelos próprios cientistas.

As espécies se dispersam rapidamente pelas correntes marítimas. Se uma localidade for alvo de iniciativas para erradicálas, nada impede que, antes disso, as larvas das invasoras já tenham chegado a outra região.


— Existem numerosos exemplos de como essas espécies provocam perdas econômicas muito grandes — alerta Rubens Lopes, editor científico do livro “Informe sobre as espécies exóticas invasoras Marinhas no Brasil”, resultado do inventário. — A última pandemia de cólera na América do Sul, no início da década passada, foi provocada por uma espécie invasora, que surgiu no Peru e chegou rapidamente à Amazônia.

A equipe de Lopes listou 58 espécies identificadas como exóticas. O termo define seres que não são originais do ambiente estudado. É o caso, por exemplo, de um peixe amazônico introduzido para cultivo na Região Sudeste. Mas só nove das 58 foram consideradas invasoras de fato, pois provocam impacto mensurável e nítido.


A principal forma de introdução das espécies estudadas é o transporte marítimo. As invasoras chegam a novos ecossistemas incrustadas em cascos de navio ou misturadas à água de lastro, usada como contrapeso para manter a estabilidade das embarcações. A Organização Marítima Internacional determina que os navios troquem esta carga apenas em águas oceânicas.


A norma, porém, nem sempre é seguida.
 

A desobediência provoca casos como o do molusco bivalve, que foi do Sudeste Asiático para o porto de Buenos Aires. A espécie subiu a bacia hidrográfica do Prata, acendendo o sinal vermelho de hidrelétricas do Paraguai, Brasil, Argentina e Uruguai. As usinas intensificaram a limpeza de paredes de concreto, substratos ideais para a adesão do molusco. De lá ele ainda avançou para o Pantanal, representando um risco para a biodiversidade local.

— O molusco adere a espécies de plantas aquáticas, causando algo semelhante a uma asfixia — explica Lopes. — Na falta de um substrato sólido, as invasoras aderem umas sobre as outras, provocando a destruição de habitats importantes para outras espécies.


O monitoramento das embarcações que chegam ao Brasil é, segundo Lopes, ínfimo. Como são 50 mil navios por ano que aportam no país, faltam equipes que fiscalizem, longe da costa, onde as embarcações trocaram a água de lastro.