30 dezembro 2009

Brasileiros exploram fundo do mar polar

Coletas feitas por biólogos a bordo de navio na baía do Almirantado, Antártida, revelam espécies ainda desconhecidas

Pesquisadoras confirmam ocorrência de bactérias magnéticas, que poderão, no futuro, ser usadas na indústria ou na medicina

EDUARDO GERAQUE
ENVIADO ESPECIAL À ANTÁRTIDA - Folha de S.Paulo

As mãos estão quase congelando. Mas, na popa do navio Ary Rongel, o pesquisador Marcelo Bernardes, da Universidade Federal Fluminense, não desiste. "Vamos tentar mais uma vez", anuncia para a equipe, que trabalha há mais de seis horas na baía do Almirantado, na ilha Rei George, Antártida.

A sensação térmica é de alguns graus abaixo de zero. Todo o esforço, recompensado depois, é para entender como é a biodiversidade do fundo marinho da baía. Um equipamento chamado "box core" -uma grande mandíbula de aço que "morde" o sedimento lá embaixo, a centenas de metros de profundidade- é o que traz a vida marinha para o barco.

A segunda tentativa de fazer a coleta de sedimentos, num ponto a 100 metros de profundidade, tem sucesso. No ponto seguinte, a 300 metros, os cientistas começaram a penar.

Foram nove tentativas, sem sucesso. Por causa da topografia do fundo do mar no local, foi difícil achar um ponto plano, onde o equipamento pudesse realmente fazer a amostragem. "Sabíamos que esse seria o ponto mais complicado. Mas o sucesso das coletas aqui foi total", afirma Bernardes.

O pesquisador integra um grupo que se dedica a mapear a biodiversidade antártica, desde as mais insignificantes algas unicelulares até os grandes mamíferos -"do plâncton às baleias", como gosta de dizer a coordenadora do projeto, a bióloga Lúcia Siqueira Campos, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

O esforço brasileiro, desde o ano passado em cooperação com um grupo australiano, faz parte de um projeto internacional, o CAML (Censo da Vida Marinha Antártica). Iniciado em 2005, o CAML tem feito o número de espécies registradas no oceano Austral explodir -hoje são mais de 7.500 registradas, o que torna a Antártida mais biodiversa que os trópicos em alguns grupos de animais.

O resultado da coleta deste ano na baía do Almirantado vai ser estudado e identificado no Brasil. Mas o "olhômetro" do pessoal a bordo já indica que espécies novas poderão surgir, de vários grupos de invertebrados marinhos -ou, pelo menos, espécies nunca antes descritas para essa parte do mundo.

Atração vital

Noutro ponto da baía, na estação Comandante Ferraz, a bióloga Karen Silva, também da UFRJ, examina ao microscópio o resultado de outra pescaria, esta bem mais sutil. "Elas estão aqui", anuncia. "Elas", no caso, são bactérias magnéticas.

Esses organismos sintetizam cristais magnéticos cuja função supostamente é orientá-las ao longo da coluna d'água, sempre na direção de locais com pouco oxigênio. Comuns em todos os continentes, elas haviam sido encontradas pela primeira vez na Antártida pelo grupo brasileiro, exatamente na baía do Almirantado, em fevereiro.

Agora veio a confirmação de que elas realmente existem. Ao lado de Silva está Lia Teixeira, colega inseparável de trabalhos de campo. A também pesquisadora da UFRJ estava na coleta histórica do início do ano.

Aplicações

Depois de passarem muito frio coletando sedimentos em zonas rasas e de processarem o material, as cientistas encontram seus organismos de estudo. É virtualmente impossível descobrir bactérias magnéticas da maneira tradicional, enviando uma amostra de sedimento ao Brasil para análise, porque elas morrem no caminho.

O truque para detectá-las é explorar os magnetossomos, os tais cristais magnéticos: basta colocar um imã perto da lâmina no microscópio e literalmente atrair os micróbios.

Apesar de comuns, as bactérias magnéticas ainda são pouco conhecidas. Há quem proponha usá-las como agentes de contraste em ressonância magnética, ou como "mísseis" que ajudem medicamentos, no caso de um tumor, por exemplo, a irem direto ao alvo.

14 dezembro 2009

A semana decisiva para o futuro da Terra

Marcelo Gigliotti - Jornal do Brasil

Esta semana, os líderes de 192 nações estarão decidindo o rumo que a civilização contemporânea vai seguir. O que está em jogo não é só a luta contra o aquecimento global e suas consequências sobre a natureza e a humanidade, mas um novo modelo de sustentabilidade. Para a comunidade científica, o planeta não suportará um aumento de mais de 2 graus na temperatura média.

Por isso, será preciso fechar um acordo, no qual as nações assumam o compromisso de reduzir as emissões de gases de efeito estufa, como o CO2. Serão necessários ainda recursos em grande escala, cerca de US$ 1 trilhão por ano: tanto para colocar os países nos trilhos de uma economia “verde”, movida a energias limpas; como para ajudar a combater os efeitos das mudanças climáticas, que já se manifestam.

A semana passada, a primeira das duas que compõem o calendário da Conferência do Clima de Copenhague (COP 15), começou mostrando a divisão entre países industrializados e emergentes ou em desenvolvimento.

EUA e China, os dois maiores emissores de carbono, trocaram farpas, simbolizando este racha entre dois mundos. Na sexta-feira, porém, o esboço de um acordo parece ter unificado aspirações e evidenciado que todos habitam um só planeta.

Pelo esboço, as nações mais ricas terão que cumprir metas mais ousadas de corte nas emissões de carbono, que poderão chegar a 95% até o ano 2050. Já os países emergentes e em desenvolvimento deverão buscar um corte de 50% até a metade do século 21. Os mais ricos se comprometem a transferir tecnologia de geração de energia limpa, como a eólica ou a solar, para os mais pobres. E ainda se dispõem – principalmente a União Europeia – a financiar boa parte do esforço para que se chegue a um mundo de baixa emissão de carbono.

Mas a decisão final caberá a líderes, como Barack Obama, dos EUA, ou Hu Jintao, presidente chinês. O Brasil, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem a preservação da Amazônia como maior trunfo, também exercerá influência na tomada de decisão. Os olhos do mundo estarão atentos. Prontos para cobrar a escolha pelo rumo certo.

27 novembro 2009

China rouba a cena em Copenhague

Gigante asiático ofusca meta dos EUA com corte de emissão de 40%

Paulo Marcio Vaz- Jornal do Brasil

Rio - Um dia depois de os Estados Unidos chamarem a atenção do mundo ao anunciar uma meta de redução de CO2 – considerada baixa, mas importante, por especialistas – de 17%, a China não perdeu tempo e roubou a cena ontem. Sem ter a obrigação de se comprometer com uma meta de redução – por ser um país e em desenvolvimento – a nação mais poluidora do planeta comprometeu-se a reduzir entre 40% e 45% sua emissão de dióxido de carbono por cada unidade do PIB, índice mais conhecido como intensidade energética. O anúncio consolida uma reversão na tendência pessimista que ameaçava o sucesso da conferência do clima de Copenhague, entre 7 e 18 de dezembro, que alguns chegaram a considerar “enterrada”. Pequim também informou que o presidente chinês, Hu Jintao, vai comparecer ao encontro.

O anúncio chinês deixa mais otimista a comunidade internacional a respeito de resultados significativos a serem alcançados em Copenhague. Em números absolutos, não é possível mensurar o quanto a redução chinesa vai representar em emissão de CO2, pois isso dependerá do crescimento do PIB chinês. Mas o coordenador do do Programa Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, Carlos Rittl, fez uma projeção considerando um avanço anual de 10% do PIB da China até 2020.

Números absolutos

Segundo Rittl, se a China não adotasse qualquer medida de redução de CO2, o país emitiria, até 2020, 19,5 gigatoneladas de dióxido de carbono. Com a redução de 45% (o índice mais otimista), a emissão seria de 10,7 gigatoneladas, ou seja, 8,8 gigatoneladas a menos.

– A China tem tomado medidas importantes de eficiência energética – elogia Rittl.

O coordenador da WWF disse que o anúncio feito pela China, um dia depois de o presidente americano, Barack Obama, anunciar também a meta americana, começa a criar um ambiente mais favorável para um acordo significativo de redução de emissões a partir de 2012. Apesar das dificuldades de se conseguir consenso, principalmente entre países industrializados e em desenvolvimento, Rittl se coloca do lado de quem sempre acreditou na possibilidade de sucesso da conferência de Copenhague.

– Sempre acreditei que era possível. Espero acordar, depois de Copenhague, podendo comemorar a existência de um acordo, com força de lei, que garanta uma redução substancial de CO2.

Cautela e fiscalização

Já a professora do Instituto de Geoquímica da UFF, Cátia Fernandes Barbosa, é mais cautelosa, e lembra de uma questão que a faz desconfiar da consolidação da meta chinesa, apesar de também saudar o anúncio de Pequim:

– Há um fator que diferencia o grau de credibilidade que podemos ter em relação à China. A falta de liberdade de expressão naquele país obriga a nós, cientistas. a ficarmos mais vigilantes sobre o

cumprimento real dessa meta – analisa.

A professora pondera que, nos EUA, por exemplo, cientistas são capazes de criar órgãos independentes de reivindicação e fiscalização, o que, segundo ela, não ocorreria na China.

-–Uma coisa é dizer, outra é fazer. Precisamos ser vigilantes e ficar atentos – completa. Cátia se mostra mais animada a respeito da confirmação da presença, na cúpula de Copenhague, de Jintao e Obama, líderes dos países mais poluentes no mundo.

- É fundamental que as barreiras políticas sejam vencidas nessa questão. Afinal de contas, a atmosfera é de todo mundo. É preciso que a questão das emissões de CO² alcance a mesma maturidade que outras questões já alcançaram, como, por exemplo, a do CFC (componente químico que afeta a camada de ozônio e tem sido substituído pela indústria mundial).

