30 dezembro 2006

Diamantes perdem brilho para tribo brasileira

Larry Rohterna - The New York Times
Área Indígena Roosevelt, Brasil

Alguns dos depósitos mais abundantes de diamantes do mundo estão enterrados no solo avermelhado da floresta amazônica daqui. Mas para os índios cinta-larga que vivem nesta reserva remota, tal descoberta trouxe mais infortúnio que riqueza.

Garimpeiros de fora começaram a prospecção em 1999 e logo infestaram as terras indígenas, lhes trazendo bebidas alcoólicas, drogas, doenças e prostituição. Deslumbrados com a promessa de riqueza rápida em seus negócios com os forasteiros, os líderes tribais acumularam dívidas que não podem pagar - especialmente agora que a polícia estabeleceu bloqueios de estrada nos limites da reserva para impedir o tráfico ilegal de diamantes.

O nome cinta-larga é uma referência ao antigo hábito da tribo de vestir faixas de casca de árvore ao redor da cintura. Por gerações, os cinta-larga optaram por viver em isolamento aqui, ao longo das margens do Rio Roosevelt, batizado em homenagem a Theodore Roosevelt, que liderou uma expedição por esta região do sudoeste da Amazônia há cerca de 90 anos.

"Na época, nós não tínhamos nenhuma idéia de que diamantes valiam algo", lembrou Roberto Carlos Cinta-Larga, um líder tribal que, seguindo a tradição, usa o nome da tribo como sobrenome. "Nós não tínhamos dinheiro naquele tempo e nem mesmo sabíamos o que era dinheiro, porque nossa natureza era ficar afastado de todo mundo e não cultivar amizades."

Mas nos anos 60, uma estrada foi construída a oeste daqui, abrindo a selva para exploração de madeireiros. A descoberta de ouro, zinco e finalmente diamantes aumentou as oportunidades para os cinta-larga, mas também seu ressentimento com a ocupação por brancos de terras que o governo brasileiro destinou a eles.

Há dois anos, as tensões finalmente ferveram. Em um episódio ainda sob investigação, e por motivos ainda não são claros, os cinta-larga mataram 29 garimpeiros que estavam trabalhando sem sua permissão na mina na reserva.

De lá para cá, os cinta-larga se tornaram a mais notória das centenas de tribos indígenas do Brasil, vilipendiados na imprensa como selvagens sanguinários que querem os diamantes para si mesmos e insultados nas cidades próximas quando deixam a reserva. Na esperança de responder a estes retratos negativos, os líderes tribais convidaram recentemente este repórter para uma visita.

"Nós queremos que saibam que, apesar do que nossos inimigos dizem, nós não estamos esaber que, apesar do que nossos inimigos dizem, n;islhando sem sua permissara os cinta-largas, mas tambagem a Theodoxtraindo diamantes", disse Ita Cinta-Larga, outro líder tribal, enquanto inspecionava a mina e sua coleção de mangueiras e calhas abandonadas. "Nós ainda pegamos garimpeiros tentando entrar, mas está bem calmo aqui por ora, e é assim que desejamos manter."

Em troca de um subsídio de US$ 810 mil para desenvolvimento da comunidade dado pelo governo brasileiro, os cinta-larga concordaram em abril em fechar a mina, permitir que a polícia ambiental do Estado patrulhasse o local e evitar matar os invasores. Mas o dinheiro está acabando e Pio Cinta-Larga, um líder tribal, alertou que a menos que mais chegue mais ajuda, "quando o ano acabar, a trégua também acabará".

Mauro Spósito, coordenador de Operações Especiais de Fronteira da Polícia Federal brasileira, disse que diante da história da tribo, tais ameaças devem ser levadas a sério. "Nós sabemos que eles são violentos e que algo pode acontecer, o motivo para a base de nossas atividades ser desde o início tentar negociar e evitar o uso de força bruta", ele disse.

Ivaneide Bandeira Cardozo trabalha com um grupo de direitos indígenas e ambiental, o Kanindé. Ela cita que outro fator para a tribo relutar em discutir é vergonha e embaraço. "Pelo que as mulheres cinta-larga me disseram, elas estavam cansadas de ver os garimpeiros estuprarem meninas de até 14 anos e trazerem drogas", ela disse. "Então elas pressionaram seus homens a fazerem algo."

Rômulo Siqueira de Sá, um funcionário da Fundação Nacional do Índio (Funai), o órgão do governo que lida com os assuntos indígenas, disse que o dinheiro dos diamantes levou muitos cinta-larga a comprarem carros, casas e outros bens a crédito por meio de intermediários brancos. Com o fechamento da mina e o fim dos fundos do governo, ele disse, eles estão com pagamentos atrasados e enfrentando a perda dos bens. Como resultado, a pressão para retomar o comércio ilícito de diamantes e reabrir a prospecção a forasteiros está aumentando.

"Os chefes querem dinheiro do governo para que possam pagar as dívidas particulares oriundas das atividades ilegais, e não há nenhuma possibilidade do governo fazer isto", disse Spósito. "A lei brasileira não permite tal coisa. O que o governo pode fazer é apoiar o desenvolvimento da comunidade e fornecer orientação, mas não mais que isto.

