27 janeiro 2007

Gasodutos na Amazônia enfrentam obstáculos de rios e direitos

New York Times, por Larry Rohter em Urucu, Brasil

Na teoria, a questão é simples: o Brasil precisa de mais fontes de energia para manter sua economia crescendo e há imensas reservas de gás e petróleo na floresta Amazônica. Problema resolvido. Ao longo dos anos, a Petrobrás, a companhia estatal de petróleo do Brasil, investiu mais de US$ 7 bilhões em exploração e desenvolvimento na Amazônia, fazendo uma grande descoberta aqui em 1986.

O gasoduto transportará gás de Urucu até o porto de Manaus, uma distância de 665 km.

Mas apenas agora - após a superação de uma seqüência aparentemente interminável de obstáculos geográficos, logísticos, ambientais e políticos - o primeiro de uma série de gasodutos e oleodutos finalmente está sendo construído, um gasoduto para transporte de gás por 665 km daqui a Manaus, uma cidade portuária de 1,5 milhão de habitantes na junção dos dois maiores rios da região e que está despontando como um importante centro industrial.

"Tudo na Amazônia exige preparativos grandes, longos e complicados, especialmente um esforço pioneiro como este", explicou Joelson Falcão Mendes, o diretor regional da empresa aqui. "Há um clima severo que limita os trabalhos a quatro meses por ano em alguns locais. O trabalho é realizado em lama e atravessando rios que não são navegáveis, assim como há 47 doenças tropicais com as quais se preocupar."

Mas vazamentos de oleodutos e o colapso de uma plataforma marítima em outras partes do país arranharam a reputação da Petrobrás, de forma que havia uma forte resistência inicial ao gasoduto por parte da população local, grupos ambientais e indígenas e arqueólogos.

Alguns deles preferiam que o gás fosse transportado para Manaus por navios-tanque de um terminal ao norte daqui, já ligado por um gasoduto, enquanto outros argumentavam que seria mais barato e seguro comprar a eletricidade excedente gerada pela Hidrelétrica de Guri, na Venezuela.

Mas em vez de passar por cima dos oponentes e céticos, como freqüentemente acontece no Brasil, a empresa optou por atraí-los. Foram prometidos aos 2 milhões de habitantes do Estado do Amazonas benefícios econômicos que contribuíram para o preço de US$ 1,15 bilhão do projeto, e cientistas e ambientalistas foram consultados sobre como minimizar os danos à floresta que cobre o Estado, que é maior do que o Reino Unido, França, Alemanha e Itália somados.

"Eles realmente tentaram minimizar o impacto e o resultado não é tão ruim quanto temíamos", disse Paulo Adário, diretor da campanha Amazônia do Greenpeace. "Como estão extraindo petróleo e gás do coração da Amazônia, criando um modelo para o que será feito no futuro, tal preocupação é compreensível e necessária."

Um segundo gasoduto, que seguiria para o sul a Porto Velho, uma cidade a mais de 480 km de distância, é um assunto bem mais complicado. Tal projeto ainda é contestado por defensores do meio ambiente e de direitos dos povos indígenas, porque cruzaria rios e terras indígenas e está disputando recursos federais com duas grandes hidrelétricas.

Mais a oeste, perto do Rio Juruá, a Petrobrás também tem planos de desenvolver depósitos de gás e petróleo descobertos em 1978. Representantes da empresa disseram que esperam iniciar a produção em 2010, após a construção de um gasoduto/oleoduto que atravessaria a selva densa e remota até uma refinaria daqui.

Mudanças recentes na política de energia dos países vizinhos aumentaram a importância da rede planejada de oleodutos e gasodutos na Amazônia. Por exemplo, Evo Morales, o presidente da Bolívia, país que possui grandes reservas de gás e que fornece ao Brasil, nacionalizou campos de petróleo e as refinarias do país, excluindo a Petrobrás, e sugeriu uma quadruplicação do preço de parte do gás natural que seu país fornece ao sul industrializado do país.

"Toda pesquisa indica certeza de que encontraremos mais gás na Amazônia", disse Eduardo Braga, o governador do Amazonas, em uma entrevista em Manaus, a capital do Estado. "O Brasil precisará de tal gás nos próximos 30 anos, de forma que é imperativo o desenvolvimento de tais depósitos. Esta é uma questão estratégica, não apenas para a Amazônia, mas para todo o Brasil."

Os obstáculos que a Petrobrás precisa superar também colocam em dúvida a viabilidade do grande plano do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, de construir um gasoduto de 8 mil km de Caracas, Venezuela, até Buenos Aires, Argentina, um ponto central de sua campanha para unir as economias da América do Sul.

As estimativas iniciais do custo de tal projeto, que seria mais longo que a Grande Muralha da China, são de até US$ 24 bilhões.

"O gasoduto deve ser a locomotiva de um novo processo de integração, cujo objetivo será derrotar a pobreza e a exclusão", disse Chávez durante uma visita a São Paulo, a capital industrial do Brasil, no ano passado. "A unidade é nosso único caminho."

Na quinta-feira, o Brasil e a Venezuela assinaram um acordo que pede pelo início neste ano dos estudos para a construção do gasoduto, que atravessaria o norte da Amazônia até Manaus e então se dividiria em duas direções. Mas grupos ambientais se queixaram de que Chávez está entando apressar e até mesmo contornar as audiências e estudos normalmente necessários e que seu plano apenas agravará os problemas de desmatamento e migração de população.

"Imagine os rios e vastas áreas de floresta que teriam que atravessar", disse Adário. "Isto é apenas algo que saiu da cabeça de Chávez. Eu não conheço nenhum cientista ou especialista que tenha feito uma análise séria dos impactos resultantes."

No passado, a construção de grandes projetos de energia na Amazônia, como a gigantesca hidrelétrica de Tucuruí, geralmente levavam à migração de milhares de camponeses em busca de trabalho e a criação de favelas na floresta. Quando o projeto é concluído, os trabalhadores freqüentemente permanecem, sem emprego e inchando problemas ambientais e sociais que já são intratáveis.

Pequenas cidades na floresta ao longo do caminho das linhas de transmissão também se queixam de que não foi feita nenhuma previsão de lhes fornecer eletricidade. Isto aliena os moradores locais e até mesmo provoca alguns incidentes de sabotagem.