26 novembro 2009

EUA entram na luta

Obama viajará a Copenhague para apresentar meta de redução das emissões de gases do efeito estufa em 17% até 2020

Rodrigo Craveiro – Correio Braziliense

Foram oito anos de silêncio e de omissão absoluta. Uma época durante a qual George W. Bush se recusou a assumir compromissos para mitigar os efeitos do aquecimento global, enquanto o mundo vislumbrava sua própria destruição. A apenas duas semanas da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, a Casa Branca anunciou “uma contribuição importante a um problema que os Estados Unidos têm negligenciado por tanto tempo”. “O presidente (Barack) Obama viajará a Copenhague, em 9 de dezembro, para participar do encontro. Ele está ansioso para trabalhar com a comunidade internacional no sentido de um progresso rumo a um acordo compreensivo e global”, afirma o comunicado divulgado ontem pela Presidência dos Estados Unidos. “No contexto de um pacto geral que inclua contribuições para uma mitigação robusta, por parte da China e de outras economias emergentes, o presidente está preparado para colocar sobre a mesa uma meta de redução das emissões de 17% (em relação aos níveis de 2005) até 2020, e alinhado com a legislação dos EUA sobre clima e energia”, acrescenta o texto.

Obama viajará acompanhado dos secretários Ken Salazar (Interior), Tom Vilsack (Agricultura), Gary Locke (Comércio), Steven Chu (Energia) e Lisa Jackson (Meio Ambiente). “Pela primeira vez, a delegação norte-americana terá um Centro dos Estados Unidos na conferência, fornecendo um fórum único e interativo para compartilhar nossa história com o mundo”, reitera o comunicado da Casa Branca.

Cientistas e ambientalistas consultados pelo Correio receberam a notícia com um “otimismo reticente”.

Por telefone, Rajendra Kumar Pachauri, chefe do Paintel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, pela sigla em inglês) e Prêmio Nobel da Paz, considerou a atitude de Obama “um bom começo”.

“Obama está no poder há apenas um ano e depende muito do Congresso, que não tem se mostrado muito entusiástico com o assunto”, criticou. “Mas estou grato por ele ir a Copenhague. É um bom desenvolvimento.”

O dinamarquês Bjorn Lomborg faz jus ao apelido de “ambientalista cético”. Em entrevista por email, ele admitiu que a meta de redução de 17% até 2020 “soa como uma boa promessa, mas simplesmente não será alcançada”. Para o especialista, as análises mostram que será mais provável uma redução de 3% a 4% — o restante viria do mercado de carbono. “É como usar truques de contabilidade para fazer com que o balanço bancário pareça maior. Muitos políticos estão prometendo coisas que não serão capazes de cumprir”, opinou. Lomborg crê que o mandatário norte-americano prestigiará apenas a abertura da conferência. “Ele não estará lá quando decisões reais forem tomadas e transmitidas ao mundo”, atacou.

Por sua vez, o cientista neozelandês Kevin Trenberth — autor dos três últimos relatórios do IPCC (1995, 2001 e 2007) — acredita que o problema está no aumento das emissões, apesar de o Protocolo de Kyoto ainda teoricamente vigorar. “Os EUA estão planejando reduzir as emissões, mas a meta ainda não está clara e o modo como será cumprida é incerto. Apesar de os números em discussão serem muito pequenos, precisamos começar de algum ponto, fazer mudanças em incentivos e penalidades, para então progredir”, comentou. Na opinião dele, o governo Obama “é forte na intenção” em lidar de modo responsável com as mudanças climáticas, “mas o processo político norte-americano revela-se lento, atrasado pelo debate da reforma da saúde”.

De viagem a Caxias do Sul (RS), Carlos Nobre, cientista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e também membro do IPCC, não vê grandes novidades no anúncio da Casa Branca.

“Pela nova proposta, em 2020, os Estados Unidos reduziriam suas emissões em 1,23 bilhão de tonelada de dióxido de carbono equivalente. O Brasil tem uma meta voluntária de reduzir até 1,1 bilhão. Ao compararmos o tamanho das emissões americanas e brasileiras, veremos que essa meta dos EUA é muito modesta”, disse, por telefone. De acordo com ele, os países em desenvolvimento e o IPCC indicaram que as nações desenvolvidas deveriam diminuir suas emissões em 40%, em relação a 1990. “Quando olhamos que o IPCC recomendou um corte muito rápido nas emissões, para que a temperatura não suba mais de dois graus Celsius, vemos que a promessa dos EUA é aquém do que o mundo está pedindo”, acrescentou.

Eu acho...

“É um bom começo, considerando que os Estados Unidos não têm feito muito na área. Se observamos desse ponto de vista, veremos que foi um passo adiante. Obama está no poder há apenas um ano e depende muito do Congresso. Sob essas circunstâncias, não estou certo de que ele conseguiria metas mais altas. Mas estou grato por ele ir a Copenhague. É um bom desenvolvimento” Rajendra Kumar Pachauri, chefe do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e Nobel da Paz

EUA vão cortar 17% de CO2 até 2020

Meta é considerada baixa, mas importante. Na prática, corte é similar ao anunciado pelo Brasil

Paulo Marcio Vaz – Jornal do Brasil

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fará uma breve mas importante aparição no dia 9, em Copenhague, para anunciar, durante a conferência do clima, que os EUA desejam cortar em torno de 17% de suas emissões de gases do efeito estufa até 2020, baseado em índices de 2005. Na prática, a meta representa a redução de 1 bilhão de toneladas de CO2, quantidade similar à proposta pelo Brasil para daqui a 10 anos. A presença de Obama na Dinamarca será uma escala na viagem até Oslo, na Noruega, onde ele receberá, no dia 10, o Prêmio Nobel da Paz. A proposta de corte oferecida pelos EUA foi aprovada pela Câmara dos Deputados americana, mas é inferior àquela a ser apreciada pelo Senado, que prevê um corte de 20%.

Apesar de comemorar o anúncio, o secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas e diretor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, acha “muito pouco” o índice de redução de CO2 proposto pelos EUA.

– A proposta americana não é uma coisa de outro mundo. Na verdade, em quantidade de CO2, é igual à proposta brasileira. Considerando que os EUA emitem muito mais, fica claro que, proporcionalmente, a meta deles é muito inferior à nossa – analisa Pinguelli.

Mais otimismo No entanto, o pesquisador considera importante que Obama estabeleça uma meta e compareça a Copenhague, o que aumenta a expectativa de sucesso da conferência do clima na Dinamarca, que enfrenta uma onda de descrença entre especialistas. O próprio Pinguelli se diz mais confiante a partir do anúncio feito ontem pela Casa Branca.

– Diria que, até antes do anúncio do Obama, de 0 a 10, meu grau de otimismo sobre a conferência estava em 5,5. Agora, aumentou para 7,5 – avalia Pinguelli.

O diretor da Coppe diz ainda que a decisão americana pode influenciar a China, outro grande emissor de CO2, que ainda não se manifestou sobre uma proposta concreta para Copenhague.

– Se Obama mudou o seu discurso, quem sabe a China também reveja sua posição e anuncie uma meta concreta – diz Pinguelli.

Segundo a Casa Branca, a meta de redução das emissões americanas aumentaria ao longo dos anos, alcançando 30% até 2025, e 42% até 2030. Mas os EUA não precisaram a correspondência dessas reduções em relação a 1990, ano de referência escolhido pela maioria dos países participantes da conferência.

O encontro de Copenhague começa no dia 7 e vai até o dia 18 de dezembro, onde autoridades de todo o mundo se reunirão para pactuar um acordo que substitua ao Protocolo de Kyoto em 2012. Mais de 60 chefes de Estado e de governo já confirmaram presença, como os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e o francês, Nicolas Sarkozy, e a chanceler alemã, Angela Merkel.

24 novembro 2009

O sonho de voar sem poluição

Equipe de cientistas trabalha na construção de avião capaz de dar a volta ao mundo utilizando apenas energia solar. Realização da façanha está prevista para 2012

Silvia Pacheco – Correio Braziliense

Um avião capaz de dar a volta ao mundo sem usar uma gota de combustível parece ficção, mas não é. Trata-se do Solar Impulse, projeto que tem o objetivo de dar a volta no globo a bordo de um avião movido exclusivamente por energia solar, deixando de lado qualquer outro tipo de fonte energética.

Chamada de HB-SIA, a aeronave, semelhante a um aeroplano, deve voar durante o dia e à noite, demonstrando o potencial de uso das energias renováveis. Os suíços Bertrand Piccard e Andre Borschberg(1), idealizadores da iniciativa, esperam induzir indústria, cientistas, políticos e sociedade civil às mudanças necessárias para alcançar uma melhor utilização dos recursos energéticos e maior respeito ao meio ambiente.

O Solar Impulse nasceu da crença de Piccard de que a maior façanha deste século consistirá na preservação e melhoramento da qualidade de vida no planeta. “O grande desafio é conciliar os interesses econômicos e ecológicos e promover o uso de novas tecnologias para economizar energia e gerar recursos alternativos”, afirma o pesquisador ao Correio, por e-mail. Esse desafio se torna pertinente, uma vez que, atualmente, a aviação mundial é responsável por 2% das emissões de dióxido de carbono na atmosfera, segundo a Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata, na sigla em inglês).

À frente do projeto com Piccard, o engenheiro mecânico e piloto André Borschberg comanda a construção do avião, que envolve uma equipe de 65 pessoas composta por especialistas de todas as origens e de diferentes formações — engenheiros de materiais, físicos, gestores de energia e membros da Escola Politécnica Federal de Lousanne (EPFL), considerada uma das principais instituições tecnológicas da Europa. “Uma equipe diversificada estimula a criatividade e a força, trazendo soluções originais e inovadoras a partir da comparação de suas experiências”, diz Borschberg à reportagem.

O desafio não é nada simples. O grupo precisou projetar um avião gigantesco (veja arte), com a envergadura de um Airbus A340, mas que pesa o mesmo que um automóvel — 1.600kg — e possui motores com a potência de uma pequena moto. “Nosso desafio está em acumular cada watt gerado pela energia solar e descobrir como economizá-la. Apenas as soluções mais avançadas, a maioria delas nunca antes aplicadas, permitirá isso. Acreditamos que podemos chegar a essas soluções combinando a experiência e somando o potencial de cada membro da equipe”, explica Borschberg.

