07 outubro 2009

Lula é cobrado por ambientalistas

Presidente afirmou que pretende ir à Conferência do Clima, em dezembro, na Dinamarca, mas cobrou também a presença e o compromisso dos países ricos

Wilfred Gadêlha - Enviado especial - Jornal do Commércio

ESTOCOLMO – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu com ironia a mais uma cobrança do Greenpeace por uma proposta de zerar o desmatamento no Brasil até 2020: "Nem se o Brasil fosse careca, nós poderíamos desmatar 0%". A declaração se deu após manifestação pacífica e quase silenciosa dos ambientalistas, que ergueram faixas com os dizeres "Lula, você levou as Olimpíadas, agora salve o clima" e "Lula, vá a Copenhague", na chegada do presidente à sede do governo sueco, no Palácio Rosenbad, em Estocolmo, onde aconteceu ontem a 3ª Cúpula Brasil-União Europeia (UE).

Os ativistas acreditam que a presença de Lula na Conferência do Clima na capital dinamarquesa, em dezembro, é essencial para que os demais líderes mundiais se comprometam a aumentar suas propostas para a redução da emissão de CO2. Cerca de dez ambientalistas foram impedidos pela polícia sueca de se aproximar do líder brasileiro, mas chegaram a mostrar as faixas e cartazes simulando uma passagem Brasília-Copenhague. E Lula até acenou para os manifestantes.

"Nossa meta é até 2017 reduzir o desmatamento em até 70% e, até 2020, 80%. Não dá para não desmatar 0%. Sempre vai ter alguém cortando", salientou, voltando a dizer que 2009 terá o menor percentual de desmatamento em 20 anos.

Lula disse ainda que é preciso que haja um sistema unificado de verificação de emissões de CO2. "Cada um diz uma coisa. Não podemos ficar discutindo isso de maneira genérica. Precisamos saber de verdade o quanto cada país emite, de Guiné-Bissau, que praticamente não emite nada, aos EUA, do Brasil à Suécia, França, Argentina e Alemanha", afirmou.

Defendendo a posição brasileira, fez questão de enumerar dados: "Quarenta por cento da nossa matriz energética são limpos. No resto do mundo, são 12%. Oitenta por cento da nossa geração de energia elétrica vêm de fontes renováveis, além de 85% dos carros que produzimos já são flex fuel, sem falar dos que são movidos a gasolina, que têm 25% de etanol. Se pudesse, eu levaria um carro a etanol a Copenhague para comparar a um movido a gasolina".

Lula disse que sua intenção é ir a Copenhague. "Acho que se formos todos poderemos discutir as responsabilidades de cada um. Podemos definir sobre reflorestamento, redução de emissões ou financiamento para que países pobres possam reduzir suas emissões. Se cada um fizer seu dever de casa, poderemos melhorar o planeta." Mas, "se ninguém for, eu também não vou". Mais tarde, em discurso no Fórum Empresarial Brasil-UE, ele disse que, até 2020, o País diminuirá em 4,8 bilhões de toneladas de CO2.

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, considerou a proposta brasileira ambiciosa e concordou com a necessidade de se ter uma espécie de unificação dos números de emissão. "Os objetivos de cada país devem ser fiscalizados. Como estamos falando de floresta, há uma floresta de números e datas e até os especialistas têm dificuldade de entender."

Já o premiê sueco, Fredrik Reinfelt, disse que a União Europeia não vai aceitar que empresas instaladas no bloco se mudem para países como metas menores de redução de emissão de carbono.
 
"Isso poderia até gerar mais empregos, mas teríamos mais agressão ao meio ambiente", afirmou.

» O jornalista viajou a convite da União Europeia

Afinando discurso para Copenhague

UE endossa plano do Brasil de redução do desmatamento. Partes decidem por nova reunião antes do encontro da ONU

Silvio Queiroz, *Enviado especial - Estado de Minas

Estocolmo – Brasil e União Europeia (UE) encerraram ontem sua terceira reunião de cúpula com a decisão de realizar um novo encontro de alto nível, possivelmente em novembro, para afinar a sintonia sobre o combate à mudança do clima, antes da conferência das Nações Unidas sobre o tema, marcada para dezembro, em Copenhague (Dinamarca). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva leva da capital sueca o endosso dos dirigentes europeus ao plano brasileiro para reduzir o desmatamento da Amazonia em 80% até 2020.