"A maioria dos líderes cinta-larga são homens na faixa dos 50 e 60 anos, de uma geração que a antropóloga brasileira Inês Hargreaves chama de "órfãos do contato". Eles nasceram enquanto a tribo vivia em isolamento, de forma que podem lembrar vagamente tanto do passado idealizado quanto do sofrimento que experimentaram na infância, quando a sociedade brasileira invadiu seu mundo com violência e doença.

"Eu já era adolescente na época em que os garimpeiros mataram milhares de nosso povo, os fuzilando em suas malocas", disse Ita Cinta-Larga, que disse ter cerca de 60 anos. "Meu pai morreu assim, e me lembro dos corpos estendidos no chão e todos chorando." Ao todo, 27 líderes cinta-larga foram apontados como suspeitos na investigação da morte dos garimpeiros. Apesar de nenhum dos líderes entrevistados aqui ter admitido responsabilidade direta, eles todos reconheceram que membros da tribo estiveram envolvidos nas mortes, que disseram ter sido conseqüência de sua frustração diante de suas queixas serem ignoradas pelas autoridades brasileiras.

"Nós pedimos repetidas vezes à Polícia Federal para providenciar a retirada dos garimpeiros, e quando não o fizeram, então os fizemos prisioneiros e os entregamos nós mesmos à polícia", disse Pio Cinta-Larga, que freqüentemente serve como contato da tribo como o mundo exterior. "Mas a polícia os libertou no mesmo dia, e os garimpeiros voltaram imediatamente e ameaçaram e zombaram de nós índios. Então dissemos, 'Basta, vamos mostrar a estas pessoas quem somos'.

"Spósito reconheceu que a tribo entregou os garimpeiros, mas notou que aqueles que invadiram ilegalmente o território indígena tinham direito à liberdade sob fiança de acordo com a lei brasileira. Tal explicação não satisfez aos cinta-largas, que vêem as barreiras da polícia nas estradas que levam à reserva como uma violação de sua soberania em vez de uma medida para protegê-los.

"Estas são nossas terras, e estamos encarregados aqui", disse João Bravo Cinta-Larga, a quem os críticos da tribo apontam como talvez o mais intransigente dos chefes. "Ninguém pode entrar aqui e nos dizer o que fazer. Nós nunca nos permitimos ser dominados por ninguém e não vamos começar agora.

"Dependendo de como é usada, a palavra "bravo" pode significar tanto corajoso quanto irado. João Bravo Cinta-Larga parece ser ambos, se queixando amargamente do apelido "Senhor das Pedras" que lhe foi dado pela imprensa brasileira, e que as acusações de que usou a riqueza dos diamantes para se enriquecer às custas de sua própria comunidade são mentiras maliciosas.

"Eu fiz com que uma usina de força fosse construída para temos eletricidade, e também iniciamos um projeto de fazenda de peixes", ele disse. "Não somos apenas diamantes.

"Outros líderes cinta-larga usaram o dinheiro dos diamantes para comprar grandes rebanhos de gado ou para investir em pomares, na esperança de vender frutas no mercado brasileiro. Mas a polícia diz que os líderes tribais têm centenas de diamantes escondidos e que têm equipamento de mineração escondido na selva, pronto para retomada da prospecção a curto prazo.

Recentemente, os cinta-larga foram persuadidos a vender algumas de suas pedras por meio de bancos do governo em vez de ilegalmente para intermediários, sob o argumento de que receberiam um preço mais justo. Mas o leilão obteve valores abaixo do que os índios esperavam, aumentando ainda mais sua desconfiança do governo.

"Eles prometeram que representantes de nosso povo seriam levados ao leilão para acompanhar sua realização, e então não cumpriram sua palavra", se queixou Pio Cinta-Larga. "Havia muitas pedras boas, mas em vez dos milhões que disseram que veríamos, nós não recebemos quase nada. Eles nos enganaram, como o homem branco sempre faz.

"Spósito respondeu que os índios parecem ter esquecido que "existem impostos, e não podemos criar uma lei que elimine isto". Ele acrescentou: "Os líderes estão cientes disto. Todos eles têm carros, carteiras de motorista, contas bancárias e casas na cidade. De forma que eles sabem quais são suas obrigações.

"Os geólogos dizem que o potencial de diamantes da reserva mal foi tocado. Mas os líderes tribais parecem divididos entre desejos contraditórios: manter os forasteiros distantes, para que possam explorar a riqueza eles mesmos, e deixar os diamantes intactos no solo.

"Eu costumava pensar que dinheiro era bom e queria ser rico, mas agora não mais", disse Pio Cinta-Larga. "Um pouco pode ser bom, mas muito não é. Só traz problemas e sofrimento, quando o que realmente queremos é tranqüilidade."