Acúmulo de energia

Para tanto, as asas e estabilizadores horizontais são todas cobertas por mais de 11 mil células solares que captarão a energia solar, transformá-la em eletricidade e alimentar os quatro motores. O grande problema, no entanto, será a fase em que o HB-SIA voará à noite. Para isso, quatro baterias de lítio serão necessárias para armazenar eletricidade enquanto não houver captação da luz do Sol. O princípio consiste em acumular energia solar durante o dia, alimentando os motores e recarregando as baterias. À noite, as baterias que foram abastecidas durante o dia passarão a funcionar, mantendo o avião no ar. Nesse período, a aeronave perderá altitude gradativamente para economizar energia — a altitude máxima, quando houver Sol, será de 8.500m.

Como só é capaz de voar a 70km/h, o Solar Impulse levará cerca de 36 horas para dar a volta na Terra. O primeiro voo de teste deve ocorrer ainda este ano ou no começo do ano que vem, mas a equipe de Bertrand e Piccard não divulgou a data. A circunavegação pelo mundo deverá ser feita em 2012. Até lá, alguns detalhes poderão ser alterados. A equipe avalia a necessidade de construção de uma aeronave com dois lugares, para que a viagem possa ser feita sem escalas. O modelo atual do Solar Impulse tem espaço para apenas um piloto, o que exigiria uma viagem em cinco etapas.

Giovanni Bisignani, diretor-geral da Iata, acredita que o Solar Impulse poderá fornecer muitas respostas para uma indústria mais verde e viável. “A indústria da aviação nasceu do sonho de as pessoas poderem voar. Os resultados desse projeto nos leva à construção para um futuro livre de carbono. Ao trabalhar em conjunto com uma visão comum, pode-se obter grandes progressos na tecnologia de combustível feito a partir da biomassa.”

1 - Família de exploradores

Bertrand Piccard faz parte de uma família de exploradores e cientistas. Ele é neto de Auguste Piccard, primeiro homem a atingir a estratosfera em um balão em forma de gôndola, em 1931. O pai de Bertrand, Jacques Piccard, usou o batiscafo e bateu o recorde do mundial de descida no oceano, ao mergulhar até 10.916m. O próprio Bertrand, acompanhado pelo inglês Brian Jones, deu a volta ao mundo em um balão em 1999. A dupla percorreu 45.755km em 19 dias, 21 horas e 47 minutos. O voo começou na Suíça e acabou no Egito.

19 novembro 2009

Empresas aéreas buscam combustível sustentável

Azul e Embraer testam novo produto em 2012; Gol anunciou entrada em projeto de pesquisa

Alexandre Rodrigues, RIO - O Estado de S.Paulo

A companhia aérea Azul e a Embraer vão realizar, no início de 2012, o primeiro voo experimental - sem passageiros - com o uso de um querosene obtido da cana-de-açúcar. A Azul aceitou testar, em um dos seus jatos Embraer, o bioquerosene, que está sendo desenvolvido pela multinacional de biotecnologia Amyris.

Embora o processo de certificação do novo combustível seja longo, o querosene de origem renovável poderá começar a ser produzido em escala industrial em 2013 como uma alternativa ao de origem fóssil, responsável pela alta carga de emissões de CO2 da aviação. A data do voo de demonstração foi prevista ontem no lançamento de um memorando de entendimento entre as companhias. Também participa do projeto a General Electric (GE), fabricante de motores para jatos.

Guilherme Freire, diretor de tecnologias para o meio ambiente da Embraer, explicou que a busca por combustíveis renováveis mobiliza toda a indústria de aviação diante das pressões pela redução das  emissões do tráfego aéreo, responsável por 2% de todos os gases de efeito estufa liberados na atmosfera. A previsão é de 3% em 2050.

Esta semana, a Gol também anunciou sua entrada em um projeto de pesquisa de biocombustível para aviões - o Sustainable Aviation Fuel Users Group (Safug), o grupo de usuários de combustível de aviação sustentável, em português. Esse programa reúne empresas aéreas e provedores de tecnologia, com o objetivo de acelerar o desenvolvimento de novas fontes sustentáveis de combustível para aviação, alcançando seu uso comercial. O grupo trabalha em dois projetos preliminares de pesquisa. O primeiro estuda a sustentabilidade do cultivo do pinhão manso como alternativa para geração de combustível sustentável. E outra frente de estudos é relacionada ao uso de algas, com o objetivo de certificar que seu uso atende aos critérios de sustentabilidade. O grupo também prevê estudos futuros com outros tipos de matérias-primas.

No caso do projeto com a cana-de-açúcar, o diretor de desenvolvimento comercial da GE, Cláudio Loureiro, afirmou que o novo insumo não demanda alteração no projeto dos motores. Segundo ele, um tipo de biocombustível feito com babaçu já foi testado, com bons resultados, pela companhia Virgin, em parceria com a Boeing, na Europa, no ano passado. Um outro teste, da americana Continental, deve acontecer em 2010, mas com combustível de biomassa não divulgada.

Segundo o diretor geral da Amyris - que tem a Votorantim entre seus sócios -, Roel Collier, a cana é a matéria-prima mais viável e pode repetir na produção de querosene o grau de redução de emissão de CO2 de 80% a 90% que o etanol representou em relação à gasolina. No entanto, ainda não há um cálculo preciso. Ele explicou que não se trata de produzir um álcool para avião, mas um hidrocarboneto a partir de uma das etapas da produção do etanol. Após a fermentação do caldo da cana, o material que originará o bioquerosene é separado por centrifugação em lugar da destilação.

O vice-presidente operacional da Azul, Miguel Dau, afirmou que ele mesmo vai pilotar o jato Embraer que será empregado no voo experimental. Para Dau, além de atender à necessidade de reduzir emissões, a diversificação da matriz energética da aviação reduz a insegurança em relação à flutuação da cotação internacional do petróleo, já que as companhias têm entre 30 e 40% do seu custo no combustível.

Azul vai testar bioquerosene para reduzir custos de voo

Jornal do Brasil
 
Em meio a discussões climáticas e pressões de custo, a novata companhia aérea Azul pretende fazer testes com bioquerosene de aviação em 2012 e a fornecedora do combustível, a americana Amyris, acredita que antes da Copa de 2014 já será possível voar comercialmente no país com o novo combustível.

As duas empresas se associaram à Embraer e à General Eletric para desenvolver o projeto do bioqueorosene para aviões a partir de canade-açúcar, tratada com uma levedura para fermentar e depois de centrifugada para originar o também chamado querosene verdade.

– Será o primeiro voo no mundo a partir de hidrocarboneto de cana-de-açúcar – disse o diretorgeral da Amyris, Roel Collier, responsável pelo processo químico de produzir bioquerosene a partir de cana-de-açúcar.

– O querosene de aviação feito a partir do petróleo representa cerca de 40% dos custos de uma companhia aérea – explicou ontem o diretor da Azul, Miguel Dau.

Com os preços atuais e as preocupações com preservação ambiental, o bioquerosene se tornou viável – declarou o diretor de tecnologia da Embraer, Guilherme Freire. Segundo ele, as estimativas são de que as emissões de CO2 com o bioquerosene serão de 80% a 90% menores.

Com agências

17 novembro 2009

Surge o “G-2 do clima”

Apoio dos EUA à proposta de adiar acordo sobre aquecimento global e mudança de discurso por parte do governo chinês fazem crescer temor de fracasso na COP-15 e evidencia a importância dos dois países no debate sobre o documento que substituirá o Protocolo de Kyoto

Paloma Oliveto - Correio Braziliense

Pegaram mal para os Estados Unidos e para a China as manifestações de simpatia à proposta feita pelo primeiro-ministro da Dinamarca, Lars Lokke Rasmussen, de deixar para 2010 a assinatura de um acordo legal para substituir a primeira fase do Protocolo de Kyoto, cujo prazo expira em 2012. Ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a cobrar que os norte-americanos apresentem propostas na 15ª Conferência das Partes (COP-15), marcada para daqui a 19 dias na capital dinamarquesa, e afirmou que o destino do planeta não pode ficar nas mãos de apenas dois países. "Eu espero que em Copenhague eles consigam avançar para, no mínimo, assumir alguns princípios básicos para que a gente consiga diminuir os gases de efeito estufa", afirmou em seu programa de rádio semanal Café com o presidente.

Para a organização não governamental Greenpeace, os EUA assumiram a figura de "vilão do clima", pois o adiamento se deve ao fato de o Congresso não ter votado — nem mostrado intenção de fazê-lo — o pacote de medidas de redução das emissões de carbono na atmosfera. Já o governo chinês surpreendeu ontem ao dizer que está analisando o adiamento, pois o discurso anterior era de que se chegasse a um tratado legal já na Dinamarca.

As posições norte-americana e chinesa vão na contramão dos demais países que, na última reunião preparatória para a COP-15, no início deste mês, em Barcelona, colocaram metas mensuráveis e objetivos concretos nas mesas de negociação. Na Dinamarca, o governo e a representação das Nações Unidas no país não chegaram a uma conclusão sobre a data final para se bater o martelo sobre as negociações climáticas. Enquanto o primeiro-ministro disse que isso pode ocorrer até o fim do ano que vem, a ONU defende que o prazo seja estendido para, no máximo, mais seis meses.

Um semestre é o que admite o secretário-executivo da Convenção das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas, Yvo de Boer. Na reunião realizada na Espanha, ele cansou de avisar que o tempo estava passando e que era necessário assumir compromissos ousados ainda na capital catalunha, para se chegar a um acordo legal em Copenhague. Ontem, disse à agência de notícias Reuters que seis meses é o único atraso possível. "Se você tiver metas claras de redução de emissões, engajamento dos países em desenvolvimento e financiamento em Copenhague, o que tenho confiança que irá ocorrer, então você pode fechar o tratado daqui a um semestre", afirmou De Boer.

Já a ministra de Clima e Energia dinamarquesa, Connie Hedegaard, admitiu que será necessário mais tempo. "Talvez um deadline realístico seja o México (país onde ocorrerá, em dezembro de 2010, uma reunião sobre o clima), mas isso depende de como as partes se comportarão quanto aos assuntos fundamentais", declarou à imprensa. De acordo com ela, o governo da Dinamarca espera que as duas semanas de encontro em Copenhague permitam ao menos a assinatura de um "acordo político", de cinco a oito páginas.