Mas Urucu está sendo construída com a exigência de que dois terços da força de trabalho venha da população local. Isto criou cerca de 10 mil empregos, um avanço significativo em uma região com menos de 500 mil habitantes, assim como programas de treinamento profissional.

Para impedir o afluxo de colonos, que geralmente ocupam terras ilegalmente ao longo das estradas, quase nenhuma estrada permanente foi construída.

Em vez disso, as forças armadas trazem equipamentos e suprimentos por barco ou helicóptero e muitos trabalhadores vivem em dormitórios flutuantes que se movem de um local a outro à medida que o trabalho avança.

"Houve um tempo que a única forma de se chegar aqui era de helicóptero e então descer de rapel", disse Mauro Loureiro, o diretor técnico do projeto. "Foram necessárias centenas de viagens destas apenas para abrir uma clareira para a realização das sondagens iniciais e então a escavação de um poço teste."

Além disso, o gasoduto daqui incluirá ramais para sete cidades menores em seu caminho para Manaus, adicionando US$ 30 milhões e 125 km ao projeto. Em conseqüência, não será mais necessário que diesel seja enviado de barco para consumo local, diminuirão os apagões e as empresas terão oferta regular de energia limpa e barata.

"Cada município está usando isto para aumentar seu potencial econômico", disse Braga, o governador do Amazonas. Os projetos, ele disse, incluem a construção de uma usina em Codajas para processamento de açaí, uma fruta amazônica cuja polpa e suco os brasileiros consomem como energético, e outra em Manacaparu, para expandir a produção local de fibras orgânicas.

"A idéia é não apenas evitar a repetição dos erros cometidos no passado, mas também mudar as fontes de energia aqui no norte do país", disse Braga. "Mais de 90% deste Estado é floresta e quero que continue assim."

Tradução: George El Khouri Andolfato

Estudo internacional vê desaparecimento de aves aquáticas

A quarta Estimativa da População de Aves Aquáticas, coordenada por um grupo holandês, determinou que 44% espécies sofreram reduções nos últimos 5 anos

AP

BANGCOC - Cerca de metade das espécies de aves aquáticas do mundo está em declínio, a maioria por conta do desenvolvimento econômico e dos efeitos da mudança climática, de acordo com um levantamento global divulgado nesta terça-feira.

A quarta Estimativa da População de Aves Aquáticas determinou que 44% das 900 espécies sofreram reduções globais nos últimos cinco anos, enquanto que 34% ficaram estáveis e 17% tiveram aumento.

Os números são um pouco piores que no levantamento de 2002, quando 41% das populações de aves aquáticas estavam em declínio.

As reduções mais drásticas ocorrem na Ásia, onde 62% das populações viram declínio ou extinguiram-se. Em seguida vêm as perdas na África (48%), Oceania (45%), América do Sul (42%), Europa (41%) e América do Norte (37%).

Ao todo, 12 famílias de pássaros têm metade - ou mais - de suas populações globais em tendência de queda.

Segundo Simon Delany, um representante da organização holandesa Wetlands International, que coordenou a pesquisa, a causa do declínio é a destruição dos banhados, seja por exploração imobiliária ou desenvolvimento agrícola, ou a elevação das temperaturas, que causa secas e eleva o nível do mar.

Brasil abraça biodiesel sem plano estratégico, dizem analistas

Fonte: AmbienteBrasil / Folha Online

Todos os caminhos do biodiesel brasileiro, hoje, levam à UE - União Européia. Ao mesmo tempo em que é grande o potencial do produto nacional de entrar em um mercado importante, barreiras econômicas, ambientais e logísticas poderão impedir que esse fluxo tenha início.

Especialistas afirmam que, ao ir com muita sede ao pote do combustível verde, os produtores brasileiros e o governo poderão ver muitas oportunidades serem perdidas, por falta de um plano estratégico.

"O Brasil ainda não exporta biodiesel, apesar de estar perto disso. Há uma série de barreiras externas que não podem ser desprezadas neste momento", disse à Folha o consultor em energia Roberto Kishinami.

A UE já anunciou sua opção pelo biodiesel. No documento "Visão para 2030", lançado no ano passado, fica claro que o objetivo do grupo europeu é chegar daqui a 23 anos com um quarto de seu sistema de transporte funcionando com combustíveis não-fósseis. Na semana passada, o bloco anunciou uma meta de redução de 20% nas suas emissões de gases de efeito estufa - novamente, com auxílio dos biocombusíveis.

Na próxima quarta-feira (24), nos EUA, o presidente George Bush fará seu discurso anual no Congresso. Na pauta, a importância estratégica de apostar todas as fichas no etanol.

"A Alemanha já definiu uma posição de restrição à importação de biocombustíveis que não comprovem cumprir com preocupações socioambientais", avisa o consultor.

Isso significa que óleo nenhum será comprado de lavouras onde existirem trabalho infantil ou escravo, onde houver desmatamento e uso excessivo de pesticidas, além do plantio das polêmicas sementes geneticamente modificadas.

Segundo Kishinami, a posição alemã já foi submetida aos dirigentes da UE, que deverá adotar a prática. "Essas questões são certamente ampliadas pelo lobby dos agricultores europeus, que não querem concorrência com o Brasil ou qualquer outro país competitivo".

O próprio presidente da Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, Silvio Crestana, está ciente dessas dificuldades. Segundo ele, lá fora, existem hoje duas críticas principais ao país.

"A primeira é sobre a falta de garantia de um fornecimento regular. A segunda é sobre a certificação." Para o presidente da Embrapa, ligada ao Ministério da Agricultura, está na hora de o Brasil se preocupar com a questão da "acreditação". "Quem estiver fora dos padrões terá feito o investimento e não conseguirá vender depois", afirma.

O próprio Crestana compara a construção do projeto do biodiesel brasileiro a uma casa. "Nós, muitas vezes, começamos a obra pelo telhado. Não podemos esquecer a produção de biomassa", lembra o dirigente público.

Dentro dessa falta de planejamento nacional, Weber Amaral, diretor do Pólo Nacional de Biocombustíveis, órgão também criado pelo Governo Federal que funciona no campus da USP - Universidade de São Paulo em Piracicaba, prefere fincar bem os pés na terra.