"O Brasil adotou um plano muito ambicioso em termos de desmatamento, que pode ser exemplo para outros países do mundo que têm florestas tropicais", elogiou o presidente da Comissão Europeia (CE, braço executivo da UE), José Manuel Durão Barroso. No fim do encontro, ele e Lula deram entrevista coletiva ao lado do anfitrião, o primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt, que exerce a presidência rotativa da UE.

O governante brasileiro voltou a propor que a Organização das Nações Unidas (ONU) determine quanto cada país emite de gases causadores do efeito estufa: "Temos que chegar a Copenhague sabendo quanto cada um emite, para cada um assumir a sua responsabilidade – desde Guiné-Bissau, que não deve emitir nada, até os Estados Unidos". Respondendo a um pedido do movimento ecologista Greenpeace, que cobrou do Brasil um compromisso com o "desmatamento zero", Lula fez a primeira de uma série de piadas com as quais arrancou risos da platéia, inclusive de Barroso: "Desmatamento zero, nem que o Brasil fosse careca, porque sempre alguém vai cortar alguma coisa".

Lula continuou comemorando a escolha do Rio de Janeiro como sede da Olimpiada de 2016, e apresentou a decisão para exaltar, no encerramento de um seminário empresarial Brasil-Suécia, "a dimensão do que está acontecendo" no país. "O Brasil não vai perder o século 21 como perdeu o seculo 20", prometeu, no fim de um longo discurso com meia hora de improviso, no qual provocou os empresários locais a investirem no país se quiserem repetir, na Copa de 2014, a final do mundial de 1958, na Suécia – o primeiro vencido pela seleção brasileira. "Não percam a oportunidade", insistiu Lula, pouco depois de ter lamentado que "poucos países tiveram tantas oportunidades como o Brasil, e nos jogamos fora". A Olimpíada, a Copa e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) "vão transformar o país num canteiro de obras", anunciou. O presidente voltou a festejar a recuperação da economia brasileira. "Fomos o último país a entrar na crise e o primeiro a sair", remetendo à fábula da cigarra e da formiga. "Nós trabalhamos e economizamos enquanto outros cantavam", comparou.

O QUE FICOU ACERTADO

Meio ambiente

Brasil e a União Europeia (UE) realizarão um encontro de alto nível, antes da Conferência de Copenhague, para coordenar posições, com base nos planos que cada um dos lados apresentou para enfrentar as mudanças climáticas.

Governança global

As duas partes defendem o fortalecimento da Organização das Nações Unidas (ONU) e a reforma dos principais organismos, em especial para aumentar a representatividade do Conselho de Segurança.

Comércio

Brasil e UE reiteraram a determinação de seguir trabalhando pela conclusão da Rodada de Doha, em 2010, e concordaram em retomar as negociações para um acordo de livre comércio entre o bloco europeu e o Mercosul.

Relações bilaterais

Brasil e UE manifestaram satisfação com o andamento do plano de ação da parceria estratégica e com o stabelecimento do mecanismo de diálogo político de alto nível.

*O repórter viajou a convite da UE

06 outubro 2009

Europa cobra de Lula ação na Amazônia

Brasil e União Europeia discutem hoje propostas que levarão à conferência da ONU sobre aquecimento global no fim do ano

Silvio Queiroz
Enviado especial - Correio Braziliense

Estocolmo — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou na noite de ontem à capital sueca, onde participa hoje da 3ª Cúpula Brasil-União Europeia (UE), respondendo às cobranças dos países desenvolvidos sobre a contenção do desmatamento na Amazônia — as mudanças climáticas estão entre os pontos centrais do encontro. Lula argumentou que todos os países têm suas responsabilidades e que a cobrança não deve ser feita apenas às nações com grandes áreas florestais. "Os países ricos não podem continuar achando que os países pobres têm de preservar as florestas enquanto eles continuam crescendo", disse o presidente na chegada ao Grand Hotel de Estocolmo.

Coordenar posições para a conferência que as Nações Unidas promovem em dezembro em Copenhague — de onde sairá um novo acordo sobre o aquecimento global, que sucederá o Protocolo de Kyoto — é um dos principais assuntos das conversas de Lula com o presidente da Comissão Europeia (CE), braço executivo da UE, José Manuel Durão Barroso. O presidente brasileiro sustentou que a ONU deve monitorar as emissões de gás carbônico de cada país, para que esses dados indiquem "o quanto cada um tem de reduzir". "É preciso fazer com que todos os países, Brasil, Botswana e Namíbia, assumam sua responsabilidade."