Barcelona

As discussões sobre acordo político ou legal começaram em Barcelona. Apesar de dizer que desconhecia os termos, Yvo de Boer sabia bem o que era colocado em jogo. Quem primeiro tocou no assunto foi Jonathan Pershing, chefe da delegação norte-americana. Ele afirmou que havia grande interesse dos Estados Unidos em assinar um tratado político. Já os representantes do G-77 mais a China, grupo que inclui o Brasil, insistiram na necessidade de fechar em Copenhague um acordo com bases legais vinculantes pois, atualmente, o único instrumento com força de lei existente é o Protocolo de Kyoto. Assinar apenas um acordo político significa colocar no papel um pacote de boas intenções que não necessariamente precisam ser cumpridas.

"Isso mostra que eles não entenderam o problema que têm nas mãos e não estão comprometidos. Estão gastando um tempo precioso e, em vez de trabalhar para aumentar as expectativas sobre Copenhague, estão fazendo o contrário", avalia João Talocchi, coordenador de campanha de clima do Greenpeace, sobre os norte-americanos. "Os Estados Unidos se mostraram o vilão do clima", diz.

"Mais uma vez o mundo fica dependendo do Congresso norte-americano, que vem discutindo o tema de forma muito lenta. E o presidente Barack Obama não poderá prometer em Copenhague algo que não depende só do Executivo", diz Milton Nogueira, consultor internacional e secretário-executivo do Fórum Mineiro de Mudanças Climáticas. De acordo com a legislação dos Estados Unidos, o presidente não pode assinar um tratado internacional sem a chancela do Congresso. E o pacote de medidas sobre redução de carbono dificilmente será votado antes das férias parlamentares.

"Se você tiver metas claras de redução de emissões, engajamento dos países em desenvolvimento e financiamento, então você pode fechar o tratado daqui a um semestre"

Yvo de Boer

, secretário-executivo da Convenção das Nações Unidas para as Mudanças Climáticas

Nova postura preocupa

Na avaliação de especialistas ouvidos pelo Correio, a posição da China em aceitar o adiamento do acordo com força legal é preocupante. "A China tomou conhecimento do interesse de muitos países em estabelecer um acordo político e agora está analisando a questão", disse à agência Reuters um representante do governo chinês. "Nosso país acredita que não importa o tipo de documento que se acordará em Copenhague. Apenas esperamos que sejam consolidados e expandidos o consenso e o progresso já conquistado em discussões sobre adaptação, financiamento, transferência de tecnologia e outros aspectos relacionados à questão climática", completou.

O problema é que a postura da China não era essa em Barcelona. "O discurso da China ficou dúbio", acredita o coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energia do WWF-Brasil, Carlos Rittl, para quem o anúncio feito pelo primeiro-ministro da Dinamarca "jogou um balde de água fria nas pessoas que acreditam ser possível chegar a um acordo justo, com força de lei, em Copenhague". Para João Talocchi, do Greenpeace, o risco é que, ao se aproximar dos Estados Unidos, de onde poderá obter transferência de tecnologia para uma economia de baixo carbono, a China acabe ajudando na formação de um "G-2", quando, em questões climáticas, não há espaço para acordos bilaterais. "Caso eles (EUA e China) queiram negociar somente entre eles, vão deixar o resto do mundo de fora e isso não pode acontecer, já que as mudanças climáticas afetam todos os países", argumenta. Carlos Rittl tem esperança que, pressionada, a China volte a defender os interesses do G-77, de fechar um acordo legal na Dinamarca.

Ainda assim, as organizações não governamentais acreditam que Copenhague não está fadada ao fracasso. "Acreditamos que todos os países que têm interessem vão fazer pressão para que a discussão seja séria, no sentido de estabelecer bases mínimas, como metas de redução e o fundo de financiamento para os países em desenvolvimento", diz Rittl. "Não é porque os Estados Unidos e o primeiro-ministro da Dinamarca querem adiar que isso se torna verdade absoluta. Muitos países estão dispostos a chegar a um acordo ambicioso, político e legal, como o Brasil, o grupo do G-77 e os africanos", diz Talocchi.

Para Milton Nogueira, as expectativas em torno de Copenhague continuam as mesmas. "Há um consenso de que os países terão obrigações", diz. "Pode haver um atraso no anúncio (das metas de redução), mas não nas medidas, que já começam agora", afirma. Na avaliação do ex-funcionário das Nações Unidas, se ficar acordado um percentual, os países terão de correr atrás porque o tratado terá força legal. Caso a cúpula fixe 40% da redução das emissões até 2020, por exemplo, os Estados Unidos terão de chegar a esse patamar e, se deixarem para fazer isso somente no início de 2011, perderão um tempo precioso.

12 novembro 2009

Brasil tenta atrair EUA e China para acordo sobre clima

Jornal do Brasil
 
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva Lula afirmou ontem que pretende conversar esta semana com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e com o presidente da China, Hu Jintao, com o objetivo de alinhavar uma proposta para ser levada à Conferência de Copenhague sobre o aquecimento global.

– Precisamos mostrar que o Brasil está disposto a estabelecer um acordo com outros países – disse Lula.

Ontem, durante o Fórum de Mudanças Climáticas, realizado em São Paulo, o governo brasileiro admitiu que vai se comprometer com uma redução em torno de 40% das emissões dos gases causadores do efeito estufa até 2020. A posição oficial e definitiva será anunciada no próximo sábado.

A ministra Dilma Rousseff, que chefiará a delegação brasileira em Copenhague evitou, no entanto, utilizar o tema "meta" para a posição do país. Segundo ela, a decisão ainda precisa de uma justificativa técnica:

– Nós não achamos que podemos reduzir 40%. Temos que provar que podemos. Talvez seja 38%, 42% – disse, esclarecendo que a estimativa de corte leva em consideração um crescimento econômico de 5% ou 6% ao ano.

O secretário-executivo do fórum, Luiz Pinguelli Rosa, disse que, durante esta semana, os integrantes do grupo vão produzir um estudo técnico que sustente a posição brasileira. Já está acertado que o país vai reduzir o desmatamento em 80%, o que contribuirá para uma diminuição de 20% nas emissões dos gases.

De manhã, durante seu programa semanal de rádio, "Café com o Presidente", Lula defendeu que os países assumam compromissos proporcionais às suas emissões de gases de efeito estufa, em um recado às nações mais ricas que, segundo ele, emitiram volumes maiores durante sua industrialização do que as atuais economias em desenvolvimento.

– O problema é que os países ricos, sobretudo os mais industrializados, aqueles que começaram a ser industrializados há 200 anos, esses países emitiram muito mais gás de efeito estufa do que os países que estão se desenvolvendo no século 20, no século 21. Portanto, é importante que os compromissos sejam de todos, mas que sejam proporcionais à responsabilidade de cada país – disse Lula.

Três pessoas morrem em deslizamento de terra em Nova Iguaçu (RJ)

Do UOL Notícias*
Em São Paulo
 
Um deslizamento de terra causado pela forte chuva que atingiu no final da noite desta quarta-feira (11) a cidade de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, deixou pelo menos três mortos, dois feridos e várias ruas alagadas pelo transbordamento de rios e córregos.

Uma residência no bairro da Biquinha veio abaixo com o deslizamento do barranco onde foi construída. Morreram soterrados José Severino Frias, de 48 anos, o filho dele, Marilson José Frias, de 22, e a filha Jennifer Maria da Silva, de 15 anos, que estava desaparecida até o início da manhã de hoje.

Os dois feridos, Jonathan José da Silva Frias e Angela Maria da Silva, foram levados para o hospital da Posse.

Os corpos das vítimas foram encaminhados ao Instituto Médico Legal (IML) da região.

A Defesa Civil isolou a área no entorno da casa atingida e realizou vistorias em outras residências localizadas em locais de risco. O caso foi registrado na delegacia de Posse (58ª DP). Uma fraca chuva caiu na região durante toda a madrugada.

* Com informações da Agência Estado.

05 novembro 2009

A importância da biomassa da cana-de-açúcar

Osório de Brito - Correio Braziliense
Engenheiro, é diretor do Instituto Nacional de Eficiência Energética (Inee)

A notícia de que o Brasil firmou, com os EUA, dois acordos com países caribenhos, ocupou, recentemente, espaços nos principais periódicos que circulam no Rio de Janeiro e em São Paulo. Os acordos abrangeram El Salvador e República Dominicana e, proximamente, estender-se-ão ao Haiti e à Ilha de Saint Kitts, cabendo ao Brasil exportar a tecnologia para a produção de etanol, e aos EUA, o financiamento dos empreendimentos resultantes.

Nesses países, a motivação para a introdução da cultura da cana-de-açúcar visou, basicamente, solucionar problemas de oferta de energia ao lado da substituição de combustíveis fósseis. Torna-se claro que, enquanto lá, a biomassa da cana está representando relevante combustível, no Brasil, detentor da tecnologia, a ponto de exportá-la, foi por anos ignorada, e somente agora é que começa a ser integrada à matriz energética.

Diante das dificuldades hoje existentes para desenvolver outros projetos hídricos de porte, agora só presentes na Região Amazônica, a questão básica, doravante, deveria ser priorizar medidas que venham a suprir a eventual futura constituição da matriz energética brasileira sem sujá-la. Infelizmente, o que se tem visto não se pauta nessa diretriz.

O mundo reúne-se, em Copenhague, em busca de soluções redutoras das emissões de CO2. Nessa direção, governos de países do Hemisfério Norte avançam em pesquisas e, concomitantemente, também na produção de veículos elétricos, a fim de substituir os atuais grandes vilões ambientais, os veículos a motor a explosão. A tendência planetária, liderada pelos países do Hemisfério Norte, pauta-se, hoje, claramente, no binômio "redução das emissões x crescimento da eficiência no uso da energia".