"Antes de mais nada é bom dizer que os biocombustíveis não são a solução de todos os nossos problemas. Em escala mundial, eles vão responder por, no máximo, 20% da demanda energética. Nunca haverá uma participação maior do que essa", disse.

Para Amaral, faltam planos estratégicos que identifiquem os principais gargalos para o mercado dos biocombustíveis de uma forma geral. "O Brasil não tem, por exemplo, uma padronização do álcool que é exportado hoje", lembra.

Em 2006, foram mandados para o exterior 3 bilhões de litros de etanol. A maior parte dessa produção foi descarregada nos Estados Unidos. O biodiesel, no curto prazo, não deve pesar muito nas exportações.

Monopólio

O ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, do primeiro governo Lula, também sabe da importância de não tratar a questão do biodiesel como uma panacéia. "Temos que ter cuidados com os grupos que querem apenas se aproveitar da situação e que não estão totalmente envolvidos nesse processo", disse Rodrigues, agora professor da USP.

O ex-ministro, que coordenou um evento sobre o tema no fim do ano passado no IEA - Instituto de Estudos Avançados, diz crer no potencial da agricultura brasileira, principalmente em relação a produção de etanol e biodiesel. Para ele, isso não será o problema.

No mesmo evento, entretanto, vários gargalos internos foram discutidos pelos debatedores. Para Guilherme Dias, da FEA - Faculdade de Economia e Administração da USP o desenho do modelo, baseado no monopólio da Petrobras em vez da gestão descentralizada do biodiesel, é algo que preocupa.

"Além disso, é preciso ter em mente que haverá uma competição entre as plantações de biomassa para óleo vegetal e para a alimentação humana. Não adianta dizer que não", afirma o economista.

Para ele, o biodiesel deve competir com o óleo diesel, dentro de uma verdadeira lógica de concorrência. "E isso não ocorre com o atual sistema nacional de leilões (pelos quais a Petrobras compra biodiesel dos produtores)", disse.

Ineficiente

Para Amaral, da USP, ainda são muitas as variáveis internas que precisam ser dimensionadas, antes mesmo da ponta da cadeia produtiva. "Por causa da questão logística, a matéria-prima tem de estar sempre perto da indústria. Não é apenas o preço final do biodiesel que importa. É preciso saber qual o balanço energético, e de carbono, que cada uma das matérias-primas em questão apresentam."

Segundo as contas de Amaral, baseadas em vários estudos, a soja - que desponta como a matéria-prima de escolha do Brasil - é uma das piores opções, se levada em conta somente a questão energética.

Além de o volume de líquido extraído dela ser pequeno (apenas 18% do grão de soja vira óleo), ela tem uma relação de quatro para um entre a energia produzida e consumida: ou seja, um quarto do teor energético de uma saca de soja equivale ao que foi gasto para cultivá-la.

Cana campeã

O campeão nesse quesito é o etanol, que tem um índice energético médio de dez (gera dez vezes mais energia do que se consome em sua produção). O dendê, cultivado na Amazônia brasileira, apresenta um índice 5. As variações dependem do tipo de estudo feito, que leva em conta topografia, clima e solo de cada região.

Na categoria quantidade de óleo por planta, o girassol, a mamona, o algodão, o pinhão-manso, o amendoim e o dendê estão na frente da soja. Entre todos esses vegetais, pode-se tirar de 30% a 60% de óleo vegetal de cada grão.

O Brasil, que investiu entre 2003 e 2005 a quantia de R$ 16 bilhões em projetos realizados sobre o biodiesel, vai investir o dobro nos próximos dois anos, também por essa mesma via.

Isso, com o intuito de gerar conhecimento científico de qualidade em todos os estados da Federação e ainda recursos humanos que sejam capazes de desatar os nós tecnológicos que vão surgir. Tudo indica, porém, que é essa é a parte mais fácil de resolver dessa equação.

Os últimos "homens da floresta"

por Rogério Grassetto Teixeira da Cunha

Se não conseguimos preservar nem mesmo nossos parentes mais próximos, com os quais há uma empatia e um apelo midiático maiores, que dirá de outras espécies menos aparentadas ou consideradas feias, fedidas, peçonhentas ou inúteis.

Desde 2005, quando comecei a escrever sobre o meio ambiente, nunca dediquei um artigo aos primatas, apesar de ter passado os últimos 11 anos a estuda-los e de minha imensa afeição e fascinação pelo grupo. Mas uma triste notícia que vi publicada no fim do ano passado, na Folha de São Paulo do dia 18 de dezembro, motivou-me a escrever sobre o assunto: há uma grande probabilidade de presenciarmos nos próximos dez anos a extinção dos orangotangos em seu ambiente natural. Segundo estimativas mais otimistas restariam 20 anos para esta espécie de grandes primatas na natureza; os mais pessimistas calculam apenas quatro anos para que desapareça o último orangotango selvagem.

Antes de prosseguir, algumas explicações: o grupo dos primatas corresponde, grosso modo, a todos os animais que genericamente chamamos de macacos (sagüis, micos, chimpanzés, gorilas, bugios, etc.), além da espécie humana e de alguns bichos menos conhecidos, como os társios e lêmures, só encontrados na Ásia e África. O chimpanzé, o gorila, o bonobo (um tipo chimpanzé menor) e o orangotango dividem com o homem, dentro deste grupo, a família dos hominídeos.

Como em uma família, tal qual a entendemos em nossa sociedade, dentro das famílias biológicas as espécies são todas aparentadas e há aquelas mais e menos aparentadas entre si (na verdade todas as espécies existentes são aparentadas, assim como somos todos os humanos, mas nas famílias biológicas, assim como nas nossas, essa relação é mais próxima). Na família dos hominídeos, o chimpanzé e o bonobo são espécies-irmãs, ou seja, possuem um ancestral comum (já extinto há muito tempo), não compartilhado com nenhuma outra espécie vivente. Juntos, eles têm em comum conosco um ancestral mais antigo ainda. É mais ou menos como se ambos fossem nossos "primos" e tivéssemos um "avô" comum. As três espécies juntas compartilham um "bisavô" com o gorila, que fica sendo assim como um "primo" em segundo grau nosso e dos "irmãos" chimpanzé e bonobo. Por fim, compartilhamos um "tataravô" com o orangotango.