Tradução: George El Khouri Andolfato

28 dezembro 2006

AMAZÔNIA PODE FICAR OITO GRAUS MAIS QUENTE EM 2100, AFIRMA INPE

No Sudeste brasileiro, efeito seria menos pronunciado. Estudo vai para o Ministério do Meio Ambiente em fevereiro.
Agência Estado

Daqui a cem anos a temperatura média da Amazônia poderá estar 8° C acima da atual, com volume de chuva 20% menor. Esse é um dos cenários traçados pelo meteorologista José Antonio Marengo, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe). Há dois anos ele coordena um estudo que deve ser entregue em fevereiro para o Ministério do Meio Ambiente, sobre os efeitos do aquecimento global no país.

“O Brasil é um país vulnerável às mudanças climáticas e algo tem de ser feito para se evitar catástrofes futuras”, alerta. A pesquisa, que segue até 2010, recebe investimento de cerca de R$ 800 mil e deve mostrar como ficará o clima no país nos próximos cem anos. São recursos do Programa de Biodiversidade, do Banco Mundial e do governo britânico que financiam os estudos climáticos feitos pela equipe do CPTEC.

O primeiro relatório do grupo de pesquisadores aponta que poderá haver uma elevação de temperatura de até 8°C e redução no volume de chuva em 20% na Amazônia. “Essa projeção é para um cenário pessimista, se não se respeitar o protocolo de Kyoto, se continuar o desmatamento desenfreado, por exemplo”, diz Marengo. Neste caso, a floresta amazônica atingiria um ponto de saturação em que não poderia mais absorver gás carbônico. “Deixa de ser floresta, passa a ser cerrado”, explica o pesquisador.

“Se a poluição for controlada e o desmatamento reduzido, a temperatura terá subido cerca de 5°C em 2100, mas somente na Amazônia. Teremos menos chuva, mas o Brasil vai continuar sendo um país tropical.”

Sudeste

A projeção feita pelos meteorologistas mostra que no Sudeste pode haver redução na umidade do ar e que também choveria cerca de 10% a menos. “Mas as temperaturas não subiriam mais que 3°C num cenário otimista e 5°C num cenário pessimista. As chuvas serão mais fortes, com tempestades mais severas.”

Entre as medidas que devem ser adotadas desde já para se evitar tais conseqüências estão a redução da poluição proveniente de veículos por meio do uso de combustíveis como álcool e gás natural e a redução nos desmatamentos e queimadas. “O ideal seria investir em energia eólica, em energia solar. Se a chuva não chega e a temperatura aumenta, as pessoas começam a recorrer a ar-condicionado e outros recursos que gastam energia elétrica”, explica o pesquisador. “Isso levaria ao caos.”

27 dezembro 2006

TONELADAS DE PEIXES MORREM EM AFLUENTE DO TIETÊ

Agência Estado

Milhares de peixes apareceram mortos nesta quarta-feira (27), em plena piracema, no Rio Itaim, afluente do Tietê, em Itu.

Só no trecho que corta a propriedade administrada pelo caseiro Orlando José Alexandre boiavam cerca de 13 toneladas de corimbatás, piavas e lambaris, esta manhã.

A Cetesb acredita que a mortandade foi causada por uma descarga de fundo da barragem de Pirapora, no Rio Tietê, que soltou lodo contaminado rio abaixo.

Ilha habitada some sob o mar na costa da Índia

Elevação do oceano ameaça o delta do Ganges

GEOFFREY LEAN
DO "INDEPENDENT"

O aumento do nível do mar causado pelo aquecimento global já fez uma pequena ilha desaparecer da superfície do planeta. A submersão de Lohachara, na baía de Bengala, Índia, onde deságuam os rios Ganges e Brahmaputra, foi o prelúdio da confirmação das previsões de climatologistas sobre o agravamento do efeito estufa.

À medida que os mares se elevam, até mesmo nações inteiras, como as Ilhas Marshall, podem sumir. Países com vastas planícies costeiras, como o Egito ou Bangladesh, podem perder boa parte de suas terras.

Há oito anos, algumas ilhas desabitadas do arquipélago de Kribati, no Pacífico, desapareceram sob as ondas. Pessoas que moravam em Vanuatu, perto do local, foram retiradas de suas casas por precaução, mas esta pequena nação ainda se mantém fora d'água.

O desaparecimento gradual, mas persistente de Lohachara, porém, não tem precedentes. No passado, o local chegou a abrigar 10 mil pessoas.

O sumiço total da ilha foi confirmado por cientistas da Universidade Jadavpur, de Calcutá, que estudavam em Sunderbans, uma região de mangue no delta do Ganges. A ilha é tão remota que os pesquisadores ficaram sabendo da submersão por meio de imagens de satélites. Uma ilha vizinha, Suparibhanga, também desapareceu, bem como dois terços de outra ilha povoada, Ghoramara. "Em questão de alguns anos ela vai ser engolida também", diz Sugata Hazra, coordenador do estudo. Segundo ele, há mais umas dez ilhas em processo de submersão na parte indiana do delta e cerca de 400 tigres que vivem na área deverão morrer.

Antes da notícia vinda da Índia, acreditava-se que as Ilhas Carteret, em Papua-Nova Guiné, seriam as primeiras terras povoadas a submergir. Isso pode ocorrer em cerca de oito anos. Lohachara, porém, foi a primeira ilha povoada a sumir.