E nós? Até bem recentemente, a base hídrica da matriz brasileira de geração elétrica predominava, situando o país entre os mais "limpos" produtores de energia elétrica. Lamentavelmente, essa predominância vem se exaurindo, pouco a pouco, com a expansão do parque gerador à base de termelétricas a óleo combustível, carvão e gás natural ao mesmo tempo, em que: 1. ainda há inibições para a queima da biomassa da cana; 2. não se considera seriamente a eficiência energética no emprego da energia, como a adoção da cogeracão, alternativa altamente eficiente para a queima do gás natural; e 3. há problemas regulatórios para a expansão da geração distribuída e, em consequência, para a exportação de excedentes por ela gerados.

Resulta desse estado de coisas a implementação de 10 mil MW de energia térmica à base de carvão, de óleo combustível e de gás natural. Assim, de 2013 a 2017, o Brasil será um dos poucos países que elevará o nível de emissões. Segundo estudo realizado por encomenda do Banco Mundial e da Comissão de Integração Energética Regional (Cier), o Brasil mostra um crescimento da geração de CO2 de 61t emitidas por GWh consumidos no país para 79t/GWh; ou seja, um crescimento de 29,5%, em oposição à maioria dos países sul e centro-americanos, os quais se mantêm estáveis ou redutores dessas emissões.

O não aproveitamento do significativo potencial presente no segmento sucro-alcooleiro, enquanto o Brasil soluciona problemas de falta de energia em outros países exatamente a partir desse segmento, é realmente paradoxal.

Gripe suína mata sete ianomâmis na Venezuela

Jornal do Brasil
 
A gripe suína atingiu uma tribo de indíos ianomâmis, que vive na Floresta Amazônica, mas em território venezuelano, bem perto da fronteira com o Brasil. Pelo menos sete índios morreram nas duas últimas semanas, disse ontem a ONG Survival International. Cerca de outros mil ianomâmis que vivem na Venezuela teriam sido contaminados pela gripe, de acordo com o grupo de proteção aos direitos dos povos indígenas.

Aproximadamente, 32 mil ianomâmis vivem na região de fronteira do Brasil com a Venezuela, formando a maior tribo relativamente isolada da Amazônia. Há uma preocupação de que a gripe possa se espalhar pela região e causar mais mortes entre os índios, que têm pouca resistência a vírus introduzidos em suas comunidades.

O diretor da Survival, Stephen Corry, disse que a situação é crítica e que os governos de Venezuela e Brasil devem agir imediatamente para deter a epidemia e melhorar as condições de saúde dos índios.

– Se eles não agirem, podemos ver centenas de ianomâmis morrendo.

Isso seria devastador para essa tribo isolada, cuja população se recuperou apenas recentemente das epidemias que dizimaram seu povo 20 anos atrás.

Cerca de 20% dos ianomâmis morreram de gripe, malária e outras doenças disseminadas nos anos 1980 e 1990 quando garimpeiros invadiram seu território, de acordo com a ONG. Na ocasião, o governo da Venezuela fechou a fronteira e enviou equipes médicas à região.

O vírus H1N1, da gripe suína, espalhou-se pelo mundo e matou mais de 5 mil pessoas desde seu surgimento este ano, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

27 outubro 2009

A salvação do planeta emperrada

Jornal do Brasil
 
Rio - Os países em desenvolvimento, como o Brasil, poderão ter de reduzir o crescimento projetado de suas emissões de carbono em 15% até 2020 se os países ricos concordarem em diminuir as deles em até 40% dentro de um novo pacto global pelo clima, afirmou uma importante autoridade da Organização das Nações Unidas (ONU) ontem. As negociações para um acordo global contra a mudança climática, a ser selado em Copenhague em dezembro, continuam empacando na questão dos níveis de cortes das emissões dos países ricos e dos em desenvolvimento.

Um relatório de 2007 de um painel climático da ONU afirma que os cortes teriam de chegar a 25%, 40% por cento a fim de evitar o pior cenário da mudança climática, como mais incêndios florestais, tempestades de areia, extinções, aumento no nível dos oceanos e ciclones mais potentes. Ao mesmo tempo, todos, à exceção dos mais pobres entre os países em desenvolvimento, teriam de fazer um "desvio substancial" dos níveis referenciais até 2020.

– Se os países industrializados reduzem em 25%, 40% por cento até 2020, então acho que até 2020 será talvez necessário ver algo na ordem de um desvio de 15% abaixo dos negócios habituais nos países em desenvolvimento – afirmou o chefe da Convenção da ONU sobre Mudança Climática, Yvo de Boe. Até agora, as propostas de cortes nos gases-estufa até 2020 feitas pelos países desenvolvidos só chegam a 11%, 15% abaixo dos níveis de 1990. E a maioria das propostas impõe condições ligadas aos resultados de outros países.

A União Europeia, por exemplo, disse que cortaria unilateralmente até 20% e, caso outros países ou blocos fizessem o mesmo, aumentaria a redução para 30%. A proposta da Austrália para 2020 varia de 3% a 23% na comparação com 1990.

Condição imposta

Muitos países ainda relutam em ampliar seus projetos em Copenhague a menos que os Estados Unidos se comprometam também. Washington é o maior emissor depois da China e é o único país desenvolvido que está fora do Protocolo de Kyoto, que limita as emissões até 2012. Vários países também já demonstraram a preocupação de que não se chegue a um acordo por causa da falta de confiança entre os países pobres e os ricos e industrializados, acusados pelos primeiros de terem provocado a mudança climática.

– A razão é que, primeiro de tudo, a ação tomada pelos países em desenvolvimento em geral não é reconhecida nem compreendida – disse De Boer, que está na Índia para participar de uma conferência. – Em segundo lugar, muitos compromissos do passado, feitos pelos países ricos, em termos de finanças, transferência de tecnologia, capacitação, muitos desses compromissos não foram cumpridos. (Com agências)

19 outubro 2009

Amazônia ampliará sobra de urânio no país

Com excedente ainda maior após exploração de nova reserva, Brasil poderá exportar minério que serve de base para usina nuclear

Plano é exportar produto já na forma de combustível nuclear; decisão sobre venda ou estocagem do excedente não está tomada

MARTA SALOMON DA SUCURSAL DE BRASÍLIA - Folha de S.Paulo

Embora já conte com a produção de toneladas de excedentes de urânio a partir de 2012, o governo negocia aumentar, na Amazônia, a exploração do minério no país. A cerca de 120 quilômetros de Manaus, numa área ainda preservada de floresta, encontra-se uma das maiores reservas de urânio do país, de nome Pitinga, com supostas 150 mil toneladas do minério que serve de combustível para as usinas nucleares.

Segundo o presidente da estatal INB (Indústrias Nucleares do Brasil), Alfredo Tranjan Filho, a empresa negocia um acordo para a extração de urânio com a mineradora peruana Minsur, que comprou no ano passado os direitos de exploração da Paranapanema em Pitinga. No local, o urânio - monopólio estatal - aparece associado ao estanho.

"Todo o mundo é ávido por urânio", diz Tranjan Filho, defensor de que o país deve exportar o urânio que produzir a mais para a geração de energia nas usinas nucleares.

A exportação de urânio ainda é tema de debate no governo, mas a página da estatal na internet não deixa dúvida sobre o objetivo: "O Brasil possui uma das maiores reservas mundiais de urânio, o que permite o suprimento das necessidades domésticas a longo prazo e a disponibilização do excedente para o mercado externo".

O país produz atualmente, na mina de Caetité, na Bahia, cerca de 400 toneladas de urânio por ano. Em 2012, a previsão é produzir mais 1.500 toneladas por ano, com a primeira ampliação da extração em Caetité e com o início da exploração no município de Santa Quitéria, no Ceará. Na jazida cearense, começou a funcionar recentemente a primeira parceria com a iniciativa privada para a exploração de urânio.

Com as duas usinas nucleares atualmente em operação no Brasil - Angra 1 e Angra 2-, o país consome menos de 500 toneladas de urânio por ano. Quando entrar em operação, provavelmente a partir de 2014, Angra 3 consumirá cerca de 320 toneladas por ano.

Também em 2014, o Brasil planeja dominar em escala industrial todas as etapas do ciclo do combustível nuclear, da produção do concentrado de urânio, conhecido como "yellow cake", até o enriquecimento, a fabricação de pastilhas e a montagem das varetas usadas como combustível nas usinas nucleares.

"A gente não quer exportar urânio como concentrado, mas já na forma de combustível nuclear", adianta Tranjan.

Quatro novas usinas nucleares, planejadas para entrar em funcionamento até 2030, deverão usar 250 toneladas por ano de urânio. Mas, antes mesmo de a primeira dessas quatro novas usinas começar a operar, e sem contar com o potencial de Pitinga, o Brasil estará produzindo 2.800 toneladas de urânio por ano. E usando menos do que a terça parte disso.

"Nossa prioridade é assegurar o fornecimento para as nossas usinas e as que estão planejadas.

A decisão sobre o que fazer com o excedente será tomada quando ele realmente existir", disse o ministro Edison Lobão (Minas e Energia).

Decisão

O comitê interministerial de desenvolvimento do programa nuclear ainda não definiu o que fazer com o urânio extra a ser produzido em Santa Quitéria. A mais recente reunião do grupo ocorreu em agosto, pouco depois do anúncio do resultado da licitação, ganha pelo grupo Galvani. Na jazida de Itataia, o urânio é encontrado associado ao fosfato, usado na produção de fertilizantes agrícolas.

A exportação de urânio foi assunto polêmico durante a primeira viagem de Luiz Inácio Lula da Silva à China, em 2004, quando os chineses manifestaram interesse em importar o produto brasileiro.

Procurado pela Folha, o ministro Sérgio Rezende (Ciência e Tecnologia) não se manifestou sobre a ampliação da produção excedente de urânio planejada pela INB, estatal vinculada à pasta.

Se optar por não exportar os excedentes, o urânio produzido a mais pode ser estocado. "Se o país entender que deve ficar com estoques estratégicos, tudo bem", diz Tranjan, insistindo em que o planejamento da estatal extrapola o mercado interno. "Nossa ambição vai além disso."

O mundo tem hoje mais de 400 usinas nucleares em funcionamento. A demanda anual por urânio é estimada em 64 mil toneladas. O Brasil tem a sétima maior reserva mundial do minério. À frente do país, nesse ranking, estão: Austrália, Cazaquistão, Rússia, África do Sul, Canadá e Estados Unidos.