Seguindo a nossa analogia, o orangotango é "primo" em terceiro grau de todos os outros, inclusive meu e seu, leitor. Dito assim pode até parecer um parentesco distante, mas no conjunto da biodiversidade terrestre, essa macacada é sangue do nosso sangue: as semelhanças superam em muito as diferenças, apesar de muitos preferirem ver somente as últimas. Em suma, dentre as milhões de espécies viventes no planeta Terra, o orangotango é a quarta mais aparentada aos humanos. Aliás, orangotango, em idiomas nativos da Indonésia (orang utan), quer dizer "homem da floresta".

Digo isto porque, apesar de achar que devemos preservar todas as espécies, independentemente que sejam as que consideramos as mais bonitas (como a ararinha-azul, as baleias ou o mico-leão-dourado), ou as mais úteis (como plantas com potencial medicinal ou de cultivo), ou por outra razão antropocêntrica qualquer, é inegável que há um certo conteúdo emocional em perdermos um membro tão próximo de nossa família evolutiva. Isso, evidentemente, diz muito acerca da natureza humana. Se não conseguimos preservar nem mesmo nossos parentes mais próximos, com os quais há uma empatia e um apelo midiático maiores, que dirá de outras espécies menos aparentadas ou consideradas feias, fedidas, peçonhentas ou inúteis.

E por que os orangotangos estão sumindo? Bem, nas últimas décadas as populações desta espécie têm sofrido reduções constantes devido à perda de seu habitat natural, as florestas tropicais das ilhas de Bornéu e Sumatra, na Indonésia. Cerca de 80% já foi destruído. As razões para esta devastação são a extração (legal ou ilegal) de madeira e o corte raso da mata para agricultura.

A matéria da Folha de São Paulo acerca da extinção dos orangotangos citava ainda o alerta de ambientalistas para uma causa mais recente: a destruição promovida por grandes queimadas, algo bastante comum no Sudeste Asiático (e por aqui também, cada vez mais). No ano de 2006, as queimadas por lá foram bastante extensas e teriam matado cerca de mil animais (lembre o leitor que, por serem os orangotangos animais muito grandes e com uma taxa reprodutiva bem baixa, a perda deste número de adultos tem um impacto profundo sobre a sua população total). O irônico da história é que o propósito das queimadas recentes, que tão mal fizeram aos nossos parentes, foi o de limpar a floresta para plantar dendê em seu interior, o qual é usado para fazer biodiesel, um combustível "ecologicamente correto".

Mas o que mais esta triste história do continente asiático tem a ver com você, brasileiro, leitor deste artigo? Infelizmente muito, pois esta é uma situação bastante similar à que estamos vivendo em nossa floresta amazônica e estamos repetindo por aqui vários dos mesmos erros cometidos por lá. A diferença (por enquanto) está somente no grau de destruição das nossas matas.

Como tanto o governo brasileiro quanto a União Européia estão abraçando cada vez mais a idéia do biodiesel, devemos cuidar para que não aconteça o mesmo por aqui e transformemos uma idéia que tem um potencial ambiental e social extremamente interessante em mais um poderoso vetor de destruição.

O maior dos erros, e causa de todos os outros, é enxergar a floresta com olhos voltados ao lucro fácil em vez de uma visão de longo prazo, o que leva não só à perda de espécies mais ou menos carismáticas, mas também significa destruir uma galinha dos ovos de ouro. Os "ovos" são as diversas formas racionais de se explorar a mata e os diversos serviços ambientais que a floresta fornece, embora de difícil mensuração financeira. Que a ameaça da iminente extinção dos orangotangos - os "homens-da-floresta" asiáticos - nos sirva de lição para que preservemos as nossas florestas e seus habitantes naturais.

*Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é doutor em Comportamento Animal pela Universidade de Saint Andrews.

Fruto da castanha do Brasil é alternativa para geração energia

Pesquisa feita pelo Inpa demonstrou que os resíduos da castanha podem ser aproveitados pela indústria e pelo comércio

Luís Mansuêto, da Assessoria de Comunicação do Inpa

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) demonstrou que os resíduos do fruto da castanha do Brasil podem ser aproveitados pela indústria e pelo comércio.

O material pode ser utilizado na geração de energia tanto na forma in natura quanto na forma de subprodutos, ou seja, carvão, briquetes (pedaços de carvão em blocos menores e compactos), alcatrão (bio-óleo) e gases.

A pesquisa é o resultado do projeto “Fruto da Castanha do Brasil: Potencialidade de Uso como Fonte de Matéria-prima para a Rede Energética do Estado do Amazonas”.

O trabalho foi elaborado pelo técnico do Inpa, Paulo Roberto Guedes Moura, sob a orientação da pesquisadora da Coordenação de Pesquisas em Produtos Florestais (CPPF/ Inpa), Claudete Catanhede do Nascimento.

Moura explicou que o projeto foi apresentado ao curso de pós-graduação: “Agente de Inovação e Difusão Tecnológica”, promovido pelo Sebrae em parceria com a Fucapi.

Moura destacou que o projeto foi elaborado sob a ótica dos danos ambientais causados pela queima de combustíveis fósseis, principalmente, o petróleo.

Segundo ele, a humanidade, no decorrer das últimas décadas, tem buscado novas formas de promover o desenvolvimento sem prejudicar a natureza. Na Amazônia, a questão torna-se ainda mais grave, quando se pensa em levar desenvolvimento à comunidades distantes dos centros urbanos.

No caso, uma das alternativas é a utilização de energias renováveis provenientes de ciclos naturais, os quais são inesgotáveis e quase não alteram a temperatura do planeta, como, os resíduos da castanha do Brasil que teriam como destino o lixo.

A pesquisa demonstrou que os resíduos têm potencial para serem aproveitados como lenha nas usinas térmicas, caldeiras, olarias etc.

Na forma de subproduto (carvão e briquetes), os resíduos podem ser utilizados na indústria siderúrgica na fabricação de aço verde.

Os dados são fundamentados em seis características básicas para um produto ser considerado energético: a umidade; os materiais voláteis; o carbono fixo; o teor de cinzas; a densidade e o poder calorífico.

“Entre as vantagens de se utilizar os resíduos está sua elevada densidade energética. Ou seja, a quantidade de calor contida em um determinado volume de um combustível. Portanto, quanto maior a densidade energética, maior será a energia armazenada pelo mesmo. “Dessa forma, o material demorará mais tempo para ser queimado”, explicou.

