13 junho 2008

Macaco-prego entende valor do dinheiro

Experimento que envolvia escolha entre alimento e fichas de pôquer mostrou que primata raciocina usando símbolos

Espécie usada no estudo é natural do Brasil; habilidade para abstração tão alta só havia sido detectada em humanos e em chimpanzés

RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL

Mesmo separado do homem por 35 milhões de anos de evolução biológica, o macaco-prego demonstrou em experimentos na Itália possuir uma capacidade demasiado humana: o bicho entendeu o valor simbólico do "dinheiro". Foi a primeira evidência clara de que macacos também conseguem raciocinar com símbolos.

A equipe de cinco pesquisadores da Itália e dos EUA testou cinco desses pequenos macacos brasileiros com opções de comida e de objetos usados para simbolizá-la, que serviam como uma espécie de "dinheiro" que os animais podiam trocar por um lanche.

O ser humano já foi definido como a "espécie simbólica", dizem os autores do estudo, liderado por Elisa Addessi e Elisabetta Visalberghi, do Instituto de Ciências e Tecnologias Cognitivas, de Roma. A compreensão de símbolos "transformou drasticamente nossos ancestrais hominídeos ao longo da evolução", escreveram os cientistas em artigo na revista "PLoS One" (http://www.plosone.org/). A capacidade culminou numa linguagem complexa que auxilia acumulação e transmissão de cultura entre gerações.

O aprendizado de símbolos já foi observado antes em experimentos com chimpanzés, "parentes" mais próximos do ser humano. Mas que isso fosse possível com animais bem mais distantes evolutivamente, como o macaco-prego (nome científico Cebus apella), foi a grande surpresa agora.

Cinco macacos foram testados em gaiolas nas quais tinham a possibilidade de puxar uma entre duas gavetas com comida ou com o "dinheiro" -objetos não-comestíveis, como fichas de pôquer, que as representassem.

Os macacos já tinham previamente aprendido a trocar o "dinheiro" por comida; agora o objetivo era testar se isso derivava de um mero condicionamento ou se de fato raciocinavam usando o objeto como símbolo da comida.

Primeiro, os pesquisadores testaram suas preferências entre três tipos de alimentos, ordenados como "A", "B" e "C".

A idéia era checar um importante traço do processo de decisão, a chamada "transitividade": se prefiro comer "A" a comer "B", e prefiro "B" a "C", certamente vou preferir "A" em relação a "C". Depois, os macacos eram testados com quantidades diferentes tanto de comida quanto de objetos.

Os resultados mostraram que os macacos-pregos de fato se comportavam de acordo com a transitividade. Fosse com a comida, fosse com o "dinheiro", eles preferiam "A" a "B", "B" a "C" e "A" a "C".

Simbólico e concreto

"É um resultado muito interessante", afirma o pesquisador brasileiro Eduardo Ottoni, do Instituto de Psicologia da USP, comentando o estudo. Ottoni colabora com os italianos em pesquisas de campo com macacos-pregos no Piauí.

"Ainda que com algum viés ou dificuldade, os macacos conseguiram lidar com o problema simbólico de maneira comparável à maneira com que lidaram com o problema concreto -o ranking qualitativo de preferências e a transitividade se mantém", diz Ottoni.

Ou, nas palavras dos autores, "no geral, os resultados sugerem que os macacos-pregos usam mecanismos cognitivos similares quando avaliam opções em ambos os contextos, real e simbólico".

10 junho 2008

Modelo permite prever derrubadas

Técnica criada pela UnB indica com 70% de certeza as áreas onde ocorrerão desmatamentos



DA REDAÇÃO

Uma nova técnica de análise baseada nas características biofísicas da floresta e nas estatísticas de desmatamentos permite estimar, com mais de 70% de acerto, os locais onde ocorrerão as próximas derrubadas de árvores na Amazônia. O modelo de Análise Multivariada Aplicada a Zoneamento para Predição de Desmatamento (Amazon-PD) foi formulado, testado e validado em uma tese de doutorado no Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (UnB).

Dados como localização das árvores remanescentes, inclinação do solo, proximidade com hidrovias, entre outras dezenas de variáveis, foram confrontados com as imagens de clareiras capturadas por meio do sensoriamento remoto entre 1985 e 2004. Daí foi possível checar as características que mais influenciavam no desmatamento para criar um programa capaz de estimar, com base nesses dados, onde ocorrerão os próximos desmatamentos.

- Árvores mais próximas dos clarões têm mais chances de serem derrubadas primeiro. Da mesma forma, aquelas que ficam próximas de rodovias e hidrovias também caem antes. Isso se explica pela facilidade de acesso - exemplifica Darcton Policarpo Damião, autor da pesquisa, que também é mestre em sensoriamento remoto.