13 outubro 2009

Licenciamento ambiental na Amazônia

Engenheiro agrônomo, perito federal agrário e doutor em engenharia agrícola pela Unicamp

JORGE LUIS NASCIMENTO SOARES - Correio Braziliense
 
As organizações estaduais de meio ambiente na região amazônica têm sido alvo de pressão e críticas em decorrência do reduzido número de licenças ambientais expedidas, seja para liberação de projetos de desenvolvimento ou para a criação e implantação de projetos de reforma agrária. Para a instalação de projetos de desenvolvimento regional do tipo usinas de produção de energia e estradas federais, os impactos ambientais são inevitáveis. Quando o apelo econômico ou político é grande, a importância ambiental se resume ao estudo para liberação da obra, o que fica evidente com a substituição de técnicos e instituições, quando os estudos sinalizam para a inviabilidade do empreendimento. Daí vem a indagação: licenciamento ambiental para quê, se a implantação do projeto mostra-se irreversível?

No caso da construção de hidrelétricas, em que grandes áreas são submersas, é fato o impacto negativo na diversidade ambiental e cultural. A presença do Ibama e de voluntários no salvamento de uma jaguatirica ilhada no lago de uma hidrelétrica chega a ser bizarra. A restauração da rodovia BR-319, que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), indubitavelmente irá supervalorizar as áreas marginais com impactos ambientais previsíveis. Por se tratar de ambiente de floresta amazônica preservada, há expectativa de intensa modificação da paisagem, o que deve ampliar o arco do desflorestamento para 3.880km.

Seria mais coerente que os relatórios de viabilidade ambiental de grandes projetos, em vez das medidas inexequíveis de recuperação e conservação ambiental ou medidas compensatórias tímidas de construção de viveiros, piscinões, corredores ecológicos, apresentassem os prós e contras, tipo: serão inundados, no caso da Hidrelétrica de Tucuruí, 2.430km2 de floresta amazônica, o que vai comprometer a biodiversidade local, extinguir algumas espécies, descaracterizar algumas comunidades quilombolas e indígenas, entre outras; em contrapartida, a usina tem capacidade para produzir a energia necessária para atender à demanda energética do país, e gerará empregos diretos e indiretos. No caso da citada BR, é inevitável a pressão econômica sobre os recursos naturais, com grande exploração madeireira e extensas áreas abertas para monocultura e pastagem, tudo de difícil controle e fiscalização; em contrapartida, como afirma o deputado do Amazonas Átila Lins "o Estado do Amazonas deixará de depender do comércio fluvial, que é muito mais caro e complexo e fica prejudicado nos períodos de seca, dadas as dificuldades de navegação". Dessa forma, a relação custo/benefício, descartadas as variáveis ambientais e culturais, mostra-se favorável à implantação dos projetos, ponto. Logo, licenciamento ambiental para quê?

As áreas destinadas ao assentamento de trabalhadores rurais, antes da anuência do órgão ambiental licenciador, são vistoriadas por técnicos do Incra, quando, em primeira instância, os parâmetros ambientais, sociais e econômicos devem ratificar a criação de projeto para o assentamento humano. A infraestrutura de apoio às famílias e às atividades produtivas deve seguir as determinações contidas na legislação ambiental vigente, no que concerne às intervenções no meio físico e nas áreas de interesse ambiental. Um Projeto de Assentamento (PA) de 1.000ha na região amazônica, por exigência legal, deve destinar 80% de sua área agricultável para reserva legal, o que corresponde, no caso, a 800ha preservados com mata nativa, ou reflorestados quando o PA incidir em ambiente de monocultura ou pastagens.

Essa reflexão se fundamenta em apenas um item das exigências legais para a implantação de PA na região amazônica, o que faz dos projetos de assentamento rurais, na essência, um eficaz instrumento de proteção da floresta. Os projetos de assentamento insustentáveis ocorrem não por falta de licenciamento ambiental, mas, sim, por dificuldades em seguir os ditames da legislação ambiental. O licenciamento ambiental de projetos de assentamentos rurais deveria ser substituído por instrumentos de fiscalização dos procedimentos de criação, implantação e desenvolvimento dos referidos projetos.
 
O licenciamento ambiental apresenta-se, em muitos casos, como instrumento de ratificação de ações que impactam o meio ambiente. Uma fiscalização rigorosa no que é preconizado nas leis ambientais seria suficiente para garantir a sustentabilidade de muitos investimentos. Alguns empreendimentos não se coadunam com a preservação ambiental, mesmo assim é exigido o licenciamento ambiental para serem implantados, o que favorece a instalação de projetos insustentáveis bem elaborados.

Vietnã detecta H1N1 resistente ao Tamiflu

Mutações poderiam se espalhar durante inverno no Hemisfério Norte
 
Jornal do Brasil

O Vietnã detectou três casos de gripe suína resistentes ao antiviral Tamiflu, embora até agora não haja evidências de que as cepas que apresentaram as mutações tenham infectado outras pessoas.

O Tamiflu é um dos fármacos recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para o tratamento da gripe suína.

Os três pacientes foram admitidos no Hospital de Doenças Tropicais da cidade de Ho Chi Minh, no fim de agosto e início de setembro. Segundo Rogier van Doorn, microbiólogo clínico do hospital, todos os pacientes já se recuperaram.

– Os vírus que foram isolados quando os pacientes chegaram ao hospital ainda eram suscetíveis ao medicamento, mas durante o tratamento com oseltamivir (genérico do Tamiflu), se gerou a resistência – explicou van Doorn. – Portanto, não houve transmissão de mutações, pois observamos que a resistência se desenvolveu apenas durante o tratamento.

Os três casos de resistência ao Tamiflu foram detectados entre mais de 600 pacientes com gripe suína tratados pelo hospital. Dois dos pacientes apresentavam casos leves da doença e o terceiro, uma criança de três anos, começou uma terapia intensiva e se recuperou em 10 dias.

Até agora, casos de H1N1 resistente aos fármacos foram detectados no Japão, Hong Kong, Dinamarca e Estados Unidos.

Os vírus de gripe são propensos a mutações e os especialistas não se surpreendem de que cepas do H1N1 desenvolvam resistência. No entanto, infectologistas temem que as resistências possam complicar os esforços para tratar vítimas com os medicamentos indicados pela OMS.

Uma segunda onda de infecções por H1N1 deve ocorrer à medida que o hemisfério norte se aproxima da sua temporada de inverno.

07 outubro 2009

Lula é cobrado por ambientalistas

Presidente afirmou que pretende ir à Conferência do Clima, em dezembro, na Dinamarca, mas cobrou também a presença e o compromisso dos países ricos

Wilfred Gadêlha - Enviado especial - Jornal do Commércio

ESTOCOLMO – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu com ironia a mais uma cobrança do Greenpeace por uma proposta de zerar o desmatamento no Brasil até 2020: "Nem se o Brasil fosse careca, nós poderíamos desmatar 0%". A declaração se deu após manifestação pacífica e quase silenciosa dos ambientalistas, que ergueram faixas com os dizeres "Lula, você levou as Olimpíadas, agora salve o clima" e "Lula, vá a Copenhague", na chegada do presidente à sede do governo sueco, no Palácio Rosenbad, em Estocolmo, onde aconteceu ontem a 3ª Cúpula Brasil-União Europeia (UE).

Os ativistas acreditam que a presença de Lula na Conferência do Clima na capital dinamarquesa, em dezembro, é essencial para que os demais líderes mundiais se comprometam a aumentar suas propostas para a redução da emissão de CO2. Cerca de dez ambientalistas foram impedidos pela polícia sueca de se aproximar do líder brasileiro, mas chegaram a mostrar as faixas e cartazes simulando uma passagem Brasília-Copenhague. E Lula até acenou para os manifestantes.

"Nossa meta é até 2017 reduzir o desmatamento em até 70% e, até 2020, 80%. Não dá para não desmatar 0%. Sempre vai ter alguém cortando", salientou, voltando a dizer que 2009 terá o menor percentual de desmatamento em 20 anos.

Lula disse ainda que é preciso que haja um sistema unificado de verificação de emissões de CO2. "Cada um diz uma coisa. Não podemos ficar discutindo isso de maneira genérica. Precisamos saber de verdade o quanto cada país emite, de Guiné-Bissau, que praticamente não emite nada, aos EUA, do Brasil à Suécia, França, Argentina e Alemanha", afirmou.

Defendendo a posição brasileira, fez questão de enumerar dados: "Quarenta por cento da nossa matriz energética são limpos. No resto do mundo, são 12%. Oitenta por cento da nossa geração de energia elétrica vêm de fontes renováveis, além de 85% dos carros que produzimos já são flex fuel, sem falar dos que são movidos a gasolina, que têm 25% de etanol. Se pudesse, eu levaria um carro a etanol a Copenhague para comparar a um movido a gasolina".

Lula disse que sua intenção é ir a Copenhague. "Acho que se formos todos poderemos discutir as responsabilidades de cada um. Podemos definir sobre reflorestamento, redução de emissões ou financiamento para que países pobres possam reduzir suas emissões. Se cada um fizer seu dever de casa, poderemos melhorar o planeta." Mas, "se ninguém for, eu também não vou". Mais tarde, em discurso no Fórum Empresarial Brasil-UE, ele disse que, até 2020, o País diminuirá em 4,8 bilhões de toneladas de CO2.

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, considerou a proposta brasileira ambiciosa e concordou com a necessidade de se ter uma espécie de unificação dos números de emissão. "Os objetivos de cada país devem ser fiscalizados. Como estamos falando de floresta, há uma floresta de números e datas e até os especialistas têm dificuldade de entender."

Já o premiê sueco, Fredrik Reinfelt, disse que a União Europeia não vai aceitar que empresas instaladas no bloco se mudem para países como metas menores de redução de emissão de carbono.
 
"Isso poderia até gerar mais empregos, mas teríamos mais agressão ao meio ambiente", afirmou.