Moura esclareceu que durante as análises comparativas da densidade básica do resíduo com outras espécies madeireiras, o mesmo comportou-se como madeira pesada.

“Isso quer dizer que o resíduo obteve um bom desempenho, ou seja, de 838,4 kg/m³, maior do que o Eucalipto grandis, o Eucalipto saligna, a Acácia Mangiun, que foi de 391 kg/m³; 476 kg/m³; 596,1 kg/m³, respectivamente. Essas três últimas espécies são plantadas para produção de energia e podem ser substituídas pelos resíduos do ouriço da castanha”, afirmou.

Ele também ressaltou que quando se comercializa produto madeireiro para fins energéticos, a característica mais importante é a densidade energética.

“O resíduo do fruto da castanha apresentou densidade energética de 3.620.211 kcal/m³, enquanto os outros exemplares apresentaram valores menores: Eucalipto grandis – 1.872.890kcal/m³; Eucalipto saligna - 2.327.164 kcal/m³ e Acácia mangiun – 2.868.433kcal/m³)”, ressaltou.

As aplicabilidades do uso do resíduo do ouriço da castanha não param por aí. Ele também é considerado um produto ecologicamente correta. Isso porque é classificado por ser resultante de plantações naturais ou oriundo de sistemas agroflorestais.

Ou seja, não há a necessidade de plantá-la e depois cortá-la, como acontece com outras espécies.

De acordo com Moura, deve-se dar atenção especial ao alcatrão, um subproduto do resíduo, pois ele é um tipo de bio-óleo de madeira utilizado para geração de energia, pela culinária para dar gosto aos produtos defumados.

Além disso, o óleo também é utilizado na composição da pavimentação de avenidas e para dar mais durabilidade à madeira. “Ele tem um alto valor no mercado consumidor”, enfatizou.

Em relação ao material volátil, a pesquisa concluiu que o carvão resultante dos resíduos apresentou a menor porcentagem, 9,22%, quando comparado com outras espécies: Eucalipto grandis – 19,08% e Acácia mangiun - 21,49%.

Isso quer dizer que quanto menor a porcentagem de material volátil, o carvão queimará mais lentamente durante o processo de produção de energia. O que garante um aproveitamento melhor do produto.

“Enquanto uma determinada amostra de carvão de uma das espécies queima em uma hora, o carvão resultante do material lenhoso do fruto da castanha levará cerca de duas horas para completar o mesmo ciclo”, comentou.

Segundo ele, nas análises do carbono fixo também foi verificado que o carvão resultante da castanha é superior as outras espécies. Enquanto a castanha obteve 88% de rendimento, as espécies Eucalipto grandis e Acácia mangiun obtiveram 80,34% e 73,30%, respectivamente.

Moura disse que quanto maior a quantidade de carbono fixo, maior será a quantidade de calor gerado, pois ele é o responsável pela geração de gás. Por tanto, o carvão da castanha demora mais para transformar-se em cinzas.

De acordo com o técnico, o trabalho que foi realizado demonstra que é possível agregar valor a resíduos que teriam como destino o lixo.

Ele disse que matéria-prima não faltará para alimentar a indústria e o comércio, pois somente em 2004 foi produzido no Amazonas cerca de 9 mil toneladas de castanha. Isso geraria aproximadamente 18 mil toneladas de resíduos do fruto.

“Com os resíduos o Estado teria um retorno de R$ 1 milhão. Na realidade, falta uma pessoa que queira, realmente, investir, ou seja, comprar as cascas de comercializá-las”, finalizou.

Aquecimento global pode alimentar conflitos e terrorismo

Especialistas que participaram de uma conferência na Inglaterra afirmaram ser provável que o aquecimento global dê origem a grandes fluxos de refugiados

Mark Trevelyan, Reuters

LONDRES - O aquecimento global pode exacerbar a desigualdade entre ricos e pobres e alimentar o terrorismo nos países mais atingidos, disseram especialistas em segurança e em meteorologia, nesta quarta-feira, 24.

"Temos de levar em conta a propensão humana para a violência", disse Crispin Tickell, ex-embaixador da Grã-Bretanha na ONU, na conferência "Alterações Climáticas: O Impacto na Segurança Global", em Londres.

Ele citou Ruanda e Darfur, no Sudão, como dois exemplos onde a seca e a superpopulação alimentaram conflitos.

Especialistas que participaram da conferência afirmaram ser provável que o aquecimento global dê origem a grandes fluxos de refugiados, conforme as pessoas tentam fugir das áreas inundadas pela elevação do nível do mar, ou transformadas em regiões inabitáveis pela desertificação.

Tickell disse que há a possibilidade de que terroristas tentem explorar as tensões que serão criadas. "Quem sofrer de falta de comida, falta de água, quem não puder se mudar para países onde tudo parece maravilhoso, vai adotar medidas desesperadas".

John Mitchell, cientista-chefe do Escritório de Meteorologia britânico, lembrou que a Al-Qaeda já incluiu os danos ambientais em sua litania de ressentimentos contra os Estados Unidos.

"Vocês destruíram a natureza com seu lixo e seus gases industriais, mais que qualquer outro país na história. Apesar disso, recusam-se a assinar o tratado de Kyoto, para garantir o lucro de suas empresas e indústrias gananciosas", escreveu o líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, numa "carta ao povo americano", em 2002.

Mitchell afirmou que as regiões do Mediterrâneo e do Oriente Médio devem registrar menos chuvas, o que aumentará as tensões ligadas ao fornecimento de água.

Nova mortandade de peixes. Agora em Pelotas.

A agonia dos rios não tem fim. Batalhão Ambiental calcula que 12 toneladas de peixes tenham perecido entre o Canal São Gonçalo e o Arroio Fragata.

Por Raquel Casiraghi, Chasque Notícias.

Porto Alegre, RS - A mortandade de peixes ocorrida nesta terça-feira, em Pelotas, evidencia a falta de planejamento e de fiscalização dos governos em relação aos recursos hídricos do Estado. Peixes apareceram mortos numa extensão de seis quilômetros, que vai do canal São Gonçalo, em Pelotas, até o arroio Fragata, na cidade vizinha de Capão do Leão. A equipe do 1º Batalhão Ambiental da Brigada Militar pelotense estima que cerca de 12 toneladas de animais estejam acumuladas nas margens do arroio.