Lula e Barroso têm um encontro em separado e outro acompanhados de auxiliares. Além disso, se reúnem com um grupo de executivos brasileiros e europeus, nos marcos de um fórum empresarial, e com representantes do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) e seu equivalente, o Comitê Econômico e Social Europeu. Como anteciparam fontes de alto nível em Bruxelas, Barroso espera do colega brasileiro "uma proposta concreta" pela qual o Brasil se comprometa com objetivos precisos no combate ao aquecimento global.

As conversas sobre a mudança do clima estão entre os assuntos que o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, aponta como "resultados concretos" que deverão sair das cúpulas de hoje em Estocolmo — à tarde, em encontro bilateral com o primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt, Lula discutirá a parceria estratégica entre Brasil e Suécia. "Vocês querem alguma coisa mais concreta do que o ar que vocês respiram?", perguntou o chanceler aos jornalistas. Ainda sobre a questão ambiental, o ministro citou os planos conjuntos com a UE para programas triangulares de cooperação com países africanos interessados nos biocombustíveis, nos moldes da iniciativa com a Suécia, que importa de Gana etanol produzido com assistência brasileira.

Amorim ressaltou também as discussões sobre a Rodada de Doha, para liberalização do comércio mundial, e as gestões para retomar negociações sobre um acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul — mas fez questão de frisar que o processo não será oficializado na capital sueca, mesmo porque o Brasil não está exercendo a presidência do Mercosul.

Até o fim de semana, os sherpas — como são chamados, na linguagem diplomática, os funcionários que trabalham na formulação de acordos e declarações — continuavam negociando os termos da declaração, final que será assinada pelos dois presidentes. E, segundo confidenciam em Bruxelas os negociadores europeus, alguns itens seguiam pendentes. Um exemplo era a intenção do Brasil de incluir no texto uma referência a esforços conjuntos contra o comércio ilegal de madeira, uma resposta à cobrança europeia de maior rigor quanto ao desmatamento da Amazônia.
 
"O Brasil e a União Europeia se enfrentam em um contexto de negociações", disse a jornalistas brasileiros um eurocrata de nível intermediário, envolvido diretamente com as relações bilaterais. Na questão do aquecimento global, que o lado brasileiro classifica como "ponto central da cúpula de Estocolmo", esse funcionário europeu aponta como objetivo encontrar os termos para "dar ao mundo um sinal político conjunto". O endereço prioritário seriam os Estados Unidos e outros países desenvolvidos que, na visão de Bruxelas, "resistem a adotar metas obrigatórias de redução das emissões de gases causadores do efeito estufa".

Iniciativas

Pelo lado brasileiro, como definiu um diplomata de escalão elevado, a avaliação sobre as relações com a UE é de que "foi feita muita coisa" desde a cúpula do ano passado, no Rio de Janeiro, onde foi assinado o plano de ação da parceria estratégica — um status de relação que equipara o país à Rússia, à Índia e à China, sócios do Brasil no Bric. Com 16 mesas de diálogos setoriais instaladas, e contatos frequentes entre representantes técnicos e políticos de diferentes níveis, as iniciativas se sucedem.

A parte da revisão política do andamento da parceria e a expressão de coincidências sobre temas relevantes da agenda mundial, que se traduzirá na declaração final, a expectativa mais concreta em Estocolmo é para que seja acertado o acordo de isenção recíproca de vistos com os últimos quatro países da UE onde o documento ainda é exigido (Letônia, Estônia, Chipre e Malta). Os dois lados concluíram também as negociações políticas para um acordo de cooperação científica pelo qual pesquisadores brasileiros trabalharão em projetos europeus de fusão nuclear, mas detalhes técnicolegais impedem que o documento esteja pronto para assinatura em Estocolmo.

Proposta verde

A Europa tem pronta para levar a Copenhague, em dezembro, uma proposta que considera "a mais avançada" para um novo acordo internacional sobre as mudanças climáticas, substitutivo ao Protocolo de Kyoto. A UE compromete-se a reduzir suas emissões de gases estufa em 20%, ate 2020, com base nos níveis de 1990, além de propor um fundo internacional para ajudar nações em desenvolvimento a buscar formas de energia mais limpas.

O repórter viajou a convite da Comissão Europeia