» O jornalista viajou a convite da União Europeia

Afinando discurso para Copenhague

UE endossa plano do Brasil de redução do desmatamento. Partes decidem por nova reunião antes do encontro da ONU

Silvio Queiroz, *Enviado especial - Estado de Minas

Estocolmo – Brasil e União Europeia (UE) encerraram ontem sua terceira reunião de cúpula com a decisão de realizar um novo encontro de alto nível, possivelmente em novembro, para afinar a sintonia sobre o combate à mudança do clima, antes da conferência das Nações Unidas sobre o tema, marcada para dezembro, em Copenhague (Dinamarca). O presidente Luiz Inácio Lula da Silva leva da capital sueca o endosso dos dirigentes europeus ao plano brasileiro para reduzir o desmatamento da Amazonia em 80% até 2020.

"O Brasil adotou um plano muito ambicioso em termos de desmatamento, que pode ser exemplo para outros países do mundo que têm florestas tropicais", elogiou o presidente da Comissão Europeia (CE, braço executivo da UE), José Manuel Durão Barroso. No fim do encontro, ele e Lula deram entrevista coletiva ao lado do anfitrião, o primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt, que exerce a presidência rotativa da UE.

O governante brasileiro voltou a propor que a Organização das Nações Unidas (ONU) determine quanto cada país emite de gases causadores do efeito estufa: "Temos que chegar a Copenhague sabendo quanto cada um emite, para cada um assumir a sua responsabilidade – desde Guiné-Bissau, que não deve emitir nada, até os Estados Unidos". Respondendo a um pedido do movimento ecologista Greenpeace, que cobrou do Brasil um compromisso com o "desmatamento zero", Lula fez a primeira de uma série de piadas com as quais arrancou risos da platéia, inclusive de Barroso: "Desmatamento zero, nem que o Brasil fosse careca, porque sempre alguém vai cortar alguma coisa".

Lula continuou comemorando a escolha do Rio de Janeiro como sede da Olimpiada de 2016, e apresentou a decisão para exaltar, no encerramento de um seminário empresarial Brasil-Suécia, "a dimensão do que está acontecendo" no país. "O Brasil não vai perder o século 21 como perdeu o seculo 20", prometeu, no fim de um longo discurso com meia hora de improviso, no qual provocou os empresários locais a investirem no país se quiserem repetir, na Copa de 2014, a final do mundial de 1958, na Suécia – o primeiro vencido pela seleção brasileira. "Não percam a oportunidade", insistiu Lula, pouco depois de ter lamentado que "poucos países tiveram tantas oportunidades como o Brasil, e nos jogamos fora". A Olimpíada, a Copa e o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) "vão transformar o país num canteiro de obras", anunciou. O presidente voltou a festejar a recuperação da economia brasileira. "Fomos o último país a entrar na crise e o primeiro a sair", remetendo à fábula da cigarra e da formiga. "Nós trabalhamos e economizamos enquanto outros cantavam", comparou.

O QUE FICOU ACERTADO

Meio ambiente

Brasil e a União Europeia (UE) realizarão um encontro de alto nível, antes da Conferência de Copenhague, para coordenar posições, com base nos planos que cada um dos lados apresentou para enfrentar as mudanças climáticas.

Governança global

As duas partes defendem o fortalecimento da Organização das Nações Unidas (ONU) e a reforma dos principais organismos, em especial para aumentar a representatividade do Conselho de Segurança.

Comércio

Brasil e UE reiteraram a determinação de seguir trabalhando pela conclusão da Rodada de Doha, em 2010, e concordaram em retomar as negociações para um acordo de livre comércio entre o bloco europeu e o Mercosul.

Relações bilaterais

Brasil e UE manifestaram satisfação com o andamento do plano de ação da parceria estratégica e com o stabelecimento do mecanismo de diálogo político de alto nível.

*O repórter viajou a convite da UE

06 outubro 2009

Europa cobra de Lula ação na Amazônia

Brasil e União Europeia discutem hoje propostas que levarão à conferência da ONU sobre aquecimento global no fim do ano

Silvio Queiroz
Enviado especial - Correio Braziliense

Estocolmo — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou na noite de ontem à capital sueca, onde participa hoje da 3ª Cúpula Brasil-União Europeia (UE), respondendo às cobranças dos países desenvolvidos sobre a contenção do desmatamento na Amazônia — as mudanças climáticas estão entre os pontos centrais do encontro. Lula argumentou que todos os países têm suas responsabilidades e que a cobrança não deve ser feita apenas às nações com grandes áreas florestais. "Os países ricos não podem continuar achando que os países pobres têm de preservar as florestas enquanto eles continuam crescendo", disse o presidente na chegada ao Grand Hotel de Estocolmo.

Coordenar posições para a conferência que as Nações Unidas promovem em dezembro em Copenhague — de onde sairá um novo acordo sobre o aquecimento global, que sucederá o Protocolo de Kyoto — é um dos principais assuntos das conversas de Lula com o presidente da Comissão Europeia (CE), braço executivo da UE, José Manuel Durão Barroso. O presidente brasileiro sustentou que a ONU deve monitorar as emissões de gás carbônico de cada país, para que esses dados indiquem "o quanto cada um tem de reduzir". "É preciso fazer com que todos os países, Brasil, Botswana e Namíbia, assumam sua responsabilidade."

Lula e Barroso têm um encontro em separado e outro acompanhados de auxiliares. Além disso, se reúnem com um grupo de executivos brasileiros e europeus, nos marcos de um fórum empresarial, e com representantes do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) e seu equivalente, o Comitê Econômico e Social Europeu. Como anteciparam fontes de alto nível em Bruxelas, Barroso espera do colega brasileiro "uma proposta concreta" pela qual o Brasil se comprometa com objetivos precisos no combate ao aquecimento global.

As conversas sobre a mudança do clima estão entre os assuntos que o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, aponta como "resultados concretos" que deverão sair das cúpulas de hoje em Estocolmo — à tarde, em encontro bilateral com o primeiro-ministro Fredrik Reinfeldt, Lula discutirá a parceria estratégica entre Brasil e Suécia. "Vocês querem alguma coisa mais concreta do que o ar que vocês respiram?", perguntou o chanceler aos jornalistas. Ainda sobre a questão ambiental, o ministro citou os planos conjuntos com a UE para programas triangulares de cooperação com países africanos interessados nos biocombustíveis, nos moldes da iniciativa com a Suécia, que importa de Gana etanol produzido com assistência brasileira.

Amorim ressaltou também as discussões sobre a Rodada de Doha, para liberalização do comércio mundial, e as gestões para retomar negociações sobre um acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul — mas fez questão de frisar que o processo não será oficializado na capital sueca, mesmo porque o Brasil não está exercendo a presidência do Mercosul.

Até o fim de semana, os sherpas — como são chamados, na linguagem diplomática, os funcionários que trabalham na formulação de acordos e declarações — continuavam negociando os termos da declaração, final que será assinada pelos dois presidentes. E, segundo confidenciam em Bruxelas os negociadores europeus, alguns itens seguiam pendentes. Um exemplo era a intenção do Brasil de incluir no texto uma referência a esforços conjuntos contra o comércio ilegal de madeira, uma resposta à cobrança europeia de maior rigor quanto ao desmatamento da Amazônia.
 
"O Brasil e a União Europeia se enfrentam em um contexto de negociações", disse a jornalistas brasileiros um eurocrata de nível intermediário, envolvido diretamente com as relações bilaterais. Na questão do aquecimento global, que o lado brasileiro classifica como "ponto central da cúpula de Estocolmo", esse funcionário europeu aponta como objetivo encontrar os termos para "dar ao mundo um sinal político conjunto". O endereço prioritário seriam os Estados Unidos e outros países desenvolvidos que, na visão de Bruxelas, "resistem a adotar metas obrigatórias de redução das emissões de gases causadores do efeito estufa".

Iniciativas

Pelo lado brasileiro, como definiu um diplomata de escalão elevado, a avaliação sobre as relações com a UE é de que "foi feita muita coisa" desde a cúpula do ano passado, no Rio de Janeiro, onde foi assinado o plano de ação da parceria estratégica — um status de relação que equipara o país à Rússia, à Índia e à China, sócios do Brasil no Bric. Com 16 mesas de diálogos setoriais instaladas, e contatos frequentes entre representantes técnicos e políticos de diferentes níveis, as iniciativas se sucedem.

A parte da revisão política do andamento da parceria e a expressão de coincidências sobre temas relevantes da agenda mundial, que se traduzirá na declaração final, a expectativa mais concreta em Estocolmo é para que seja acertado o acordo de isenção recíproca de vistos com os últimos quatro países da UE onde o documento ainda é exigido (Letônia, Estônia, Chipre e Malta). Os dois lados concluíram também as negociações políticas para um acordo de cooperação científica pelo qual pesquisadores brasileiros trabalharão em projetos europeus de fusão nuclear, mas detalhes técnicolegais impedem que o documento esteja pronto para assinatura em Estocolmo.

Proposta verde

A Europa tem pronta para levar a Copenhague, em dezembro, uma proposta que considera "a mais avançada" para um novo acordo internacional sobre as mudanças climáticas, substitutivo ao Protocolo de Kyoto. A UE compromete-se a reduzir suas emissões de gases estufa em 20%, ate 2020, com base nos níveis de 1990, além de propor um fundo internacional para ajudar nações em desenvolvimento a buscar formas de energia mais limpas.

O repórter viajou a convite da Comissão Europeia

01 outubro 2009

Já são 149 os mortos pelo tsunami em Samoa

da Folha Online

As equipes de resgate buscam nas ilhas Samoa nesta quinta-feira centenas de pessoas desaparecidas pelo tsunami que há 24 horas arrasou populações litorâneas e deixou, pelo menos, 149 mortos.

Às tarefas de busca de desaparecidos e de assistência aos desabrigados em Samoa Ocidental, se uniram especialistas e agentes sanitários, que chegaram hoje a Ápia, a capital, a bordo dos dois aviões enviados pelo governo da Austrália.

Em Upolo, a segunda maior ilha de Samoa independente, pelo menos 20 aldeias ficaram completamente destruídas e cerca de 50 ficaram muito danificadas.