As causas da mortandade ainda não foram detectadas, mas os policiais trabalham com a hipótese de que os peixes sofreram com o choque causado pela entrada de água salgada nos mananciais doces. Também há a possibilidade de poluição por empresas alimentícias que estão instaladas em áreas ribeirinhas.

O ambientalista Antônio Soler, do Centro de Estudos Ambientais (CEA) de Rio Grande, avalia que não há como ter certeza das causas da mortandade, já que os estudos técnicos recém começarão a serem feitos. No entanto, o professor acha que apenas o salgamento da água seria insuficiente para matar 12 toneladas de peixe.

"Especialistas na área dizem que dificilmente, quando a água salgada invade a doce, os peixes serão pegos porque eles possuem um sentido animal que os faz perceber o perigo, então eles conseguem escapar. Mas, acho que pelas referências anteriores e históricas, a origem mais certa é a poluição. Agora, o que causou a poluição, nós não sabemos, pois há empresas que jogam efluentes naquela região. Então, pode ser uma como todas elas as ocasionadoras", diz.

Para Antônio, a nova mortandade de peixes no Estado confirma a ineficiência dos poderes governamentais em cuidar dos mananciais hídricos. Repetindo o exemplo do desastre que ocorreu no Rio dos Sinos, região metropolitana de Porto Alegre, quando cerca de 100 toneladas de peixe foram encontrados mortos em dezembro passado, a região de Pelotas também carece de fiscalização dos poderes governamentais. A Secretaria de Qualidade Ambiental (SQA), órgão responsável pelo município, tem uma fiscalização deficitária.

"A SQA tem uma carência de estrutura para agir nesse tipo de situação. Então, apesar de ela ter o dever de combater a poluição, assim como o Estado e a União, ela tem essa deficiência estrutural de fiscalizar essas ações danosas. A gente também tem percebido, nesses últimos anos, especialmente nesse governo, uma diminuição efetiva no processo de autuação e de fiscalização, que a gente percebe no número de multas que a Secretaria repassa ao Conselho. Então a gente percebe uma diminuição efetiva na fiscalização", afirma.

No dia 29 deste mês, acontece uma reunião extraordinária do Conselho Municipal de Proteção Ambiental de Pelotas (Compam), para avaliar as causas da mortandade e propor ações. O atual Conselho, que existe desde 1979, é composto por 24 cadeiras, entre instituições e secretarias governamentais dos três poderes, entidades ambientalistas, sindicatos de trabalhadores e empresas.

26 janeiro 2007

Problema no esgoto leva mau cheiro à praia

DA AGÊNCIA FOLHA

O entupimento de uma rede coletora de esgoto na praia da Enseada, no Guarujá (87 km de São Paulo), provocou forte mau cheiro ontem pela manhã.

De acordo com a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), o incidente ocorreu por volta das 8h, na avenida Guadalajara, mas o esgoto não chegou à areia da praia.

Segundo a companhia, a principal rede coletora do local entupiu, causando o transbordamento no canal próximo à orla.Banhistas reclamaram que o mau cheiro podia ser sentido da praia. Alguns deles ligaram para a Secretaria do Meio Ambiente da cidade relatando o fato.

A prefeitura emitiu, então, ofício à Sabesp para que solucionasse o problema, resolvido pela manhã.

Praia Grande e São Vicente têm más condições para banhistas

DA REDAÇÃO - FOLHA DE SÃO PAULO

As praias de São Vicente e Praia Grande, ambas na Baixada Santista, são as do litoral paulista que apresentam as piores condições para os banhistas. Em São Vicente, só duas praias estão limpas: Divisa e Ilha Porchat. Em Praia Grande, são três: Aviação, Boqueirão e Vila Tupi.

Já em Guarujá e Santos, também na mesma região, a situação permanece favorável, de acordo com o último boletim da Sabesp (agência ambiental paulista). Só Enseada -exceto próximo ao Sesc- está suja no Guarujá, e em Santos apenas Aparecida está imprópria.

No litoral norte, a condição das praias também é, em geral, boa. Ubatuba segue com dois pontos poluídos: Perequê-Mirim e Itaguá (exceto próximo à av, Leovegildo, 1,724). Em São Sebastião, são quatro.

No Rio de Janeiro, segundo a última medição da Feema (Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente), seguem próprias para o banho de mar Copacabana, Ipanema, Leme, Prainha, Arpoador. Já a Urca, São Conrado, Botafogo, Leblon e Flamengo estão sujas.

Amazônia Legal perdeu 13,3% de sua floresta completou o zoneamento da região

Dado é de novo mapa do IBGE, que completou o zoneamento da região

Mapeamento estabelece quais são as áreas da maior floresta tropical do mundo a serem conservadas e quais poderão servir à produção

JANAINA LAGEDA
SUCURSAL DO RIO - FOLHA DE SÃO PAULO

O desmatamento já atinge 13,3% da área da Amazônia Legal ou 665.944,80 quilômetros quadrados, segundo cálculos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). O tamanho da área desmatada é equivalente a quase três vezes o Estado de São Paulo ou a 15 vezes o Estado do Rio de Janeiro.

Os cálculos do instituto foram realizados a partir do mapeamento da Amazônia Legal, que inclui dados sobre a rede urbana regional, logística do território, fronteiras agropecuária e mineral, entre outros.

Em 2005, houve uma queda no ritmo de desmatamento de 31%. A taxa de desmatamento, de 18.793 quilômetros quadrados, é a menor desde 2001, de acordo com dados do instituto.

A queda, no entanto, não foi uniforme. Estados como Roraima registraram um recuo de 51% no ritmo de desflorestamento, mas no Maranhão houve alta de 22% e no Tocantins, de 72%, em razão do aumento do cultivo da soja.

A Amazônia é a região compreendida pela bacia do rio Amazonas, formada por 25 mil quilômetros de rios navegáveis, com cerca de 6,9 milhões de quilômetros quadrados. Desse total, 3,8 milhões de quilômetros quadrados estão no Brasil.

Já a Amazônia Legal foi definida no artigo 2 da lei nº 5.173, de outubro de 1966, e abrange os Estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, parte do Maranhão e cinco municípios de Goiás. Ela representa 59% do território nacional e inclui 775 municípios que concentram 12,32% da população.