Tora não tem alça

No estudo, ele também mostra que quanto mais plano for o terreno, mais fácil de ocorrerem derrubadas.

- Tora não tem alça, dificilmente um sujeito vai se animar a derrubar uma árvore num terreno acidentado - comenta.

A pesquisa

Uso de técnicas de análise multivariada para a predição de desmatamento na Amazônia: o modelo Amazon-PD foi orientada pelo professor Newton Moreira de Souza. Para a formulação do modelo, foram levantadas as relações existentes entre variáveis biofísicas identificadas em uma única imagem do Landsat (satélite para sensoriamento remoto), localizada no município de São Félix do Xingu (sul do Pará). A cena foi observada em seis datas espaçadas entre 1985 e 2004.

- Embora tenha sido aplicado a uma única cena de cerca de 34.000 km2 situada na Amazônia Oriental, pode-se dizer, com base em suas características conceituais, que o Amazon-PD é diretamente aplicável a outras regiões da Amazônia - afirma o especialista.

Mapa mostra evolução

Baseado nas variáveis e nos da- dos de evolução do desmatamento, Damião construiu um mapa que mostrou ano a ano as características mais propícias à destruição ambiental. Quando chegou ao ano 2000, em vez de confrontar as características biofísicas daquela área florestal aos dados já conhecidos sobre o desmatamento naquele ano, ele traçou uma projeção para até 2004. O resultado foi melhor que o esperado e mostrou um acerto em mais de 70%.

- Com base nas projeções será possível formular políticas públicas que permitam otimizar melhor os recursos governamentais voltados para inibir o desmatamento que ocorre em milhões de hectares por ano - afirma Damião.

No estudo, ele optou por não usar variáveis políticas e socioeconômicas para inferir as causas do desmatamento. Segundo ele, a opção pelo estudo da cobertura do solo e não de seu uso, que pode ter diferentes vertentes (extração madeireira, pecuária extensiva e agricultura, por exemplo) evita a adoção de variáveis de cunho socioeconômico para avaliar o desmatamento.

Moradores reclamam da derrubada de árvores centenárias no Jardim Icaraí


Irma Lasmar

A derrubada de árvores centenárias e aparentemente em bom estado vem indignando os moradores das proximidades do cruzamento entre as ruas Miguel Couto e João Pessoa, no Jardim Icaraí, Zona Sul de Niterói. Ontem de manhã, uma equipe do departamento de Parques e Jardins esteve no local alegando que as espécies, variadas, estariam podres pela ação de cupins, mas a população afasta a hipótese.

"A autorização da Prefeitura para a realização do serviço não tem fundamento. São árvores muito antigas, que mantêm nosso bairro arborizado e belo. Uma grande covardia", lamentou o comerciante e morador Cláudio Figueiredo, de 52 anos.

Enquanto espécies seculares são arrancadasn na Zona Sul sob protestos da população, moradores de Vila Progresso, na região de Pendotiba, clamam há seis meses por podas e remédios que preservem a mata nativa. Conhecida como "rua das árvores", a Rua Thomas Edison, na Vila Progresso, já não é mais um túnel de ramos verdejantes. O motivo seria uma infestação de cupins na área.

A paisagista Rose Porto, 67 anos, moradora do lugar há 40, conta que o cenário atual na via, que é caminho alternativo para a Região Oceânica, vem se transformando há alguns anos em função desses insetos. Segundo ela, várias árvores já apodreceram completamente e outras vêm se deteriorando em rápida velocidade com o avanço da infestação.

"Já solicitei à Prefeitura várias vezes, mas até agora ninguém veio analisar as árvores. Precisei eu mesma contratar pessoas para cortar os galhos antes que caíssem sobre meu muro ou na cabeça de alguém. A rua já perdeu um cajueiro de 60 anos por conta de cupins e perderá pouco a pouco essa série de fico benjamin, o que é uma lastimável perda para o meio ambiente em tempos de consciência ecológica", afirmou ela, que foi aluna do paisagista Burle Marx.

Solicitações - A Prefeitura de Niterói informa que são efetuadas em média 45 vistorias em árvores por semana, a pedido de populares, inclusive na Vila Progresso. Os assessores orientam aos reclamantes da Rua Thomas Edison a formalizar a solicitação no Departamento de Parques e Jardins, na Rua Engenheiro Fábio Goulart, 39, na Ilha da Conceição (sede da Secretaria Municipal de Serviços Públicos, Trânsito e Transportes de Niterói).

Segundo o órgão, seguindo o mesmo procedimento, o corte de árvores no Jardim Icaraí também é fruto de pedidos de comerciantes e moradores do lugar.