O primeiro-ministro samoano, Tuilaepa Lupesolai Sailele, percorreu acompanhado de funcionários as áreas afetadas de Upolo e se defendeu das críticas que seu governo não alertou com tempo suficiente que se aproximava um tsunami.

"Estivemos informando durante muito tempo à população sobre o que devia fazer em caso de alerta de tsunami", disse a Rádio Nureva Zelândia.

Segundo estimativas do governo de Samoa, Estado com cerca de 200 mil habitantes, o número de desabrigados é de 32 mil.

O país do Pacífico mais afetado foi Samoa Ocidental --independente-- com 110 mortos, enquanto a Samoa americana, declarada zona catastrófica, confirmou 30 vítimas mortais e Tonga outras nove, informaram hoje fontes oficiais citadas pela imprensa local.

Depois do primeiro terremoto de 7,9 graus, segundo a medição do Serviço Geológico dos EUA, a região sofreu dezenas de réplicas superiores aos cinco graus que atemorizaram os residentes e complicaram ainda mais os trabalhos de resgate e envio de ajuda.

O primeiro terremoto derrubou vários edifícios, mas muito pior foi o posterior impacto de ondas gigantes de até seis metros de altura, que se levaram pela frente casas e carros, segundo relatos de testemunhas.

As imagens de televisão mostraram povoados inteiros reduzidos a escombros, casas em pedaços de madeira e metal e veículos pendurados em árvores.

O sul da ilha de Upolo (Samoa independente) foi a zona mais afetada, já que ficaram destruídas tanto humildes aldeias do litoral quanto hotéis de luxo na praia.

Uma grave avaria nas telecomunicações segue impedindo conhecer o alcance exato do desastre.

Na Samoa administrada pelos Estados Unidos, o presidente Barack Obama declarou desde Washington a todo o território como zona catastrófica e acelerou o envio de vários aviões e navios militares para despachar ajuda a mais de 240 mil desabrigados.

Austrália, Nova Zelândia e União Europeia, entre outros, já anunciaram que também despacharão material de emergência ao Pacífico Sul.

A potência do maremoto foi tal que fez desaparecer várias ilhas do arquipélago de Niue, outra nação insular de baixa latitude e muito ameaçada por estes fenômenos.

Com AP e Efe

Terremoto destrói mais de 500 prédios na cidade indonésia de Padang

da Folha Online

Mais de 500 prédios da cidade indonésia de Padang, que tem cerca de 900 mil habitantes, foram destruídos pelos forte terremoto que atingiu a ilha indonésia de Sumatra ontem (30). Hospitais, hotéis, escolas e um shopping center desabaram. O governo registra 529 mortes --das quais 376 ocorreram em Padang-- e admite que o número pode chegar a "milhares".

"Não iremos subestimá-lo [o desastre]. Estaremos preparados para o pior. Faremos tudo o que for possível para ajudar as vítimas",afirmou o presidente da Indonésia, Susilo Bambang Yudhoyono, na capital, Jacarta, pouco antes de embarcar em um voo com destino a Padang.

"Estamos sobrecarregados com as vítimas e... a falta de água limpa, de energia elétrica e de telecomunicações. Nós realmente precisamos de ajuda. Pedimos que as pessoas venham a Padang para retirar corpos e ajudar os feridos", disse o prefeito de Padang, Fauzi Bahar, em entrevista à rádio El Shinta.

Os trabalhos de buscas por sobreviventes e corpos entre os escombros são dificultados pela chuva, que continua forte, e pela falta de maquinário pesado para retirada desses destroços, informa a agência de notícias France Presse. Um dos focos de trabalho são os destroços de uma escola dos quais seis crianças foram resgatadas com vida e quatro, mortas. Outras 20 crianças permanecem desaparecidas.

Um repórter da agência Reuters registrou a falta de combustível e de alimentos, em algumas lojas.

O principal hospital de Padang, o estatal Djamil Hospital, que foi danificado, mas continua de pé, está lotado de vítimas e familiares. Dezenas de feridos recebem tratamentos em tendas instaladas do lado de fora do hospital. O governo federal abriu todos os centros de crise do Exército em Jacarta, Sumatra Ocidental e Sumatra do Norte e destacou veículos militares para irem remover os destroços.

Dois aviões Hércules, das Forças Armadas indonésias, decolaram rumo a Padang com 20 mil tendas para desabrigados e 10 mil cobertores, também nesta quinta-feira.

"Pessoas estão presas, gritando por ajuda, mas debaixo de imensos blocos que só poderão ser retirados por máquinas", disse David Lange, o diretor do grupo médico SurfAid, da Nova Zelândia, que está em Padang e diz ter escapado do desmoronamento do Hotel Ambacang. "Eu vi dezenas dos maiores edifícios caírem. A maior parte dos danos está concentrada no centro comercial, que estava lotado."

"Eu já passei por terremotos antes, mas esse foi o pior. Há sangue por toda a parte, pessoas com os corpos feridos. Nós vimos prédios caindo, gente morrendo", disse o americano Greg Hunt, 38, no aeroporto de Padang.

Moradores que passaram a noite ao relento sofreram nova onda de pânico com o terremoto ocorrido já na manhã desta quinta-feira.

Na cidade de Jambi, cerca de 1.100 prédios, incluindo mesquitas e casas, foram danificados, mas não há registro de vítimas.

Com Reuters e Associated Press

30 setembro 2009

Espécies invasoras

Sem inimigos naturais no Brasil, mexilhões-dourados se disseminam de forma rápida, comprometendo o equilíbrio ecológico e causando enorme prejuízo financeiro
 
Estado de Minas

Biólogos travam uma verdadeira batalha contra o desequilíbrio ecológico causado pela proliferação de espécies exóticas invasoras em águas brasileiras. Entre elas, estão certos tipos de peixes, plantas aquáticas, como algumas braquiárias e aguapés, cianobactérias e mexilhões dourados, responsáveis por danos ambientais de regiões inteiras e por grandes prejuízos econômicos. Para conter o avanço dessas pragas, que preferem ambientes com água aquecida e se reproduzem ainda mais com o aumento das temperaturas, os pesquisadores contam com trabalhos de prevenção e investem em estudos sobre a ocorrência desses seres na natureza. Espécie invasora ou exótica é aquela que não é natural do ambiente e pode ser prejudicial a ele, alterando as características e o equilíbrio natural de outras comunidades. Como não têm inimigos naturais, como predadores, competidores e parasitas, se reproduzem rapidamente em grandes quantidades.

Em Minas Gerais, uma das principais espécies exóticas é o mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei). É um tipo de molusco originário da Ásia, que chegou às águas brasileiras pela Região Sul.
 
Esse é um exemplar de água doce, natural do Sudeste asiático (Vietnã, Laos, Camboja, parte da China e da Tailândia), e acredita-se que chegou ao Brasil transportado em navios, no início da década de 1990.
 
Atualmente, é considerada uma praga em países como China, Coreia, Japão e Taiwan, causando alterações ambientais e prejuízos econômicos nos locais onde se instalou. No país, em apenas 10 anos, conseguiu se espalhar por quase toda a Bacia do Prata, chegando ao Rio Paraná com densidades que podem superar 120 mil indivíduos por metro cúbico.

Barcos pequenos que circulam nos rios no transporte de passageiros ou são usados para pesca esportiva e profissional disseminam a espécie pelos portos menores. O mexilhão pode chegar em forma de larva ou adulto, nos cascos das embarcações, motores e equipamentos de pesca. As aves aquáticas migratórias também podem carregar larvas ou mexilhões jovens nas penas e nos pés. Peixes e alguns crustáceos também colaboram para a dispersão da praga.

Desde 2000, está em curso o estudo Desenvolvimento de metodologias e pesquisas no ecossistema e em plantas de usinas de hidrelétricas para controle de mexilhão-dourado, da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig), com a Fundação Centro Tecnológico de Minas Gerais (Cetec). Os pesquisadores descobriram, ao longo desses nove anos, alguns produtos que matam o mexilhão, como cloro, hidróxido de sódio e ozônio. Para prevenir e controlar a praga, está em teste ainda o uso de cobre em algumas tintas e superfícies de embarcações, a limpeza delas, substituição de filtros nas usinas, o aumento da temperatura da água próximo às turbinas (o mexilhão não resiste a mais de 40 graus), o controle da água de lastros e de eclusas (espécie de elevadores para os barcos transporem as barragens).

Em Minas, o principal desafio é impedir que os moluscos ultrapassem a barreira da Usina de São Simão (a maior geradora da Cemig), no Alto Paranaíba, na divisa com o estado de Goiás. No Rio Paraná, a Companhia Energética de São Paulo (Cesp) também sente os efeitos da incrustação do mexilhão. Num trabalho de desinfecção de barcos, a Marinha recomendou que o lastro seja feito em altomar, onde a salinidade é maior e os mexilhões não resistem.

ITAIPU

Na Hidrelétrica de Itaipu, no Paraná, o Limnoperna fortunei não chegou a atingir as máquinas e o trabalho está concentrado no controle e limpeza das tomadas de água por onde o molusco entra. De acordo com o veterinário da usina, Domingo Rodriguez Fernandez, a empresa tem três sistemas e trabalha com apenas dois, o que possibilita fazer a limpeza de um, sem interromper o processo. Itaipu gasta, por ano, cerca de US$ 20 mil e horas extras com a limpeza em toda a usina. "É um problema crônico porque não é possível resolvê-lo, mas que não inviabiliza as atividades desde que haja aumento no controle e no trabalho de manutenção. Depois que chega a uma área, só resta conviver com ele", afirma Domingo.

"Hoje, o maior problema não é com as usinas, mas principalmente ambiental. Descobriu-se que o cloro mata, mas, até chegar à estação de tratamento, a população de mexilhões já entupiu os canos e, para alterar o quadro, gasta-se muito dinheiro. Itaipu e Pantanal são exemplos de reservatórios já infestados", afirma a bióloga da Superintendência de Gestão Ambiental da Cemig Hélen Mota. Segundo ela, a Cemig faz testes com produtos que podem matar o mexilhão e ao mesmo tempo não agredir o meio ambiente. Outro desafio é estudar as formas de controle e a ecologia do molusco, que ainda não são muito conhecidas.