O IBGE listou ainda os 10 municípios com maior área desmatada. São Félix do Xingu, no Pará, aparece em primeiro lugar com 13.597,6 quilômetros quadrados. Paragominas, no Pará, aparece em segundo lugar com 8.494,9 quilômetros quadrados. Dos dez municípios listados, seis estão no Pará.

De acordo com o IBGE, Rondônia é o Estado com maior percentual de área desmatada em relação ao território (28,5%).

As principais causas do desmatamento na Amazônia são o crescimento da população, em razão da migração estimulada pelo governo, o crescimento da indústria madeireira, aliado à ampliação da rede viária, e as queimadas realizadas para manejo de pastagens e áreas agrícolas.

Ordenamento

A coleção de dez novos mapas lançada pelo instituto permitiu a elaboração de um mapa integrado de zoneamento ecológico-econômico dos Estados da Amazônia Legal. Esse mapa deverá ter caráter normativo e será usado para para indicar alternativas de uso sustentável dos recursos naturais.

Ele separa as áreas com estrutura produtiva definida, as que precisam ser recuperadas e as protegidas. Segundo o MMA (Ministério do Meio Ambiente), cerca de 30% da área da Amazônia Legal é composta por unidades de conservação.

Até agora, a lei só permitia ao ministério trabalhar com mapas na escala de 1 para 250 mil, do zoneamento feito pelos Estados. A idéia agora é trabalhar com escalas diferentes (menor resolução) para baratear o zoneamento no país. Além disso, o ministério pretende harmonizar as políticas públicas de acordo com a escala de zoneamento. Projetos que exijam maior precisão serão analisados em mapas mais detalhados.

"Vamos completar o zoneamento do Brasil porque vai ficar mais barato e adequado ao que os Estados fazem. Teremos um zoneamento útil para o gestor público, que poderá consultá-lo para verificar a viabilidade de projetos. O crédito público e o privado vão se orientar por isso", disse ontem o secretário de Desenvolvimento Sustentável do MMA, Gilney Vianna.

Mares poderão subir por mais mil anos

Conclusão é de relatório de painel de cientistas ligado à ONU, que diz que Terra esquentará em média 3C a mais até 2100

Relatório do IPCC, que dará a última palavra sobre o estado do clima, dirá que não há mais dúvida de que homem causa aquecimento

DA REUTERS

O nível médio do mar vai subir pelos próximos mil anos se os governos não criarem um projeto para baixar as temperaturas médias globais neste próximo século. A conclusão é de um aguardado relatório sobre clima da ONU.

O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática), comitê de 2.500 cientistas responsável pelo relatório, vai publicar parte de suas conclusões oficialmente no dia 2 de fevereiro, em Paris.

O relatório prevê mais secas, chuvas, perdas de gelo no Ártico e nas geleiras, além da elevação do nível do mar até 2100. E adverte ainda que o efeito do aumento das concentrações dos gases-estufa na atmosfera vai durar por bastante tempo.

"As emissões de dióxido de carbono por atividades humanas no século 21 contribuirão para o aumento do nível médio do mar, e para o aquecimento global, pelos próximos mil anos, tempo necessário para que esse gás também seja removido" disseram fontes que revelaram trechos do relatório.

Entretanto, o documento tem boas notícias sobre o intervalo de alteração do mar. Novas projeções, baseadas em seis modelos, apontam que a elevação ficará entre 28 cm e 43 cm. No relatório anterior do IPCC, de 2001, as alterações apontadas eram de 9 cm a 88 cm.

Durante o século 20, o aumento do nível médio do mar ficou em 17 cm. Essa alteração, agora, ameaça ilhas, zonas costeiras e cidades em estuários.

"Muito provável"

O relatório afirma que é "muito provável" (até 90% de chance) que as atividades humanas, lideradas pela queima de combustível fóssil, estejam fazendo a atmosfera esquentar desde meados do século 20. O relatório de 2001 dizia que essa ligação era "provável" (66% de chances ou mais).

Em Nova Déli, o chefe do IPCC, Rajendra Pachauri, disse esperar que o relatório possa "chocar" governantes e fazer com ajam. "Não se pode deixar de considerar o crédito desse trabalho científico", disse.

O rascunho do documento - o texto será finalizado um dia antes da publicação, na França - projeta um aumento de temperatura entre 2C a 4,5C a mais do que os níveis registrados antes da Era Pré-Industrial. A estimativa mais certeira fala em um aumento médio de 3C, assumindo que níveis de dióxido de carbono se estabilizem 45% acima da taxa atual.

Essa estimativa é mais precisa do que a anterior, divulgada em 2001. O último intervalo oficial começava em 1,4C e terminava em 5,8C. Não havia uma medida intermediária, como haverá agora. A União Européia diz que qualquer aumento superior aos dos 2C vai causar alterações perigosas.

Estabilizar os níveis de dióxido de carbono poderá aumentar as temperaturas futuras em 0,5C, principalmente entre 2100 e 2200. Em 2300, isso elevaria o nível do mar de 30 cm a 80 cm em relação a hoje. Depois disso, então, ambas as taxas começarão a cair.

O nível do mar já esteve de 4 m a 6 m mais alto quando as temperaturas estavam 3C mais quentes, há 125 mil anos.

A corrente do Golfo, que leva águas quentes ao Atlântico Norte, estava bem mais fraca, mas não o suficiente para estagnar por completo sua contribuição de aquecimento. Existe, agora, um pequeno risco de que ocorra uma abrupta interrupção desse sistema de corrente até 2100.

24 janeiro 2007

Raro tubarão-cobra é filmado no Japão

Espécie é chamada de "fóssil vivo" por ter mudado pouco desde a pré-história. Bicho se alimenta de outros tubarões e criaturas marítimas.

Da Reuters

Uma espécie de tubarão raramente vista porque seu habitat natural é a 600 metros de profundidade foi filmada nesta semana por funcionários de um parque marítimo japonês.

O Parque Marítimo Awashima, em Shizuoka, ao sul de Tóquio, foi alertado por um pescador no domingo, que disse ter visto uma criatura estranha e parecida com uma enguia, cheia de dentes pontudos.

Os funcionários do parque capturaram a criatura de 1,6 metro, que eles identificaram com sendo um tubarão-cobra fêmea. Essa espécie é muitas vezes chamada de "fóssil vivo" por ser primitiva e ter mudado pouco desde os tempos pré-históricos.

