05 julho 2008

Humanidade tem sete anos para estabilizar emissão de gases, diz ONU



O presidente do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês) da Organização das Nações Unidas, Rajendra Pachauri, afirmou que a humanidade tem apenas sete anos para estabilizar as emissões de gases que causam o efeito estufa.

"Temos uma janela de oportunidade de apenas sete anos, pois as emissões terão que chegar ao máximo até 2015 e diminuir depois disso. Não podemos permitir um atraso maior", afirmou. Pachauri disse a ministros da União Européia, que participam de uma reunião de dois dias em Paris, que as tentativas de enfrentar o problema vão fracassar se o bloco não assumir a liderança nas negociações mundiais.

"Se a União Européia não liderar, temo que qualquer tentativa de fazer mudanças e de gerenciar o problema da mudança climática vai desmoronar", disse. "Vocês não conseguirão trazer os Estados Unidos, a América do Norte (para as negociações). Vocês não conseguirão trazer outros países do mundo também." Limite A União Européia quer limitar o aquecimento total desde a época pré-industrial a dois graus, objetivo também estabelecido por muitos cientistas.

Pachauri também alertou para esta meta, pois, segundo ele, estão surgindo provas de que a mudança climática está se acelerando mais do que o previsto. Ondas de calor e enchentes estão aumentando e as temperaturas subindo, o que causa o derretimento das geleiras.

Atualmente estão ocorrendo negociações para um novo acordo global que possa substituir o Protocolo de Kyoto, quando seu prazo de vigência for encerrado em 2012.

Em 2007 o IPCC e o ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore dividiram o prêmio Nobel da Paz, pelo trabalho de pesquisa e alerta a respeito do aquecimento global.

02 julho 2008

Na contramão do etanol, prática longe do discurso

Diesel e gasolina abastecem 73% da frota do Meio Ambiente. No Itamaraty e na Agricultura, índice supera 50%



Mônica Tavares
BRASÍLIA, SÃO PAULO e RIO.

Pelo menos cinco ministérios estão muito longe de fazer, na prática, o que prega o discurso mundial do Brasil em favor dos combustíveis renováveis. Apesar de, pouco a pouco, os carros flex ampliarem a participação na frota federal, três pastas diretamente ligadas ao projeto brasileiro de tornar o etanol uma commodity internacional não dão o exemplo. No Ministério do Meio Ambiente, 73,08% dos 26 automóveis utilizados por seus servidores rodam a gasolina ou diesel. À disposição da chancelaria, no Itamaraty, 59 dos 85 carros (69,41%) usam fontes poluentes. O percentual cai a 55,56% - 20 de 36 - na Agricultura.

O levantamento do GLOBO, feito em 15 dos 23 ministérios e na Presidência da República, coloca ainda os ministérios da Defesa - com 73,02% dos carros a gasolina ou diesel - e dos Transportes - 55,17% - entre os maus alunos da Esplanada.

O grande uso de veículos poluidores por essas pastas encontra correspondência na frota de carros de passeio que trafegam pelas ruas de Brasília. De acordo com o Detran do Distrito Federal, 68,2% dos carros da cidade são movidos a diesel ou gasolina. Situação semelhante à do estado de São Paulo, que lidera o ranking nacional em número de automóveis e comerciais leves abastecidos com combustíveis poluentes. São 6,9 milhões de unidades, pouco mais de 70% do total. No Estado do Rio, 65% dos cerca de 4 milhões de veículos usam diesel ou gasolina. E apenas 17% deles consumem fontes renováveis.

USP: só 20% da frota oficial do país usam fontes limpas

Apesar do mau exemplo em Brasília, muitos ministérios estão em dia com o dever de casa. O campeão é a pasta do Desenvolvimento, onde 14 dos 17 automóveis (tanto da frota própria quanto da terceirizada) podem utilizar fonte limpa, um recorde que seria ainda maior caso o Papa-Móvel, de 1980 e movido a diesel, não fizesse parte de seu patrimônio. Também diretamente ligada à produção de biocombustíveis, a pasta de Minas e Energia tem 12 de seus 16 veículos (75%) flex ou movidos a etanol.

O Ministério da Fazenda também dá exemplo. Na frota de 52 veículos, 67,3% (35) usam fonte renovável - são flex ou movidos a álcool. O restante usa gasolina ou diesel. E no Palácio do Planalto, a frota que serve ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua entourage é composta por 96 carros. Destes, 64 - ou 66,67% do total - são abastecidos como álcool (46) ou são flex (18).

O aumento da participação dos "carros limpos" na frota dos ministérios se deve muito a uma lei de 1998, segundo a qual, na renovação das frotas do Executivo nas esferas federal, estadual e municipal, deve ser dada prioridade a veículos que rodam com combustíveis renováveis.

É o que fará, por exemplo, o Meio Ambiente - prejudicado por ter herdado de outras pastas carros mais velhos. O ministério está em processo de compra de um veículo flex para uso do ministro. A Cultura já iniciou a aquisição de dois carros bicombustíveis, para servir ao ministro e ao secretário-executivo.

Se no plano federal a lei vem sendo seguida com mais rigor, nas demais esferas de governo é aparentemente ignorada. Segundo estudo de Tomaz Caetano Ripoli, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) em Piracicaba, apenas cerca de 20% da frota oficial do país (nos três níveis) seguem a lei.

- É importante cobrar do governo a sua parte, inclusive a aprovação de uma outra lei, que está para ser implantada, mas vem sendo empurrada com a barriga, que é o controle mais eficiente de toda a frota brasileira movida a diesel.

Na sua avaliação, a comparação entre as frotas oficial e de veículos pesados (caminhões, transportadores de cargas e ônibus) mostra que o problema está no segundo grupo. Este se abastece de diesel, tornando-se o vilão em termos de poluição e preservação do meio ambiente. Segundo dados da Confederação Nacional do Transporte (CNT), o país contava em abril deste ano com 1,853 milhão de caminhões, 15.646 ônibus interestaduais, 40 mil intermunicipais e 105 mil urbanos.

Ripoli alerta ainda que, nos veículos pesados, ocorre uma proposital desregulagem dos motores para aumentar a potência dos motores e permitir o transporte de mais carga.

COLABORARAM Lino Rodrigues e Cássia Almeida