O tubarão parecia estar em más condições quando os funcionários do parque o levaram para uma piscina de água do mar, onde o filmaram nadando e abrindo sua mandíbula.

"Acreditamos que filmes de uma espécime viva são extremamente raros", disse uma autoridade do parque. "Eles vivem entre 600 e mil metros de profundidade, o que é mais fundo do que seres humanos podem ir".

"Achamos que ela pode ter vindo para perto da superfície porque estava doente, ou por estar enfraquecida porque estava em águas rasas", completou ele. O tubarão morreu poucas horas depois de ter sido pego.

Tubarões-cobra, que se alimentam de outros tubarões e criaturas marítimas, são algumas vezes pegos em redes de pesca, mas são raramente vistos vivos.

23 janeiro 2007

Gases tóxicos dos EUA ameaçam cidades no Reino Unido

da Efe, em Londres

Gases tóxicos procedentes dos Estados Unidos elevaram a poluição de algumas cidades britânicas acima dos níveis considerados seguros e ameaçam a saúde de muitas pessoas, segundo um novo estudo publicado neste domingo pelo jornal "Sunday Times".

O relatório, elaborado pelo Conselho de Pesquisas sobre o Meio Ambiente (Nerc, sigla em inglês), indica que até 2.000 toneladas de ozônio procedente de cidades como Chicago, Detroit e Nova York chegam ao Reino Unido diariamente.

O ozônio eleva os níveis britânicos entre 20% e 30 %, e às vezes inclusive em 40%, e faz com que se supere o limite de 50 partes por 1 bilhão fixado pela Organização Mundial da Saúde.

Os cientistas britânicos calculam que, além desse ozônio, cerca de mil toneladas de monóxido de carbono viajam diariamente com o vento pelo Atlântico em direção às ilhas britânicas.

O estudo, que será publicado esta semana pelo "Journal of Geophysical Research", também inclui Washington e Boston entre as cidades que contribuem para a poluição no Reino Unido.

O ozônio é um dos poluentes mais tóxicos e mesmo em pequenas quantidades causa problemas de asma, bronquite e outras doenças das vias respiratórias.

Os especialistas culpam diretamente esse gás por muitas das mortes que aconteceram na onda de calor de 2003, quando os níveis de ozônio no Reino Unido superaram as 90 partes por 1 bilhão.

Sucessivos governos britânicos tentaram em vão reduzir os níveis de poluição atmosférica nas cidades britânicas, e os autores do estudo tentaram encontrar as causas para isso.

"Nossas investigações demonstram que as medidas de controle da poluição adotadas no Reino Unido não funcionam porque boa parte dessa poluição vem dos Estados Unidos", explica Alastair Lewis, professor de química atmosférica da Universidade de York.

Os Estados Unidos, maior país poluidor do planeta, são muito criticados por sua recusa em assinar o protocolo de Kyoto para a redução dos gases que contribuem para o aquecimento da atmosfera terrestre.

Chuvas já afetaram 89 cidades no Estado de São Paulo

GUILHERME CAMPOS
da Folha Ribeirão

As chuvas de dezembro e janeiro já afetaram 89 cidades de São Paulo, de acordo com a Operação Verão da Defesa Civil do Estado. Desse total, 21 cidades estão em situação de emergência ou calamidade pública.

A Santa Casa de Franca (400 km a norte de São Paulo) precisou cancelar 50 cirurgias devido a falta de abastecimento de água, provocada pelas chuvas que atingiram a cidade nos últimos dias.

No interior do Estado, o que exclui o litoral e as regiões metropolitanas, 89 pessoas continuam desabrigadas e uma pessoa morreu. No mesmo período da operação em 2006, 51 cidades apresentavam problemas, mas não houve decretação de estado de emergência ou calamidade pública em nenhuma localidade.

Hoje, a Prefeitura de Serrana, vizinha a Ribeirão Preto (314 km a norte de São Paulo), também decretou estado de emergência. Além dela, já decretaram emergência ou calamidade pública na região Barretos, Franca, Restinga, Patrocínio Paulista, Santa Rosa de Viterbo e Mococa.

De acordo com o diretor da Defesa Civil do Estado, Jeferson de Almeida, a quantidade de chuvas deste ano ultrapassou a média histórica na maioria das cidades, inclusive na macrorregião de Ribeirão Preto. Ele afirmou que, por isso, muitas das cidades não estavam preparadas estruturalmente para receber esse volume, o que causou prejuízos.

Segundo a Somar Meteorologia, o principal motivo para o aumento no volume de chuvas é o posicionamento das frentes frias que se estacionaram sobre o Sudeste. Hoje, elas atuam com maior intensidade no sul do Sudeste, o que traz mais transtornos para São Paulo, diferentemente de 2003 e 2004, por exemplo, onde atuaram mais ao norte do Sudeste.

Nesta terça-feira, segundo o prefeito Sidnei Rocha (PSDB), técnicos instalaram a segunda bomba afetada, de quatro, para redistribuir água. Hoje, uma terceira bomba deve ser instalada.

A ponte da vicinal que liga Franca a Claraval (MG), parcialmente destruída pelo rio, foi provisoriamente reconstruída. Uma pinguela foi erguida e agora passam carros e motos. Já as vicinais de Serrana, Patrocínio Paulista e Santa Rosa de Viterbo seguem intransitáveis. Alguns representantes das cidades foram ontem até São Paulo marcar audiência com o governo do Estado para negociar um repasse de verba para a reparação dos danos.

Cirurgias canceladas

A falta de água em Franca, motivada pelos danos causados nas instalações da Sabesp, pode ser normalizada sábado --a previsão inicial era domingo.

A Fundação Casa de Misericórdia, que administra a Santa Casa, o Hospital do Câncer e o Hospital do Coração, suspendeu 50 cirurgias eletivas (não-emergenciais) marcadas para segunda-feira e ontem devido à falta de abastecimento.

As instituições usam 100 mil litros de água por dia e os reservatórios têm capacidade para armazenar 390 mil litros, o suficiente para quatro dias.

Segundo Fernando Bueno, superintendente da Santa Casa, não haverá mais suspensões e os pacientes devem fazer novo agendamento. As cirurgias de urgência estão sendo realizadas normalmente.